China procura aproximar-se dos partidos de Myanmar enquanto conversações com os EUA intensificam disputa por influência

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China Courts Myanmar Parties as US Talks Add to Battle for Influence

Pequim procura saber como Myanmar vê o seu papel

Uma delegação do Partido Comunista Chinês reuniu-se em Yangon com nove partidos políticos para saber como os habitantes de Myanmar veem a China, numa altura em que Pequim procura proteger a sua influência, enquanto Washington retoma o contacto direto com a liderança militar de Myanmar.

Índice
  1. Pequim procura saber como Myanmar vê o seu papel
  2. Quem participou nas conversações de Yangon?
  3. A diplomacia partidária tem uma longa história
  4. Washington abre outro canal
  5. Uma estrada bloqueada liga a diplomacia ao comércio quotidiano
  6. Grandes investimentos num país dividido
  7. Por que razão a China dialoga com forças armadas rivais
  8. Complexos de burla acrescentam uma exigência de segurança
  9. O ressentimento popular põe à prova a amizade oficial
  10. Principais pontos

A delegação, liderada por Peng Xiubin, funcionário do Departamento Internacional de Ligação, perguntou quais eram as atitudes da população em relação à China, que dificuldades existiam nas relações bilaterais e quais eram as prioridades de cooperação. Os participantes também discutiram a paz, a economia, a ajuda agrícola e a reabertura da estrada Muse–Mandalay, uma via crucial que liga os centros comerciais de Myanmar à fronteira chinesa.

O encontro reúne três pressões que moldam a abordagem de Pequim: o ressentimento devido ao apoio à junta militar, as perturbações no comércio e nos investimentos e a possibilidade de um maior envolvimento dos Estados Unidos. A China mantém relações com líderes militares, partidos políticos e organizações armadas étnicas, o que lhe dá várias formas de influenciar os acontecimentos num país onde a autoridade está dividida pela guerra.

Os compromissos de Pequim vão além destes contactos partidários. Uma declaração conjunta datada de 17 de junho, publicada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Myanmar, descreve Min Aung Hlaing como presidente durante uma visita de Estado à China, realizada de 15 a 19 de junho de 2026. A declaração regista o apoio chinês às eleições gerais de Myanmar e acordos para avançar com grandes projetos de transportes, energia e segurança.

As conversações em Yangon colocaram uma preocupação mais imediata ao lado dessas promessas formais: saber se os habitantes de Myanmar acreditam que o envolvimento chinês os beneficia. Os participantes disseram que alguns partidos transmitiram à delegação que setores da população estavam céticos ou hostis e instaram Pequim a tornar a sua ajuda mais visível. Não foi indicada uma data concreta para a reunião em Yangon nem um prazo para a reabertura da estrada.

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Quem participou nas conversações de Yangon?

Entre os nove partidos estavam o Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento, ou USDP, que é um representante da junta militar, bem como o Partido da Unidade Nacional, o Partido do Povo, o Partido dos Pioneiros do Povo, o Partido Democrático Shan e das Nacionalidades, o Partido da Frente Arakan, o Partido do Povo Kayin, o Partido da Unidade e Desenvolvimento e o Partido do Novo Congresso Chinland.

A maioria tinha participado no recente processo eleitoral da junta militar, amplamente condenado como uma forma de preservar o poder dos militares. A sua participação torna-os contactos úteis para Pequim, enquanto as autoridades procuram transformar as eleições num modelo de governação mais duradouro.

Htet Aung Kyaw, da Força Democrática Nacional, e Sai Kyaw Nyunt, da Liga Nacional para a Democracia Shan, também participaram. Ambos os partidos tinham sido dissolvidos após rejeitarem o roteiro eleitoral da junta militar. Um dirigente partidário afirmou que os dois homens receberam convites individuais e participaram a título pessoal, não como representantes das organizações dissolvidas.

Segundo os participantes, a delegação abordou cinco grandes temas. Além das atitudes da população e das dificuldades bilaterais, procurou conhecer opiniões sobre cooperação, paz, situação económica e assuntos internos. Estas conversas permitiram a Pequim aceder a perspetivas políticas para além das reuniões formais com responsáveis governamentais, embora o encontro se tenha mantido centrado num grupo restrito de figuras políticas.

A diplomacia partidária tem uma longa história

O Departamento Internacional da China mantém há anos relações com vários destes partidos. O seu registo da reunião de julho de 2024, publicado a 29 de julho, refere que a vice-ministra Sun Haiyan recebeu uma delegação partidária de Myanmar em Pequim, a 25 de julho.

Entre os participantes identificados estavam o USDP, o Partido do Povo, o Partido da Frente Arakan e o Partido Democrático Shan e das Etnias. Sun falou da terceira sessão plenária do 20.º Comité Central do Partido Comunista Chinês, uma reunião de dirigentes do partido, e defendeu uma cooperação mais estreita e a paz na fronteira.

Os delegados de Myanmar apoiaram a cooperação no âmbito da Iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, o programa internacional de infraestruturas da China, e agradeceram a Pequim pelo seu papel no processo de paz de Myanmar. A participação repetida de vários partidos mostra que o encontro de Yangon faz parte de um canal contínuo de contacto político.

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Washington abre outro canal

Representantes das autoridades militares de Myanmar realizaram uma segunda ronda de conversações com responsáveis norte-americanos em Tóquio, no início do mês em que decorreu o encontro de Yangon. Estas conversações sucederam a uma visita a Naypyitaw, em setembro, de Michael Vance, identificado como subsecretário de Estado adjunto dos EUA para os Serviços de Informações e Investigação, que se reuniu com Min Aung Hlaing.

Os participantes disseram que a delegação chinesa não mencionou as conversações com os norte-americanos. Ainda assim, alguns representantes partidários manifestaram preferência por um relacionamento com a China, por ser vizinha de Myanmar. A geografia assegura a Pequim um papel constante no comércio e na segurança fronteiriços, independentemente das mudanças na política de Washington.

A preocupação com a influência norte-americana já acompanhou anteriores iniciativas diplomáticas chinesas. Durante uma ronda anterior de visitas, Peng reuniu-se com o antigo governante militar Than Shwe e o antigo presidente Thein Sein, em Naypyitaw, a 16 de abril de 2023. O enviado chinês Deng Xijun tinha-se reunido com Min Aung Hlaing em fevereiro e março desse ano, depois de ter reunido organizações armadas étnicas em Yunnan.

Thein Tun Oo, diretor executivo do Instituto Thayninga de Estudos Estratégicos, uma organização composta por antigos oficiais militares, descreveu esses contactos anteriores em termos de concorrência com Washington:

O essencial é que as relações entre a China e Myanmar continuarão a desenvolver-se com base nisto.

A sua avaliação surgiu depois de os EUA terem aprovado legislação que autorizava tecnologia e assistência, excluindo armas letais, para forças democráticas, incluindo o Governo de Unidade Nacional da oposição e organizações armadas étnicas. Os contactos recentes com os norte-americanos acrescentam um elemento diferente: o diálogo direto com a própria liderança militar.

Uma estrada bloqueada liga a diplomacia ao comércio quotidiano

A estrada Muse–Mandalay foi uma prioridade concreta no encontro de Yangon. Os dirigentes partidários pediram à China que ajudasse a reabrir a via e discutiram a política comercial e a assistência técnica à agricultura.

Saw Han Aye, presidente do Partido dos Pioneiros do Povo, descreveu o pedido e a resposta de Pequim:

Pedimos aos chineses que aumentassem o investimento e reabrissem as rotas comerciais o mais rapidamente possível, e Pequim afirmou que pretende intensificar os contactos.

As autoridades militares de Myanmar impuseram um bloqueio quase total às importações chinesas depois de perderem o controlo das principais rotas comerciais no norte do Estado Shan. As restrições procuram privar as organizações armadas étnicas dos impostos cobrados sobre as mercadorias que atravessam o território sob o seu controlo. Os comerciantes e os consumidores também perdem acesso a produtos.

A rota demonstra por que razão o controlo de uma passagem fronteiriça, por si só, não basta para restabelecer o comércio. As mercadorias têm de atravessar territórios controlados por diferentes forças armadas, sendo necessária segurança e autorização ao longo do percurso. Entre os acontecimentos anteriores contam-se as reconquistas de cidades estratégicas pelos militares, incluindo Kyaukme e Hsipaw, após a pressão chinesa sobre as organizações armadas étnicas através do encerramento das fronteiras.

A declaração conjunta de junho de 2026 também compromete os dois governos a avançar com a linha ferroviária Mandalay–Muse. A reabertura de uma estrada resolveria um problema comercial imediato; a construção da linha ferroviária exigiria uma cooperação sustentada durante um período muito mais longo.

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Grandes investimentos num país dividido

O Instituto para a Estratégia e Política de Myanmar, conhecido como ISP-Myanmar, contabilizou 35 projetos do Corredor Económico China–Myanmar em curso, numa investigação anterior. Entre eles estavam estradas, linhas ferroviárias, portos, zonas económicas especiais e projetos de desenvolvimento urbano.

O ISP-Myanmar também registou mais de 4 mil milhões de dólares em investimento estrangeiro entre fevereiro de 2021 e abril de 2022, dos quais mais de dois terços eram de origem chinesa. Uma avaliação posterior do Stimson Center identificou um investimento chinês de 2,5 mil milhões de dólares, em maio de 2021, como a última grande entrada de capital e afirmou que não se registaram investimentos chineses significativos nos mais de três anos seguintes. Os primeiros números mostram o peso da China no investimento após o golpe; a avaliação posterior descreve o abrandamento subsequente dos grandes novos compromissos.

A análise do Stimson Center, publicada a 26 de agosto de 2024, foi escrita pelo académico de Myanmar Thant Aung, também conhecido como Victor Paing. O texto defendia que a guerra civil, a quebra do comércio e a incerteza quanto ao controlo territorial dificultavam cada vez mais o investimento.

Entre os projetos em causa estão o porto e a zona económica especial de Kyaukpyu, no Estado de Rakhine, a mina de cobre de Letpadaung, em Sagaing, o projeto energético de Mee Lin Gyaing, em Ayeyarwady, e a Nova Cidade de Yangon. Kyaukpyu tem particular valor para Pequim por lhe dar acesso ao oceano Índico.

A declaração de junho de 2026 renova o apoio ao porto e ao corredor económico, bem como aos oleodutos e gasodutos, às ligações elétricas, à mineração e à agricultura. Propõe também uma utilização mais ampla da liquidação direta em yuan e kyat, permitindo efetuar pagamentos comerciais nas moedas dos dois países. A concretização destes compromissos em infraestruturas operacionais depende das condições nas regiões afetadas pelos combates.

Por que razão a China dialoga com forças armadas rivais

Os militares de Myanmar controlam infraestruturas estatais importantes, apesar de terem perdido vastos territórios. A análise do Stimson identificou os aeroportos internacionais, os portos marítimos, Yangon e outras zonas economicamente importantes como razões para Pequim manter contactos de alto nível com as autoridades.

As organizações armadas étnicas e outras forças da resistência controlam territórios importantes para a segurança fronteiriça e o comércio da China. Citando um relatório do Conselho Consultivo Especial para Myanmar, datado de 30 de maio de 2024, a análise afirmou que as forças da resistência controlavam totalmente 11 dos 18 municípios junto à fronteira chinesa. Na altura, isso correspondia a cerca de 61% desses municípios.

Pequim tem, por isso, razões práticas para dialogar com ambos os lados. Os dirigentes militares mantêm instituições através das quais são aplicados os acordos internacionais, enquanto os grupos armados podem influenciar o funcionamento das estradas, das passagens fronteiriças e dos negócios nas proximidades.

A pressão chinesa também afetou os resultados militares. O general Yawd Serk, presidente do Conselho de Restauração do Estado Shan, falou do sofrimento da população civil no contexto dos ataques aéreos e das eleições em curso, em fevereiro de 2026. As suas preocupações refletem o que está em jogo para as comunidades que vivem uma guerra que continua, apesar das reuniões diplomáticas e dos novos arranjos políticos.

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Complexos de burla acrescentam uma exigência de segurança

As operações de fraude em linha tornaram a instabilidade de Myanmar uma preocupação direta para os cidadãos chineses. Redes criminosas recrutaram ou traficaram pessoas para complexos vigiados, onde os trabalhadores enganam vítimas através de falsos investimentos, relações amorosas em linha e esquemas de jogo.

A análise do Stimson citou estimativas segundo as quais 120 000 pessoas trabalhavam nas operações de burla de Myanmar em 2023 e a atividade gerava 15,3 mil milhões de dólares por ano, cerca de um quarto do produto interno bruto do país nesse ano. O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos numa economia; a comparação dá uma ideia da dimensão estimada do negócio criminoso.

A China pediu às autoridades militares que erradicassem os centros de burla em maio de 2023. Mais tarde nesse ano, a Aliança das Três Fraternidades incluiu a eliminação dessas operações entre os objetivos da Operação 1027, a sua grande ofensiva no norte de Myanmar.

A pressão no norte empurrou as operações para outras zonas, incluindo Shwe Kokko, junto à fronteira com a Tailândia. A área é controlada pelo Exército Nacional Karen, liderado pelo coronel Saw Chit Thu. A sua importância militar e comercial complicou os esforços para encerrar os complexos.

Mais tarde, a China levou a campanha aos seus tribunais. A execução de dirigentes de redes de burla, entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro de 2026, envolveu 15 membros dos grupos criminosos Ming e Bai. A declaração conjunta de junho promete reforçar a cooperação contra a fraude em linha, o tráfico de pessoas, o jogo ilegal e outros crimes, bem como proteger cidadãos e projetos chineses.

O apoio da China a sucessivos governos militares, incluindo o fornecimento de armas e tecnologia e o apoio diplomático, alimentou a revolta em Myanmar desde o golpe de fevereiro de 2021. O ressentimento aumentou em 2024, quando Pequim pressionou organizações armadas étnicas a suspenderem as ofensivas no norte do Estado Shan que ameaçavam a posição dos militares.

O apelo de Deng Xijun à autonomia étnica numa cerimónia que assinalava o aniversário do Acordo Nacional de Cessar-Fogo suscitou críticas de pessoas que apontaram para a influência da China sobre organizações armadas que já controlavam territórios no norte do Estado Shan. Pequim rejeita as acusações de ingerência e descreve o seu papel como um apoio à paz e à cooperação.

O Governo de Unidade Nacional da oposição apresenta uma explicação diferente para a instabilidade persistente. Kyaw Zaw, porta-voz do gabinete presidencial, defendeu que as ambições económicas da China exigem o fim do regime militar:

Enquanto houver uma junta militar, Myanmar não terá paz.

Os partidos reunidos em Yangon deram a Pequim outra resposta: mais assistência e investimento visíveis, e a reabertura do comércio. Os seus pedidos ligam a opinião pública a resultados concretos, como o acesso a bens, oportunidades para vender produtos agrícolas e transportes mais seguros.

Várias datas mostram como estas preocupações económicas, políticas e de segurança se desenvolveram em paralelo:

  • Fevereiro de 2021: Os militares tomaram o poder, desencadeando um conflito nacional cada vez mais amplo.
  • Maio de 2023: A China pediu às autoridades militares que erradicassem os centros de burla.
  • Final de 2023: A Operação 1027 alterou o controlo de importantes zonas fronteiriças do norte.
  • 25 de julho de 2024: Sun Haiyan reuniu-se com partidos políticos de Myanmar em Pequim.
  • Final de 2025 e início de 2026: Os militares realizaram eleições nas zonas onde foi possível organizar a votação.
  • 17 de junho de 2026: A China e Myanmar anunciaram compromissos em matéria de infraestruturas, segurança e cooperação política.

Pequim enfrenta agora exigências interligadas nas suas relações com Myanmar: as autoridades procuram investimento e reconhecimento, os partidos políticos querem o restabelecimento do comércio e as comunidades querem segurança e meios de subsistência. A capacidade da China para chegar a muitos atores confere-lhe influência, mas a persistência do conflito dificulta a satisfação dessas exigências.

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Principais pontos

  • Uma delegação chinesa reuniu-se em Yangon com nove partidos políticos de Myanmar e perguntou-lhes quais eram as atitudes da população, as prioridades de cooperação e as preocupações internas.
  • Os dirigentes partidários pediram investimento, assistência agrícola e a reabertura da estrada Muse–Mandalay.
  • A retoma dos contactos dos EUA com representantes militares acrescenta outro canal diplomático às relações de longa data da China.
  • Uma declaração conjunta de junho de 2026 apoia grandes projetos do corredor económico, a cooperação comercial e o reforço da luta contra o crime fronteiriço.
  • A China mantém contactos tanto com as autoridades militares como com organizações armadas que controlam territórios importantes para os seus interesses.
  • O ressentimento popular devido ao apoio de Pequim aos militares continua a pôr à prova as suas promessas de amizade e desenvolvimento.
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