A Jogada de Poder Geopolítico que Molda o Futuro de Mianmar
O regime militar de Mianmar conseguiu retomar o ímpeto na sua batalha contra um heterogéneo conjunto de grupos de oposição, recuperando algum território e avançando com uma eleição amplamente condenada que se inicia no domingo. Esta reviravolta representa uma mudança significativa num conflito de cinco anos que irrompeu após o golpe de Estado de 2021, quando o militar depôs o governo democraticamente eleito liderado por Aung San Suu Kyi. Analistas apontam para a China e o seu apoio mutável como um dos fatores mais importantes que alteram a dinâmica no terreno.
Índice
- A Jogada de Poder Geopolítico que Molda o Futuro de Mianmar
- Os Cálculos Estratégicos da China Por Trás do Apoio à Eleição
- Os Interesses Económicos que Movem o Cálculo de Pequim
- A Ajuda Militar e as Transferências de Tecnologia que Alteram a Dinâmica do Campo de Batalha
- A Guerra com Drones a Revolucionar o Conflito
- Pressão Fronteiriça e Manobras Diplomáticas
- O Fator dos Centros de Fraude
- O Corredor Económico China-Mianmar em Risco
- Um Equilíbrio Entre Interesses Competitivos
- Implicações Regionais e Internacionais
- O Fator da Competição Geopolítica
- O Custo Humano das Manobras Políticas
- O Caminho pela Frente para Mianmar
- Pontos-Chave
"Isto é mesmo tudo a China a desempenhar um papel para inclinar a balança a favor do regime militar", afirma Jason Tower, especialista sénior da Global Initiative against Transnational Organized Crime, que se dedica ao estudo de Mianmar. Pequim usou o fecho de fronteiras para pressionar poderosos grupos armados étnicos do norte do país a aceitarem cessar-fogos e até a devolverem território ao exército, ao mesmo tempo que reforçava o apoio diplomático e continuava as transferências de armas.
A abordagem da China a Mianmar representa um cálculo geopolítico complexo no qual interesses económicos, preocupações de segurança e influência regional se cruzam de formas com profundas implicações para o Sudeste Asiático. Embora a China defenda publicamente uma política de não intervenção, as suas ações em Mianmar demonstram como molda silenciosamente mas de forma decisiva resultados em Estados vizinhos estrategicamente importantes.
Os Cálculos Estratégicos da China Por Trás do Apoio à Eleição
O apoio da China à eleição amplamente condenada de Mianmar pode parecer paradoxal num Estado de partido único que não realiza eleições democráticas competitivas em casa. No entanto, este apoio decorre da avaliação de Pequim de que um processo político controlado oferece o melhor caminho para uma estabilidade que proteja os seus interesses essenciais. A China vê Mianmar como um elo crucial para o Oceano Índico, com ambiciosos projetos de infraestruturas, incluindo auto-estradas e um grande porto marítimo, que foram prejudicados pelo conflito em curso.
Mais cedo este ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, expressou a esperança de que o voto alcançasse "paz interna com o cessar das hostilidades entre as partes e governação nacional baseada na vontade do povo", bem como reconciliação nacional e "harmonia social". A China enviará observadores eleitorais ao lado de países como a Rússia e o Vietname, conferindo uma aparência de legitimidade internacional a um processo que observadores e peritos da ONU condenaram como uma farsa.
A eleição carece de uma verdadeira participação da oposição, com o partido proxy dos militares, o Union Solidarity and Development Party, a dominar os procedimentos. A National League for Democracy, que venceu a última eleição livre em 2020, foi dissolvida à força, e muitos partidos de oposição genuínos foram proibidos de participar ou boicotaram por completo o processo.
"A China apoia a eleição porque gostaria de ver um regresso a um governo mais previsível em Mianmar ao abrigo da Constituição de 2008, em vez do atual estado de emergência", explica Richard Horsey, conselheiro sénior para Mianmar do International Crisis Group. Pequim parece acreditar que uma eleição estruturada representa o caminho mais viável para sair do atual impasse, especialmente tendo em conta a sua avaliação de que a reforma gradual, e não a revolução completa, oferece as melhores hipóteses de estabilidade.
Os Interesses Económicos que Movem o Cálculo de Pequim
O interesse principal da China em Mianmar continua a ser económico. Como o maior investidor do país, Pequim comprometeu fundos no valor de milhares de milhões de dólares com projetos de infraestruturas, incluindo o Corredor Económico China-Mianmar (CMEC), que providenciaria uma rota comercial direta do sudoeste da China para o Oceano Índico. Este corredor permitiria à China contornar o potencialmente vulnerável Estreito de Malaca para os embarques de energia e fornecer alternativas estratégicas para as suas rotas comerciais.
Os principais investimentos chineses incluem o porto de águas profundas de Kyaukphyu no Estado de Rakhine e oleodutos e gasodutos que ligam Kyaukphyu a Kunming, na província de Yunnan. Estes projetos foram gravemente afetados pelos combates após o golpe, com o Exército Arakã a tomar o controlo de várias cidades importantes no Estado de Rakhine, colocando em risco os investimentos chineses. Sem intervenção chinesa, os substanciais interesses económicos de Pequim na região poderiam ser comprometidos.
Os anos posteriores à COVID-19 assistiram à desaceleração da economia chinesa, o que afeta tanto os países vizinhos como os ambiciosos projetos de infraestruturas da China, especialmente através da Iniciativa do Cinturão e da Rota. Com os assuntos internacionais a tornarem-se menos uma prioridade para Pequim, enquanto se foca nos desafios económicos internos, Mianmar continua a ser sobretudo uma preocupação do governo provincial de Yunnan, e não da liderança central da China — desde que o envolvimento dos Estados Unidos permaneça mínimo.
A Ajuda Militar e as Transferências de Tecnologia que Alteram a Dinâmica do Campo de Batalha
A China aumentou significativamente o seu apoio militar à junta de Mianmar, fornecendo armamento avançado que ajudou a alterar o equilíbrio de poder no campo de Batalha. Talvez mais significativamente, a China forneceu tecnologias de drones mais recentes que permitiram ao exército visar as forças da oposição com maior precisão, minimizando os riscos para as suas próprias tropas.
"As tecnologias de drones mais recentes relacionadas com a China, a pressão sobre as organizações armadas étnicas, a redução da quantidade de resistência que a junta enfrentava na parte norte do país — tudo isso é da China", explica Jason Tower. A China também facilitou a inclusão do exército em plataformas como a Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, reforçando o seu estatuto internacional.
Segundo uma análise do Stimson Center, a China entregou seis caças e outro equipamento militar desde agosto de 2024. A Força Aérea de Mianmar recebeu jatos de treino FTC-2000G, mais leves e mais baratos de operar do que as aeronaves mais avançadas, mas perfeitamente adequados contra alvos principalmente civis ou opositores militares sem mísseis terra-ar. A força aérea também recebeu quantidades crescentes de drones de fabrico chinês, incluindo modelos de reconhecimento e variantes armadas capazes de transportar cargas.
A guerra civil continua a assolar grande parte de Mianmar, com o exército ainda incapaz de controlar vastas áreas do território, mas o apoio da China pelo menos permitiu-lhe recuperar algum terreno. O regime conseguiu retomar cidades estrategicamente importantes como Kyaukme e Hsipaw, na principal rota comercial da fronteira chinesa para o resto de Mianmar, áreas que tinham sido capturadas por grupos armados étnicos em 2023.
A Guerra com Drones a Revolucionar o Conflito
A utilização de veículos aéreos não tripulados (UAV) mudou drasticamente a natureza do combate em Mianmar. Inicialmente, as forças da oposição usaram drones comerciais rentáveis, adaptados para uso militar, com efeito devastador, lançando 25.000 munições por drone durante a Operação 1027 e inundando postos militares remotos. A junta respondeu importando, produzindo e utilizando uma variedade de quadricópteros e hexacópteros mais pequenos, capazes de lançar munições, bem como drones suicidas de fabrico russo e chinês.
Comandantes locais das Forças de Defesa Populares descrevem o uso de drones pelo exército como "dia e noite". Finais de 2024, as forças da oposição reconheceram que "a junta militar utilizou extensivamente drones em quase todas as suas batalhas". O regime beneficia do facto de as forças da oposição terem quase nenhum contra-ataque ou dispositivo de interferência disponível, permitindo ao exército empregar algumas das suas armas mais precisas para visar as forças da resistência.
A China também implementou novas regulamentações de controlo de exportação para itens de uso duplo, bloqueando especificamente a exportação de componentes de drones para grupos de oposição. Estas restrições já começaram a afetar significativamente a capacidade da resistência de manter os seus programas de drones, com líderes nos Estados de Shan Sul e Karenni a relatar custos crescentes na aquisição de componentes de UAV.
Contactos da oposição referem que a Tailândia também começou a reprimir a compra de drones e peças pelas forças da oposição de Mianmar. Apesar destes desafios, os grupos da resistência trabalham para ultrapassar as contra-medidas da junta, mas as restrições de Pequim refletem a sua clara intenção de enfraquecer as forças da oposição que aproveitaram os UAV com grande efeito no campo de batalha.
Pressão Fronteiriça e Manobras Diplomáticas
A China exerceu intensa pressão sobre as organizações armadas étnicas ao longo da sua fronteira para travarem as suas ofensivas e, em alguns casos, devolverem território ao controlo da junta. Esta pressão assumiu várias formas, incluindo o corte da eletricidade e do serviço de internet ao longo da fronteira, bem como o encerramento de todo o comércio transfronteiriço, o que devastou as economias locais.
Num desenvolvimento significativo, o Exército de Aliança Democrática Nacional de Mianmar (MNDAA) finalizou um cessar-fogo com a junta em Kunming a 20 de janeiro de 2025, comprometendo-se a devolver a cidade de Lashio ao controlo da junta até meados de 2025. O acordo chegou meses após relatos de que a China detivera o comandante do MNDAA, Peng Deren, para forçar conversações de paz. A entrega de Lashio, capital do Estado de Shan Norte e o seu polo económico mais importante, representa a intervenção mais notória de Pequim até à data.
A China também encorajou o Exército do Estado Unido de Wa (UWSA) a deslocar-se para oeste, para fora do seu enclave ao longo da fronteira chinesa, a fim de travar a avançada do MNDAA e da TNLA para sul, em direção ao Estado de Shan Central. Pequim exigiu simultaneamente que os Wa cessassem a venda de munições e armas às forças da oposição. Estas manobras demonstram como a China usa a sua alavanca sobre grupos armados dependentes da fronteira para atingir os seus objetivos estratégicos.
A China também pressionou o Exército de Independência de Kachin (KIA), que controla cerca de 13 dos 18 municípios do Estado de Kachin, a travar a sua ofensiva. Na sequência do cessar-fogo de janeiro de 2025 entre o MNDAA e o SAC, a China reabriu três portões fronteiriços principais, mantendo o bloqueio a outros três controlados pela TNLA e pelo MNDAA.
O Fator dos Centros de Fraude
A abordagem mutável da China a Mianmar foi significativamente influenciada pela sua frustração com o crime organizado e os complexos de fraude que operam nas áreas fronteiriças. Estes centros, estabelecidos por redes de crime lideradas por chineses, traficaram cidadãos chineses para Mianmar a fim de trabalharem em operações de fraude online. Em 2023, o número de golpistas a trabalhar em Mianmar era estimado em 120.000 pessoas, com receitas anuais totais estimadas em 15,3 mil milhões de dólares — aproximadamente equivalentes a um quarto do PIB de Mianmar.
A relutância da junta em iniciar operações de grande escala contra as fraudes proporcionou uma oportunidade dourada à resistência, uma vez que a China deu a sua aprovação tácita à Operação 1027 no final de 2023. A Aliança dos Três Irmãos declarou explicitamente que eliminar os centros de cibercrime foi uma das principais razões para dar início à ofensiva. O sucesso da Operação 1027 forçou os centros de fraude a mudar-se para outros locais em Mianmar e na região, sobretudo para a área de Shwe Kokko, na fronteira tailandesa com Mianmar.
Desde o golpe de Estado, os centros de fraude expandiram-se enquanto o exército olhava para o lado, necessitando de manter as milícias do seu lado. O próspero negócio das operações de fraude tornou-se uma das principais fontes de receita para diversos grupos armados. O governo chinês manteve a pressão tanto sobre a junta como sobre o governo tailandês para erradicar totalmente estes centros de fraude, o que levou ao encerramento das comunicações de internet e telefone para Shwe Kokko, do lado da Tailândia, em maio de 2024.
Só recentemente é que a junta empreendeu ativamente a tarefa de combater as operações de centros de fraude, depois de bombardear partes do notório complexo KK Park nos últimos meses. O exército assegurou à China que os projetos económicos seguirão em frente e prometeu acabar com os complexos de fraude, mas continua por esclarecer se o exército será capaz de cumprir estas promessas.
O Corredor Económico China-Mianmar em Risco
O Corredor Económico China-Mianmar (CMEC), estabelecido em 2018 como parte da Iniciativa do Cinturão e da Rota da China, representa o projeto de infraestruturas mais ambicioso de Pequim em Mianmar. O corredor visa ligar o sudoeste da China ao Oceano Índico através de uma rede de auto-estradas, ferrovias, oleodutos e portos, reduzindo a dependência da China em relação ao Estreito de Malaca para os embarques de energia.
O CMEC foi gravemente afetado pelos combates após o golpe, ameaçando milhares de milhões de dólares em investimentos chineses. A China tem vários investimentos-chave em Kyaukphyu, uma importante cidade do Estado de Rakhine, incluindo um grande porto de águas profundas e um oleoduto que vai de Kyaukphyu a Kunming. Durante a guerra civil, o Exército Arakã tomou o controlo de várias cidades importantes no Estado de Rakhine, colocando em risco os interesses de Pequim ali, sem intervenção chinesa.
Além disso, se o exército de Mianmar continuar a perder controlo territorial, e com tanto os militares como os grupos armados étnicos a necessitarem de fundos para sustentar a guerra, todos os lados podem permitir tacitamente que sindicatos criminosos transnacionais instalem mais complexos de fraude para lucrarem com eles. A fraude por telecomunicações metastatizou no que Richard Horsey descreve como "um cancro persistente do crime internacional" que ameaça a segurança regional.
A interrupção dos projetos económicos frustrou Pequim, que inicialmente se recusou a apoiar o regime militar que tomou o poder em fevereiro de 2021, considerando que o golpe de Estado danificava os seus interesses estratégicos e colocava em perigo os seus avultados investimentos. A China também ficou insatisfeita com o comandante-em-chefe Min Aung Hlaing, a quem considerava incompetente, com sentimentos anti-chineses e insuficientemente cooperativo na resolução das principais preocupações de Pequim — particularmente no que diz respeito aos centros de fraude.
Um Equilíbrio Entre Interesses Competitivos
A abordagem da China a Mianmar demonstra um delicado exercício de equilíbrio entre interesses e atores concorrentes. Embora a China seja o principal apoiante da junta em termos militares, económicos e diplomáticos, mantém também relações com os grupos armados étnicos que combatem contra os militares. Este envolvimento dual permite a Pequim exercer influência ao longo de todo o espectro político e proteger os seus interesses independentemente de quem detenha o território.
A preferência diplomática da China, centrada no Estado, significa que mantém interações de alto nível com a junta apesar da falta de controlo territorial efetivo do regime em muitas áreas. A junta ainda controla infraestruturas estatais cruciais, incluindo aeroportos internacionais, portos marítimos e áreas economicamente importantes como a capital comercial Rangum, que alberga a maioria das embaixadas estrangeiras.
Inversamente, a resistência detém áreas que eram economicamente insignificantes antes do golpe, embora controle rotas comerciais fronteiriças China-Mianmar antes prósperas. No entanto, estas rotas estiveram minimamente ativas desde a Operação 1027, com tentativas de as reabrir por completo a falhar, apesar da vontade da China em retomar o comércio.
A China conduziu diplomacia de bastidores através de vários grupos com os seus enviados especiais, mas isto não equivale a um apoio explícito. Pequim convidou separadamente o ex-presidente de Mianmar U Thein Sein, o vice-líder do Conselho de Administração do Estado Soe Win e os partidos políticos que participam na próxima eleição, ao mesmo tempo que demonstra cautela face aos laços crescentes de Min Aung Hlaing com Moscovo.
Implicações Regionais e Internacionais
A intervenção da China em Mianmar tem implicações regionais significativas, afetando a forma como outros países abordam a crise. O aquecimento das relações entre a China e Mianmar tornou a marginalização da ASEAN ainda mais evidente — ou, por outras palavras, evidenciou a impotência da ASEAN perante a crise de Mianmar.
A ASEAN propôs o seu Consenso de Cinco Pontos para Mianmar em abril de 2021, mas mais de quatro anos depois, o consenso continua encalhado no papel. Os esforços da ASEAN para resolver a questão de Mianmar estancaram, expondo a sua falta de alavanca real sobre a junta militar. O apoio da China à eleição pode não apenas vestir o processo político não inclusivo de Mianmar com uma aparência de legitimidade, mas também enfraquecer ainda mais o estatuto da ASEAN e a sua capacidade de abordar problemas internos.
"A ASEAN não pode reagir com indignação se a China estiver a fazer mais 'progresso' do que o organismo regional, os seus esforços regionais têm sido estéreis", afirma David Mathieson, analista independente que acompanha de perto os assuntos de Mianmar. A confiança da China em intervir na questão de Mianmar advém sobretudo das suas relações económicas com a maioria dos países da ASEAN — uma importante fonte de alavanca política.
Além disso, como os Estados da ASEAN procuram geralmente uma estratégia de equilíbrio entre a China e os Estados Unidos, Pequim acredita que pode adotar ações políticas mais exploratórias em Mianmar sem comprometer as suas relações com os membros da ASEAN. Enquanto a ASEAN espera avançar no processo de paz, carece de canais eficazes para comunicar diretamente com os militares. A China, em contraste, não só tem uma familiaridade de longa data e interação frequente com a junta, como mantém contacto com algumas forças anti-junta e exerce substancial influência sobre os grupos armados étnicos.
O Fator da Competição Geopolítica
A dinâmica mutável em Mianmar deve ser compreendida no contexto mais alargado da competição geopolítica no Sudeste Asiático. Os Estados Unidos, que desempenharam um papel decisivo nas eleições gerais de Mianmar em 2015 ao apoiar programas de educação eleitoral e a sociedade civil, rebaixaram as relações diplomáticas com o país após o golpe. A presença reduzida de Washington criou espaço para a China expandir a sua influência sem uma oposição significativa.
Cinco anos atrás, os Estados Unidos apoiaram programas destinados a reforçar a democracia global e contrariar a influência da China na região. Após o golpe, esses esforços foram drasticamente reduzidos, deixando a China como o principal ator externo com influência significativa sobre o rumo de Mianmar.
Os recentes desenvolvimentos políticos nos Estados Unidos diminuíram ainda mais o envolvimento de Washington. A administração Trump demonstrou pouco interesse em Mianmar, salvo no contexto das tarifas, enviando uma carta dirigida a Min Aung Hlaing como líder do regime — o primeiro reconhecimento público do regime por Washington. Min Aung Hlaing aproveitou esta oportunidade, escrevendo uma longa resposta em que pedia o fim das sanções dos EUA e oferecia enviar uma equipa de negociação de tarifas de alto nível a Washington.
O desmantelamento da USAID e o esvaziamento das atividades de promoção da democracia foram bem recebidos em Naypyitaw, dando ao regime a sensação de que os Estados Unidos já não se opõem a ele nem impedem as relações entre Naypyitaw e os países da sua vizinhança. Entretanto, o Governo de Unidade Nacional e outras forças democráticas ficaram abaladas, não apenas com os cortes no apoio financeiro, mas também com a perda de um ponto de âncora ideológico que as assegurava de que a sua luta tinha um apoio supremamente poderoso.
O Custo Humano das Manobras Políticas
Embora as estratégias geopolíticas e os cálculos económicos orientem as políticas da China em Mianmar, o custo humano deste conflito continua a ser avassalador. Mais de quatro anos após o golpe, Mianmar continua a perder território para os seus adversários, sobretudo alguns dos maiores grupos armados étnicos do país. Apesar de algumas contra-ofensivas limitadas, as forças do regime continuam sobre-extensas e sob pressão em vários frentes.
As condições humanitárias estão a deteriorar-se em todo o país, agravadas por desastres naturais e colapso económico. Segundo relatórios, o exército queimou entre 110.000 e 120.000 casas apenas na zona seca. A violência foi imensa, e há poucas pessoas em Mianmar que não foram atingidas por ela.
O exército respondeu aos revéses no campo de batalha iniciando uma campanha de recrutamento forçado. Milhares de homens birmaneses escolheram fugir, escondendo-se ou partindo para o estrangeiro, ou juntando-se à resistência. Mas mais de 60.000 juntaram-se ao exército, repondo as suas fileiras exaustas. Apesar de inexperientes, estes novos recrutas fizeram diferença, segundo fontes insurgentes.
Histórias como a de Mu Mu (pseudónimo), um jovem de pouco mais de 20 anos, ilustram a desesperança enfrentada pelos cidadãos comuns. Quando os militares irromperam na sua aldeia para apreender homens aptos, Mu Mu escondeu-se num buraco por baixo de uma casa de madeira, com as pernas a tremer involuntariamente. Depois de a sua família lhe rapar a cabeça e preparar hábitos monásticos, conseguiu subornar os agentes de um posto de controlo para escapar para Rangum. Cerca de 35 pessoas da sua aldeia não tiveram tanta sorte e foram levadas pelos militares.
O Caminho pela Frente para Mianmar
Apesar do apoio da China e dos recentes ganhos territoriais dos militares, os desafios fundamentais ao futuro de Mianmar permanecem por resolver. As eleições planeadas não resolverão a crise política nem reduzirão a intensidade do conflito armado. Em vez disso, tendem a endurecer as divisões políticas e podem desencadear novas vagas de violência à medida que o regime tenta assegurar condições seguras para a votação, enquanto as forças da resistência contra-atacam.
A devastação e o sofrimento humano infligidos pelo exército ao povo de Mianmar deixaram um legado de ressentimento contra os generais que pode durar gerações. "A violência foi imensa, e há poucas pessoas que não foram atingidas por ela", assinala Morgan Michaels, investigador associado de segurança do Sudeste Asiático no International Institute for Strategic Studies. "É por isso que é difícil prever um processo político neste momento. Ser forçado a um cessar-fogo porque literalmente não consegue manter as suas linhas da frente é uma coisa, mas a negociação política para a paz ainda parece muito distante."
Continua possível que a China se volte de novo contra os militares se estes forem vistos a desperdiçar oportunidades de formar cessar-fogos com os opositores, ou se, daqui a dois anos, ainda não houver progresso nos projetos de infraestruturas. Por agora, Pequim parece ter concluído que apoiar os planos eleitorais da junta representa o melhor caminho para atingir os seus interesses essenciais de estabilidade, segurança para a sua fronteira e proteção dos seus investimentos económicos.
O sentimento anti-chinês aumentou em Mianmar, incluindo a perceção de que a China inflama o conflito para aumentar a sua própria alavanca sobre o país. No entanto, Yun Sun, investigadora sénior e diretora do programa da China no Stimson Center, contesta esta caracterização. "A China não precisa de uma guerra para exercer influência sobre qualquer dos atores políticos do país", disse ela. "Penso que o que os chineses dirão é que veem a situação como um dinamismo, que um equilíbrio de poder acabará por conduzir a alguma estabilidade."
Pontos-Chave
- A China forneceu apoio decisivo ao regime militar de Mianmar, incluindo armas, drones e sustentação diplomática para eleições amplamente condenadas.
- Os interesses principais de Pequim em Mianmar incluem proteger o Corredor Económico China-Mianmar e combater centros de fraude que vitimam cidadãos chineses.
- A China pressionou grupos armados étnicos ao longo da sua fronteira a cessarem os combates e devolverem território, usando o fecho de fronteiras e restrições comerciais como alavanca.
- A junta recuperou território em áreas estratégicas com apoio chinês, embora ainda careça de controlo sobre vastas extensões do país.
- A intervenção da China marginalizou a ASEAN e evidenciou a incapacidade do bloco regional em resolver a crise de Mianmar.
- O conflito causou imenso sofrimento humano, com mais de 100.000 casas destruídas e recrutamento forçado generalizado.
- A China mantém relações tanto com a junta como com os grupos de oposição, refletindo uma abordagem pragmática na proteção dos seus interesses.
- As eleições planeadas carecem de uma genuína participação da oposição e foram condenadas como uma farsa por observadores internacionais.
- Pequim pode ajustar o seu apoio em função da capacidade da junta de cumprir os projetos económicos e os compromissos de segurança.
- Os Estados Unidos reduziram significativamente o seu envolvimento com Mianmar, criando espaço para a China expandir a sua influência.






