Um novo prazo de 99 anos por cada venda aprovada
Os contratos de arrendamento de imóveis em Rasmalé seriam reiniciados por 99 anos sempre que um comprador aprovado adquirisse um imóvel, afirmou o ministro das Infraestruturas, Dr. Abdulla Muththalib, numa gravação divulgada de uma reunião com estudiosos religiosos, no final de setembro. A sua explicação coloca o papel do Governo em cada venda no centro da polémica em torno do projeto Maldives Waterfront and Marina, desenvolvido com a Eagle Hills.
Índice
- Um novo prazo de 99 anos por cada venda aprovada
- Como funcionaria a renovação do contrato
- Objeções religiosas entram no debate sobre os contratos
- A pressão da dívida molda a defesa do Governo
- Alegações de fogo posto levam a nova detenção
- Protesto numa rede suspensa impede o abate de árvore
- Quem pode comprar os 48 pequenos lotes?
- Datas importantes das decisões sobre terrenos
- Cambistas passam a comunicar dados pela Internet
- Serviços de saúde, uma medalha de bravura e um feriado
- Principais pontos
Segundo o mecanismo que descreveu, o Governo cancelaria o contrato de arrendamento existente, cobraria uma taxa e emitiria um novo contrato com a duração de 99 anos. Cada transferência teria de ser aprovada pelo Governo. Assim, o comprador receberia um novo prazo, em vez de herdar simplesmente os anos que restassem do contrato do vendedor.
Muththalib explicou o objetivo do mecanismo na gravação:
um mecanismo que não desvaloriza
O ministro afirmou que os investidores precisavam de ter a garantia de que um imóvel manteria o seu valor com o passar do tempo. A sua explicação surge a par de declarações públicas anteriores: Muththalib tinha dito que ninguém poderia renovar um contrato de arrendamento nem deter um imóvel para sempre, enquanto o Presidente Mohamed Muizzu afirmou que os contratos não seriam renovados automaticamente.
O debate surge numa altura em que as decisões relativas a terrenos noutras zonas da Grande Malé têm consequências imediatas para os residentes. Um ativista impediu o abate de uma árvore banyan em Villimalé ao subir à árvore, enquanto o Ministério da Habitação se preparava para vender 48 pequenos lotes do Estado a proprietários vizinhos e coproprietários elegíveis.
Como funcionaria a renovação do contrato
Um contrato de arrendamento confere a alguém o direito de utilizar um imóvel durante um período determinado. Normalmente, o tempo restante diminui a cada ano. Segundo o mecanismo proposto por Muththalib, uma venda aprovada pelo Governo reiniciaria a contagem, atribuindo ao comprador seguinte um prazo de 99 anos.
Para os investidores, a vantagem é clara: um comprador posterior poderia receber um prazo de utilização tão longo como o de um comprador anterior. Para o Governo, a exigência de aprovação permitiria manter o controlo sobre quem poderia adquirir o imóvel, enquanto a taxa de transferência faria de cada venda uma transação que envolve o Estado.
Muththalib abordou também o que poderia acontecer quando um contrato de arrendamento chegasse ao fim. Com base nos acordos aplicáveis ao turismo, descreveu opções que incluiriam o Estado retomar um imóvel e compensar os seus ativos, ou organizar um concurso em que outro operador pagaria uma compensação e receberia um novo contrato de arrendamento.
Não foram especificados, no relato da reunião, os termos jurídicos que permitiriam aplicar a renovação proposta, o valor da taxa de transferência nem os critérios de aprovação dos compradores. Estes pormenores são importantes tanto para os compradores que planeiam vender o imóvel no futuro como para os cidadãos que procuram compreender de que forma o Estado exercerá o seu controlo.
Objeções religiosas entram no debate sobre os contratos
Muththalib afirmou que o contrato com o promotor principal proibiria expressamente a celebração de festividades de outras religiões, incluindo o Natal, em Rasmalé. Um contrato com o promotor principal define as principais responsabilidades e condições aplicáveis à empresa que supervisiona um projeto.
O ministro defendeu também o presidente da Eagle Hills, Mohamed Alabbar, face a alegações sobre ligações a sionistas. Descreveu as alegadas ligações como pertencendo a um período anterior. Muththalib afirmou que as negociações tinham sido conduzidas de forma confidencial e diretamente com Alabbar, para impedir a corrupção e afastar intermediários do processo.
Abdullah Rasheed Hassan, membro do Conselho Nacional do Partido Democrático das Maldivas, na oposição, pediu a suspensão do projeto. Alegou que interesses estrangeiros pretendiam minar a identidade islâmica e a unidade do país, e afirmou que governos sionistas estrangeiros estavam a trabalhar para transformar um Estado islâmico que descreveu como tendo mais de 900 anos.
Rasheed questionou também por que razão bilionários investiriam milhões ou milhares de milhões de rupias num país pequeno, alegando que haveria motivos ocultos. As suas objeções colocam a religião e o controlo nacional no centro da sua campanha contra o projeto. A resposta de Muththalib centrou-se nas restrições contratuais propostas, na aprovação governamental das transferências e nas razões comerciais do mecanismo de arrendamento.
A pressão da dívida molda a defesa do Governo
Ahmed Nazim Mohamed, ministro de Estado da Habitação, apresentou uma defesa diferente de Rasmalé nas conversas divulgadas. Alegou que a oposição ao acordo vinha do Governo indiano e de empresas turísticas que receavam que as Maldivas se tornassem menos dependentes do setor.
Nazim afirmou que a Índia deixara sem resposta, até ao último dia, um pedido das Maldivas para prorrogar o pagamento de uma dívida de 50 milhões de dólares, deixando o país à beira do incumprimento. Prorrogar uma dívida significa prolongar ou substituir uma obrigação, para que o devedor não tenha de reembolsar o montante total no prazo inicialmente previsto.
O ministro de Estado descreveu os esforços do Governo para obter ajuda:
Nós somos os líderes do Estado, a implorar ao embaixador indiano aqui, a implorar a um funcionário de um pequeno banco aqui,
Nazim defendeu que um projeto Rasmalé bem-sucedido poderia libertar as Maldivas da dívida à Índia. O seu argumento associa o projeto imobiliário a uma ambição mais ampla do Governo: atrair investimento que possa reduzir a dependência dos credores atuais e do turismo.
A Eagle Hills tem destacado a dimensão económica do projeto. Na polémica anterior sobre Rasmalé, o antigo presidente Abdulla Yameen Abdul Gayoom contestou as garantias associadas a um projeto que abrange 500 hectares, enquanto Alabbar divulgou previsões de 20 mil milhões de dólares em investimento, 15 000 trabalhadores na construção e pelo menos 1500 lojas. Estas previsões dão conta da dimensão promovida; a proposta relativa aos contratos explica como poderiam funcionar as transações imobiliárias no âmbito do projeto.
Alegações de fogo posto levam a nova detenção
O Tribunal Penal prolongou por 15 dias a detenção de Ali Jumaan, de 25 anos, natural de Baarah, no atol de Haa Alifu, após a sua detenção por acusações de terrorismo relacionadas com publicações nas redes sociais. A polícia alegou que as publicações incentivavam as pessoas a incendiar edifícios e embarcações e a saquear uma loja conhecida.
A polícia afirmou que as publicações apelavam a protestos de rua e a incêndios criminosos em oposição ao acordo Eagle Hills Rasmalé. Entre os elementos apresentados ao tribunal estavam um relatório de informações policiais, um relatório sobre uma publicação no X e cartas de partes interessadas a pedir a manutenção da detenção.
O tribunal afirmou que a libertação de Jumaan poderia pôr em risco a segurança pública. Continua acusado, e a decisão sobre a detenção determina a sua custódia enquanto o processo decorre.
Hassan Zihan, antigo vice-ministro, também está detido devido a publicações no Facebook que apelavam a ataques incendiários contra o Supremo Tribunal, a Presidência e o Parlamento. As alegações dizem respeito a apelos à violência contra edifícios e instituições, acrescentando uma dimensão judicial penal à disputa política em torno do projeto.
Protesto numa rede suspensa impede o abate de árvore
Em Villimalé, o ativista ambiental Ahmed Niyaz subiu cerca de 7,6 metros a uma grande árvore banyan e deitou-se numa rede suspensa, impedindo o seu abate. Depois de uma longa conversa com a polícia, desceu voluntariamente e foi levado pelos agentes.
A árvore é uma de duas banyan que Muizzu decidiu mandar abater, depois de submeter a sua remoção a votação numa reunião com residentes de Villimalé, em novembro de 2025. Alguns residentes tinham pedido que fossem removidas, por afirmarem que as raízes estavam a danificar casas.
Os opositores argumentaram que seria possível proteger as casas sem abater as árvores. A divergência prende-se com uma decisão concreta para o bairro: remover árvores adultas para resolver os danos ou encontrar uma forma de proteger os edifícios próximos, preservando-as.
A ação de Niyaz interrompeu os trabalhos de abate naquele momento. O relato não indica qual foi a decisão posterior sobre as árvores nem esclarece se foi acusado.
Quem pode comprar os 48 pequenos lotes?
O Ministério da Habitação tenciona abrir no domingo as candidaturas à compra de 48 pequenos lotes adquiridos pelo Estado através do programa Veshi Fahi Malé. As candidaturas devem ser entregues até às 14h00 de 8 de dezembro. Só podem candidatar-se os coproprietários do imóvel onde se situa um lote e os proprietários de lotes adjacentes.
O preço é de 2000 MVR por pé quadrado, aproximadamente 130 dólares. Os lotes têm entre 28 e 180 pés quadrados, pelo que, ao preço indicado, a compra custará entre 56 000 MVR, no caso do lote mais pequeno, e 360 000 MVR, no caso do maior.
Maafannu tem 21 lotes, Machchangolhi 10, Henveiru nove, Galolhu sete e Villimalé um. Maafannu concentra, assim, 21 dos 48 lotes, quase 44% do total. Os lotes mais pequenos são mais adequados para serem anexados a propriedades existentes do que para servirem de terrenos de construção independentes, o que ajuda a explicar a limitação do universo de compradores elegíveis.
O antigo presidente Mohamed Nasheed lançou o programa Veshi Fahi Malé em 2011. Os proprietários de pequenos lotes em Malé receberam terrenos ou apartamentos em Hulhumalé em troca da transferência dos terrenos originais para o Estado. As vendas propostas permitiriam agora transferir algumas dessas pequenas propriedades do Estado para proprietários vizinhos elegíveis.
Datas importantes das decisões sobre terrenos
Os anúncios mais recentes relacionam políticas e disputas que se desenvolveram ao longo de vários anos. A venda dos pequenos lotes tem origem num programa de permutas lançado em 2011, enquanto o protesto contra o abate das banyan surge na sequência de uma decisão presidencial tomada em novembro de 2025.
- 2011: Nasheed lança o programa Veshi Fahi Malé, que troca pequenas propriedades em Malé por terrenos ou apartamentos em Hulhumalé.
- Novembro de 2025: Muizzu submete a votação a remoção de duas árvores banyan de Villimalé numa reunião com residentes e decide que devem ser abatidas.
- Final de setembro: Muththalib discute com estudiosos religiosos a proposta de renovação dos contratos de arrendamento de Rasmalé, numa reunião captada na gravação divulgada.
- 12 de outubro de 2026: As objeções de Yameen e as previsões de investimento e emprego de Alabbar são abordadas na anterior polémica pública sobre Rasmalé.
- 8 de dezembro, 14h00: Termina o prazo para as candidaturas aos 48 pequenos lotes do Estado.
Para os potenciais compradores, o prazo das candidaturas é a data prática mais imediata. Para os residentes de Villimalé, continua por resolver a forma como será executada a decisão anterior de abater as árvores, depois de o protesto ter interrompido os trabalhos.
Cambistas passam a comunicar dados pela Internet
A Autoridade Monetária das Maldivas lançou um sistema em linha através do qual os cambistas licenciados podem enviar informações regulamentares e comunicar as suas transações de câmbio. A autoridade afirmou que a digitalização do trabalho administrativo facilitaria a supervisão do setor e reforçaria o sistema financeiro.
Os cambistas trocam uma moeda por outra. Os relatórios das suas transações fornecem ao regulador informações sobre a atividade nesse mercado. O novo sistema altera a forma como as empresas licenciadas enviam esses registos, passando a fazê-lo por via eletrónica.
O anúncio surge numa altura em que as obrigações em moeda estrangeira passaram a fazer parte do debate político em torno de Rasmalé. O relato de Nazim diz respeito à capacidade do Governo para pagar uma dívida externa, enquanto o sistema da autoridade monetária se destina a supervisionar empresas que realizam operações de câmbio.
Serviços de saúde, uma medalha de bravura e um feriado
Muizzu inaugurou a Feira da Saúde e da Família no Parque Central de Hulhumalé. Mais de 60 organizações de saúde, incluindo hospitais da Grande Malé e dos atóis, estão a apresentar os seus serviços durante o evento, que decorre ao longo de três dias, até sábado.
Itália homenageou também o sargento de primeira classe Mohamed Mahudhee, das Forças Armadas Nacionais das Maldivas, que morreu em maio enquanto procurava cinco mergulhadores italianos desaparecidos numa gruta no atol de Vaavu. O embaixador Damiano Francovigh entregou à família de Mahudhee a Medalha de Ouro por Valor Civil, numa cerimónia em Malé, na quarta-feira, que assinalou 60 anos de relações diplomáticas entre Itália e as Maldivas.
A condecoração póstuma é a mais alta distinção da República Italiana por bravura civil. A embaixada italiana em Colombo, que também representa o país nas Maldivas, lançou uma angariação de fundos para a família de Mahudhee, aberta até 31 de dezembro.
Muizzu declarou separadamente feriado governamental a quinta-feira, 12 de novembro. Com o Dia da República na quarta-feira e o fim de semana logo a seguir, a decisão concede aos funcionários públicos quatro dias de descanso.
Principais pontos
- Muththalib descreveu um mecanismo para Rasmalé que atribuiria um novo contrato de arrendamento de 99 anos sempre que o Governo aprovasse a venda de um imóvel.
- O mecanismo de transferência proposto inclui o cancelamento do contrato antigo e o pagamento de uma taxa.
- Ministros do Governo defenderam o projeto com argumentos relacionados com o investimento, a dívida e a religião, enquanto figuras da oposição contestaram as suas garantias e os seus objetivos.
- O Tribunal Penal prolongou por 15 dias a detenção de Ali Jumaan, devido a alegados apelos nas redes sociais ao fogo posto e ao saque.
- O protesto de Ahmed Niyaz interrompeu temporariamente os trabalhos para abater uma árvore banyan em Villimalé.
- O Ministério da Habitação tenciona vender 48 pequenos lotes ao preço de 2000 MVR por pé quadrado, com as candidaturas a terminar às 14h00 de 8 de dezembro.
- A autoridade monetária lançou um sistema de comunicação em linha para os cambistas licenciados, e Itália homenageou Mahudhee pela missão de salvamento em que perdeu a vida.






