Sem acusação criminal, mas destituições mantêm-se
A Procuradoria-Geral das Maldivas decidiu não deduzir acusação contra as antigas juízas do Supremo Tribunal Dr.ª Azmiralda Zahir e Mahaz Ali Zahir, acrescentando uma nova dimensão à controvérsia sobre a sua destituição pelo Parlamento, a 14 de maio de 2025. Cada destituição recebeu 68 votos. As decisões de não avançar com processos criminais não anulam os votos parlamentares nem determinam se os processos disciplinares foram legais.
Índice
- Sem acusação criminal, mas destituições mantêm-se
- Abbas questiona a independência da supervisão judicial
- As alegações da JSC contra as juízas
- Votação aprovada, mas procedimento contestado
- De uma contestação constitucional à destituição
- Como as alterações de fevereiro interromperam o funcionamento do tribunal
- ONU apela à proteção da independência judicial
- Associações jurídicas exigem mais do que uma maioria de votos
- O que as decisões dos procuradores deixam por resolver
- Principais pontos
No caso de Azmiralda, os procuradores não encontraram provas que sustentassem a prática de um crime no âmbito de uma investigação policial sobre alegado abuso de funções, e a polícia encerrou posteriormente o caso. Quanto a Mahaz, a Procuradoria analisou um pedido de acusação da Comissão Anticorrupção e concluiu que as provas não demonstravam a prática de um crime. Os relatos que dão conta destas decisões não especificam as respetivas datas.
Estes desenvolvimentos dão nova relevância às críticas do deputado por Velidhoo, Mohamed Abbas, que defendeu que as reformas jurídicas pouco beneficiarão a população enquanto não terminar a influência política sobre o poder judicial e a Comissão do Serviço Judicial (JSC) não se tornar independente. Durante o debate sobre alterações à legislação de processo penal, condenou a destituição das duas juízas, que considerou apressada e sem provas convincentes.
A controvérsia envolve agora três questões distintas: se era possível provar a prática de crimes, se a conduta das juízas justificava a destituição e se lhes foi dada uma oportunidade justa de se defenderem. Os procuradores decidiram não deduzir acusação nos casos descritos, enquanto as conclusões disciplinares da JSC e as destituições parlamentares continuam a ser decisões distintas.
Esta distinção é importante porque a acusação criminal e a disciplina judicial dizem respeito a questões jurídicas diferentes. Uma decisão de não deduzir acusação não invalida automaticamente uma conclusão ética. No entanto, torna especialmente importante o escrutínio público das provas e da fundamentação de uma sanção tão grave.
Abbas questiona a independência da supervisão judicial
Abbas dirigiu as suas críticas às instituições responsáveis por supervisionar os juízes e alterar a lei. Defendeu que sucessivos governos prometeram uma JSC independente sem concretizarem essa promessa e que alterações aprovadas com um objetivo político restrito, ou para prender uma pessoa específica, não serviriam a população.
Descreveu Azmiralda e Mahaz como juízas competentes e instruídas e afirmou que os deputados agiram contra elas em cerca de 10 a 15 minutos. Essa foi a sua avaliação da rapidez da ação parlamentar, não uma medição documentada da duração de toda a investigação. Acusou ainda os responsáveis pela destituição de desacreditarem o Parlamento e a população.
O seu argumento central foi que alterar as regras do processo penal não compensa a pressão política sobre quem as aplica. A JSC investiga a conduta judicial e pode recomendar a destituição. A independência nesta fase determina, por isso, se os poderes disciplinares funcionam como mecanismo de responsabilização ou se se tornam um meio de pressão.
Abbas também apresentou queixas distintas sobre projetos de desenvolvimento parados nas ilhas e acusou ministros que as visitaram de fornecerem informações falsas aos residentes. Estas foram alegações do deputado. Não provaram factos relativos aos processos judiciais, mas integraram as suas críticas mais amplas à responsabilização do Governo.
As alegações da JSC contra as juízas
O processo de destituição incluiu alegações de que Azmiralda e Mahaz influenciaram indevidamente juízes do Tribunal Penal no contexto da detenção do Dr. Ismail Latheef, marido de Azmiralda e médico no Hospital Memorial Indira Gandhi. Latheef ficou sob custódia policial a 4 de abril de 2025.
Segundo os relatos, a JSC concluiu que as duas juízas exerceram influência, através do juiz do Tribunal Penal Safath Habeeb, sobre o juiz Ibrahim Zihuny, que tratava do caso relativo à detenção de Latheef. A comissão concluiu que a sua conduta violou a Constituição, a Lei do Poder Judicial e o Código de Conduta dos Juízes, e recomendou a sua destituição.
Relatos posteriores sobre as investigações também referem uma queixa segundo a qual as juízas telefonaram a um juiz do Tribunal Penal e o intimidaram. Outro caso dizia respeito à presença de Azmiralda quando Hussain Mohamed Haneef, secretário adjunto do Supremo Tribunal, foi convocado para esse tribunal e o juiz Husnu Al Suood alegadamente lhe dirigiu palavras duras.
Estas alegações não devem ser tratadas como um único episódio criminal provado. As suspensões de fevereiro antecederam a detenção de Latheef, em abril, e os relatos não demonstram que todas as investigações diziam respeito à mesma conduta. Os relatos públicos aqui descritos não apresentam as provas e a fundamentação completas que ligam as diferentes queixas.
Votação aprovada, mas procedimento contestado
O Parlamento aprovou a destituição de cada juíza com 68 votos, a 14 de maio. Um dos relatos regista 11 votos contra as destituições. Com base nesses números, os apoiantes representaram cerca de 86% dos 79 votos expressos, acima do requisito constitucional de dois terços dos membros presentes e votantes.
O limiar numérico não era o único requisito. Na sua declaração sobre as destituições, datada de 10 de maio de 2025, a Commonwealth Lawyers Association citou os artigos 154(a) e 154(b) da Constituição. Estes protegem os juízes que mantêm uma conduta adequada e respeitam a ética judicial, permitindo a destituição quando a JSC conclui que houve incompetência grave ou má conduta grave e o Parlamento aprova a resolução exigida.
Os relatos divergem acentuadamente quanto ao cumprimento desses requisitos. Segundo informações, a Comissão Parlamentar dos Assuntos Judiciais não encontrou irregularidades processuais e aceitou as conclusões da JSC. No entanto, a advogada-geral do Parlamento, Fathimath Filza, terá considerado que a comissão não concluiu os procedimentos de investigação adequados.
Também há divergências quanto à oportunidade dada às juízas para responderem. Um relato afirma que não tiveram essa oportunidade; outro, posterior, diz que responderam à investigação da JSC. O Instituto de Direitos Humanos da Associação Internacional de Advogados (IBAHRI) referiu preocupações de que os advogados escolhidos pelas juízas tenham sido impedidos de falar e de que os pormenores das alegações não tenham sido inicialmente divulgados.
Estes relatos não permitem concluir simplesmente que nunca houve resposta. Ter podido responder de alguma forma é diferente de receber informação adequada, representação jurídica e uma oportunidade efetiva para contestar as provas. A controvérsia diz respeito tanto à qualidade e equidade da oportunidade de defesa como à existência dessa oportunidade.
De uma contestação constitucional à destituição
A sequência dos acontecimentos é importante porque a ação disciplinar interrompeu uma contestação, no Supremo Tribunal, às alterações constitucionais sobre as circunstâncias em que os deputados perdem o mandato depois de abandonarem os seus partidos ou serem expulsos. Os críticos defenderam que estas disposições davam aos líderes partidários maior controlo sobre os representantes eleitos.
Os principais acontecimentos registados foram:
- 18 de fevereiro de 2025: O Supremo Tribunal ouviu uma contestação às disposições constitucionais relativas à mudança de filiação partidária.
- 24 ou 25 de fevereiro: Foi apresentado um projeto de lei para reduzir de sete para cinco o número de juízes do Supremo Tribunal. Os relatos divergem quanto à data da apresentação.
- 26 de fevereiro: O Parlamento aprovou o projeto de redução do número de juízes e a JSC suspendeu Azmiralda, Mahaz e Husnu Al Suood. Foi cancelada uma audiência agendada sobre um pedido de suspensão da aplicação das disposições constitucionais.
- 4 de abril: A polícia deteve o Dr. Ismail Latheef, num episódio central de uma das alegações subsequentes de má conduta.
- 4 de maio: A JSC recomendou a destituição de Azmiralda e Mahaz.
- 14 de maio: O Parlamento votou a destituição das duas juízas.
- 19 de maio: O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou publicamente preocupação com a independência judicial.
- 9 de junho: A IBAHRI publicou a sua declaração de condenação do processo de destituição.
A data de apresentação do projeto em fevereiro é efetivamente discrepante: a IBAHRI indica 25 de fevereiro, enquanto a cronologia parlamentar detalhada situa a apresentação em 24 de fevereiro e o debate preliminar em 25 de fevereiro. Ambos os relatos situam a aprovação e as suspensões em 26 de fevereiro.
Como as alterações de fevereiro interromperam o funcionamento do tribunal
A redução do número de juízes, em fevereiro, foi aprovada com 68 votos a favor e nove contra, num total de 79 deputados presentes. Tratou-se de uma votação distinta das destituições de maio. Reduzir o tribunal de sete lugares para cinco implicava eliminar dois lugares, cerca de 29% da sua dimensão anterior.
O projeto de lei estabelecia um processo rápido: a JSC deveria declarar dois juízes incompetentes no prazo de cinco dias após a ratificação, seguindo-se uma decisão parlamentar sobre a destituição no prazo de sete dias, incluindo feriados. Os críticos contestaram que a lei exigia identificar juízes a destituir antes de uma avaliação disciplinar convencional determinar se havia motivos para tal.
Deputados da oposição protestaram, 71 advogados pediram ao Parlamento que rejeitasse o projeto e a advogada-geral Filza questionou a equidade da escolha de duas juízas para destituição. Shamsul Falah, especialista em direito constitucional, descreveu a rapidez da aprovação como um abuso dos poderes parlamentares para acelerar a tramitação. O deputado do partido no poder Ahmed Azaan Marzooq também se opôs à medida, embora tenha afirmado que continuava a apoiar o Governo.
As suspensões ocorreram após a notificação de uma investigação da Comissão Anticorrupção. A IBAHRI identificou como base a secção 25(p) da Lei da Comissão do Serviço Judicial e explicou que esta permite suspender juízes com base numa investigação de outro organismo, sem lhes dar oportunidade de contestar essa decisão inicial.
A Commonwealth Lawyers Association afirmou que as suspensões impediram a apreciação do pedido de suspensão da aplicação, que estava agendada. Uma suspensão da aplicação teria interrompido temporariamente a execução das disposições constitucionais contestadas enquanto o tribunal apreciava o caso. Na sua declaração de 10 de maio, a associação afirmou que, nessa altura, o pedido e a decisão sobre a contestação constitucional continuavam pendentes.
Husnu Al Suood demitiu-se posteriormente em protesto e terá alegado que a ação disciplinar pretendia influenciar o processo constitucional pendente. O momento dos acontecimentos demonstra que as suspensões perturbaram o funcionamento do tribunal; por si só, não prova a motivação alegada pelos críticos.
ONU apela à proteção da independência judicial
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos abordou as destituições na sua declaração de 19 de maio. O porta-voz Jeremy Laurence relacionou as destituições com as investigações de fevereiro, a demissão de um terceiro juiz e a reforma subsequente do presidente do Supremo Tribunal.
Laurence afirmou que a ação parlamentar suscitava preocupações que iam além dos processos disciplinares individuais:
A destituição de dois juízes do Supremo Tribunal pelo Parlamento das Maldivas suscita sérias preocupações quanto ao respeito pela independência do poder judicial.
O Alto Comissariado também chamou a atenção para a sequência de acontecimentos após a contestação constitucional relativa à mudança de filiação partidária dos deputados. Recordou às autoridades maldivas as suas obrigações, ao abrigo da Constituição e do direito internacional dos direitos humanos, de manter um poder judicial independente.
A declaração não determinou se as juízas cometeram má conduta nem emitiu uma decisão vinculativa que anulasse as destituições. A preocupação era institucional: os tribunais devem poder analisar a atuação do Governo e do Parlamento sem pressões indevidas, para que os limites constitucionais e a proteção dos direitos humanos continuem a ser efetivos.
Associações jurídicas exigem mais do que uma maioria de votos
A Commonwealth Lawyers Association instou o Parlamento a analisar as provas e o processo antes de aprovar a destituição. Na sua declaração, apelou ao escrutínio da notificação, do tempo de preparação, da oportunidade para apresentar provas e, quando pertinente, interrogar testemunhas, da representação jurídica e dos motivos da decisão da JSC.
Referiu ainda que as juízas contestaram as alegações e pediram para ser ouvidas pela Comissão Parlamentar dos Assuntos Judiciais. À data da declaração de 10 de maio, a comissão ainda não tinha aceite esse pedido. A associação instou o Parlamento a rejeitar a recomendação caso não estivessem cumpridos os requisitos constitucionais, processuais ou probatórios.
Na sua declaração de 9 de junho, a IBAHRI citou o artigo 14.º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, o Comentário Geral n.º 32 do Comité dos Direitos Humanos, os Princípios Básicos das Nações Unidas relativos à Independência da Magistratura, os Princípios de Latimer House da Commonwealth e os Princípios de Bangalore de Conduta Judicial.
Hina Jilani, copresidente da IBAHRI, instou à alteração da própria disposição relativa à suspensão:
O Governo das Maldivas deve ponderar alterar a secção 25(p) da Lei da Comissão do Serviço Judicial, para assegurar que as medidas disciplinares contra juízes sejam sujeitas a uma revisão por uma entidade de supervisão independente e que os juízes beneficiem de uma audiência pública e justa.
A sua proposta aborda uma fragilidade específica identificada pelo instituto: uma investigação de outra instituição pode desencadear uma suspensão antes de uma análise independente determinar se essa medida se justifica. O instituto também contestou processos realizados sem audiências públicas, notificação adequada ou uma oportunidade efetiva de resposta.
Embora publicada depois das destituições de maio, a declaração da IBAHRI incluía um apelo do copresidente Mark Stephens, CBE, para que o processo de destituição fosse interrompido. Essa formulação não deve ser interpretada como prova de que, em junho, as destituições parlamentares ainda aguardavam votação.
O que as decisões dos procuradores deixam por resolver
As decisões de não deduzir acusação criminal não equivalem a sentenças judiciais que absolvam as antigas juízas após um julgamento. Significam que os procuradores não encontraram fundamento para apresentar as acusações criminais descritas. O processo policial relativo a Azmiralda foi encerrado, enquanto a decisão relativa a Mahaz surgiu após a análise de um encaminhamento da Comissão Anticorrupção.
Um relato anterior dizia que ainda não tinha sido anunciada uma decisão sobre Mahaz. Um relato posterior regista que os procuradores também decidiram não deduzir acusação contra ela. Trata-se de etapas sucessivas, não de resultados contraditórios. Não é identificada qualquer decisão equivalente dos procuradores relativa a Husnu Al Suood.
A relação exata entre os processos criminais e todas as alegações disciplinares continua incerta. Os relatos não disponibilizam os processos completos, a fundamentação probatória detalhada da JSC nem uma decisão judicial definitiva sobre a legalidade das destituições. Sem esses elementos, não se justifica afirmar categoricamente que todas as alegações foram refutadas ou que todas as conclusões disciplinares foram comprovadas.
A IBAHRI também referiu uma notícia de 25 de maio segundo a qual tinham sido iniciadas investigações contra dois juízes que se opuseram às destituições. Alertou que a punição, ou a ameaça de punição, poderia dissuadir os juízes de agir com independência. A declaração não determinou o resultado dessas investigações.
Não é indicada qualquer data para uma audiência de revisão das destituições, uma decisão sobre a reintegração ou a resolução da contestação constitucional. A situação concreta é mais limitada: duas juízas perderam os seus cargos num processo contestado pelos seus defensores e por instituições jurídicas internacionais, e os procuradores decidiram posteriormente não avançar com os processos criminais descritos contra ambas.
Principais pontos
- O Parlamento destituiu a Dr.ª Azmiralda Zahir e Mahaz Ali Zahir a 14 de maio de 2025, com 68 votos a favor de cada destituição.
- Posteriormente, os procuradores decidiram não deduzir acusação criminal contra as duas antigas juízas nos casos descritos.
- O deputado por Velidhoo, Mohamed Abbas, defendeu que as reformas jurídicas exigem um poder judicial e uma JSC independentes para beneficiarem a população.
- A Comissão Parlamentar dos Assuntos Judiciais aceitou o procedimento de destituição, enquanto a advogada-geral do Parlamento e organismos jurídicos internacionais levantaram objeções.
- As suspensões de fevereiro interromperam uma audiência relacionada com as regras constitucionais aplicáveis à mudança de filiação partidária dos deputados.
- O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a IBAHRI e a Commonwealth Lawyers Association manifestaram preocupação com a independência judicial e a equidade processual.
- As decisões dos procuradores não anulam automaticamente as destituições, e não é indicada qualquer data para a reintegração ou para uma audiência de revisão.






