Amur junta-se a Umit na reserva de Ile-Balkhash
O Cazaquistão libertou um tigre-de-amur macho na Reserva Natural Estatal de Ile-Balkhash, a 31 de outubro de 2026, elevando para dois o número de tigres devolvidos à natureza na região. A libertação faz avançar um programa destinado a reconstituir uma população destes predadores num país onde o último avistamento confirmado do tigre-do-cáspio, espécie nativa, foi registado em 1948.
Índice
- Amur junta-se a Umit na reserva de Ile-Balkhash
- O que Amur teve de demonstrar antes da libertação
- Umit já caça por conta própria
- De duas libertações a uma população de 50
- Duas crias poderão ser libertadas na primavera de 2027
- Por que razão um tigre-de-amur regressa ao habitat do tigre-do-cáspio
- Recuperar o habitat e a disponibilidade de alimento
- Como as aldeias próximas serão alertadas
- As datas que definem a próxima fase
- Principais pontos
O macho, chamado Amur, junta-se a Umit, uma fêmea libertada a 31 de julho. Amur veio da Rússia e tem cerca de três a quatro anos. Ambos os animais têm coleiras de localização por satélite, que permitem aos especialistas acompanhar os seus movimentos na reserva, no sudeste do Cazaquistão.
Alibek Kuantyrov, ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais, afirma que o Cazaquistão planeia libertar pelo menos 10 tigres até 2033 e, a prazo, estabelecer uma população selvagem de cerca de 50. Dois crias que estão agora sob supervisão de especialistas estão a ser consideradas para libertação na primavera de 2027, dependendo da sua capacidade para sobreviver de forma autónoma.
A prioridade imediata é ajudar os animais libertados a instalarem-se, caçarem e ocuparem territórios, protegendo ao mesmo tempo as comunidades próximas, onde a criação de gado é uma importante fonte de rendimento. O objetivo a mais longo prazo é criar condições para que os tigres se reproduzam e mantenham uma população sem que as pessoas tenham de introduzir continuamente novos animais.
O que Amur teve de demonstrar antes da libertação
O Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais do Cazaquistão afirma que Amur foi submetido a exames veterinários e avaliações comportamentais antes de ser introduzido na natureza. Os especialistas verificaram o seu estado de saúde, capacidade de caça, aptidão para encontrar alimento por conta própria e reação à presença humana.
Daniyar Turgambayev, presidente do Comité das Florestas e da Vida Selvagem, explicou por que motivo a libertação exigiu uma avaliação individual:
Cada libertação de um tigre implica uma grande responsabilidade. Temos de ter a certeza de que o animal está preparado para viver de forma autónoma na natureza. Por isso, a decisão só é tomada após uma avaliação rigorosa da sua saúde, comportamento e capacidades de caça.
A coleira de satélite de Amur permite aos conservacionistas acompanhar os seus percursos enquanto se adapta à reserva. Estes movimentos ajudarão a equipa de monitorização a acompanhar a sua adaptação e a intervir caso se aproxime de uma povoação.
Umit já caça por conta própria
Umit, a primeira tigre libertada, estará a adaptar-se com sucesso e a capturar as próprias presas. Os seus movimentos também são acompanhados através de uma coleira de satélite, permitindo aos especialistas monitorizar continuamente a sua vida fora de um recinto.
A caça autónoma é fundamental para o programa. Um tigre tem de encontrar repetidamente alimento suficiente em todo o seu território, em vez de depender dos tratadores para o alimentar. O progresso de Umit é um primeiro indício de que um animal libertado consegue satisfazer essa necessidade imediata na reserva.
O indicador de sucesso a mais longo prazo é a reprodução natural. Amur e Umit partilham agora a área mais vasta da reserva, mas a criação de uma população exigirá, ao longo do tempo, habitat adequado, presas suficientes e animais reprodutores. Os investigadores continuam a avaliar quantos tigres o ecossistema consegue sustentar.
De duas libertações a uma população de 50
Kuantyrov definiu dois objetivos distintos: libertar pelo menos 10 tigres até 2033 e, a prazo, criar uma população de cerca de 50. O primeiro diz respeito aos animais introduzidos através do programa; o segundo depende do crescimento da população através de nascimentos na natureza.
O ministro descreveu o calendário e a sua flexibilidade:
Planeamos libertar pelo menos 10 tigres na natureza até 2033, embora este número possa mudar consoante o progresso do programa. O nosso objetivo final é estabelecer uma população de cerca de 50 tigres, o que lhes permitiria reproduzir-se naturalmente, sem intervenção humana.
As duas libertações realizadas até agora correspondem a um quinto do mínimo de 10 previsto até 2033. Chegar aos 50 animais exigiria uma população muito maior do que o grupo inicial libertado, pelo que a sobrevivência e o sucesso reprodutivo serão fundamentais nas próximas fases do projeto.
O Cazaquistão pretende continuar a trabalhar com parceiros russos. O programa mais abrangente envolve também o Fundo Mundial para a Natureza, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e outros parceiros de conservação.
Duas crias poderão ser libertadas na primavera de 2027
Duas crias trazidas para o Cazaquistão juntamente com os adultos continuam sob supervisão de especialistas. Foram capturadas na natureza, na região de Khabarovsk, na Rússia, e a sua libertação está prevista para a primavera de 2027, dependendo da idade, do estado de saúde e da capacidade para sobreviverem de forma autónoma.
O Cazaquistão mantém também tigres provenientes de jardins zoológicos em recintos especiais. Estes animais têm uma função diferente: reproduzir-se, para que as crias possam vir a ser preparadas para a vida na natureza.
Kuantyrov explicou esta abordagem:
Já temos tigres provenientes de jardins zoológicos, mas não serão libertados na natureza. Serão antes usados para reprodução no Cazaquistão, e as suas crias serão posteriormente preparadas para serem libertadas no seu habitat natural.
O programa decorre, assim, em várias frentes: monitorização dos adultos libertados, preparação das duas crias e manutenção de um grupo reprodutor em cativeiro. Cada uma exige decisões diferentes sobre os cuidados a prestar aos animais e a sua preparação.
Por que razão um tigre-de-amur regressa ao habitat do tigre-do-cáspio
O tigre que habitava historicamente o Cazaquistão era o tigre-do-cáspio, também conhecido como tigre-do-turquestão. A sua área de distribuição incluía partes da Ásia Central, do norte do Irão e do Cáucaso. A investigação genética demonstrou uma estreita relação entre este tigre extinto e o tigre-de-amur ainda existente, também conhecido como tigre-siberiano.
Essa relação explica a escolha de tigres-de-amur para o programa de recuperação do Cazaquistão. O objetivo é devolver uma espécie estreitamente aparentada a uma paisagem onde o tigre-do-cáspio viveu outrora.
O último avistamento confirmado do tigre-do-cáspio no Cazaquistão data de 1948. A caça, a caça furtiva, a destruição das florestas ao longo dos rios e a diminuição das presas selvagens contribuíram para o seu desaparecimento. A recuperação deste predador implica, por isso, reconstituir partes do habitat e da cadeia alimentar que se perderam.
Recuperar o habitat e a disponibilidade de alimento
A reserva de Ile-Balkhash foi criada em 2018, oito anos depois de o Cazaquistão ter apoiado a iniciativa de recuperação do tigre, em 2010. Os trabalhos de conservação incluíram a recuperação das florestas tugai, que crescem ao longo dos rios, e das populações dos animais caçados pelos tigres.
O veado-de-bucara e o kulan, ou burro-selvagem-asiático, estão entre as espécies abrangidas por esse trabalho. Em setembro, 30 kulans foram transferidos do Parque Nacional de Altyn-Emel para a reserva, reforçando os esforços para recuperar a vida selvagem antes de a população de tigres crescer ainda mais.
Kuantyrov afirma que os tigres devem caçar por si próprios e que as suas potenciais presas podem incluir kulans e lobos. As suas declarações colocam os tigres que regressam no topo da cadeia alimentar local, onde podem influenciar outros predadores, bem como animais herbívoros.
Na prática, é necessário garantir alimento suficiente e fiável num território suficientemente vasto. À medida que os investigadores avaliam a capacidade da reserva, as populações de presas e a extensão do habitat adequado ajudarão a determinar quantos tigres poderão viver ali.
Como as aldeias próximas serão alertadas
As comunidades próximas da reserva manifestaram preocupação com o gado, um pilar dos meios de subsistência locais. Algumas povoações ficam a apenas algumas dezenas de quilómetros do local da libertação, pelo que os movimentos dos animais são uma questão de segurança quotidiana, além de conservação.
Kuantyrov afirma que uma equipa dedicada trabalha sem interrupção na reserva para monitorizar os tigres. As autoridades criaram também equipas responsáveis por prevenir e responder a conflitos entre as pessoas e os predadores.
O sistema de monitorização divide a área em zonas. Se um tigre sair da zona verde designada e entrar na zona amarela, é enviado um alerta aos especialistas e à aldeia mais próxima. Os residentes deverão também receber avisos automáticos quando um tigre se aproximar a menos de cinco quilómetros de uma aldeia ou exploração agrícola.
O sistema anteriormente apresentado pelo ministério prevê três zonas e medidas graduais: alertar os residentes, afastar um animal que se aproxime de uma povoação e, quando necessário, sedá-lo e transferi-lo. Os especialistas também podem capturar um tigre para lhe colocar outro dispositivo de localização, caso seja necessário.
Para os residentes, o sistema pretende transformar o sinal da coleira num aviso antecipado e numa resposta no terreno. Para as equipas de conservação, permite intervir sem impedir que os animais continuem a viver livremente na reserva.
As datas que definem a próxima fase
O regresso dos tigres ao Cazaquistão está em curso há mais de uma década, com a preparação do habitat a anteceder as libertações. O próximo passo previsto é a possível libertação das duas crias na primavera de 2027.
- 1948: O Cazaquistão registou o último avistamento confirmado de um tigre-do-cáspio.
- 2010: O Cazaquistão apoiou a iniciativa de recuperação do tigre.
- 2018: Foi criada a Reserva Natural Estatal de Ile-Balkhash.
- 31 de julho de 2026: Umit foi libertada na reserva.
- 31 de outubro de 2026: Amur tornou-se o segundo tigre a ser libertado.
- Primavera de 2027: Está prevista a libertação de duas crias, se estiverem preparadas.
- 2033: O Cazaquistão pretende ter libertado pelo menos 10 tigres.
Até essas datas, os especialistas continuarão a acompanhar os adultos e a avaliar as crias. As decisões terão de conciliar a capacidade dos animais para viverem de forma autónoma, a disponibilidade de alimento na reserva e a segurança das comunidades vizinhas.
Principais pontos
- Amur, um macho proveniente da Rússia, foi libertado na reserva de Ile-Balkhash a 31 de outubro de 2026.
- Junta-se a Umit, uma fêmea libertada a 31 de julho que, segundo os relatos, já caça por conta própria.
- O Cazaquistão planeia pelo menos 10 libertações até 2033 e pretende, a prazo, alcançar uma população selvagem de cerca de 50 animais.
- Duas crias poderão ser libertadas na primavera de 2027; os tigres provenientes de jardins zoológicos permanecerão num programa de reprodução.
- A recuperação do habitat, a disponibilidade de presas e a reprodução natural são fundamentais para estabelecer uma população duradoura.
- As coleiras de localização, os alertas às aldeias e as equipas de resposta destinam-se a reduzir os riscos perto das povoações.






