Pequim reconhece conversações duas semanas antes da APEC
A China confirmou, a 4 de novembro de 2026, que estava em contacto com os Estados Unidos e a Rússia sobre uma possível reunião entre Xi Jinping, Donald Trump e Vladimir Putin, trazendo para a esfera pública uma proposta diplomática controversa duas semanas antes de os líderes se reunirem em Shenzhen.
Índice
- Pequim reconhece conversações duas semanas antes da APEC
- O que mudou na posição da China?
- Como evoluiu a proposta
- Trump e Putin têm prioridades diferentes
- Por que razão Kyiv se opõe a ser excluída
- A Europa procura participar nas decisões de segurança
- Abu Dhabi oferece uma mesa de negociação diferente
- O que Shenzhen poderá oferecer a cada líder
- Pontos principais
A reunião proposta poderá decorrer à margem da cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico, a 18 e 19 de novembro. As perspetivas de realização da reunião expuseram prioridades concorrentes: Trump quer discutir armas nucleares, Moscovo quer negociar o fim da guerra na Ucrânia e Kyiv insiste que o futuro do país não pode ser negociado sem a participação ucraniana.
A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, reconheceu os contactos numa conferência de imprensa regular em Pequim, depois de anteriormente se ter recusado a fornecer informações sobre a proposta.
«A China mantém contactos com as partes relevantes sobre uma possível reunião entre os líderes da China, da Rússia e dos Estados Unidos», afirmou Mao.
Pequim não anunciou um acordo final para realizar a reunião, nem o seu formato ou agenda. Essas decisões são importantes porque uma discussão sobre armas nucleares implicaria exigências diferentes das negociações sobre o território e a segurança da Ucrânia.
O calendário diplomático já está preenchido. Estão previstas negociações separadas entre a Ucrânia, os Estados Unidos e a Rússia para 10 e 11 de novembro, em Abu Dhabi, uma semana antes do início da cimeira da APEC. Os governos europeus também procuram ter um papel nas discussões sobre os mecanismos de segurança para o período pós-guerra.
O que mudou na posição da China?
A declaração de Mao, a 4 de novembro, foi o primeiro reconhecimento público por parte de Pequim de conversações sobre a reunião proposta entre os três líderes. A 19 de outubro, quando lhe perguntaram se a China tinha concordado em acolhê-la, respondeu que não tinha informações a partilhar.
Posteriormente, a China discutiu contactos relacionados com uma possível reunião bilateral entre Xi e Putin. A declaração mais recente referiu explicitamente um encontro que incluiria também Trump.
Segundo informações divulgadas, responsáveis norte-americanos, chineses e russos discutiam em privado a proposta há cerca de duas semanas, a 3 de novembro, com Washington e Moscovo a pressionarem Pequim para acolher a reunião. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, também afirmou que estavam a decorrer conversações.
A Rússia descreveu os preparativos com mais confiança. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou a 3 de novembro que os trabalhos estavam em curso. A sua declaração surgiu depois de o assessor presidencial Yuri Ushakov ter dito anteriormente que a China estava a preparar os planos e poderia incluir a reunião no programa da APEC, caso as condições fossem favoráveis.
A mudança surge na sequência das propostas concorrentes para cimeiras apresentadas em outubro, quando Moscovo promovia tanto conversações com a participação da Ucrânia como um encontro separado sem Kyiv. O reconhecimento por parte da China dá agora maior visibilidade pública à segunda proposta, embora a questão da participação ucraniana continue a ser central.
Como evoluiu a proposta
Segundo informações divulgadas, Putin propôs a reunião durante uma conversa telefónica com Trump, a 9 de outubro. O presidente norte-americano manifestou posteriormente disponibilidade para participar, enquanto o Kremlin inicialmente não confirmou que a Rússia tivesse tido a iniciativa.
As declarações públicas e as reuniões previstas traçam um mês de negociações sobre quem participaria e o que discutiria:
- 9 de outubro: Putin terá sugerido uma reunião com Trump e Xi durante uma conversa telefónica com o presidente norte-americano.
- 19 de outubro: Trump manifestou publicamente disponibilidade para participar. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou não ter informações a partilhar sobre a proposta.
- 21 de outubro: Ushakov afirmou que a China estava a trabalhar na organização da reunião e poderia acrescentá-la ao programa da APEC, caso as condições fossem favoráveis.
- 25 de outubro: Ushakov afirmou que Moscovo, Pequim e Washington estavam, em princípio, disponíveis e que os preparativos tinham começado.
- 29 de outubro: O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, instou Xi, em Pequim, a usar a sua influência sobre Moscovo para ajudar a pôr fim à guerra.
- 1 de novembro: Steinmeier afirmou que Xi parecera surpreendido com a cimeira proposta e negara a existência de preparativos para uma reunião centrada na Ucrânia.
- 4 de novembro: Mao confirmou publicamente que havia contactos sobre uma possível reunião entre os três líderes.
- 10 e 11 de novembro: Está prevista uma reunião de negociadores da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia em Abu Dhabi.
- 18 e 19 de novembro: Está prevista a reunião dos líderes da APEC em Shenzhen, possível local do encontro entre os líderes.
A descrição dos preparativos feita por Moscovo a 21 e 25 de outubro foi mais categórica do que a posição pública de Pequim na altura. As declarações mais recentes de Mao aproximam os relatos, embora a China continue a falar de contactos diplomáticos, sem anunciar uma cimeira confirmada.
Trump e Putin têm prioridades diferentes
Trump apresentou as armas nucleares como principal motivo para querer a reunião. Segundo informações divulgadas, Putin pretende usar este formato para procurar um acordo que ponha fim à guerra em termos favoráveis à Rússia.
O presidente norte-americano explicou qual seria o tema da sua preferência ao falar da proposta à saída da Casa Branca, em outubro.
Reunir-nos-íamos para falar de armas nucleares e desnuclearização.
O controlo de armas nucleares consiste em acordos que limitam as armas ou as formas como os países as desenvolvem e utilizam. A desnuclearização é um objetivo mais abrangente, que consiste em eliminar as armas nucleares. Para transformar qualquer um destes objetivos em negociações, é necessário chegar a acordo sobre quais as armas abrangidas e sobre a forma de verificar o cumprimento.
A China tem resistido às negociações nucleares pretendidas por Washington. O seu Ministério dos Negócios Estrangeiros argumenta que o arsenal nuclear chinês é muito inferior ao dos Estados Unidos e da Rússia, pelo que, nesta fase, não seria adequado negociar entre os três países. Peskov também reconheceu que Pequim não tem interesse na agenda nuclear descrita por Trump.
A cimeira proposta reúne, assim, líderes cujos objetivos declarados só coincidem parcialmente. Washington destaca as armas nucleares, Moscovo procura avanços na questão da Ucrânia e Pequim pondera se deve acolher um formato que poderá colocar ambos os temas em cima da mesa.
Por que razão Kyiv se opõe a ser excluída
A objeção da Ucrânia diz respeito a quem negociaria decisões que afetam o seu território, a sua soberania e a sua segurança. O presidente Volodymyr Zelensky tem insistido repetidamente que a Ucrânia deve estar representada nas conversações sobre o seu futuro.
O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, estabeleceu um contraste direto entre negociações com a participação de Kyiv e uma cimeira que envolvesse a China em seu lugar.
«Uma reunião trilateral entre os líderes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia poderia ajudar a pôr fim à guerra mais rapidamente. Uma reunião trilateral entre os líderes da Rússia, da China e dos Estados Unidos teria o efeito oposto: incentivaria Putin a continuar esta guerra», afirmou Sybiha.
Sybiha também rejeitou a pretensão de Moscovo a um papel privilegiado na tomada de decisões sobre os assuntos internacionais.
«A Rússia não é uma potência mundial; é um problema mundial», afirmou.
Zelensky alertou, em outubro, que o encontro proposto poderia tornar-se uma plataforma para redistribuir influência. Evocou a Conferência de Ialta de 1945, na qual os líderes dos Estados Unidos, da União Soviética e do Reino Unido discutiram o futuro da Europa quando a Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim.
«Não queremos mesmo que isto se transforme numa “Ialta 2, 3, 4”, com uma redistribuição da influência», afirmou Zelensky.
Para Kyiv, a preocupação prática é que Washington, Moscovo e Pequim possam acordar posições antes de a Ucrânia ter oportunidade de as negociar. Zelensky afirmou que a Rússia queria a reunião mais do que qualquer outro país e alertou para o risco de conceder a Moscovo mais uma importante vantagem diplomática.
A Europa procura participar nas decisões de segurança
O relato de Steinmeier sobre a conversa com Xi, a 29 de outubro, acrescentou outra complicação. A 1 de novembro, o presidente alemão afirmou que o líder chinês parecera surpreendido quando este levantou a possibilidade de uma cimeira sobre a Ucrânia.
Steinmeier descreveu a posição de Xi numa entrevista após o encontro em Pequim.
«Do ponto de vista dele, não está absolutamente a ser preparado nenhum encontro sobre a Ucrânia que envolva os Estados Unidos, a Rússia e a China», afirmou Steinmeier.
Segundo Steinmeier, Xi também descreveu a guerra como um conflito europeu e afirmou que os europeus teriam de participar nas negociações. Esse relato diz respeito a uma cimeira centrada na Ucrânia, enquanto a declaração posterior de Mao abordou uma possível reunião entre líderes sem especificar os temas.
A participação europeia tem consequências concretas. As negociações previstas dizem respeito a garantias de segurança e ao papel da Europa na Ucrânia depois da guerra. Uma garantia de segurança é uma promessa de ajudar a proteger um país contra futuros ataques; o seu valor depende da assistência que os governos se comprometam a prestar.
Espera-se que responsáveis norte-americanos se reúnam com representantes de França, Alemanha, Reino Unido, União Europeia e NATO em Bruxelas antes das negociações de Abu Dhabi. Essas conversações abordariam as garantias de segurança e as responsabilidades europeias.
Abu Dhabi oferece uma mesa de negociação diferente
As conversações de 10 e 11 de novembro em Abu Dhabi incluiriam a Ucrânia, os Estados Unidos e a Rússia. O enviado especial norte-americano Steve Witkoff afirmou que Washington mediaria as conversações entre os responsáveis.
Entre os temas previstos estão os mecanismos de segurança para o período pós-guerra, a redução das tensões, os esforços humanitários e novos passos rumo à paz. Estas negociações reuniriam no mesmo processo os países diretamente envolvidos na guerra, com os Estados Unidos a desempenhar o papel de mediador.
Os dois formatos propostos poderão dar origem a conversas muito diferentes. Abu Dhabi destina-se a abordar questões práticas com a participação da Ucrânia. Shenzhen poderá reunir três potências nucleares cujos interesses vão além da Ucrânia e cujas agendas preferidas continuam por definir.
O calendário coloca primeiro as conversações de Abu Dhabi. O seu resultado poderá influenciar o contexto diplomático em que Trump, Putin e Xi chegarão à APEC, embora não tenha sido anunciado qualquer acordo que ligue os dois encontros.
O que Shenzhen poderá oferecer a cada líder
Xi deverá acolher em Shenzhen os líderes e representantes das 21 economias membros da APEC. A realização de uma reunião adicional nesse local permitiria que Trump e Putin se encontrassem com Xi durante um encontro internacional já previsto.
Para Putin, uma reunião com os presidentes dos Estados Unidos e da China proporcionaria uma plataforma diplomática de grande visibilidade, numa altura em que a Rússia procura sair do isolamento após a invasão da Ucrânia. Para Xi, acolher o encontro poderá permitir-lhe desempenhar um papel na aproximação de Washington e Moscovo.
Trump e Xi também têm uma agenda bilateral ativa. Reuniram-se duas vezes em 2026, mais recentemente durante a visita de Xi à Casa Branca, em setembro, e deverão voltar a encontrar-se na cimeira do G20 em Miami, em dezembro.
Os dois líderes comprometeram-se a prolongar a trégua comercial acordada em outubro de 2025 e a explorar reduções de tarifas sobre 30 mil milhões de dólares em mercadorias de cada lado. Estas conversações dão a Washington e a Pequim outro conjunto de interesses a gerir, além das armas nucleares e da guerra na Ucrânia.
Trump reuniu-se pela última vez presencialmente com Putin no Alasca, em agosto de 2025. Xi e Putin encontraram-se dezenas de vezes, mais recentemente durante a visita do líder russo a Pequim, em maio. Uma reunião conjunta colocaria essas relações separadas na mesma sala, e a agenda por definir determinará se a conversa se centra no controlo de armas, na Ucrânia ou numa negociação mais abrangente.
Pontos principais
- A China confirmou, a 4 de novembro, que estava em contacto com os Estados Unidos e a Rússia sobre uma possível reunião entre os respetivos líderes.
- O local proposto é a cimeira da APEC em Shenzhen, a 18 e 19 de novembro. Não foi anunciado qualquer acordo final, formato ou agenda.
- Trump destacou as armas nucleares, enquanto Moscovo procura, segundo informações divulgadas, negociar o fim da guerra na Ucrânia em termos favoráveis à Rússia.
- A Ucrânia insiste em participar nas decisões sobre o seu futuro. Os governos europeus também querem ter um papel nas negociações de segurança.
- Estão previstas conversações separadas entre a Ucrânia, os Estados Unidos e a Rússia para 10 e 11 de novembro, em Abu Dhabi.






