Um novo chefe da polícia, mas sem uma razão clara para a mudança
O Conselho de Ministros do Nepal nomeou Manoj Kumar KC como 34.º chefe da polícia do país, a 4 de novembro de 2026, substituindo Dan Bahadur Karki antes da sua reforma prevista e transferindo-o para um cargo recém-criado de conselheiro especial para a segurança do primeiro-ministro Balendra Shah.
Índice
- Um novo chefe da polícia, mas sem uma razão clara para a mudança
- O que mudou o Conselho de Ministros
- O Governo e o partido no poder apresentam explicações contraditórias
- O desacordo chegou ao primeiro-ministro e ao líder do partido
- As disputas sobre detenções antecederam o mais recente escândalo
- Os telemóveis de Sapkota colocaram o gabinete do primeiro-ministro sob escrutínio
- As transferências e as compras de uniformes aumentaram a pressão
- KC tem experiência em investigações que envolvem figuras influentes
- Regressa uma conhecida disputa jurídica
- Pontos principais
A decisão entrou imediatamente em vigor, a 18 de Kartik de 2083, segundo o calendário nepalês. O porta-voz do Governo, Sasmit Pokharel, invocou a Regra 41 do Regulamento da Polícia de 2071 para a promoção de KC. Anunciou também a criação de um cargo de conselheiro com a patente de inspector-geral no Gabinete do Primeiro-Ministro e do Conselho de Ministros.
Pokharel não apresentou uma razão concreta para Karki deixar de poder liderar a Polícia do Nepal. Em vez disso, o ministro da Educação e dos Desportos descreveu a decisão como uma reafectação de funções, e não como uma punição.
Pokharel explicou a posição do Governo após a reunião do Conselho de Ministros:
Não deve ser visto como alguém que foi punido. Trata-se apenas de uma mudança de responsabilidades. Foi nomeado conselheiro para a segurança. Agora que um novo IGP assumiu funções, realizará o trabalho necessário.
A transferência de Karki ocorre no meio de disputas sobre detenções, transferências na polícia, compras de uniformes para as eleições e o tratamento dos telemóveis apreendidos numa investigação de branqueamento de capitais. O Governo não especificou se algum destes assuntos esteve na origem da sua substituição.
A mudança tem efeitos concretos e significativos. KC lidera agora a organização responsável pelas investigações criminais e pela segurança interna. Karki mantém um cargo sénior na área da segurança, mas perde o comando da força policial. A data prevista para a sua reforma era 27 de Chaitra de 2084, pelo que lhe restavam cerca de 17 meses quando o Conselho de Ministros mudou a liderança.
O que mudou o Conselho de Ministros
Segundo o Conselho de Ministros, o objectivo da criação do novo cargo de Karki era prestar aconselhamento e consultoria em matéria de segurança ao primeiro-ministro, para reforçar a paz e a segurança nas circunstâncias actuais. O cargo tem a patente de inspector-geral, a mesma do chefe da Polícia do Nepal.
O relato de Pokharel sobre a decisão descreveu duas medidas interligadas: atribuir a Karki o novo cargo consultivo e, em seguida, promover o inspector-geral adicional KC para preencher a vaga na liderança da polícia. KC chefiava o Departamento de Investigação Criminal na sede da polícia.
A promoção de KC foi justificada com a Regra 41. O Governo não explicou publicamente qual foi a base jurídica específica nem que avaliação sustentou a retirada de Karki do comando antes da reforma prevista. Relatos da decisão descrevem a nomeação como conselheiro como uma forma de evitar complicações jurídicas associadas a um despedimento directo.
O ministro do Interior, Sudhan Gurung, colocou as novas insígnias de patente a KC no Ministério do Interior, na quarta-feira. A cerimónia estava marcada para o dia da nomeação. Até então, essa tarefa era geralmente desempenhada pelo secretário do Interior.
O Governo e o partido no poder apresentam explicações contraditórias
Pokharel afirmou que o partido no poder, o Rastriya Swatantra Party, ou RSP, também tinha instruído o Governo a agir sobre questões sensíveis perante a mudança das circunstâncias. Relacionou essa instrução com a decisão de alterar as responsabilidades de Karki, descrevendo repetidamente o novo cargo de conselheiro como uma função sensível.
O porta-voz do RSP, Jagdish Kharel, rejeitou a ideia de que o partido tivesse instruído o Governo a nomear ou afastar uma pessoa específica. Disse que o partido apoiava o primeiro-ministro na governação, mas não interferia em nomeações individuais.
Kharel afirmou que, numa reunião do secretariado do partido no sábado, tinha sido pedido que se investigassem e responsabilizassem os envolvidos nas detenções de jornalistas em instalações de órgãos de comunicação social. A instrução abrangia tanto quem efectuou as detenções como quem as ordenou, disse. Não foi pedido ao Governo que afastasse Karki.
As duas explicações deixam uma lacuna concreta na prestação de contas. O Governo descreve a mudança como uma reafectação ligada a uma instrução do partido; o partido afirma que a sua instrução dizia respeito à responsabilidade pelas detenções de jornalistas, e o Governo não apresentou a transferência de Karki como uma medida relacionada com essas detenções.
O desacordo chegou ao primeiro-ministro e ao líder do partido
O primeiro-ministro Shah avançou com a mudança apesar da oposição, noticiada, do presidente do RSP, Rabi Lamichhane. Um dirigente próximo de Lamichhane afirmou que o líder do partido considerava que o afastamento de um chefe da polícia em funções exigia razões suficientes, que pudessem ser explicadas e defendidas publicamente.
Segundo relatos, Shah e Lamichhane discutiram longamente a questão no seu encontro mais recente. A posição de Lamichhane, tal como descrita pelo dirigente, centrava-se na justificação para afastar Karki antes do fim do seu serviço.
O líder da oposição KP Sharma Oli, antigo primeiro-ministro e presidente do Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado), sugeriu que o Governo escolhera alguém que esperava que cumprisse as suas instruções. A sua reacção acrescentou um ataque político a uma decisão que já expunha divergências no partido no poder.
As operações policiais contra jornalistas são outro elemento da disputa. Relatos dessas operações referem pressões de pessoas do secretariado do primeiro-ministro, incluindo instruções dadas a Karki relativas a detenções cuja legalidade foi contestada. A responsabilidade por emitir e executar essas ordens continua sob escrutínio no contexto da mudança de liderança.
As disputas sobre detenções antecederam o mais recente escândalo
As dificuldades de Karki com o Governo de Shah começaram antes da investigação a Inam Sapkota, suspeito de branqueamento de capitais cujas ligações viriam depois a colocar altos funcionários sob escrutínio. Os desacordos anteriores diziam respeito à rapidez com que a polícia devia agir perante instruções políticas e à fundamentação jurídica necessária antes de o fazer.
Uma das disputas envolveu as detenções do antigo primeiro-ministro Oli e do antigo ministro do Interior Ramesh Lekhak, na sequência da decisão do Governo de aplicar o relatório de uma comissão sobre os acontecimentos durante os protestos da Geração Z. Os dirigentes políticos queriam detenções imediatas. Segundo relatos, Karki procurou obter uma avaliação das conclusões da comissão, das provas e dos fundamentos jurídicos para deter os dois homens.
Karki pediu instruções por escrito antes das detenções. Gurung forneceu posteriormente instruções através do Ministério do Interior, e a polícia deteve Oli e Lekhak. Ambos foram libertados mais tarde, por ordem do Supremo Tribunal. O desacordo dizia respeito ao momento e ao procedimento das detenções, tendo Karki procurado obter apoio jurídico e documental antes de avançar.
Outro confronto envolveu o antigo presidente do Supremo Tribunal, Cholendra Shumsher Rana. Na noite de 11 de Asoj, a polícia levou-o da sua residência em Bansbari, Katmandu, para Teku. Regressou a casa no dia seguinte.
A polícia afirmou que Rana tinha sido levado por motivos de segurança, e não formalmente detido; outro relato descreveu a detenção como relacionada com suspeitas de interferência em processos judiciais. Não foram confirmadas de forma independente as alegadas conversas em que Karki questionou a base jurídica da instrução.
Os telemóveis de Sapkota colocaram o gabinete do primeiro-ministro sob escrutínio
A polícia deteve Inam Sapkota no Aeroporto Internacional Tribhuvan, a 14 de Asoj, no âmbito de uma investigação de branqueamento de capitais. Mensagens e contactos que, segundo as autoridades, foram recuperados do seu telemóvel chamaram posteriormente a atenção para relações envolvendo políticos, juízes e altos responsáveis da segurança.
Karki estaria entre as pessoas que comunicaram com Sapkota através do WhatsApp. Pessoas próximas de Karki reconheceram que houve contacto, mas sustentaram que ele não prestou qualquer ajuda imprópria. À medida que a polémica se intensificava, surgiram relatos de que o secretariado do primeiro-ministro o pressionava a demitir-se. A sede da polícia negou esses relatos.
Uma alegação mais pormenorizada dizia respeito a dois telemóveis apreendidos a Sapkota. Altos responsáveis da polícia afirmaram que os aparelhos passaram dois dias na residência de Kumar Ben, conselheiro-chefe do primeiro-ministro, em Jwagal, Lalitpur, antes da análise forense digital. Segundo as mesmas fontes, a localização dos dois telemóveis foi confirmada na residência.
As fontes disseram que uma análise forense posterior encontrou actividade no WhatsApp e no Facebook, capturas de ecrã e mensagens apagadas. Algumas das conversas apagadas terão sido entre Sapkota e Ben. As fontes também descreveram contactos regulares entre ambos ao longo de vários meses, incluindo uma mensagem a recomendar Anantaraj Ghimire como candidato do RSP às eleições pelo círculo eleitoral n.º 2 de Dang.
A análise forense digital consiste no exame de dispositivos electrónicos para recuperar e analisar informação. Em geral, os investigadores documentam quem fica na posse de um dispositivo apreendido e o que lhe acontece, criando um registo frequentemente designado por cadeia de custódia. Se um telemóvel mudar de mãos ou for utilizado antes do exame, os investigadores têm de contabilizar esse acesso ao reconstituir o seu conteúdo.
As alegações sobre a posse dos telemóveis por Ben foram tornadas públicas a 17 de Kartik, na véspera da substituição de Karki pelo Conselho de Ministros. Não foi dada qualquer explicação pública sobre quem autorizou a alegada entrega, que acesso houve durante esses dois dias ou como será apurada a responsabilidade.
As transferências e as compras de uniformes aumentaram a pressão
As transferências regulares na polícia também se tinham tornado uma fonte de tensão. Segundo relatos, propostas relativas a agentes, desde inspectores a superintendentes, estavam bloqueadas desde Bhadra, por falta de aprovação política. Uma versão indicava que cerca de 800 agentes eram afectados e que Gurung tinha retido as propostas.
Os regulamentos da polícia atribuem ao inspector-geral autoridade para decidir transferências em determinadas patentes. Na prática, o bloqueio das propostas mostra que decisões abrangidas por essa autoridade formal podem, ainda assim, depender de um acordo com o ministério e a liderança política. Entre os que aguardavam mudanças estavam agentes que tinham permanecido mais de um ano nas mesmas funções.
Um desacordo anterior envolveu efectivos policiais destacados para a Comissão de Investigação de Abusos de Autoridade. Segundo relatos, a pressão política favorecia a retirada imediata de um grande número de agentes. Os responsáveis da polícia preferiam transferências faseadas para proteger as investigações em curso. Alguns agentes acabaram por ser transferidos através do processo regular, em vez de serem retirados em bloco.
Karki também foi alvo de escrutínio por causa dos uniformes comprados para os 133 980 agentes eleitorais temporários recrutados para as eleições da Câmara dos Representantes, a 21 de Falgun de 2082. Os recrutas receberam remuneração, rações e vestuário para 40 dias de serviço eleitoral. Estes números mostram por que razão até uma questão de aquisições que envolva pessoal temporário pode implicar uma despesa pública avultada.
O deputado do RSP Khagendra Sunar levantou alegações de irregularidades na Comissão de Contas Públicas do Parlamento, onde se confrontou com Karki. A comissão criou uma subcomissão, liderada pelo deputado Manish Jha, para investigar o caso. A comissão anticorrupção também estava a investigar a compra dos uniformes. O inquérito parlamentar ainda não tinha sido concluído quando Karki foi substituído.
Karki convocou a Comissão de Coordenação de Políticas da polícia a 12 de Kartik, convidando os chefes da polícia provincial. Disse na reunião que ninguém lhe tinha pedido a demissão. Segundo relatos da discussão, houve apelos para que a organização enfrentasse os seus problemas em conjunto e argumentos de que cada pessoa devia responder pelas alegações relativas à sua própria conduta.
KC tem experiência em investigações que envolvem figuras influentes
Manoj Kumar KC ganhou notoriedade pública com a investigação de um esquema que terá enganado cidadãos nepaleses, prometendo enviá-los para os Estados Unidos como refugiados butaneses. Assumiu a chefia do Gabinete de Investigação Criminal do Vale de Catmandu em Poush de 2079 e organizou uma pequena equipa para investigar queixas que tinham registado poucos progressos.
A 12 de Chaitra de 2079, a sua equipa deteve Keshav Dulal, Tanka Gurung e Sanu Bhandari. Na sua avaliação inicial, por escrito, KC recomendou alargar a investigação à administração do Interior. O caso chegou mais tarde ao antigo secretário do Interior Tek Narayan Pandey, ao antigo ministro do Interior Bal Krishna Khand e ao antigo vice-primeiro-ministro Top Bahadur Rayamajhi.
KC liderou a equipa que deteve Khand na sua residência, a 27 de Baisakh de 2080. O alto responsável Shyam Lal Gyawali também teve um papel activo no avanço da investigação. Karki tratou da tramitação do processo relativo ao mesmo escândalo, pelo que os chefes que cessam e iniciam funções tiveram papéis diferentes numa investigação de grande dimensão.
KC viria a ser transferido durante investigações politicamente sensíveis. Foi afastado das funções de investigação criminal em Bhadra de 2080. Em Shrawan de 2081, foi transferido do Serviço Especial após cerca de dois meses. Alegações associaram essa transferência posterior à ajuda prestada na detenção de Bechan Jha, suspeito no caso dos refugiados, embora o Governo não tenha confirmado essa explicação.
KC tornou-se chefe do Gabinete Central de Investigação a 5 de Asoj de 2082 e assumiu a chefia do Departamento de Investigação Criminal a 22 de Asar de 2083. As suas responsabilidades de investigação incluíram alegados resgates fraudulentos de turistas, operações da Smart Telecom, fraude de valores mobiliários e seguros, crimes relacionados com criptomoedas e utilização indevida de terrenos públicos.
KC e Karki ingressaram juntos na polícia em Chaitra de 2054. Os relatos indicam como data exacta de entrada de KC 18 ou 28 de Chaitra. Quando foi promovido a inspector-geral adicional, KC ficou em terceiro lugar, atrás de Karki e Rajan Adhikari; o Governo também preteriu Adhikari ao escolhê-lo para chefe.
KC tem um doutoramento em transformação de conflitos pela Universidade Paññāsāstra do Camboja e qualificações de pós-graduação em sociologia, antropologia e administração pública. Ajudou a criar a academia de polícia e a desenvolver um currículo de pós-graduação em ciências policiais. A sua experiência internacional inclui missões das Nações Unidas no Kosovo e no Haiti.
Regressa uma conhecida disputa jurídica
O Nepal já transferiu chefes da polícia em funções para outros cargos séniores. A 22 de Chaitra de 2053, o Governo transferiu Achyut Krishna Kharel para o Departamento Nacional de Investigação e nomeou Dhruva Bahadur Pradhan chefe da polícia.
Kharel contestou a transferência no Supremo Tribunal e conseguiu ser reintegrado. O caso é recordado pelo princípio de que o Governo não pode afastar um agente elegível que esteja em funções apenas para abrir caminho à promoção de outra pessoa. Segundo alguns relatos, Kharel foi reintegrado em Mangsir de 2054; outro indica 19 de Asar de 2055 como a data da decisão de um colectivo especial associada à disputa.
Pradhan viria mais tarde a tornar-se conselheiro especial para a segurança do primeiro-ministro. Ramesh Chand Thakuri também foi transferido para um cargo de aconselhamento em matéria de segurança quando surgiu a polémica sobre o escândalo das aquisições para o Sudão, tendo Rabindra Pratap Shah sido nomeado chefe da polícia em seu lugar.
Karki pode recorrer aos tribunais e pedir a reintegração, aceitar o cargo de conselheiro ou demitir-se. Não foi anunciada qualquer decisão sua de contestar a medida do Conselho de Ministros. Um recurso judicial chamaria a atenção para os motivos do Governo, a autoridade invocada para a reafectação e a relação entre o novo cargo e o serviço que Karki já desempenhava.
Os principais acontecimentos que conduziram à mudança mais recente seguem esta sequência. As datas abaixo seguem o calendário nepalês; a data da nomeação é também apresentada no calendário gregoriano:
- 24 de Kartik de 2082: O Governo liderado por Sushila Karki nomeou Dan Bahadur Karki chefe da polícia.
- 11 de Asoj de 2083: A polícia levou o antigo presidente do Supremo Tribunal, Rana, da sua residência para Teku.
- 14 de Asoj: A polícia deteve Sapkota no Aeroporto Internacional Tribhuvan.
- 12 de Kartik: Karki convocou a Comissão de Coordenação de Políticas com os chefes da polícia provincial.
- 17 de Kartik: Surgiram alegações de que os telemóveis apreendidos a Sapkota tinham estado na residência do conselheiro Ben.
- 18 de Kartik, 4 de novembro de 2026: O Conselho de Ministros nomeou KC chefe da polícia e transferiu Karki para o cargo de conselheiro especial para a segurança do primeiro-ministro.
Pontos principais
- Manoj Kumar KC tornou-se o 34.º chefe da polícia do Nepal a 4 de novembro, substituindo Karki antes da data prevista para a sua reforma.
- Karki foi nomeado para um cargo de conselheiro recém-criado, com a patente de inspector-geral.
- O Governo descreveu a mudança como uma reafectação, sem apresentar uma razão concreta para o afastar do comando.
- O Governo e o partido no poder deram explicações contraditórias sobre se as instruções do partido motivaram a decisão.
- Investigações de aquisições por concluir, detenções contestadas e alegações sobre telemóveis apreendidos constituem o contexto da mudança.
- KC traz experiência em investigações sobre o esquema dos falsos refugiados butaneses e grandes casos de criminalidade financeira.






