O aumento do calor tem um impacto mensurável no trabalho
O Sri Lanka perdeu, em 2023, tempo de trabalho equivalente a mais de 120 000 empregos a tempo inteiro devido ao aumento do stress térmico nos locais de trabalho, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A organização estimou uma perda adicional de 6,5 mil milhões de dólares na produção económica, por comparação com a média anual do período de referência histórico, entre 1985 e 2014.
Índice
- O aumento do calor tem um impacto mensurável no trabalho
- O que mede o número de empregos
- Que trabalhadores enfrentam as maiores perdas?
- Porque é que o calor em Colombo é especialmente exigente
- Como aumentam as perdas previstas
- Uma comparação regional com as Maldivas
- Como proteger os trabalhadores
- Porque é que a proteção contra o calor é importante para a recuperação
- Principais pontos
A agricultura representou 48% da perda estimada de tempo de trabalho, enquanto 35% do total anual ocorreu no segundo trimestre, entre abril e junho. Estes valores identificam tanto os trabalhadores mais afetados como os meses em que a proteção é especialmente urgente.
O relatório da OIT, Impactos do stress térmico no emprego e na produtividade no Sri Lanka, prevê perdas adicionais à medida que as temperaturas sobem. Até 2040, a redução anual do tempo de trabalho poderá equivaler a entre 145 000 e 221 000 empregos a tempo inteiro, consoante as emissões globais de gases com efeito de estufa. Até 2060, o intervalo aumenta para entre 158 000 e 349 000.
Para os trabalhadores, o problema é imediato: torna-se mais difícil manter tarefas fisicamente exigentes, é necessário mais tempo de recuperação e é possível trabalhar menos horas em segurança. Para as empresas e o Governo, essas horas perdidas traduzem-se numa redução da produção e numa pressão adicional sobre uma economia que procura consolidar uma recuperação duradoura.
O que mede o número de empregos
O valor de mais de 120 000 empregos a tempo inteiro representa as horas de trabalho perdidas em toda a economia, convertidas no volume de trabalho normalmente realizado por esse número de pessoas empregadas a tempo inteiro. A OIT calculou a estimativa com base no tempo de trabalho perdido devido ao stress térmico.
Por exemplo, a redução das horas de trabalho em muitas explorações agrícolas, fábricas e estaleiros de construção pode somar milhares de equivalentes a empregos a tempo inteiro. Os trabalhadores afetados podem manter o emprego, mas realizar menos trabalho, abrandar o ritmo ou fazer pausas adicionais para recuperarem do calor.
A comparação histórica também é importante. O relatório mede o encargo adicional face às condições médias entre 1985 e 2014. Assim, a estimativa de 6,5 mil milhões de dólares corresponde à perda económica adicional associada ao aumento do stress térmico em relação a esse período de referência.
Que trabalhadores enfrentam as maiores perdas?
A agricultura representou quase metade dos equivalentes a empregos perdidos estimados em 2023. Seguiram-se os serviços, com 22%, a indústria transformadora, com 13%, a construção, com 11%, e os transportes e o comércio, com 6%.
- Agricultura: 48% da perda estimada.
- Serviços: 22%.
- Indústria transformadora: 13%.
- Construção: 11%.
- Transportes e comércio: 6%.
Em conjunto, a agricultura e a construção representaram 59% do total. Os trabalhadores de ambos os setores estão frequentemente expostos a temperaturas elevadas durante períodos prolongados e, ao mesmo tempo, realizam atividade física exigente. O esforço gera calor no organismo, que também absorve calor do ambiente.
Os serviços, a indústria transformadora, os transportes e o comércio representaram, em conjunto, os restantes 41%. Esta distribuição mostra que o problema não se limita aos campos e aos estaleiros de construção. Os locais de trabalho interiores também podem tornar-se difíceis de suportar quando a ventilação e o arrefecimento são insuficientes.
Em 2023, os serviços e os transportes suportaram uma parte substancial do impacto financeiro. O setor com mais horas de trabalho perdidas pode diferir daquele que regista a maior perda monetária, porque o valor da produção associada a cada hora varia consoante a atividade. Ambas as medidas são importantes para decidir onde concentrar a proteção e o investimento.
Porque é que o calor em Colombo é especialmente exigente
A temperatura média do Sri Lanka aumentou cerca de 1 °C desde a década de 1960, segundo a análise da OIT. A precipitação também se tornou mais imprevisível, enquanto os dados climáticos das últimas três décadas mostram um aquecimento acelerado e episódios de temperaturas extremas mais frequentes e intensos.
Em Colombo e na região costeira do sudoeste envolvente, a temperatura de bolbo húmido e globo ultrapassa os 33 °C. Esta medida combina várias condições que afetam o organismo, incluindo a humidade, o calor radiante do sol e das superfícies envolventes, e a temperatura do ar.
A temperatura de bolbo húmido e globo difere da temperatura do ar indicada numa previsão meteorológica habitual. Ajuda a descrever o grau de exigência do ambiente para quem trabalha nele. A humidade dificulta a evaporação do suor, enquanto a exposição direta ao sol aumenta o calor que o trabalhador tem de dissipar.
O facto de 35% da perda anual estimada se concentrar entre abril e junho dá aos empregadores um período concreto para planear. O planeamento das equipas, o abastecimento de água, os períodos de descanso e os horários de trabalho exigem especial atenção antes e durante esse período.
Como aumentam as perdas previstas
As projeções da OIT descrevem vários futuros possíveis, em vez de apresentarem uma única previsão. As emissões de gases com efeito de estufa influenciam o aquecimento adicional e, por sua vez, a quantidade de trabalho que pode ser realizada em segurança.
Até 2040, o Sri Lanka poderá perder anualmente tempo de trabalho equivalente a entre 145 000 e 221 000 empregos a tempo inteiro. A diferença entre estas estimativas é de 76 000 equivalentes a empregos, o que mostra a amplitude da variação possível consoante as diferentes trajetórias de emissões.
Até 2060, o intervalo previsto alarga-se para entre 158 000 e 349 000. A estimativa mais elevada excede a mais baixa em 191 000 equivalentes a empregos e é mais do dobro. No cenário de emissões mais elevadas, o relatório estima uma perda anual de 15,2% na produção económica face à referência histórica.
As principais datas e períodos de referência são:
- 1985 a 2014: período histórico usado para calcular as condições médias de referência.
- 2023: o tempo de trabalho adicionalmente perdido ultrapassou 120 000 equivalentes a empregos a tempo inteiro, com uma perda económica estimada em 6,5 mil milhões de dólares.
- 2040: as perdas anuais previstas atingem entre 145 000 e 221 000 equivalentes a empregos.
- 2060: as perdas anuais previstas atingem entre 158 000 e 349 000 equivalentes a empregos.
Uma comparação regional com as Maldivas
Uma projeção conjunta para o Sri Lanka e as Maldivas aponta para perdas anuais até 2040 de cerca de 147 000 equivalentes a empregos a tempo inteiro e 26,6 mil milhões de dólares em produção económica. O Sri Lanka representa cerca de 145 000 desses equivalentes a empregos e aproximadamente 26 mil milhões de dólares da perda de produção.
Com base nestes valores, o Sri Lanka representa cerca de 99% da perda projetada conjunta de tempo de trabalho e aproximadamente 98% da perda financeira. O total regional é, portanto, dominado pela exposição do Sri Lanka.
A estimativa de 145 000 corresponde ao limite inferior do intervalo mais amplo de emprego previsto para o Sri Lanka em 2040. O cenário de emissões e os pressupostos de avaliação associados à projeção conjunta de 26,6 mil milhões de dólares não são especificados no relatório publicado. Os leitores dispõem, por isso, de um intervalo para as futuras perdas de tempo de trabalho e de uma estimativa financeira regional cujos pressupostos são menos detalhados.
Como proteger os trabalhadores
A OIT recomenda horários de trabalho e descanso regulamentados, água potável em quantidade suficiente, melhor ventilação, medidas de arrefecimento e alterações dos horários de trabalho. Estas medidas respondem a diferentes aspetos do mesmo problema: a quantidade de calor absorvida pelos trabalhadores, a quantidade que geram com o esforço e a eficácia com que conseguem arrefecer o corpo.
A alteração dos horários pode transferir as tarefas mais exigentes para fora das horas mais quentes do dia. Os períodos de descanso planeados dão ao organismo tempo para recuperar. O acesso fácil a água potável ajuda a repor os líquidos perdidos através da transpiração, enquanto a ventilação e o arrefecimento podem reduzir a exposição ao calor nos locais de trabalho.
A agricultura e a construção exigem especial atenção, pois os trabalhadores estão sujeitos tanto a temperaturas elevadas como a um esforço físico intenso. As medidas de proteção nestes setores têm de se adequar às condições concretas de trabalho, incluindo os locais ao ar livre, onde os sistemas de arrefecimento dos edifícios pouco ajudam.
Os empregadores também têm de ter em conta a concentração sazonal das perdas. Medidas preparadas antes de abril podem ser mais úteis do que decisões tomadas apenas depois de o calor extremo perturbar o trabalho. As recomendações do relatório integram a proteção dos trabalhadores e a preservação do tempo de trabalho produtivo numa mesma resposta.
Porque é que a proteção contra o calor é importante para a recuperação
O esforço do Sri Lanka para melhorar a produtividade depende, em parte, da possibilidade de as pessoas trabalharem em segurança em condições cada vez mais quentes. A produtividade corresponde à quantidade produzida com uma determinada quantidade de mão de obra e de outros recursos. O calor reduz essa capacidade quando os trabalhadores precisam de mais tempo para concluir uma tarefa ou têm de parar para recuperar.
O debate sobre a recuperação e o emprego no país já chamou a atenção para a distância entre o crescimento económico e a segurança financeira das famílias. O crescimento económico real foi de 5% tanto em 2024 como em 2025, mas cerca de dois terços dos trabalhadores continuavam no emprego informal e a pobreza foi estimada em 16,9% em 2025.
Estas condições fazem da proteção no local de trabalho uma questão económica prática. Uma economia que procura criar melhores empregos e aumentar a produção também tem de preservar as horas em que as pessoas podem trabalhar em segurança. As conclusões da OIT ligam diretamente a adaptação climática a esse objetivo, através de alterações concretas nos horários, no acesso à água e nas condições de trabalho.
As decisões do Sri Lanka terão efeitos em duas escalas temporais. Os empregadores podem reduzir a exposição através de medidas imediatas nos locais de trabalho, enquanto as emissões globais influenciam a dimensão do aquecimento nas próximas décadas. A diferença entre as projeções mais baixas e mais elevadas do relatório mostra por que motivo ambas as respostas são importantes.
Principais pontos
- Segundo as estimativas da OIT, o aumento do stress térmico nos locais de trabalho custou ao Sri Lanka, em 2023, tempo de trabalho equivalente a mais de 120 000 empregos a tempo inteiro.
- A perda económica adicional foi estimada em 6,5 mil milhões de dólares, por comparação com as condições médias entre 1985 e 2014.
- A agricultura representou 48% dos equivalentes a empregos perdidos, e o período entre abril e junho correspondeu a 35% do total anual.
- As perdas anuais previstas aumentam para entre 145 000 e 221 000 equivalentes a empregos até 2040, e para entre 158 000 e 349 000 até 2060.
- A OIT recomenda períodos de descanso planeados, água potável, ventilação, arrefecimento e ajustamento dos horários de trabalho para proteger os trabalhadores e reduzir a perda de produção.






