Os danos do ciclone expõem um risco financeiro crescente
O ciclone Ditwah causou danos físicos diretos estimados em 4,1 mil milhões de dólares americanos nos 25 distritos do Sri Lanka, em novembro de 2025, um montante equivalente a cerca de 4% do produto interno bruto do país. O Banco Central do Sri Lanka alerta agora que as consequências financeiras poderão ir além da destruição de edifícios, infraestruturas e ativos agrícolas e traduzir-se em reembolsos de empréstimos mais fracos, desvalorização das garantias e crescente pressão sobre os seguros.
Índice
- Os danos do ciclone expõem um risco financeiro crescente
- O que fica de fora da estimativa de 4,1 mil milhões de dólares
- Como evoluíram o ciclone e a resposta das autoridades
- Porque importa acompanhar a subida dos empréstimos de Fase 2
- O apoio aos mutuários pode atrasar a identificação das perdas
- O rápido crescimento do crédito aumenta a exposição à desvalorização das garantias
- A pressão sobre os seguros vai além do custo dos sinistros
- As reservas financeiras continuam adequadas, mas estão a diminuir
- Perspetivas positivas dependem da recuperação e de políticas prudentes
- Principais pontos
Ainda assim, a Análise da Estabilidade Financeira de 2026 descreve o sistema financeiro como estável durante o primeiro semestre do ano. A recuperação económica, a melhoria das finanças públicas e reservas de capital e liquidez adequadas ajudaram os bancos e as sociedades financeiras a resistir a vários choques.
Estas conclusões descrevem duas dimensões diferentes da mesma situação: as instituições mantiveram reservas financeiras, enquanto se acumulavam sinais de dificuldades entre os mutuários. Os empréstimos de Fase 2, que indicam um aumento do risco de crédito antes de um empréstimo entrar em incumprimento, aumentaram no segundo trimestre de 2026. As sociedades financeiras registaram uma subida acentuada, em parte associada ao ciclone e ao conflito no Médio Oriente.
O alerta diz respeito, portanto, a riscos que se desenvolvem num sistema que se manteve resiliente, e não a uma declaração de que já começou uma crise financeira. Os danos climáticos podem reduzir tanto os rendimentos usados para pagar um empréstimo como o valor do imóvel dado como garantia, expondo os credores por mais do que uma via.
O que fica de fora da estimativa de 4,1 mil milhões de dólares
O valor dos danos causados pelo ciclone resulta da avaliação Global Rapid Post-Disaster Damage Estimation do Banco Mundial, conhecida como GRADE. Mede a destruição física direta de infraestruturas, habitações e ativos agrícolas. Não inclui perdas económicas mais amplas decorrentes da redução da produção, da perda de rendimentos ou de uma recuperação prolongada.
Esta distinção é importante para compreender o alerta do Banco Central. Um ativo produtivo danificado implica um custo imediato de reparação ou substituição. A atividade interrompida também pode reduzir os rendimentos do proprietário, dificultando o pagamento das dívidas existentes, mesmo durante a reconstrução.
A estimativa de cerca de 4% do PIB dá uma medida da dimensão dos danos; não significa que a produção económica anual tenha diminuído 4%. Os danos nos ativos físicos e as perdas de produção económica são medidas diferentes. O valor de 4,1 mil milhões de dólares também não pode ser interpretado como uma estimativa das perdas suportadas pelos bancos ou pelas seguradoras.
O Banco Central identifica a agricultura, a pesca e as infraestruturas como particularmente expostas a perturbações climáticas. Os agregados familiares afetados, as pequenas e médias empresas e as empresas de maior dimensão em setores vulneráveis poderão ter dificuldades em pagar os empréstimos, à medida que os ativos produtivos e os rendimentos diminuem. A estimativa dos danos físicos não permite determinar as perdas económicas mais amplas totais nem as perdas finais do setor financeiro.
Como evoluíram o ciclone e a resposta das autoridades
A análise abrange, em geral, dados até ao final de junho de 2026. A avaliação capta, por isso, os meses que se seguiram ao ciclone Ditwah, incluindo as alterações no crédito, no risco dos mutuários e nas reservas financeiras durante o primeiro semestre do ano.
O aviso de publicação em cingalês do Banco Central regista a publicação a 12 de outubro de 2026. A análise anual foi divulgada ao abrigo da Secção 70(1) da Lei n.º 16 de 2023 do Banco Central do Sri Lanka, que estabelece a base jurídica para esta avaliação da estabilidade financeira e dos riscos associados.
- Novembro de 2025: O ciclone Ditwah atingiu o Sri Lanka, afetando os 25 distritos e causando danos físicos diretos estimados em 4,1 mil milhões de dólares.
- Após o ciclone: O Banco Central emitiu circulares que obrigavam os bancos e as sociedades financeiras a conceder apoio às pessoas e empresas afetadas.
- Maio de 2026: O Banco Central aumentou a taxa de juro da política monetária overnight, perante preocupações com vulnerabilidades económicas e financeiras emergentes.
- Segundo trimestre de 2026: Os empréstimos de Fase 2 aumentaram no setor bancário, e as sociedades financeiras também registaram uma subida acentuada destas exposições.
- Final de junho de 2026: Data-limite geral dos dados da análise anual.
- 12 de outubro de 2026: O Banco Central publicou a análise de 2026.
O intervalo entre a data-limite dos dados e a publicação é relevante. A análise descreve as condições durante o período de referência, não apresentando um retrato completo da qualidade do crédito ou das exposições a seguros em outubro.
Porque importa acompanhar a subida dos empréstimos de Fase 2
A classificação dos empréstimos permite distinguir entre um mutuário cujo risco aumentou e outro cujo empréstimo já está em incumprimento. A Fase 2 significa, em geral, que o risco de crédito aumentou substancialmente desde o registo inicial do empréstimo. A Fase 3 abrange empréstimos com imparidade de crédito, incluindo os classificados como créditos não produtivos.
Nos bancos, o rácio de empréstimos de Fase 3 diminuiu e o rácio de cobertura das imparidades de Fase 3 melhorou durante o período analisado. A cobertura indica em que medida os empréstimos com imparidade reconhecida estão salvaguardados por provisões para perdas esperadas. Estes desenvolvimentos sustentaram a avaliação de resiliência do Banco Central.
Ao mesmo tempo, os empréstimos de Fase 2 aumentaram no segundo trimestre. A melhoria da proporção de empréstimos que já estão em incumprimento pode coexistir com um número crescente de mutuários em maior risco de vir a ter dificuldades de pagamento. Os dois indicadores não devem ser interpretados como contraditórios.
O alerta climático diz respeito à possível passagem de mais empréstimos para as Fases 2 e 3, à medida que diminui a capacidade de pagamento. Não significa que todos os empréstimos abrangidos pelas medidas de apoio após o ciclone venham a entrar em incumprimento, nem que os danos climáticos tenham causado todo o aumento dos empréstimos de Fase 2.
As sociedades financeiras enfrentam uma conjugação de fatores mais difícil. O rácio de empréstimos de Fase 3 melhorou, mas os empréstimos de Fase 2 aumentaram acentuadamente e a cobertura das imparidades diminuiu. O Banco Central atribui parcialmente o aumento do risco dos mutuários neste setor ao ciclone Ditwah e ao conflito no Médio Oriente. Uma cobertura mais baixa indica que a margem de proteção contra perdas de crédito reconhecidas está a diminuir.
O apoio aos mutuários pode atrasar a identificação das perdas
As autoridades responderam às perturbações causadas pelo ciclone com moratórias da dívida e planos de reembolso em condições favoráveis. Uma moratória adia temporariamente os pagamentos, enquanto a revisão das condições de reembolso pode reduzir o encargo imediato para um mutuário cujo rendimento ou atividade empresarial tenha sido afetado.
O Banco Central exigiu que tanto os bancos como as sociedades financeiras prestassem apoio às pessoas e empresas afetadas. Estas medidas podem dar tempo aos mutuários para recuperarem, em vez de os obrigarem a pagar de imediato quando a sua capacidade de gerar rendimentos está comprometida.
O Banco Central alerta também que estas medidas podem ocultar a verdadeira exposição do setor financeiro, dissimulando empréstimos com imparidade e atrasando o reconhecimento de créditos não produtivos. O adiamento de um pagamento não demonstra, por si só, que o mutuário recuperou a capacidade de pagar a dívida.
Importa distinguir entre uma ajuda temporária nos pagamentos e uma recuperação duradoura da capacidade de reembolso. Os reguladores têm de acompanhar a qualidade destes empréstimos, bem como o ritmo e a composição do novo crédito. O efeito final na qualidade dos ativos dependerá da recuperação dos mutuários afetados, e não apenas da alteração dos calendários de pagamento.
O rápido crescimento do crédito aumenta a exposição à desvalorização das garantias
Os choques climáticos ocorrem num período de rápido crescimento do crédito. O crédito bancário expandiu-se nos segmentos do consumo, comércio, serviços financeiros, construção e empréstimos ao exterior. A expansão das sociedades financeiras foi impulsionada pela forte procura de financiamento automóvel e de empréstimos garantidos por ouro.
O Banco Central identifica o aumento do endividamento das famílias, a maior dependência de garantias, a evolução do valor dessas garantias e a subida dos preços imobiliários como vulnerabilidades emergentes. Refere também um aumento do hiato do crédito ao setor privado, um indicador utilizado para avaliar se o crédito está a crescer acima da sua relação de longo prazo com a economia.
Uma garantia é um ativo dado para assegurar um empréstimo. Se o mutuário não conseguir pagar, pode constituir uma fonte de recuperação para o credor. Os danos causados por um ciclone podem reduzir o valor dessa garantia ao mesmo tempo que a interrupção dos rendimentos diminui a capacidade de reembolso.
Estes riscos não devem ser confundidos. A análise identifica o rápido crescimento do crédito automóvel e dos empréstimos garantidos por ouro como áreas que exigem salvaguardas mais rigorosas, mas não afirma que esses ativos tenham sofrido os mesmos danos físicos que as habitações, as infraestruturas ou os ativos agrícolas. A preocupação comum é a dependência de garantias cujo valor pode mudar em situações de tensão.
O Banco Central tornou mais rigorosos e simplificou os limites máximos do rácio entre o empréstimo e o valor do veículo para o financiamento automóvel, introduziu limites máximos para os empréstimos garantidos por ouro e reforçou os ponderadores de risco aplicáveis a este tipo de crédito. Os limites do rácio entre o empréstimo e o valor da garantia restringem o montante que pode ser emprestado com base no valor avaliado de um ativo. Os ponderadores de risco influenciam o capital que os credores têm de manter face a uma exposição.
A pressão sobre os seguros vai além do custo dos sinistros
O setor segurador manteve uma capitalização adequada durante o período analisado, embora a rendibilidade tenha moderado. Os sinistros significativos resultantes do ciclone Ditwah aumentaram os montantes a receber de resseguradores e agravaram os riscos de subscrição, liquidez e contraparte.
O resseguro permite às seguradoras transferir parte da sua exposição para outra seguradora. Um montante a receber de um ressegurador é dinheiro que se espera receber desse prestador. Por isso, o aumento dos montantes a receber não equivale a um aumento de dinheiro já disponível para pagar sinistros.
Daqui resultam várias pressões distintas. O risco de subscrição diz respeito à suficiência dos prémios e das reservas para cobrir os sinistros decorrentes dos riscos segurados. O risco de liquidez diz respeito à capacidade de efetuar pagamentos no prazo devido. O risco de contraparte diz respeito à capacidade de o ressegurador cumprir as suas obrigações.
O alerta climático mais amplo aponta também para o aumento dos sinistros relacionados com danos em propriedades, perdas nas colheitas e interrupções da atividade empresarial, o que poderá pressionar a solvência das seguradoras e levar a prémios mais elevados. Trata-se de riscos identificados, não de conclusões de que as seguradoras já estejam insolventes ou de que os prémios tenham aumentado num montante específico. O resumo divulgado não apresenta um total nacional de sinistros causados pelo ciclone.
As reservas financeiras continuam adequadas, mas estão a diminuir
Os bancos mantiveram rácios de capital e liquidez muito acima dos limiares regulamentares. A rendibilidade continuou a melhorar, embora o crescimento tenha abrandado face ao primeiro semestre de 2025. O capital também continuou a acumular-se, mas os ativos ponderados pelo risco cresceram mais rapidamente, reduzindo os rácios de adequação de capital.
Os rácios de liquidez dos bancos diminuíram à medida que as instituições substituíram ativos facilmente vendáveis, sobretudo títulos do Estado, por crédito ao setor privado. A análise identifica também desfasamentos mais amplos entre os prazos dos ativos e dos passivos, aumentando os riscos potenciais de refinanciamento e de liquidez em situações de tensão inesperada.
As sociedades financeiras também mantiveram a liquidez acima dos requisitos regulamentares, mas os seus rácios de liquidez e as reservas de capital diminuíram à medida que o crédito se expandiu. Os empréstimos cresceram mais rapidamente do que os depósitos, reforçando as ligações entre as sociedades financeiras e os bancos.
Os lucros das sociedades financeiras continuaram a aumentar, apoiados pelo rendimento líquido de juros, mas o crescimento dos lucros moderou no primeiro trimestre do exercício financeiro de 2026/27. Estas conclusões mostram por que motivo o aumento dos resultados, por si só, não resolve a questão da estabilidade: o crédito e a exposição ao risco podem crescer mais depressa do que os recursos disponíveis para absorver perdas.
Perspetivas positivas dependem da recuperação e de políticas prudentes
As perspetivas do Banco Central mantêm-se globalmente positivas, condicionadas à continuidade da recuperação económica, aos progressos na consolidação orçamental e à aplicação de políticas prudentes. O Banco apela à manutenção de reservas robustas de capital e liquidez, a uma melhor gestão dos riscos climáticos e cibernéticos e ao reforço dos planos de recuperação e preparação para crises.
As perturbações climáticas são uma entre várias pressões. Tensões geopolíticas prolongadas e preços da energia mais elevados podem enfraquecer as contas externas, aumentar a inflação e reduzir a capacidade de pagamento dos mutuários. Durante o período analisado, as tensões no Médio Oriente contribuíram para a pressão cambial e a desvalorização da rupia, embora as condições do mercado tenham melhorado mais tarde, graças à ação das autoridades e às entradas de remessas, receitas do turismo e exportações.
Os indicadores relativos aos mutuários também apresentam um quadro misto. As pontuações de crédito das famílias mantiveram-se globalmente estáveis no primeiro semestre de 2026, enquanto as empresas cotadas não financeiras registaram um maior crescimento das receitas, mas uma menor rendibilidade agregada, devido ao aumento das vendas e dos custos operacionais. Receitas mais elevadas não se traduziram necessariamente numa maior capacidade para pagar a dívida.
A análise não quantifica o aumento final dos empréstimos com imparidade relacionado com o clima, o custo económico total mais amplo do ciclone Ditwah ou as futuras alterações dos prémios de seguro. O resumo divulgado não apresenta um calendário datado para uma nova avaliação dos riscos climáticos. A prioridade imediata apontada pelo Banco Central é manter a monitorização e intervir atempadamente à medida que mudam as condições dos mutuários e as reservas das instituições.
O alerta central é que os fenómenos meteorológicos extremos se tornaram um risco financeiro estrutural, com impacto na produção, nos preços e na capacidade de reembolso. As instituições do Sri Lanka dispunham de reservas adequadas no início desta avaliação, mas o aumento das exposições de Fase 2 e a redução dos rácios financeiros mostram em que áreas novos choques poderão pôr essas reservas à prova.
Principais pontos
- O ciclone Ditwah afetou os 25 distritos do Sri Lanka em novembro de 2025, causando danos físicos diretos estimados em 4,1 mil milhões de dólares, cerca de 4% do PIB.
- A estimativa dos danos exclui a perda de produção, a perda de rendimentos e os custos mais amplos de uma recuperação prolongada.
- O sistema financeiro manteve-se estável no primeiro semestre de 2026, com reservas adequadas de capital e liquidez.
- Os empréstimos de Fase 2 aumentaram, embora os rácios de empréstimos de Fase 3 tenham melhorado nos bancos e nas sociedades financeiras.
- O apoio aos mutuários pode adiar o reconhecimento de empréstimos com imparidade sem resolver as dificuldades subjacentes de reembolso.
- Os sinistros de seguros relacionados com o ciclone aumentaram os montantes a receber de resseguradores e os riscos de subscrição, liquidez e contraparte.
- As perspetivas mantêm-se globalmente positivas, condicionadas à continuidade da recuperação, à consolidação orçamental e a políticas prudentes.






