Nova ofensiva visa quem financia o contrabando
A Indonésia criou uma força-tarefa nacional a 12 de outubro de 2026 para combater o contrabando de larvas de lagosta, com instruções para perseguir os financiadores e os responsáveis pelo controlo das redes, em vez de se ficar pelos intermediários. O lançamento, no edifício Mina Bahari III do Ministério dos Assuntos Marítimos e das Pescas, no centro de Jacarta, foi acompanhado pela suspensão permanente das exportações de larvas de lagosta e por um novo impulso à criação de lagostas na Indonésia.
Índice
- Nova ofensiva visa quem financia o contrabando
- Como vai funcionar a força-tarefa
- O que muda com a proibição permanente das exportações
- Uma política que mudou repetidamente de rumo
- Intercepções recentes revelam várias rotas de transporte
- O que mede a estimativa de mil milhões de dólares
- As explorações nacionais têm pela frente uma meta de produção muito superior
- A fiscalização precede novas conversações com o estrangeiro
- A prontidão operacional e os resultados ainda precisam de ser definidos
- Pontos principais
A força-tarefa, conhecida como Satgas P2BBL, foi criada ao abrigo do Regulamento Presidencial n.º 69 de 2026. O ministro coordenador dos Assuntos Políticos e de Segurança, Dudung Abdurachman, preside ao órgão de direcção; o ministro dos Assuntos Marítimos e das Pescas, Sakti Wahyu Trenggono, é o presidente executivo; e o vice-ministro Didit Herdiawan Ashaf supervisiona as operações diárias.
O que está em causa vai além das remessas interceptadas. Dudung estimou em 465,8 milhões o potencial anual de larvas de lagosta da Indonésia, enquanto o ministério das pescas utiliza uma estimativa de cerca de 500 milhões. Trenggono avaliou este último número em aproximadamente mil milhões de dólares, com base num preço presumido de dois dólares por larva. São estimativas do potencial do recurso, não medições das perdas anuais causadas pelo contrabando nem das receitas efectivamente obtidas.
Recentemente, as autoridades interceptaram larvas numa auto-estrada com portagem, num aeroporto internacional e numa operação policial em Jacarta. Estes casos ilustram por que razão o Governo quer que a fiscalização abranja toda a cadeia, desde os locais de recolha até aos pontos de saída para o estrangeiro, enquanto as explorações aquícolas nacionais asseguram um destino legal para as larvas recolhidas.
Ao explicar as prioridades de investigação da força-tarefa durante o lançamento, Dudung afirmou que os agentes têm de identificar quem dirige e financia as remessas ilegais:
A força-tarefa tem de adoptar uma abordagem de “seguir a rede” e “seguir o dinheiro” para descobrir as redes, os fluxos financeiros, os financiadores e os responsáveis pelo controlo.
Como vai funcionar a força-tarefa
O novo órgão pretende coordenar as instituições existentes, não substituir as respectivas competências. Entre as suas responsabilidades estão a recolha de dados e informações, a organização de medidas de prevenção e resposta e a identificação de alvos para a aplicação da lei.
Dudung descreveu esta estrutura como uma forma de reunir competências, informação, recursos e capacidade operacional de vários ministérios e organismos. Trenggono apelou à cooperação da Agência de Segurança Marítima, dos procuradores, da polícia e das forças armadas. O objectivo prático é permitir que as investigações atravessem as fronteiras institucionais à medida que as remessas passam pelos transportes terrestres, marítimos e aéreos.
A força-tarefa recebeu a missão de mapear as zonas de recolha de larvas, os locais de trânsito e os pontos de saída vulneráveis ao contrabando. Isso implica investigar os recolectores e os locais de armazenamento, bem como os transportadores que levam os volumes até aos portos ou aeroportos. A integração dos dados das várias entidades deverá facilitar a detecção precoce e uma definição mais precisa dos alvos da fiscalização.
Dudung prevê também avaliações mensais e informações ao Presidente Prabowo Subianto sobre o desempenho e os resultados. Afirmou que o sucesso deve ser medido pela desarticulação das redes, pela identificação dos financiadores e dos responsáveis pelo controlo e por reduções sustentadas do contrabando, e não apenas pelo número de larvas apreendidas.
O que muda com a proibição permanente das exportações
O Regulamento Ministerial n.º 5 de 2026 altera o Regulamento n.º 7 de 2024, relativo à gestão da lagosta, do caranguejo e do caranguejo-aranha. Ao abrigo do novo quadro, a recolha de larvas de lagosta está limitada a quotas regulamentadas para a aquicultura nacional, e a criação subsequente dessas larvas tem de ocorrer em território indonésio.
As larvas de lagosta, também conhecidas pela sigla indonésia BBL, são lagostas jovens recolhidas para criação. A aquicultura consiste na criação de animais aquáticos em condições controladas. Neste caso, a política pretende manter as larvas na Indonésia até crescerem e se tornarem um produto de maior valor.
A proibição das exportações de larvas não abrange todas as exportações de lagosta. As lagostas de aquicultura com pelo menos 50 gramas podem continuar a ser vendidas no estrangeiro, desde que tenham um certificado de origem oficial. Esta distinção separa a exportação de animais jovens destinados a crescer noutro local da exportação de lagostas já criadas na Indonésia.
Trenggono afirmou que as entidades estrangeiras interessadas nos recursos de lagosta da Indonésia devem procurar estabelecer uma cooperação directa e legal. O convite não anuncia qualquer excepção à proibição das exportações de larvas. A via indicada pelo ministro é a criação na Indonésia, podendo qualquer cooperação estrangeira ser discutida no âmbito de um acordo legal.
Uma política que mudou repetidamente de rumo
A suspensão permanente surge na sequência de várias mudanças na política indonésia de exportação de larvas de lagosta. Os governos anteriores alternaram entre proibir as exportações e autorizá-las sob condições que visavam apoiar a aquicultura nacional.
- 2016: O Regulamento n.º 56 de 2016 proibiu as exportações de larvas de lagosta durante o mandato de Susi Pudjiastuti como ministra das pescas.
- 4 de maio de 2020: O Regulamento n.º 12 de 2020, assinado durante o mandato do ministro Edhy Prabowo, voltou a autorizar as exportações.
- 2021: O Regulamento n.º 17 de 2021 voltou a proibir as exportações de larvas, já durante o mandato de Trenggono.
- 2024: O Regulamento n.º 7 de 2024 voltou a permitir as exportações, incluindo a criação fora da Indonésia, exigindo, porém, que os investidores estrangeiros investissem e desenvolvessem actividades de criação na Indonésia.
- 16 de outubro de 2025: Pung Nugroho Saksono, director-geral da fiscalização dos recursos marinhos e das pescas, afirmou que o ministério avançava para uma moratória às exportações de larvas.
- 2026: O Regulamento n.º 5 alterou o quadro de 2024 e o Regulamento Presidencial n.º 69 criou a força-tarefa lançada a 12 de outubro.
A abordagem de 2024 procurava desenvolver a produção indonésia através da cooperação com países com experiência na criação de lagosta, incluindo o Vietname. A cooperação com o Vietname foi entretanto suspensa. Trenggono afirmou que dois anos de esforços bilaterais não tinham conseguido travar o comércio ilegal, o que levou à mudança para uma maior fiscalização nacional.
O ministro coordenador dos Assuntos Alimentares, Zulkifli Hasan, apoiou a nova abordagem durante o lançamento. Defendeu que as licenças de exportação não eram uma resposta eficaz ao contrabando, uma vez que as remessas legais podiam continuar a ser pequenas enquanto prosseguiam as saídas ilegais. A sua posição associa a proibição das exportações a uma fiscalização coordenada, em vez de considerar suficiente qualquer uma das medidas por si só.
Intercepções recentes revelam várias rotas de transporte
Três operações noticiadas em Setembro e Outubro envolveram, no total, cerca de 274 235 larvas de lagosta. Este cálculo junta uma apreensão aproximada em Jacarta a duas contagens mais precisas, pelo que deve ser entendido como um total aproximado, não como um número nacional exacto.
- 3 de setembro de 2026: A Polícia Metropolitana de Jacarta impediu uma tentativa de contrabandear cerca de 150 000 larvas de lagosta.
- 18 de setembro de 2026: A Agência de Quarentena da Indonésia e uma equipa conjunta de fiscalização interceptaram 48 800 larvas com destino a Singapura no Aeroporto Internacional de Juanda, na província de Java Oriental. Estavam escondidas em 18 sacos de plástico dentro da mala de um passageiro que se preparava para viajar.
- 1 de outubro de 2026: A base naval de Cirebon encontrou 75 435 larvas em 13 caixas na auto-estrada com portagem Cikopo-Palimanan, no distrito de Indramayu, em Java Ocidental. A remessa não tinha os documentos de transporte exigidos e duas pessoas foram levadas para interrogatório.
Os casos mostram larvas transportadas tanto por estrada como na bagagem de passageiros. Reforçam o foco da força-tarefa nas rotas de trânsito, além dos pontos de partida finais. Interceptar uma mala num aeroporto permite apreender uma remessa; identificar os recolectores, os locais de armazenamento e os pagamentos que lhe estão associados pode levar a outras partes da operação.
Os relatos não demonstram que os três casos estivessem relacionados. Também não apresentam os resultados judiciais finais nem identificam os financiadores das remessas. Estas distinções são importantes, uma vez que as apreensões e os interrogatórios não equivalem a condenações nem provam que uma rede inteira tenha sido desmantelada.
O que mede a estimativa de mil milhões de dólares
A avaliação de Trenggono assenta numa conta simples: 500 milhões de larvas multiplicadas por dois dólares cada equivalem a mil milhões de dólares. Aplicando o preço em rupias referido pelo ministro, cerca de 35 800 rupias por larva, o mesmo cálculo dá 17,9 biliões de rupias.
A estimativa anual de potencial avançada por Dudung, de 465,8 milhões, fica 34,2 milhões abaixo do valor aproximado de 500 milhões do ministério, uma diferença de cerca de 6,8% face à estimativa ministerial. Não foi dada qualquer explicação para a diferença entre os dois valores, pelo que nenhum deles deve ser apresentado como uma contagem exacta.
A avaliação descreve um recurso teórico de larvas, calculado com base num preço unitário presumido. Não é uma previsão dos lucros das explorações, das receitas do Estado nem do valor das exportações de lagosta. Além disso, as quotas de captura regulamentadas significam que a população estimada de larvas selvagens não deve ser confundida com o número automaticamente disponível para recolha legal.
A estratégia económica consiste em manter uma parte maior do processo produtivo na Indonésia. Em vez de exportar larvas para serem criadas noutros países, as explorações nacionais iriam criá-las e vender as lagostas resultantes. A concretização dos benefícios esperados dependerá da produção efectiva, dos custos e das vendas das explorações, elementos que não podem ser determinados apenas com base na avaliação das larvas.
As explorações nacionais têm pela frente uma meta de produção muito superior
O plano estratégico da Direcção-Geral da Aquicultura estabelece uma meta de 1100 toneladas de lagosta de aquicultura em 2026. A produção nacional foi de 437 toneladas em 2023 e de 481 toneladas em 2024.
A produção aumentou, portanto, 44 toneladas entre 2023 e 2024, cerca de 10,1%. A meta para 2026 fica 619 toneladas acima do resultado de 2024, exigindo um aumento de cerca de 128,7%, ou uma produção aproximadamente 2,3 vezes superior à de 2024. A meta implica uma expansão muito maior do que o último aumento anual registado.
Um projecto-piloto em Batam, nas Ilhas Riau, dá um exemplo concreto do comércio pretendido. A 10 de setembro de 2026, o ministério informou que o projecto tinha exportado 339,5 quilogramas de lagosta de aquicultura para Singapura. Essa remessa demonstra uma via para vender no estrangeiro lagosta criada no país, mas não prova que tenha sido alcançada a meta nacional de produção.
Ao explicar o objectivo de manter as larvas de lagosta no país para criação, Trenggono associou a gestão dos recursos aos benefícios económicos locais:
Este potencial tem de ser gerido adequadamente para apoiar o desenvolvimento da aquicultura, gerar maior valor acrescentado e proporcionar benefícios económicos às comunidades.
Dudung afirmou também que a fiscalização tem de ser acompanhada por melhorias na gestão das larvas e por apoio aos produtores. Os pescadores, os recolectores e as comunidades costeiras dependem deste comércio para obter rendimentos, pelo que a existência de compradores nacionais legais é uma componente importante da política, e não uma questão separada.
A fiscalização precede novas conversações com o estrangeiro
Trenggono afirmou que a Indonésia está a dar prioridade à acção interna, depois de os esforços bilaterais não terem conseguido pôr fim às remessas ilegais. Durante o lançamento, deixou claro que o Governo não procurava iniciar imediatamente novas conversações com os países de destino:
Ainda não queremos iniciar contactos; isso pode esperar. Vamos concentrar-nos primeiro na situação interna.
Apesar disso, deixou aberta a possibilidade de cooperação caso governos estrangeiros contactem a Indonésia para discutir acordos legais. Esta posição combina a recusa em aceitar a continuação das saídas ilegais com um convite para discutir um comércio legal baseado na criação de lagosta na Indonésia.
Trenggono afirmou ainda que todas as larvas usadas para criar lagostas no estrangeiro têm origem na Indonésia. Não foram apresentados dados que sustentem esta afirmação abrangente. Trata-se, portanto, de uma declaração ministerial, distinta dos números específicos das intercepções e dos totais nacionais de produção.
Singapura surge nos dois sentidos do comércio descrito: como destino previsto da remessa interceptada no aeroporto e como comprador de lagosta de aquicultura proveniente de Batam. A diferença está no produto e no seu estatuto legal, não apenas no destino.
A prontidão operacional e os resultados ainda precisam de ser definidos
Trenggono afirmou que a força-tarefa estava pronta para começar a operar imediatamente após a tomada de posse. Dudung, porém, apelou também à conclusão da estrutura organizativa, da administração e das directrizes operacionais. Estas declarações distinguem o início anunciado das operações do trabalho necessário para pôr todos os procedimentos em prática.
Dudung pediu uma selecção cuidadosa de pessoal íntegro das forças armadas, da polícia e do Ministério Público. Alertou que operações mal controladas poderiam afectar as comunidades. Esta preocupação é especialmente relevante para um mandato que abrange os locais de recolha e as cadeias comerciais locais, além das grandes remessas.
O mecanismo de prestação de contas anunciado prevê avaliações mensais, seguidas de relatórios ao Presidente Prabowo. Não foi indicada uma data exacta para a primeira avaliação, nem anunciadas metas numéricas para detenções, processos judiciais, desarticulação de redes ou redução das saídas ilegais.
O teste imediato será perceber se as investigações coordenadas chegam aos financiadores e aos responsáveis pelo controlo, enquanto a criação legal se expande. Até agora, foram estabelecidas novas regras, criada uma força-tarefa e realizadas intercepções recentes. Ainda não foi demonstrada uma redução do contrabando a nível nacional, o cumprimento da meta de produção de 1100 toneladas ou a melhoria dos rendimentos das comunidades costeiras.
Pontos principais
- A Indonésia lançou a Satgas P2BBL no centro de Jacarta a 12 de outubro de 2026, ao abrigo do Regulamento Presidencial n.º 69 de 2026.
- Os investigadores receberam instruções para seguir as redes de contrabando, os pagamentos, os financiadores e os responsáveis pelo controlo, em vez de se concentrarem apenas nos intermediários.
- O Regulamento n.º 5 de 2026 limita a recolha de larvas a quotas para a criação nacional, que tem de decorrer na Indonésia.
- As lagostas de aquicultura com pelo menos 50 gramas podem continuar a ser exportadas se tiverem um certificado de origem oficial.
- Três intercepções recentes envolveram cerca de 274 235 larvas. Não foi estabelecida qualquer ligação entre os casos nem conhecidos os resultados judiciais finais.
- A meta de produção de lagosta de aquicultura para 2026 é de 1100 toneladas, face às 481 toneladas produzidas em 2024.
- Estão previstas avaliações mensais, mas não foram anunciadas uma data exacta para a primeira avaliação nem metas numéricas de fiscalização.






