Uma estratégia para robôs domésticos centrada no preço
A LG Electronics planeia entrar no mercado dos robôs humanoides domésticos por volta de 2030, recorrendo à experiência adquirida em fábricas, centros logísticos e no seu negócio de eletrodomésticos para desenvolver máquinas a preços acessíveis para as famílias. Entre os objetivos imediatos estão reunir cerca de 500 000 horas de dados de treino de robôs até ao final de 2026 e pôr em pleno funcionamento um novo centro de treino em Seul durante o quarto trimestre.
Índice
- Uma estratégia para robôs domésticos centrada no preço
- Porque é que as fábricas e as instituições vêm primeiro
- O que fará a fábrica de dados de Seul
- Parceria com a Nvidia combina prática real e virtual
- As articulações dos robôs abrem uma oportunidade de vendas mais próxima
- Encomendas de sistemas de refrigeração crescem mais de cinco vezes
- Unidades de refrigeração líquida maiores e nova capacidade de produção
- O crescimento das encomendas ainda tem de se traduzir em receitas
- Os negócios atuais financiam a expansão
- As etapas até à expansão para o mercado doméstico
- Pontos principais
Lee Jae-mo, diretor executivo da LG Electronics responsável pela estratégia de robótica, apresentou esta abordagem durante a conferência telefónica sobre os resultados do terceiro trimestre da empresa, a 28 de outubro. A LG pretende começar por desenvolver o negócio da robótica nos meios académico e institucional e na indústria transformadora, onde espera que a procura surja antes do que no mercado doméstico.
A estratégia para o mercado doméstico articula dois tipos de desenvolvimento de produtos: robôs concebidos para trabalhar com eletrodomésticos e eletrodomésticos concebidos para serem mais fáceis de utilizar por robôs. Em vez de tratar o robô como uma compra independente, com uma lista ilimitada de tarefas, a LG está a analisar de que forma o seu atual negócio de eletrodomésticos pode tornar a automatização doméstica útil e acessível.
Lee descreveu o requisito de preço necessário para abrir esse mercado:
Para desenvolver o mercado doméstico, é importante chegar a uma faixa de preços que as famílias possam considerar realisticamente pagar.
A LG ainda não anunciou o preço de um robô doméstico, o design final do produto nem uma data de lançamento definitiva. A empresa aponta para uma expansão por volta de 2030, na expectativa de que os robôs capazes de executar uma gama mais ampla de tarefas físicas se tornem adequados para os consumidores.
A empresa está a desenvolver este negócio a mais longo prazo em paralelo com uma fonte de encomendas em rápido crescimento: os equipamentos de refrigeração para centros de dados de inteligência artificial. As encomendas deste negócio ultrapassaram os 3 biliões de won até ao final do terceiro trimestre, dando à LG outra via de entrada na infraestrutura que sustenta a IA.
Porque é que as fábricas e as instituições vêm primeiro
É provável que os primeiros clientes da LG na área da robótica sejam organizações, e não famílias. As universidades e as instituições públicas podem adquirir dispositivos para investigação ou serviços específicos, enquanto os fabricantes e os operadores logísticos podem utilizar robôs em tarefas integradas em processos de trabalho já estabelecidos.
Lee afirmou que a empresa se concentraria primeiro nos mercados que deverão surgir mais cedo, desenvolvendo ao mesmo tempo tecnologia, gamas de produtos e um historial de fornecimento de equipamentos funcionais. Esse historial é importante, porque um potencial cliente precisa de perceber o desempenho de um robô ou componente em utilização, para lá de uma demonstração.
A indústria transformadora e a logística também deverão proporcionar uma base comercial para a expansão para o mercado doméstico. A LG planeia desenvolver experiência de produção e relações com clientes nesses mercados, enquanto prepara modelos de robôs domésticos que aproveitem os seus conhecimentos na área dos eletrodomésticos.
A ambição da LG vai além da venda de máquinas completas. A estrutura de negócio proposta inclui robôs acabados, componentes essenciais, plataformas de dados e sistemas operativos. Entre os produtos potenciais contam-se dispositivos de investigação individuais, conjuntos de hardware e software desenvolvidos com parceiros de integração de sistemas e serviços de recolha ou fornecimento de dados de robôs.
O que fará a fábrica de dados de Seul
A LG Data Factory, em Umyeon-dong, no distrito de Seocho, em Seul, é fundamental para esta preparação. A LG descreve-a como o maior centro da Coreia do Sul para treino de robôs e recolha de dados. As operações começaram parcialmente, estando o pleno funcionamento previsto para o quarto trimestre.
Em ambientes semelhantes a casas e instalações industriais, a LG planeia recolher exemplos de robôs a executar tarefas físicas. Estes dados ajudam a treinar a inteligência artificial que orienta as decisões e os movimentos de um robô. Um robô tem de associar o que deteta à sua volta a uma ação, como mover uma articulação ou manusear um objeto.
Kim Chang-tae, diretor financeiro e vice-presidente executivo da LG Electronics, apresentou o calendário de funcionamento durante a conferência telefónica sobre os resultados:
No quarto trimestre, planeamos iniciar o pleno funcionamento da LG Data Factory, em Umyeon-dong, Seul, que será o maior centro da Coreia para treino de robôs e recolha de dados.
A LG pretende aproveitar a experiência adquirida em casas, fábricas e ambientes industriais para melhorar o seu modelo de base para robôs. Um modelo de base é um sistema de IA treinado de forma abrangente, capaz de apoiar várias tarefas, em vez de um software concebido para uma única ação estritamente definida.
Parceria com a Nvidia combina prática real e virtual
A LG está a trabalhar com a Nvidia em simulação, modelos do mundo e plataformas de desenvolvimento de robôs. O objetivo é acumular cerca de 500 000 horas de dados de treino até ao final do ano, combinando informação recolhida em ambientes físicos com dados gerados virtualmente.
A simulação permite que o sistema de controlo de um robô pratique num modelo informático de um ambiente. Um modelo do mundo ajuda um sistema de IA a representar o que o rodeia e a prever como as ações o podem alterar. Ambos fazem parte do que a indústria designa por IA física: inteligência artificial que orienta máquinas que interagem com o mundo físico.
A combinação de experiência real e virtual dá à LG mais formas de treinar os seus sistemas do que a prática física isolada. A fábrica de dados fornece exemplos baseados em tarefas reais, enquanto a simulação pode gerar situações adicionais para o treino. A LG descreve o processo como um ciclo em que a recolha de dados e a melhoria dos modelos se reforçam mutuamente.
O objetivo de 500 000 horas abrange o conjunto dos dados combinados. A LG está também a ponderar serviços pagos que permitam a utilizadores externos recorrer à fábrica de dados para testes e validação, embora inclua esse negócio nos seus planos a médio e longo prazo.
As articulações dos robôs abrem uma oportunidade de vendas mais próxima
A LG está a preparar-se para fabricar atuadores, componentes que controlam o movimento nas articulações dos robôs. Um atuador combina um motor com um redutor, um mecanismo que ajusta a velocidade de rotação e a força de torção para permitir que uma articulação se mova de forma controlada.
A empresa instalou uma linha-piloto de produção de atuadores em Changwon, na província de Gyeongsang do Sul, durante o primeiro semestre de 2026. No segundo semestre, o trabalho inclui automatizar equipamentos e melhorar a qualidade da produção, em preparação para o fabrico em massa.
A LG está simultaneamente a procurar potenciais clientes a nível mundial. A venda de componentes permite-lhe participar na produção de robôs de outras empresas enquanto desenvolve as suas próprias máquinas acabadas. A experiência de produção também pode ajudá-la a aperfeiçoar as peças que pretende utilizar em todo o seu negócio de robótica.
Kim afirmou que a LG espera obter uma vantagem ao contribuir para a definição precoce de normas para os componentes, numa fase em que o mercado ainda está a desenvolver-se. As normas podem facilitar a especificação, o fabrico e a integração de peças em diferentes produtos. Para a LG, o objetivo comercial é construir relações com clientes e um historial de aplicações bem-sucedidas enquanto o mercado ainda está a tomar forma.
Encomendas de sistemas de refrigeração crescem mais de cinco vezes
O negócio de refrigeração da LG para centros de dados de IA já está a atrair encomendas avultadas. As encomendas acumuladas passaram de cerca de 600 mil milhões de won no final do primeiro semestre para mais de 3 biliões de won até ao final do terceiro trimestre. Com base nestes valores, o total mais do que quintuplicou.
Kim revelou um acordo de fornecimento a longo prazo de soluções de refrigeração, com uma capacidade de 5 gigawatts, celebrado com a empresa norte-americana de infraestruturas AIR Control Concepts. Este valor indica a dimensão abrangida pelo acordo; a LG apresentou separadamente as suas encomendas acumuladas em won.
Os servidores de IA geram calor durante o funcionamento dos processadores. Os sistemas de refrigeração removem esse calor, permitindo que o equipamento continue a funcionar a temperaturas adequadas. À medida que aumenta a capacidade de computação concentrada nas instalações de servidores, a refrigeração torna-se uma parte importante da infraestrutura de suporte.
Atualmente, a maior parte das receitas da LG com a refrigeração de centros de dados de IA provém de chillers, máquinas que removem calor de um circuito de refrigeração. A empresa planeia alargar a gama de produtos à refrigeração líquida e a equipamentos de gestão do fluxo de ar, incluindo unidades de ventilação em parede.
Shin Dong-hoon, responsável pela administração do negócio Eco Solution da LG, afirmou que a empresa pretende vir a assegurar também a conceção, o controlo e a manutenção de sistemas de refrigeração, além do fornecimento de equipamentos. Isso alargaria o seu papel, passando da entrega de máquinas individuais para a participação na operação da infraestrutura de refrigeração ao longo do tempo.
Unidades de refrigeração líquida maiores e nova capacidade de produção
A LG obteve a aprovação da Nvidia, de acordo com as respetivas especificações, para várias unidades de distribuição de líquido refrigerante, conhecidas pela sigla CDU. Estes dispositivos controlam a circulação e a transferência de calor em sistemas de refrigeração líquida utilizados em equipamentos informáticos.
A empresa obteve em julho a aprovação para uma unidade com capacidade nominal de 600 quilowatts e, em setembro, para uma unidade de 1 megawatt, seguindo-se a aprovação de uma unidade de 2,6 megawatts. Um megawatt equivale a 1 000 quilowatts, pelo que a maior destas unidades tem uma capacidade de refrigeração declarada superior a quatro vezes a do modelo de 600 quilowatts.
A LG planeia investir cerca de 220 mil milhões de won na expansão da produção na Virgínia, nos Estados Unidos, e em Pyeongtaek e Changwon, na Coreia do Sul. Está previsto que a instalação da Virgínia seja criada em 2027, com uma área total de cerca de 32 000 metros quadrados.
Os Estados Unidos são o principal foco geográfico, porque a LG considera que é aí que a procura é maior. A empresa está também a desenvolver negócios no Médio Oriente e na Ásia. O percurso previsto passa dos chillers para uma gama mais ampla de equipamentos e, depois, para serviços integrados que abrangem a conceção, os sistemas de controlo e a manutenção.
O crescimento das encomendas ainda tem de se traduzir em receitas
O crescimento das encomendas de sistemas de refrigeração da LG antecede a concretização dos benefícios financeiros totais desses contratos. As receitas da divisão Eco Solution no terceiro trimestre mantiveram-se, no geral, ao nível do mesmo período do ano anterior, enquanto a rentabilidade diminuiu devido ao aumento dos gastos com novos negócios e pessoal.
A divisão registou receitas de 2,1736 biliões de won e um lucro operacional de 87,2 mil milhões de won. As encomendas podem sustentar a produção futura, mas as receitas são contabilizadas à medida que a empresa cumpre os contratos. Este desfasamento ajuda a explicar como é que uma carteira de encomendas em crescimento pode coexistir com resultados atuais mais modestos.
Shin afirmou que o aumento dos volumes de produção e uma maior contribuição de produtos e serviços de valor acrescentado poderão melhorar o desempenho do negócio face às operações convencionais de aquecimento, ventilação e ar condicionado. A LG não divulgou objetivos específicos de receitas a médio ou longo prazo, nem a quota de vendas prevista para cada produto de refrigeração.
A estratégia de robótica exige igualmente que o investimento se traduza em vendas repetidas. A LG está a desenvolver capacidades de recolha de dados, produção de componentes e desenvolvimento de produtos antes da expansão prevista para o mercado doméstico. As oportunidades comerciais mais próximas estão nos clientes institucionais, nos componentes e nos serviços relacionados.
Os negócios atuais financiam a expansão
A LG comunicou receitas consolidadas de 23,8241 biliões de won e um lucro operacional de 781,9 mil milhões de won no terceiro trimestre, aumentos de 8,9% e 13,5%, respetivamente, face ao ano anterior. As receitas dos primeiros nove meses atingiram 71,3778 biliões de won, com um lucro operacional de 4,0347 biliões de won.
A divisão de eletrodomésticos registou receitas trimestrais de 7,0444 biliões de won e um lucro operacional de 259,2 mil milhões de won. A LG afirmou que a sua quota de mercado no estrangeiro aumentou, face à dos concorrentes chineses, durante o primeiro semestre, sobretudo na América do Norte, embora a concorrência se tenha mantido intensa.
A divisão de soluções para veículos registou receitas de 2,8261 biliões de won e um lucro operacional de 190,3 mil milhões de won, os seus melhores resultados num terceiro trimestre. A LG planeia alargar este negócio, passando do infoentretenimento automóvel para a computação de alto desempenho aplicada à condução autónoma e aos sistemas avançados de assistência ao condutor. Estes computadores processam a informação necessária a funções que ajudam um veículo a compreender o ambiente que o rodeia e a reagir em conformidade.
A LG está também a desenvolver uma solução de IA para o lar que liga dispositivos à Internet e plataformas de IA, permitindo o controlo centralizado e serviços personalizados. Este trabalho decorre em paralelo com os planos para eletrodomésticos e robôs capazes de funcionar em conjunto.
Outros produtos estabelecidos enfrentam pressões sobre os custos. A LG prevê que os preços dos painéis LCD para televisores e monitores sofram uma pressão ascendente mais forte a partir do primeiro trimestre de 2027, enquanto a concorrência intensa limita a possibilidade de repercutir o aumento nos compradores de produtos de gama baixa.
As etapas até à expansão para o mercado doméstico
Os planos da LG vão desde o trabalho imediato na produção até à criação de um negócio de robôs domésticos por volta do final da década. A sequência coloca os dados, os componentes e os clientes empresariais antes de uma ampla entrada no mercado de consumo.
- Primeiro semestre de 2026: a LG instalou a sua linha-piloto de produção de atuadores em Changwon.
- Julho e setembro de 2026: seguiram-se as aprovações da Nvidia, de acordo com as respetivas especificações, para CDUs com capacidade nominal de 600 quilowatts e 1 megawatt, respetivamente. Mais tarde, foi aprovada uma unidade de 2,6 megawatts.
- 28 de outubro de 2026: os executivos apresentaram em detalhe as estratégias de robótica e refrigeração durante a conferência telefónica sobre os resultados do terceiro trimestre.
- Quarto trimestre de 2026: a LG planeia pôr em pleno funcionamento a fábrica de dados de Seul e cancelar cerca de 730 000 ações próprias adquiridas durante o ano.
- Final de 2026: a LG tem como objetivo reunir um total de cerca de 500 000 horas de dados de treino de robôs.
- 2027: a LG planeia instalar a unidade de produção na Virgínia e distribuir mais 100 mil milhões de won aos acionistas.
- Por volta de 2030: a LG pretende entrar no mercado dos robôs humanoides domésticos.
A LG estabeleceu também o objetivo de conquistar uma posição de liderança na robótica até 2035. Para as famílias, a questão prática mais próxima é a identificada por Lee: se um robô consegue realizar trabalho útil a um preço que uma família esteja disposta a pagar. A resposta da LG passa por desenvolver o robô, os eletrodomésticos que utiliza e a tecnologia subjacente como partes interligadas do mesmo negócio.
Pontos principais
- A LG planeia entrar no mercado dos robôs humanoides domésticos por volta de 2030, depois de se concentrar nas instituições, na indústria transformadora e na logística.
- A fábrica de dados de Seul está a passar de operações parciais para o pleno funcionamento no quarto trimestre.
- A LG e a Nvidia estão a cooperar no desenvolvimento de robôs, com o objetivo de reunir cerca de 500 000 horas de dados de treino reais e virtuais até ao final do ano.
- Uma linha-piloto em Changwon apoia os preparativos para a produção em massa de atuadores e as vendas a clientes internacionais.
- As encomendas de sistemas de refrigeração para centros de dados de IA ultrapassaram os 3 biliões de won até ao final do terceiro trimestre, face a cerca de 600 mil milhões de won a meio do ano.
- A LG planeia investir cerca de 220 mil milhões de won na produção nos Estados Unidos e na Coreia do Sul.
- Ainda não foram anunciados o preço, o design final nem uma data de lançamento definitiva para um robô doméstico.






