Receitas fiscais atingem apenas 69% da meta trimestral
O Bangladesh arrecadou 92 517 crore de taka em receitas entre julho e setembro do ano fiscal de 2026-27, ficando 41 879 crore de taka aquém da meta de 134 396 crore de taka do National Board of Revenue (NBR). Uma queda de 16% na receita do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) anulou os aumentos nas cobranças de imposto sobre o rendimento e de direitos aduaneiros, expondo a pressão causada pela fraca actividade empresarial, pelo lento investimento e pela despesa excepcionalmente baixa em projectos de desenvolvimento do Governo.
Índice
- Receitas fiscais atingem apenas 69% da meta trimestral
- O IVA representa quase metade do défice
- Uma alteração na entrega das declarações complica o quadro
- Vendas e investimento fracos reduzem a base tributável
- Despesa de desenvolvimento cai para um novo mínimo
- A meta anual exige uma forte aceleração
- Mais endividamento do Governo poderá restringir o crédito às empresas
- Os ganhos no imposto sobre o rendimento também enfrentam desafios
- Os próximos dados testarão as expectativas de recuperação
- Pontos principais
Os valores correspondem a cerca de 68,8% da meta do primeiro trimestre, com quase um terço da receita prevista por arrecadar. O défice detalhado de 41 879 crore de taka compara com a estimativa global de cerca de 43 000 crore. Um crore equivale a 10 milhões de takas, pelo que o défice detalhado corresponde a 418,79 mil milhões de takas.
Os dados do NBR citados para o trimestre homólogo do ano anterior apresentam dois totais diferentes: 90 825 crore de taka e 91 390 crore de taka. Face à cobrança actual de 92 517 crore de taka, esses valores traduzem um crescimento de cerca de 1,86% e 1,23%, respectivamente. Qualquer uma das comparações coloca o crescimento das receitas abaixo dos 2%, muito aquém do ritmo necessário para cumprir o orçamento anual.
O Governo fixou uma meta de cobrança de 604 000 crore de taka para o NBR em todo o ano fiscal, cerca de 45% acima das receitas efectivamente arrecadadas no ano anterior, em que estas cresceram 12%. O primeiro trimestre revela, assim, dois problemas interligados: a economia está a gerar receitas fiscais lentamente, enquanto o orçamento pressupõe uma aceleração acentuada.
Para as famílias e as empresas, as consequências vão além da administração fiscal. Menos receitas deixam o Governo com menos dinheiro para gastar, a menos que se endivide mais, enquanto as empresas, já confrontadas com vendas fracas, poderão ter um acesso mais limitado ao crédito.
O IVA representa quase metade do défice
A cobrança do IVA atingiu 29 348 crore de taka, face a uma meta trimestral de 49 405 crore de taka, deixando um défice de 20 057 crore de taka. Este valor representa quase 48% do défice total das receitas e faz do IVA a principal origem do incumprimento da meta.
O IVA é um imposto cobrado sobre a venda de bens e serviços. As empresas entregam declarações com indicação das suas transacções tributáveis e do imposto devido. As receitas dependem, por isso, da actividade económica, do cumprimento das obrigações fiscais e do calendário de entrega das declarações e dos pagamentos. Uma alteração em qualquer destes factores pode afectar o montante que chega aos cofres do Estado num determinado período.
As outras principais categorias fiscais também ficaram aquém das metas, apesar de as respectivas cobranças terem aumentado face ao ano anterior:
- O imposto sobre o rendimento e o imposto de viagem renderam 33 040 crore de taka, face a uma meta de 42 726 crore de taka, deixando um défice de 9 686 crore de taka. As cobranças aumentaram cerca de 16,75%.
- Os impostos e direitos sobre as importações e exportações geraram 30 129 crore de taka, com um défice reportado de 12 135 crore de taka. As cobranças aumentaram cerca de 7,5%.
- As receitas do IVA caíram 16% face ao ano anterior, anulando os aumentos registados nas restantes categorias.
A meta anual para o IVA é de 223 480 crore de taka, ou cerca de 37% do objectivo de cobrança do NBR. Recuperar o dinamismo nesta categoria é, por isso, fundamental para o orçamento, mesmo que as receitas do imposto sobre o rendimento e dos direitos aduaneiros continuem a crescer.
Uma alteração na entrega das declarações complica o quadro
Responsáveis do NBR atribuem parte da queda do IVA a uma mudança experimental, que passou de declarações mensais para declarações entregues de três em três meses. Disseram que muitas empresas não entregaram declarações em julho e agosto ao abrigo do novo regime, perturbando o padrão de cobrança durante o trimestre.
Mais tarde, o Governo restabeleceu a entrega mensal no início do mês seguinte ao trimestre. O presidente do NBR, Ahsan Habib, convocou também uma reunião com responsáveis no terreno para analisar o défice de receitas. Os responsáveis disseram que os pagamentos das grandes empresas ficaram abaixo das expectativas.
Zahid Hussain, antigo economista-chefe do escritório do Banco Mundial em Daca, contestou a ideia de que os prazos de entrega das declarações pudessem explicar integralmente o défice trimestral. Disse que os prazos de pagamento referentes ao período de julho a setembro já tinham terminado, colocando a fraca actividade económica no centro da sua análise.
Towfiqul Islam Khan, director-adjunto de investigação do Centre for Policy Dialogue (CPD), afirmou que os valores de outubro dariam uma imagem mais clara do efeito da entrega trimestral das declarações. Um alto responsável do NBR, não identificado, manifestou a expectativa de que o défice pudesse ser recuperado até dezembro. Essa expectativa estabelece um marco próximo para avaliar se o regresso à entrega mensal restabelece as receitas.
Vendas e investimento fracos reduzem a base tributável
As empresas do Bangladesh enfrentam uma procura moderada e um investimento privado estagnado. Zahid Hussain afirmou que a inflação persistentemente acima de 8% reduziu o poder de compra das famílias, enquanto alguns importadores estavam a adiar envios por recearem que os produtos ficassem por vender.
Uma família que gasta mais em alimentos e noutras necessidades fica com menos dinheiro disponível para outras compras. Para as empresas, vendas mais fracas podem traduzir-se em encomendas menores, menor produção e menos motivos para investir. Estas alterações reduzem as transacções e os rendimentos sobre os quais o Governo cobra impostos.
Fazlul Hoque, administrador da Federation of Bangladesh Chambers of Commerce and Industry, descreveu a queda das vendas, o investimento estagnado, a escassa circulação de dinheiro e as importações que não tinham ganho dinamismo. Identificou também a alteração na entrega das declarações de IVA como um factor de perturbação da cobrança.
Mustafizur Rahman, investigador sénior do CPD, relacionou a fraqueza das receitas com o investimento estagnado, a redução dos empréstimos bancários e a lenta execução dos projectos de desenvolvimento do Governo. A sua análise enquadra o problema fiscal numa escassez mais ampla de actividade económica e de financiamento.
Fahmida Khatun, também investigadora sénior do CPD, afirmou que o investimento se mantinha estático e que a criação de emprego tinha estagnado. Defendeu que seria difícil recuperar substancialmente as receitas sem mudanças importantes na administração fiscal.
Despesa de desenvolvimento cai para um novo mínimo
Dados do Ministério do Planeamento indicam que a execução do Annual Development Programme (ADP) atingiu apenas 3,89% entre julho e setembro, a taxa mais baixa de sempre num primeiro trimestre. O ADP é o programa do Governo para projectos de desenvolvimento, incluindo infra-estruturas públicas e outros investimentos.
A taxa de execução actual compara com 5,09% em 2026, 4,75% em 2025, 7,50% em 2024 e 8,55% em 2023. Com 3,89%, a taxa mais recente é inferior a metade do nível de 2023, mostrando a dimensão da quebra no ritmo de execução.
A lentidão na despesa com projectos afecta as receitas por uma via directa. Os impostos e o IVA são frequentemente retidos quando são feitos pagamentos por trabalhos financiados pelo Governo. A retenção significa que uma parte do pagamento é deduzida e enviada à autoridade tributária, em vez de ser paga ao empreiteiro ou fornecedor.
Quando os projectos avançam lentamente, há menos pagamentos deste tipo. Os fornecedores também recebem menos encomendas e os empreiteiros realizam menos trabalhos, enfraquecendo a actividade empresarial associada. O Governo acaba por cobrar menos impostos tanto sobre os próprios pagamentos dos projectos como às empresas a eles ligadas.
A análise de Rahman relaciona estes mecanismos: a fraca execução dos projectos reduz as transacções económicas que, de outro modo, gerariam receitas de IVA e outras. Aumentar a cobrança depende, por isso, em parte de decisões e despesas que não são da competência do NBR.
A meta anual exige uma forte aceleração
A meta anual de 604 000 crore de taka deixa 511 483 crore de taka por arrecadar nos nove meses restantes. Isso exige uma média de cerca de 56 831 crore de taka por mês, face a aproximadamente 30 839 crore de taka por mês no primeiro trimestre.
Segundo este cálculo, a média mensal das receitas teria de aumentar cerca de 84% em relação ao ritmo do primeiro trimestre. As cobranças podem variar ao longo do ano, mas este cálculo mostra a dimensão da tarefa que a autoridade tributária tem pela frente.
Zahid Hussain afirmou que, nas condições actuais, as metas originais tinham sido consideradas impossíveis de alcançar. O orçamento prevê um crescimento de cerca de 45% face às receitas efectivamente arrecadadas no ano anterior, quando o crescimento no início do ano em curso foi inferior a 2%.
Towfiqul Islam Khan estimou que o défice anual poderia chegar a cerca de 130 000 crore de taka, a menos que o crescimento das cobranças melhorasse o suficiente. Instou o Governo a ponderar rever o orçamento em função das condições reais, em vez de manter as metas originais sem um plano para colmatar o défice.
Um orçamento revisto daria aos departamentos responsáveis pela despesa e aos credores uma imagem mais realista dos recursos disponíveis. A decisão imediata consiste em compatibilizar os compromissos com as receitas, numa altura em que a economia já tem dificuldade em gerar investimento e emprego.
Mais endividamento do Governo poderá restringir o crédito às empresas
Md Deen Islam, director de investigação da Research and Policy Integration for Development (RAPID), alertou que a lentidão na cobrança de receitas poderá limitar a despesa pública numa altura em que o investimento é necessário para apoiar o crescimento e o emprego.
Deen Islam explicou a relação entre a produção e as receitas fiscais em declarações traduzidas do bengali:
Quando a produção cai, a cobrança de receitas diminui. Quando o crescimento económico fica aquém das expectativas, o Governo não consegue cobrar as receitas de acordo com a meta.
Disse que o Governo poderia endividar-se mais para cobrir as despesas de funcionamento. Se recorrer mais ao financiamento bancário, poderá haver menos crédito disponível para as empresas privadas, dificultando o investimento e a produção.
Deen Islam afirmou que as empresas já enfrentavam escassez de crédito e taxas de juro elevadas. Uma pressão adicional sobre o financiamento poderá afectar sobretudo as empresas produtivas e também ter impacto na inflação.
Towfiqul Islam Khan acrescentou que as reformas do sector bancário poderiam influenciar as receitas fiscais. A sua análise mais ampla relacionou o défice com a fragilidade económica, a alteração na entrega das declarações e as deficiências administrativas, colocando várias pressões sobre a cobrança ao mesmo tempo.
Os ganhos no imposto sobre o rendimento também enfrentam desafios
O aumento das receitas do imposto sobre o rendimento dá algum apoio ao total, mas os incentivos à entrega antecipada das declarações poderão ter antecipado alguns pagamentos. Medidas do Governo incentivaram os contribuintes a entregar as declarações antes de setembro, ajudando as cobranças no primeiro trimestre.
Os valores posteriores mostrarão em que medida o aumento se mantém depois do período de incentivos. Se os pagamentos tiverem sido transferidos dos meses seguintes para o primeiro trimestre, o ganho inicial poderá ser seguido por um crescimento mais lento.
No NBR, os responsáveis também apontaram a fraca gestão e a actividade insuficiente dos funcionários no terreno. Estas preocupações coexistem com o abrandamento económico: melhorar a administração poderia ajudar a cobrar os impostos devidos, mesmo quando as vendas e o investimento fracos limitam a actividade tributável.
O apelo de Fahmida Khatun a uma reforma administrativa profunda aborda essa parte do problema. O restabelecimento das declarações mensais de IVA altera o calendário da cobrança, enquanto as preocupações com a gestão dizem respeito à consistência com que a autoridade administra e cobra os impostos.
Os próximos dados testarão as expectativas de recuperação
As perspectivas económicas mais amplas do Bangladesh aumentam a pressão sobre a cobrança de receitas. O World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional, publicado a 13 de outubro, projectou um crescimento de 3,2% e uma inflação de 10,9% para o ano fiscal de 2027. O Banco Asiático de Desenvolvimento também reviu em baixa a sua previsão de crescimento.
A inflação elevada reduz o que as famílias podem comprar, enquanto o crescimento fraco limita o aumento dos rendimentos empresariais e do emprego. Zahid Hussain manifestou também preocupação com o abrandamento das remessas, que anteriormente rondavam, em média, os 3 mil milhões de dólares por mês, e com o risco de as tensões no Médio Oriente as afectarem ainda mais. As remessas são dinheiro enviado para casa por pessoas que trabalham no estrangeiro e ajudam a sustentar a despesa das famílias.
A sequência de alterações de política e os próximos dados de cobrança oferecem vários momentos para avaliar os progressos:
- Julho a setembro: as receitas atingiram 92 517 crore de taka, deixando um défice de 41 879 crore de taka face à meta do primeiro trimestre.
- No início do mês seguinte: o Governo restabeleceu as declarações mensais de IVA após a experiência com a entrega trimestral.
- Dados de cobrança de outubro: Towfiqul Islam Khan considerou-os úteis para avaliar o efeito da alteração na entrega das declarações.
- Dezembro: um alto responsável do NBR, não identificado, esperava que o défice acumulado pudesse ser recuperado até essa altura.
Para o Governo, a tarefa imediata é melhorar a cobrança e ajustar os planos de despesa às receitas. Para as empresas e as famílias, estão em causa questões concretas: o acesso ao crédito, o ritmo dos projectos públicos, o emprego e o poder de compra necessário para manter as vendas.
Pontos principais
- O NBR arrecadou 92 517 crore de taka, face a uma meta de 134 396 crore de taka para o primeiro trimestre, deixando um défice de 41 879 crore de taka.
- As receitas do IVA caíram 16%, e o défice nesta categoria representou quase metade do défice total.
- As receitas do imposto sobre o rendimento e dos direitos aduaneiros aumentaram, mas todas as principais categorias ficaram aquém das metas.
- A execução do programa de desenvolvimento caiu para 3,89%, reduzindo a despesa associada à cobrança de impostos.
- Foi restabelecida a entrega mensal das declarações de IVA; os dados de outubro e os resultados de dezembro serão os próximos testes.
- Para cumprir a meta anual de 604 000 crore de taka, as receitas médias mensais terão de rondar 56 831 crore de taka nos nove meses restantes.






