Um sistema de processamento maior em Pyongsan
A Coreia do Norte aumentou de 10 para 11 o número de tanques de amostras na sua refinaria de urânio de Pyongsan, somando-se às provas obtidas por satélite de atividade contínua numa instalação que fornece a matéria-prima inicial para o seu programa de armas nucleares. O tanque adicional foi construído em agosto, depois de imagens terem mostrado 10 tanques em maio. A circulação de mercadorias e a expansão dos depósitos de resíduos são outros indícios de que a instalação, na província de Hwanghae do Norte, continua ativa.
Índice
- Um sistema de processamento maior em Pyongsan
- Como o minério se transforma em matéria-prima nuclear
- Comboios, reparações nos telhados e novas construções
- Um registo de atividade ao longo de vários anos
- Minas próximas mostram retoma dos trabalhos
- O aumento dos resíduos chama a atenção a jusante
- Porque é que a produção é importante nas negociações
- Verificar um congelamento exige acesso
- O alívio das sanções tem várias vias legais
- Principais pontos
Imagens de alta resolução da Planet Labs mostram alterações na área central de processamento da instalação, onde se acredita que os tanques contenham soluções ácidas e alcalinas utilizadas para separar o urânio do minério extraído. O tanque adicional representa um aumento de 10% no número total. O seu impacto na produção depende da dimensão, da função e da ligação ao restante sistema de processamento.
Pyongsan produz concentrado de urânio, habitualmente chamado yellowcake. Trata-se de um material intermédio: o urânio extraído da rocha tem de passar por mais processos químicos e por enriquecimento antes de poder tornar-se adequado para uma arma nuclear. Pyongsan situa-se, por isso, perto do início de uma cadeia de produção muito mais longa.
Jeong Seong-hak, especialista do Instituto de Segurança Aeroespacial da Coreia, avaliou as alterações como parte de um esforço contínuo para aumentar a capacidade de refinação e apoiar uma maior produção de concentrado de urânio. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, ou CSIS, identificou Pyongsan como o único produtor comprovado desse material na Coreia do Norte, na sua avaliação de novembro de 2021. A evolução da instalação é relevante tanto para os esforços de contenção da produção nuclear como para as comunidades a jusante das suas lagoas de resíduos.
Como o minério se transforma em matéria-prima nuclear
Pyongsan processa material com urânio extraído de minas próximas. A britagem e a moagem reduzem o minério a partículas menores, enquanto o tratamento químico separa o urânio de grande parte do material circundante. O concentrado resultante é mais fácil de transportar e processar noutros locais.
O yellowcake, identificado quimicamente como U3O8, ainda precisa de passar por várias etapas de tratamento. O enriquecimento aumenta a proporção de urânio 235, a forma de urânio capaz de sustentar a reação em cadeia utilizada numa arma nuclear. Uma refinaria e uma instalação de enriquecimento desempenham, por isso, funções diferentes, mesmo quando ambas apoiam o mesmo programa de armamento.
Acredita-se que a instalação envie concentrado para instalações que incluem o complexo nuclear de Yongbyon. As observações por satélite da rede mais ampla também chamaram a atenção para as instalações de enriquecimento de urânio ampliadas em Yongbyon e Kangson. Em setembro de 2026, a avaliação da Agência Internacional da Energia Atómica descreveu um novo edifício de dois pisos em Yongbyon e sinais de atividade numa ala ampliada em Kangson.
Para os negociadores, a questão prática é a ligação entre estas etapas. Para impedir a produção de material adicional para armas, seria necessário um acordo que abrangesse as instalações de produção relevantes e permitisse aos inspetores verificar o cumprimento em toda a rede.
Comboios, reparações nos telhados e novas construções
A entrada de um comboio de mercadorias no complexo de Pyongsan acrescenta provas de atividade logística contínua. Estes movimentos podem transportar minério, produtos químicos ou equipamento para a instalação, ou levar material processado para fora. A ligação ferroviária integra a refinaria no sistema industrial mais amplo que apoia a produção nuclear.
Imagens captadas em 7 de abril de 2026 mostraram um comboio com cerca de quatro vagões parado no ramal ferroviário da instalação. As mesmas imagens mostraram um telhado azul mais vivo no edifício de extração por solventes e precipitação, uma estrutura central de processamento. A repintura sugeria trabalhos de manutenção ou impermeabilização.
Também parecia estar em curso uma construção a sul da zona de armazenamento de carvão, num terreno que continuava por desenvolver no verão de 2025. O terreno limpo, as grelhas retangulares e as estruturas de fundação espaçadas regularmente sugeriam a construção de uma pequena instalação. A sua finalidade e a carga do comboio não foram confirmadas; entre as possíveis utilizações da nova estrutura estão o processamento de carvão, o fornecimento de calor ou o tratamento de resíduos.
Um registo de atividade ao longo de vários anos
As alterações recentes em Pyongsan prolongam um padrão documentado ao longo de vários anos. Joseph S. Bermudez Jr., Victor Cha e Jennifer Jun, autores da avaliação do CSIS publicada em 8 de novembro de 2021, analisaram imagens comerciais recolhidas entre abril e outubro desse ano. Concluíram que a instalação estava em funcionamento e a ser alvo de manutenção.
Pelo menos sete dos oito tanques de decantação ao ar livre junto ao edifício de lixiviação e classificação estavam a ser utilizados nesse período. O CSIS registou também acumulação de poeira junto ao edifício de amostragem e moagem e a substituição de painéis do telhado. A condensação de vapores ácidos sob os painéis foi identificada como causa da deterioração.
As principais observações abrangem várias datas:
- De abril a outubro de 2021: o CSIS observou áreas de processamento ativas, acumulação de resíduos e entre 28 e 35 locomotivas e vagões nos parques ferroviários da instalação.
- 1 de dezembro de 2022: eram visíveis mais de uma dúzia de vagões no interior da instalação de concentração.
- 21 de janeiro de 2023: cerca de 20 vagões aguardavam para entrar no complexo.
- 7 de abril de 2026: as imagens mostraram um comboio com cerca de quatro vagões, trabalhos de manutenção no telhado e obras junto à zona de armazenamento de carvão.
- De maio a agosto, na comparação dos tanques: o número de tanques de amostras centrais aumentou de 10 para 11.
As observações abrangem diferentes áreas da instalação e datas distintas. Os oito tanques de decantação identificados em 2021 e a contagem posterior dos tanques de amostras centrais pertencem a áreas de processamento descritas separadamente. Em conjunto, as observações mostram uma atenção contínua ao processamento, transporte e manutenção ao longo do tempo.
Minas próximas mostram retoma dos trabalhos
A atividade mineira ajuda a explicar como a refinaria pode continuar a receber matéria-prima. O complexo da Mina Industrial de Janeiro fica a cerca de 600 metros a nordeste da instalação e ocupa aproximadamente 235 hectares, segundo o CSIS. A sua avaliação de 2021 concluiu que um, e possivelmente dois, dos cinco poços originais estavam em funcionamento.
O poço E tinha recebido uma correia transportadora coberta em julho ou agosto de 2021. As obras em edifícios próximos e as alterações nas pilhas de resíduos também indicavam investimento contínuo nas infraestruturas mineiras.
Uma análise de 7 de março de 2023, de Peter Makowsky, examinou cinco minas identificáveis nas montanhas circundantes. Constatou atividade contínua na principal mina e a retoma dos trabalhos, desde 2020, em três outras que pareciam estar inativas havia anos. A Mina 5 tinha formado uma grande nova pilha de estéril até maio de 2022, enquanto a Mina 4 parecia inalterada desde 2003.
A rocha estéril é outra medida visível da escavação. Entre abril de 2020 e abril de 2021, uma pilha de estéril com 380 metros de comprimento cresceu 115 metros, enquanto a largura aumentou de 30 para 40 metros. O teor de urânio do material escavado era desconhecido, pelo que as estimativas de produção dependiam de informações para além das dimensões das pilhas de resíduos.
O aumento dos resíduos chama a atenção a jusante
A expansão da zona de armazenamento de resíduos sólidos de Pyongsan é um dos sinais mais persistentes do processamento de minério. Os rejeitados são o material indesejado que resta depois de extraídos os minerais úteis. Nesta instalação, os resíduos incluem sólidos, líquidos e resíduos químicos recolhidos em grandes lagoas a sul da fábrica.
O CSIS descreveu uma conduta com cerca de 380 metros que transporta uma pasta de resíduos através do rio Namch'on até à lagoa de rejeitados. Duas estações de bombagem em funcionamento distribuíam a mistura através de valas e tubos amovíveis. Em 2021, os resíduos sólidos acumulados bloqueavam cinco compartimentos da lagoa.
Imagens de janeiro a abril de 2026 mostraram depósitos de lamas a alastrar pelas zonas norte e central das lagoas. A neve e o gelo do inverno ocultaram algumas vias de drenagem, enquanto as imagens da primavera não mostraram qualquer descarga inequívoca de águas residuais em direção ao rio Yesong durante esse período de observação. A precipitação, as condições de drenagem e a aproximação da estação das chuvas de verão tornam as lagoas uma preocupação ambiental, além de serem um indicador de atividade industrial.
Um acompanhamento posterior documentou alterações substanciais numa bacia mais pequena a jusante. As medições descritas na cobertura de outubro de 2026 sobre a lagoa de águas residuais em transformação mostraram que a sua superfície passou de cerca de 0,79 hectares em 25 de fevereiro para 1,38 hectares em meados de abril, diminuindo depois para 0,85 hectares em 24 de setembro. A área de abril era cerca de 75% superior à medição de fevereiro.
Imagens comerciais mostraram também depósitos de lamas na principal lagoa de decantação a expandirem-se cerca de 0,8 hectares, ou 8.000 metros quadrados, entre 5 de setembro de 2025 e 27 de junho de 2026. O Yesong, também chamado Ryesong, desagua no estuário do rio Han, perto da fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. As análises sul-coreanas realizadas perto da ilha de Ganghwa e do estuário em 2025 não detetaram níveis anormais de radioatividade ou de metais pesados.
Porque é que a produção é importante nas negociações
Responsáveis e investigadores sul-coreanos estão a analisar a expansão da refinaria em paralelo com a possibilidade de um novo diálogo entre Washington e Pyongyang. Uma maior capacidade de produção poderá permitir à Coreia do Norte acumular mais material enquanto prosseguem as conversações sobre limites, inspeções ou sanções.
Cho Han-beom, investigador sénior do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, avaliou que o reforço das capacidades nucleares poderia melhorar a posição da Coreia do Norte em futuras negociações de controlo de armamento. Um programa de maiores dimensões daria a Pyongyang mais instalações ou atividades que poderia aceitar limitar em troca de concessões.
Cho Hyun, ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, afirmou que Seul estava a coordenar-se estreitamente com Washington para impedir o reconhecimento da Coreia do Norte como Estado detentor de armas nucleares. Esta preocupação soma-se a uma questão negocial mais imediata: se um acordo inicial travaria a produção adicional, mantendo as armas existentes.
A abordagem proposta pelo presidente Lee Jae-myung associa o congelamento nuclear ao alívio das sanções, seguido de medidas recíprocas destinadas a gerar confiança e a reduzir o número de armas nucleares. Um congelamento da produção travaria atividades futuras especificadas. As reduções exigiriam novas decisões sobre as armas e o material já existentes.
Verificar um congelamento exige acesso
Gary Samore, antigo coordenador da Casa Branca para o controlo de armamento e as armas de destruição maciça, afirmou que uma suspensão verificada da produção adicional poderia justificar uma concessão económica limitada, embora duvidasse de que a Coreia do Norte aceitasse a troca.
Penso que um congelamento nuclear verificado (isto é, a suspensão da produção adicional de material físsil de qualidade militar) justificaria um alívio limitado das sanções, mas não acredito que a Coreia do Norte aceitasse tal acordo por três motivos.
Ankit Panda, investigador sénior do programa de política nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, explicou por que razão seria mais difícil verificar a produção do que detetar o lançamento de um míssil.
É evidente que qualquer lançamento efetivo de um míssil proibido seria facilmente detetado por sensores de infravermelhos colocados no espaço. Verificar à distância qualquer congelamento que envolva material físsil ou a produção de ogivas seria muito mais difícil.
Os inspetores da AIEA estão ausentes da Coreia do Norte desde abril de 2009. A agência acompanha o programa através de imagens comerciais de satélite e de informações públicas. O relatório do diretor-geral, datado de 28 de agosto, identificou a construção de uma instalação adicional de enriquecimento em Yongbyon e sinais de atividade na zona ampliada de Kangson.
Olli Heinonen, antigo diretor-geral adjunto da AIEA, defendeu que uma verificação rigorosa exigiria acesso às instalações, a especialistas norte-coreanos e aos registos originais, incluindo documentos relativos a parceiros estrangeiros. Avaliou também que, dada a capacidade técnica e industrial interna da Coreia do Norte, os controlos às exportações, por si só, não poderiam travar totalmente a expansão da produção de urânio adequado para armas.
O alívio das sanções tem várias vias legais
Um congelamento negociado obrigaria os governos a decidir que sanções ajustar e ao abrigo de que autoridade. A legislação norte-americana em matéria de sanções distingue suspensão temporária, derrogações individuais e revogação. Cada via tem os seus próprios requisitos.
Nos termos da Secção 401 da Lei de Sanções e Reforço da Política relativa à Coreia do Norte, a suspensão das sanções abrangidas exige que o presidente certifique progressos em seis áreas, incluindo a transparência financeira, a verificação do cumprimento das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e as condições nos campos de prisioneiros políticos. Uma suspensão inicial pode durar até um ano, podendo ser prolongada mediante nova certificação.
A Secção 402 estabelece condições mais amplas para a revogação, incluindo progressos substanciais no desmantelamento dos programas de armamento e no combate à repressão política. A Secção 208 permite derrogações individuais de sanções especificadas, por períodos entre 30 dias e um ano, mediante justificação escrita às comissões parlamentares competentes.
As sanções da ONU exigem um processo separado. A Resolução 2397 do Conselho de Segurança permite alterar, suspender ou levantar medidas à luz do cumprimento por parte da Coreia do Norte. A União Europeia mantém também sanções ao abrigo dos seus próprios poderes, incluindo medidas que abrangem atividades para além do programa nuclear.
No caso de Pyongsan, qualquer acordo teria de ligar estas opções legais a obrigações práticas: que operações seriam suspensas, como os inspetores as verificariam e que restrições económicas seriam alteradas em contrapartida. A rede crescente de minas, instalações de processamento, edifícios de enriquecimento e infraestruturas de resíduos torna central o âmbito dessas obrigações para que um acordo seja exequível.
Principais pontos
- O número de tanques de amostras centrais de Pyongsan aumentou de 10 para 11 após a construção de um tanque adicional em agosto.
- A circulação de mercadorias, os trabalhos de manutenção, as obras e o aumento dos depósitos de lamas apontam para atividade contínua na refinaria de urânio.
- Em 2021, o CSIS identificou Pyongsan como o único produtor comprovado de concentrado de urânio da Coreia do Norte.
- A retoma da atividade mineira e a expansão das pilhas de resíduos mostram investimento em todo o sistema de produção circundante.
- As lagoas de resíduos próximas do rio Yesong continuam a ser objeto de monitorização ambiental.
- Um congelamento verificado da produção exigiria acesso às instalações e aos registos, enquanto o alívio das sanções dependeria de decisões legais separadas.






