Produtos químicos, mobiliário e maquinaria poderão estar sujeitos a novas restrições
A União Europeia está a preparar possíveis restrições às importações de produtos químicos, mobiliário e maquinaria, com propostas que poderão ser apresentadas no primeiro trimestre de 2027, numa tentativa de reduzir o défice comercial de bens com a China, que atingiu 360 mil milhões de euros em 2025.
Índice
- Produtos químicos, mobiliário e maquinaria poderão estar sujeitos a novas restrições
- Porque pondera Bruxelas uma ação mais abrangente
- Como funcionariam as restrições propostas
- O plano para os veículos híbridos define a escala
- Outros exportadores de veículos poderão estar sujeitos a quotas
- Pequim manifesta oposição à medida que aumenta o escrutínio sobre os produtos químicos
- Encomendas postais e acesso ao mercado alargam a disputa
- Decisões previstas antes e depois de dezembro
- Pontos-chave
A Comissão Europeia, responsável pela política comercial do bloco, está a analisar se os aumentos acentuados das importações justificam medidas de salvaguarda. Estas são medidas temporárias que podem limitar a entrada de mercadorias para dar tempo às indústrias nacionais para se ajustarem. Entre as opções em análise estão limites às importações, tarifas adicionais e tarifas aplicadas apenas quando as importações ultrapassam um determinado volume.
Os planos alargariam uma abordagem que está a ser desenvolvida para os veículos híbridos provenientes da China: um contingente anual inicial de 350 000 automóveis, com um aumento de 6% por ano a partir do segundo ano. O regime proposto teria a duração de quatro anos.
Embora a China seja o principal alvo, as restrições poderão abranger outros fornecedores de fora do Espaço Económico Europeu. A Coreia do Sul, o Japão e outros exportadores de veículos já estão atentos ao possível impacto nas suas exportações.
Para os fabricantes europeus, as medidas poderão reduzir a pressão da concorrência das importações. Para as empresas que importam veículos, produtos químicos ou maquinaria, poderão alterar tanto as quantidades que podem entrar no mercado como os custos. Pequim avisou que defenderá os seus interesses, deixando Bruxelas perante o desafio de equilibrar a proteção da indústria com o risco de retaliação.
Porque pondera Bruxelas uma ação mais abrangente
O défice de 360 mil milhões de euros significa que, em 2025, a UE comprou à China esse valor a mais em bens do que lhe vendeu. Dividindo o montante por 365, o défice corresponde a cerca de 986 milhões de euros por dia. A sua redução tornou-se um dos principais objetivos das medidas comerciais propostas.
Os dados comerciais do Eurostat relativos a 2025 situam o défice nos 359,8 mil milhões de euros, arredondados para 360 mil milhões, com base em exportações para a China no valor de 199,6 mil milhões de euros e importações de 559,4 mil milhões de euros. Os valores provêm do conjunto de dados ds-059331 da base de dados COMEXT do Eurostat. A metodologia dos dados comerciais do Eurostat explica que as estatísticas são compiladas mensalmente e abrangem o comércio dos 27 Estados-Membros da UE com países de fora do bloco, registando as importações por país de origem e as exportações por destino final.
As indústrias europeias enfrentam a pressão de produtos chineses a baixo preço, incluindo bens que beneficiam de subsídios, a par de uma procura mais fraca e de um acesso limitado a partes do mercado chinês. A Comissão começou a analisar os dados comerciais para identificar setores afetados por aumentos súbitos das importações.
Em outubro, os dirigentes da UE pediram medidas em vários setores económicos, numa cimeira em Bruxelas. Mais tarde, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, afirmou que o executivo tinha ouvido os pedidos dos fabricantes e tencionava responder.
As nossas indústrias pediram medidas e nós ouvimo-las, e vamos responder, nomeadamente com algumas medidas de salvaguarda adicionais,
Os produtos químicos, o mobiliário e a maquinaria estão entre os setores em análise. Os produtos abrangidos, as restrições e a distribuição por países ainda estão sujeitos a discussões com os Estados-Membros da UE e a China. A Comissão recusou comentar os planos noticiados.
Como funcionariam as restrições propostas
Uma quota estabelece um limite máximo para a quantidade de um produto que pode entrar num mercado. Uma tarifa é um imposto sobre bens importados. Um contingente pautal combina os dois: as importações podem entrar ao abrigo de determinadas condições até um limite, mas as remessas que ultrapassem esse limite ficam sujeitas a uma taxa adicional.
A Comissão está a ponderar estas ferramentas como alternativas, pelo que o efeito final dependerá da medida escolhida para cada setor. Um limite rígido restringe o volume disponível; uma tarifa permite que as importações continuem, mas encarece-as.
As medidas de salvaguarda propostas destinam-se a cumprir as regras da Organização Mundial do Comércio e abrangem fornecedores de fora do Espaço Económico Europeu, que inclui a UE, a Islândia, o Listenstaine e a Noruega. Em geral, as medidas de salvaguarda procuram responder a um aumento das importações que cause prejuízos graves aos produtores nacionais, pelo que têm um âmbito mais vasto do que uma medida dirigida exclusivamente aos subsídios de um país específico.
Bruxelas manteria a opção de agir sem o acordo de Pequim. No entanto, negociar primeiro um entendimento poderia reduzir o risco de a China responder com restrições às exportações europeias. Segundo foi noticiado, o contingente de 350 000 veículos foi escolhido, em parte, por os responsáveis o considerarem suficientemente elevado para dissuadir uma retaliação.
O plano para os veículos híbridos define a escala
A quota anual inicial proposta de 350 000 veículos híbridos provenientes da China compara com as 800 000 importações previstas para este ano. Isso representaria uma redução de 450 000 veículos, ou cerca de 56%. A comparação baseia-se numa previsão das importações deste ano, e não num total anual definitivo.
Aplicando o aumento anual proposto de 6%, o contingente da China passaria para 371 000 veículos no segundo ano, 393 260 no terceiro e cerca de 416 856 no quarto. Mesmo o contingente final ficaria bastante abaixo dos 800 000 veículos previstos.
A BYD e a Chery Automobile têm vindo a crescer rapidamente na Europa. As respetivas vendas europeias terão aumentado 135% e 256%, durante os primeiros nove meses do ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Estes números de vendas dizem respeito ao desempenho mais amplo das empresas no mercado; a quota proposta abrange as importações de veículos híbridos.
O calendário é descrito de duas formas: as propostas da Comissão poderão permitir que as restrições entrem em vigor em dezembro, mas também foi referido que os quatro períodos anuais de quota começariam no próximo ano. Antes da aplicação das medidas, deverá realizar-se uma investigação de salvaguarda. A relação exata entre uma entrada em vigor em dezembro e o primeiro contingente anual continua por definir.
Outros exportadores de veículos poderão estar sujeitos a quotas
A Coreia do Sul, o Japão, a Turquia, o Reino Unido e os Estados Unidos poderão receber quotas nacionais baseadas nas suas exportações recentes de veículos para a UE. A Comissão indicou que as reduções impostas a outros países seriam menores do que as aplicadas à China.
A forma como seriam tratadas as remessas que ultrapassassem as quotas de veículos é particularmente importante: segundo foi noticiado, seriam devolvidas na alfândega, em vez de admitidas mediante o pagamento de uma tarifa adicional. Assim, um importador poderia enfrentar uma interrupção das entregas, e não apenas uma fatura fiscal mais elevada.
A Hyundai Motor e a Kia poderão ser afetadas enquanto procuram responder à procura europeia de automóveis híbridos. O impacto dependerá da dimensão da quota atribuída à Coreia do Sul e da proporção da sua oferta europeia proveniente de veículos importados abrangidos pelas categorias em causa.
O âmbito mais alargado mostra porque é que a proposta importa para além das relações entre a UE e Pequim. Uma medida de salvaguarda dirigida a um aumento das importações dominado por produtos chineses pode também alterar as condições comerciais para fabricantes de outros países. As quotas nacionais determinariam a margem de manobra que esses fornecedores manteriam.
Pequim manifesta oposição à medida que aumenta o escrutínio sobre os produtos químicos
O Ministério do Comércio da China avisou a UE contra o recurso à pressão para obter concessões. Numa declaração de outubro, o ministério expôs a posição de Pequim sobre a proteção dos seus interesses comerciais.
Ninguém deve alimentar a ilusão de que pode beneficiar exercendo pressão, nem subestimar a determinação e a capacidade da China para salvaguardar os seus interesses nacionais.
A China anunciou também, em outubro, uma investigação anti-dumping às importações de p-nitrotolueno. Este produto químico é utilizado no fabrico de corantes, pigmentos, pesticidas e produtos farmacêuticos, ligando a disputa a cadeias de produção muito para além dos bens de consumo acabados.
Uma investigação anti-dumping analisa se os bens importados estão a ser vendidos abaixo do seu valor normal e se prejudicam os produtores nacionais. Se os critérios legais forem cumpridos, poderá levar à aplicação de direitos adicionais. Este processo difere de uma investigação de salvaguarda, que incide sobre os prejuízos causados por um aumento das importações.
Os produtores químicos europeus poderão, por conseguinte, enfrentar pressão de ambas as partes: novas regras de acesso ao mercado da UE e um escrutínio chinês dos produtos que entram na China. As próximas negociações decorrerão sob o risco de novas medidas de ambos os lados.
Encomendas postais e acesso ao mercado alargam a disputa
Os consumidores europeus que encomendam diretamente a fornecedores no estrangeiro poderão também deparar-se com um novo custo. Uma decisão distinta da UE, noticiada recentemente, prevê a introdução de uma taxa de tratamento de 2 euros por categoria de produto em encomendas enviadas diretamente aos consumidores, afetando compras em plataformas como a AliExpress e a Temu.
Segundo foi noticiado, a taxa deverá começar a ser aplicada no primeiro dia do mês seguinte à notícia da decisão, publicada no final de outubro. Como a cobrança é feita por categoria de produto, a estrutura de custos proposta difere de uma taxa fixa única aplicada a todas as encomendas, tornando o conteúdo de cada encomenda relevante para o valor cobrado.
Bruxelas procura também obter concessões que facilitem a venda de produtos europeus na China. Os acordos alcançados até agora incluiriam reduções pautais chinesas sobre determinadas peças para veículos, azeite e gelados.
A UE procura um melhor acesso ao mercado e procedimentos de exportação chineses mais simples para minerais críticos e ímanes permanentes. Estes materiais são importantes para os fabricantes, pois são utilizados em equipamentos industriais e em tecnologias como os motores elétricos. O seu lugar nas negociações faz com que as empresas europeias tenham interesse em manter o diálogo, mesmo enquanto se ponderam restrições às importações.
Decisões previstas antes e depois de dezembro
A Comissão está a preparar mais do que quotas setoriais. Antes de meados de dezembro, prevê apresentar propostas para diversificar as fontes de abastecimento e criar um instrumento que permita responder rapidamente a medidas comerciais agressivas. O instrumento de resposta proposto poderá restringir o acesso ao mercado único da UE a determinados bens e serviços de forma mais rápida e abrangente do que as opções atuais.
A sequência de medidas previstas prolonga-se até ao início de 2027:
- Outubro: Os dirigentes da UE pediram medidas numa cimeira em Bruxelas e a China anunciou a investigação ao p-nitrotolueno.
- Dezembro: As restrições aos veículos híbridos poderão entrar em vigor ao abrigo do calendário de aplicação proposto.
- Antes de meados de dezembro: A Comissão pretende apresentar propostas para diversificar o abastecimento e responder rapidamente.
- Primeiro trimestre de 2027: Poderão ser apresentadas medidas de salvaguarda mais abrangentes, que cubram setores como os produtos químicos, o mobiliário e a maquinaria.
- Início de 2027: Maros Sefcovic, responsável pelo comércio da UE, deverá analisar os progressos e discutir novas medidas com homólogos chineses.
Os fabricantes e importadores estarão atentos às definições dos produtos e à distribuição das quotas. Esses pormenores determinarão que remessas ficam sujeitas a limites, se as empresas conseguem suportar encargos adicionais e se é necessário redirecionar encomendas para outros fornecedores.
Pontos-chave
- A UE está a ponderar medidas de salvaguarda mais abrangentes às importações, possivelmente já no primeiro trimestre de 2027, com produtos químicos, mobiliário e maquinaria entre os setores em análise.
- Os dados do Eurostat situam o défice comercial de bens com a China nos 359,8 mil milhões de euros em 2025, arredondados para 360 mil milhões.
- Um regime proposto para os veículos híbridos começaria com 350 000 importações anuais da China, aumentando 6% por ano ao longo de quatro anos.
- Outros exportadores de veículos, incluindo a Coreia do Sul e o Japão, poderão também estar sujeitos a quotas nacionais.
- A China avisou contra o exercício de pressão e abriu uma investigação anti-dumping às importações de p-nitrotolueno.
- Estão previstas novas ferramentas comerciais da UE antes de meados de dezembro, e esperam-se conversações com Maros Sefcovic, responsável pelo comércio, no início de 2027.






