Uma linha disputada põe soldados em risco
A Coreia do Sul propôs conversações militares com a Coreia do Norte para 23 de outubro de 2026, procurando chegar a acordo sobre a localização da fronteira terrestre depois de uma explosão de uma mina, em 21 de setembro, ter ferido soldados sul-coreanos dentro da Zona Desmilitarizada. Seul afirma que o local da explosão ficava 10 metros a sul da Linha de Demarcação Militar. Pyongyang sustenta que os seus soldados trabalhavam em território norte-coreano.
Índice
- Uma linha disputada põe soldados em risco
- O que Seul pretende alcançar com as conversações
- Como se tornou difícil identificar a fronteira
- O que aconteceu na explosão de uma mina em setembro
- Como evoluiu o confronto
- A dimensão da campanha de colocação de minas
- Coreia do Norte ameaça com emissões de propaganda e ação militar
- Seul alia diplomacia a uma resposta cautelosa
- A importância da linha telefónica ainda disponível
- Principais pontos
A divergência vai além daquele pequeno troço de terreno. Dos 1.292 marcos instalados para assinalar a fronteira após o armistício da Guerra da Coreia, em 1953, apenas cerca de 200 continuam identificáveis. A Coreia do Sul, a Coreia do Norte e o Comando das Nações Unidas usam agora referências diferentes para localizar partes da mesma linha.
Kim Hong-cheol, vice-ministro sul-coreano da Defesa para a política de defesa nacional, propôs verificar conjuntamente a fronteira terrestre, restabelecer as linhas de comunicação militar e discutir formas de prevenir confrontos acidentais. O Comando das Nações Unidas, que supervisiona o armistício, poderá participar nas conversações.
Kim explicou por que razão Seul considera urgente chegar a um acordo:
Como as perceções sobre a localização da Linha de Demarcação Militar são diferentes, existe um elevado risco de confrontos acidentais se não forem tomadas medidas especiais.
A proposta surge após meses de obras norte-coreanas junto à fronteira, disparos de aviso da Coreia do Sul e ameaças cada vez mais duras de Pyongyang. Deputados sul-coreanos afirmam que os militares estimam que a Coreia do Norte tenha colocado 960.000 minas ao longo da fronteira desde 2024.
O que Seul pretende alcançar com as conversações
A agenda proposta pela Coreia do Sul liga três problemas práticos: os soldados discordam sobre a localização da linha, as ligações telefónicas militares diretas foram cortadas e as obras continuam a aproximar tropas dos dois lados.
Kim afirmou que o calendário e o local poderiam ser discutidos através de Panmunjom, a aldeia da trégua associada a anteriores negociações militares. Também deixou em aberto a possibilidade de uma reunião que envolvesse as duas Coreias e o Comando das Nações Unidas.
Seul consultou o comando antes de anunciar a proposta. Com as linhas de comunicação militar direta entre as duas Coreias cortadas, a oferta seria provavelmente transmitida aos militares norte-coreanos através do canal ainda disponível do comando.
Não tinha sido anunciada qualquer data para a reunião nem uma aceitação por parte da Coreia do Norte. Um convite anterior de Seul, feito em novembro de 2025, não obteve resposta. A aceitação abriria caminho à primeira reunião formal entre as autoridades militares dos dois países desde as conversações de outubro de 2018, em Panmunjom.
Como se tornou difícil identificar a fronteira
A Linha de Demarcação Militar, ou MDL, é a fronteira que atravessa a Zona Desmilitarizada, ou DMZ. Esta zona é a área-tampão mais ampla, estabelecida ao abrigo do armistício que pôs termo à Guerra da Coreia de 1950–53. Assim, os soldados podem estar dentro da DMZ e, ainda assim, permanecer do seu próprio lado da MDL.
O Governo sul-coreano descreveu a história por detrás da atual disputa no seu comunicado de novembro de 2025, publicado no Korea.net. Segundo o comunicado, os marcos fronteiriços foram instalados em agosto de 1953 sob a supervisão da Comissão Militar de Armistício.
De acordo com o relato do Governo, os trabalhos de reparação foram interrompidos em 1973, depois de tropas norte-coreanas terem disparado contra uma equipa de reparação do Comando das Nações Unidas. Desde então, os marcos não foram devidamente mantidos.
Atualmente, só é possível identificar cerca de 200 dos 1.292 marcos originais, aproximadamente 15%. Por isso, os soldados dependem sobretudo de mapas e coordenadas, em vez de sinalização visível no terreno.
A Coreia do Sul começou a trabalhar com a Agência Nacional de Informações Geoespaciais dos EUA em 2004 para fazer corresponder a MDL representada nos mapas originais ao terreno real. A linha resultante é utilizada nos mapas militares sul-coreanos. O Comando das Nações Unidas utiliza coordenadas desenvolvidas no âmbito do seu próprio projeto da MDL, em 2016, enquanto se acredita que a Coreia do Norte se baseie na sua própria interpretação dos marcos físicos.
Consequentemente, soldados que se aproximem do mesmo local podem agir com base em interpretações diferentes do lado em que se encontram. Seul pretende que as partes estabeleçam uma referência comum, para que essas decisões deixem de depender de mapas concorrentes.
O que aconteceu na explosão de uma mina em setembro
A explosão de 21 de setembro ocorreu durante uma missão para desimpedir um caminho destinado a uma investigação conjunta com o Comando das Nações Unidas sobre as obras norte-coreanas na fronteira. Os militares sul-coreanos concluíram que a explosão na frente ocidental foi causada por minas antipessoal norte-coreanas colocadas a sul da MDL.
Seul afirmou que três soldados sul-coreanos ficaram feridos, dois deles com gravidade, embora um balanço de vítimas divulgado também tenha indicado que foram dois os feridos. A Coreia do Norte negou ser responsável e acusou a Coreia do Sul de inventar a investigação.
A localização está no centro do confronto. A Coreia do Sul situa a colocação das minas e o local da explosão a 10 metros a sul da linha. A Coreia do Norte descreve as suas obras como trabalhos realizados no seu território, a norte da fronteira.
A Coreia do Sul e o Comando das Nações Unidas realizaram uma inspeção antes de Seul atribuir formalmente a explosão a minas norte-coreanas. Posteriormente, Seul instou Pyongyang a pedir desculpa e a remover as minas restantes.
Os militares sul-coreanos estimam também que um número considerável das minas colocadas durante a recente campanha de obras da Coreia do Norte tenha sido instalado a sul da MDL. A rejeição da investigação por Pyongyang deixou os dois Governos a discutir tanto a responsabilidade pelos ferimentos como a própria localização da fronteira.
Como evoluiu o confronto
A campanha de obras da Coreia do Norte sucedeu à declaração de Kim Jong-un, no final de 2023, de que as relações com o Sul eram as de dois Estados hostis. Os trabalhos detetados desde abril de 2024 incluem a remoção de vegetação, a construção de estradas para movimentação militar, a instalação de vedações e barreiras anticarro e a colocação de minas.
- Agosto de 1953: Foram instalados marcos fronteiriços na sequência do armistício da Guerra da Coreia.
- 1973: As reparações dos marcos foram interrompidas depois de tropas norte-coreanas terem disparado contra uma equipa de reparação do Comando das Nações Unidas, segundo o Governo sul-coreano.
- Abril de 2024: A Coreia do Sul detetou um aumento das obras norte-coreanas na fronteira.
- 17 de novembro de 2025: Seul propôs conversações militares para estabelecer uma linha de referência comum para a MDL.
- 21 de setembro de 2026: Uma explosão de uma mina feriu soldados sul-coreanos dentro da DMZ.
- 23 de outubro de 2026: Seul renovou a proposta, incluindo na agenda as linhas de comunicação e medidas para prevenir confrontos acidentais.
A Coreia do Sul afirma que soldados norte-coreanos atravessaram a MDL cerca de 50 vezes durante as obras deste ano. Seul afirma também que a Coreia do Norte enviou até 7.000 trabalhadores para a fronteira. As forças sul-coreanas responderam às travessias com avisos sonoros e disparos de aviso, destinados a levar os soldados a recuar.
A dimensão da campanha de colocação de minas
Os militares sul-coreanos apresentaram a estimativa de 960.000 novas minas norte-coreanas à Assembleia Nacional, segundo deputados que integram as comissões de informações e de defesa. A estimativa abrange a atividade desde 2024.
O número dá uma ideia da dimensão do trabalho que espera os soldados que patrulham, inspecionam ou desimpedem percursos na zona fronteiriça. As minas antipessoal destinam-se a ferir ou matar pessoas, e os explosivos enterrados podem continuar a ser perigosos depois de terminada a operação em que foram colocados.
O ministro da Unificação, Chung Dong-young, avançou uma estimativa mais abrangente durante uma auditoria parlamentar realizada no início de outubro: mais de 2 milhões de minas em toda a DMZ, incluindo as colocadas pelas forças sul-coreanas. O número de 960.000 diz respeito à recente campanha de colocação de minas da Coreia do Norte, enquanto a estimativa mais elevada inclui minas dos dois lados.
Para as tropas no terreno, chegar a acordo sobre as coordenadas ajudaria a determinar onde podem operar patrulhas e equipas de obras. A remoção dos explosivos já colocados exigiria medidas adicionais, tornando a desminagem um desafio prático distinto, a par da verificação da fronteira.
Coreia do Norte ameaça com emissões de propaganda e ação militar
Kim Yo Jong, irmã do líder norte-coreano e uma das principais vozes sobre as relações com Seul e Washington, inspecionou fortificações na fronteira com o marechal Pak Jong-chon, conselheiro do Ministério da Defesa da Coreia do Norte. As suas declarações associaram as obras à política de Pyongyang de cortar permanentemente as relações com o Sul.
Kim anunciou um calendário para retomar as emissões por altifalantes dirigidas à Coreia do Sul:
As nossas equipas táticas de caça estão a ocupar novas posições e, até ao final de outubro, os altifalantes para a guerra psicológica contra a ROK estarão em funcionamento ao longo de toda a fronteira.
ROK refere-se à República da Coreia, o nome oficial da Coreia do Sul. Kim afirmou posteriormente que os altifalantes estariam em estado de prontidão dentro de poucos dias. Também ameaçou retaliar caso os disparos de aviso sul-coreanos atingissem território ou pessoal norte-coreano.
Pak rejeitou a descrição de Seul das obras como incursões. Numa declaração, o conselheiro norte-coreano para a Defesa afirmou:
O nosso exército sabe melhor do que qualquer outro onde fica a nossa fronteira, e estamos a fazer o que devemos no nosso território.
Pyongyang também ameaçou instalar armas táticas adicionais ao longo da fronteira e afirmou que novas unidades tinham ocupado posições de tiro. Estas ameaças tornam especialmente perigosa a divergência sobre os disparos de aviso: Seul descreve-os como uma forma de impedir travessias, enquanto a Coreia do Norte os apresenta como uma ameaça às suas tropas.
Seul alia diplomacia a uma resposta cautelosa
A porta-voz do Ministério da Defesa sul-coreano, Chung Binna, afirmou que Seul adotaria medidas proporcionais em resposta às ações da Coreia do Norte. Jin Yong-sung, chefe do Estado-Maior Conjunto, ordenou aos militares que respondessem com firmeza a eventuais provocações.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul procurou levar o incidente com a mina ao Conselho de Segurança das Nações Unidas através de uma carta que o descrevia como uma violação do armistício. Seul tem, por isso, recorrido à pressão diplomática a par da proposta de reunião militar.
Um responsável do Governo sul-coreano, que falou sob anonimato, afirmou que não estavam atualmente previstas medidas mais firmes para além da demonstração de novas armas e que não estava a ser ponderada a retoma das emissões por altifalantes dirigidas ao Norte. Os avisos da Coreia do Sul dirigidos aos soldados que atravessam a MDL têm um objetivo imediato diferente do das emissões de propaganda mais abrangentes através da fronteira.
O Presidente Lee Jae Myung suspendeu as emissões de propaganda sul-coreanas depois de tomar posse, em 2025, numa tentativa de melhorar as relações. Mais tarde, a Coreia do Norte também interrompeu as suas emissões. O anúncio de Pyongyang de que as vai retomar poria fim a esse período de contenção.
Lim Eul-chul, professor no Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade de Kyungnam, manifestou ceticismo quanto ao convite. Afirmou que a Coreia do Norte considera a conclusão das fortificações o passo final para estabelecer o seu quadro de dois Estados hostis. Park In-hwi, reitor da Escola de Pós-Graduação em Estudos Internacionais da Universidade Ewha Womans, afirmou que Seul parecia recear que uma resposta mais firme reforçasse essa política, enquanto a indignação pública pelos soldados feridos apontava no sentido oposto.
A importância da linha telefónica ainda disponível
O Comando das Nações Unidas mantém uma linha telefónica direta com o Exército Popular da Coreia do Norte, vulgarmente chamada «telefone cor-de-rosa». Com as ligações diretas entre Seul e Pyongyang cortadas, é o único canal de comunicação militar que resta para transmitir mensagens entre as partes.
O comando reafirmou o seu compromisso com o armistício e com a redução do risco de erros de cálculo e de uma escalada não intencional ao longo da MDL. Recusou revelar se tinha contactado a Coreia do Norte acerca da mais recente proposta de Seul, invocando a prática de manter privadas as comunicações com Pyongyang.
Uma reunião com a participação do comando reuniria as autoridades que usam as diferentes referências fronteiriças. O restabelecimento das linhas telefónicas militares permitiria também aos oficiais pedir esclarecimentos quando uma patrulha ou equipa de obras se aproximasse de terreno disputado.
O objetivo imediato de Seul é concreto: conseguir que as partes acordem onde os soldados podem permanecer e trabalhar, e assegurar uma forma de comunicar antes que os disparos de aviso se transformem numa troca de tiros. O prazo anunciado pela Coreia do Norte para pôr os altifalantes em funcionamento, no final de outubro, acrescenta uma nova data próxima ao confronto, enquanto as conversações militares aguardam uma resposta.
Principais pontos
- A Coreia do Sul propôs conversações militares para 23 de outubro de 2026, a fim de verificar a fronteira terrestre, restabelecer as linhas de comunicação e prevenir confrontos acidentais.
- Apenas cerca de 200 dos 1.292 marcos fronteiriços originais continuam identificáveis.
- Seul atribuiu a explosão de 21 de setembro a minas norte-coreanas; Pyongyang rejeitou a responsabilidade.
- Deputados sul-coreanos afirmam que os militares estimam que a Coreia do Norte tenha colocado 960.000 minas desde 2024.
- A Coreia do Norte ameaçou pôr altifalantes de propaganda em funcionamento ao longo da fronteira até ao final de outubro.
- O Comando das Nações Unidas poderá participar nas conversações e mantém uma linha telefónica direta com os militares norte-coreanos.
- Não tinha sido anunciada qualquer data para a reunião nem uma aceitação por parte da Coreia do Norte.






