Aos 16 anos, quase uma em cada seis raparigas apresentava sintomas depressivos
Um estudo que acompanhou 3 171 adolescentes em Tóquio concluiu que 15,9% das raparigas apresentavam sintomas depressivos aos 16 anos, contra 8,2% dos rapazes. Na análise estatística dos investigadores, a solidão e o desejo de ser mais magra aos 14 anos explicaram uma estimativa de 34,7% desta diferença.
Índice
- Aos 16 anos, quase uma em cada seis raparigas apresentava sintomas depressivos
- O que relataram os adolescentes de Tóquio
- Os jovens ajudaram a definir a questão de investigação
- Como duas experiências explicaram parte da diferença
- Porque é que as redes sociais fazem parte da discussão
- Um estudo em Ehime acrescenta dados sobre a imagem corporal
- Os dados nacionais mostram a urgência do problema
- Como se desenvolveu a investigação
- O que os investigadores querem que os adultos mudem
- Principais conclusões
A diferença também foi substancial no que diz respeito a pensamentos suicidas: aos 16 anos, 29,8% das raparigas e 18,1% dos rapazes disseram tê-los tido. Os percursos associados à solidão e ao desejo de ser magra explicaram uma estimativa de 46,3% desta diferença, chamando a atenção para pressões que as escolas, as famílias e as comunidades poderão conseguir alterar.
A equipa internacional incluiu investigadores do Centro Nacional de Neurologia e Psiquiatria do Japão (NCNP), do Instituto Metropolitano de Ciências Médicas de Tóquio, da Universidade de Tóquio e do King's College London. As conclusões foram publicadas na revista Nature Human Behaviour a 15 de setembro de 2026, segundo o comunicado de investigação da Universidade de Tóquio.
Os jovens ajudaram a escolher o que os investigadores deveriam estudar. Em sessões de trabalho, falaram do medo de serem excluídos, do desgaste de estarem constantemente a tentar integrar-se, das comparações da silhueta nos telemóveis e da pressão para que as raparigas sejam magras. O estudo analisou depois a solidão e o desejo de ser magra, recorrendo a dados recolhidos aos 12, 14 e 16 anos.
As conclusões dão números concretos a essas experiências. Também desviam a atenção para as relações e as pressões relacionadas com a aparência que rodeiam os adolescentes, a par das suas necessidades individuais de saúde mental. Os rapazes também sentiam um mal-estar considerável: cerca de um em cada 12 apresentava sintomas depressivos e quase um em cada cinco dizia ter pensamentos suicidas.
O que relataram os adolescentes de Tóquio
A análise da Tokyo Teen Cohort abrangeu 1 487 raparigas e 1 684 rapazes, nascidos entre 2002 e 2004. O acompanhamento dos mesmos participantes ao longo do tempo permitiu aos investigadores analisar se as experiências aos 14 anos estavam associadas à saúde mental aos 16, tendo em conta as circunstâncias anteriores.
Aos 14 anos, as raparigas referiram com mais frequência do que os rapazes tanto a solidão como o desejo de ser mais magras. A solidão afetava 13,2% das raparigas e 6,0% dos rapazes. O desejo de ser magra foi referido por 41,4% das raparigas e 11,1% dos rapazes.
Por outras palavras, cerca de quatro em cada 10 raparigas queriam ser mais magras, contra cerca de um em cada nove rapazes. A diferença era de 30,3 pontos percentuais. As raparigas também tinham mais do dobro da probabilidade de referir solidão.
Aos 16 anos, a diferença na prevalência de sintomas depressivos era de 7,7 pontos percentuais, enquanto a diferença nos pensamentos suicidas era de 11,7 pontos percentuais. Os sintomas depressivos eram quase duas vezes mais comuns entre as raparigas. Estes valores descrevem respostas a questionários sobre sintomas e pensamentos; é através de uma avaliação clínica que se determina o diagnóstico e as necessidades de apoio de cada pessoa.
Os jovens ajudaram a definir a questão de investigação
Entre 2022 e 2025, os investigadores conversaram com jovens para perceber o que estava na origem do seu mal-estar. Sessões de trabalho com cerca de 20 jovens do Japão e da Grã-Bretanha ajudaram a identificar experiências que, de outro modo, os adultos poderiam não ter em conta.
Os participantes falaram do medo de serem excluídos de um grupo, de terem poucos amigos com quem pudessem falar com franqueza e do cansaço provocado pela necessidade de se adaptarem aos outros. As conversas também abordaram as provocações relacionadas com a aparência e as comparações da silhueta na Internet.
A solidão e o desejo de ser magra tornaram-se o foco do estudo porque os jovens os consideravam importantes e os dados da coorte incluíam indicadores que os investigadores podiam analisar. O processo ligou relatos pessoais a uma investigação estatística, em vez de deixar a escolha das perguntas de investigação inteiramente nas mãos dos adultos.
Zui Narita, investigador do NCNP que liderou o estudo, afirmou que a participação dos jovens ajudou a equipa a centrar-se naquilo que os próprios participantes consideravam importante. Os seus relatos também sugeriram que a aparência e o sentimento de pertença podem estar estreitamente ligados: a pressão em torno da silhueta pode coexistir com a ansiedade quanto à aceitação por parte dos amigos.
Como duas experiências explicaram parte da diferença
Os investigadores recorreram a um método chamado análise de mediação causal, aplicando uma abordagem estatística conhecida como fórmula g de mediação paramétrica. Em termos simples, o método estima que parte de uma diferença entre grupos poderá dever-se a determinadas experiências intermédias, neste caso, a solidão e o desejo de ser magra.
A análise teve em conta circunstâncias medidas aos 12 anos, as duas experiências aos 14 e os resultados de saúde mental aos 16. Os ajustes incluíram a constituição física, a atividade física, as relações com os pais e os amigos, o bullying, a utilização da Internet, o desenvolvimento pubertário e indicadores anteriores de saúde mental. Estes fatores são relevantes porque podem influenciar tanto as experiências de um adolescente como o seu mal-estar posterior.
A contribuição estimada da solidão e do desejo de ser magra variou consoante o resultado:
- Sintomas depressivos: 34,7% da diferença entre raparigas e rapazes.
- Pensamentos suicidas atuais: 46,3% da diferença.
- Autolesão: 26,7% da diferença.
- Sintomas emocionais: 23,5% da diferença.
- Ansiedade: 7,7% da diferença.
Estas percentagens dizem respeito à diferença entre raparigas e rapazes. Por exemplo, a estimativa de 34,7% refere-se à diferença entre os grupos nos sintomas depressivos. Os investigadores realizaram também 19 análises de sensibilidade, verificações que alteram pressupostos ou opções analíticas, e concluíram que os resultados eram, em geral, consistentes com a análise principal.
As estimativas provêm de um estudo observacional e dependem de pressupostos sobre as relações entre os fatores medidos. A equipa identificou a realização de testes noutras regiões e populações como um passo seguinte, uma vez que a coorte representa sobretudo a zona urbana de Tóquio.
Porque é que as redes sociais fazem parte da discussão
Os jovens participantes falaram das comparações entre corpos através dos telemóveis e das expectativas de que as mulheres sejam magras. Os seus relatos identificam formas concretas pelas quais a atividade em linha pode trazer a pressão sobre a aparência para o quotidiano das amizades.
Hirofumi Utsumi, diretor executivo da Sukuto, uma organização sem fins lucrativos em Omura, na província de Nagasaki, relacionou essas experiências com o seu trabalho na disponibilização de ensino alternativo e de espaços onde as crianças podem passar tempo e sentir-se aceites. Descreveu grupos de amigos em que consultar e responder rapidamente às publicações nas redes sociais se torna uma forma de confirmar que se pertence ao grupo.
Utsumi afirmou que a aprovação associada à aparência pode transformar um padrão exigente em algo que as raparigas sentem ter de cumprir simplesmente para continuarem a ser aceites. Na sua perspetiva, querer ser magra pode traduzir um desejo urgente de integração, a par do medo da rejeição.
A análise de Tóquio incluiu a utilização da Internet entre os fatores considerados nos ajustes estatísticos. As principais medições acompanharam a solidão e o desejo de ser magra aos 14 anos e a saúde mental aos 16. As questões relativas a plataformas, conteúdos e padrões de interação específicos exigem estudos concebidos para analisar esses aspetos.
Um estudo em Ehime acrescenta dados sobre a imagem corporal
Um estudo realizado em setembro de 2020 em Toon, na província de Ehime, analisou as redes sociais e a insatisfação com o corpo entre 161 raparigas dos 12 aos 15 anos, alunas das duas escolas públicas do ensino básico da cidade. O estudo centrou-se na forma como as raparigas se sentiam em relação ao próprio corpo.
O estudo sobre a imagem corporal, intitulado «Efeitos das redes sociais na insatisfação corporal de alunas do ensino básico no Japão», classificou 44 participantes como tendo insatisfação corporal e 117 como estando abaixo do limiar definido pelo questionário. A insatisfação corporal consiste em ter pensamentos ou sentimentos negativos sobre o próprio tamanho, forma ou peso.
As raparigas com insatisfação corporal usavam as redes sociais com mais frequência e seguiam mais vezes contas centradas na magreza. Seguir essas contas estava associado a uma razão de possibilidades ajustada de 3,82 para a insatisfação corporal. A razão de possibilidades compara a probabilidade de um resultado entre grupos; não corresponde a uma comparação direta da percentagem de pessoas afetadas.
A estimativa tinha um intervalo de confiança de 95% amplo, entre 1,05 e 13,89, o que indica uma incerteza considerável quanto à dimensão da associação. Os investigadores recolheram os indicadores num único momento e defenderam a realização de estudos que acompanhem os participantes ao longo do tempo para esclarecer a relação.
Os resultados de Ehime acrescentam um pormenor específico à discussão: os conteúdos que as raparigas seguem podem ser relevantes, a par da frequência com que usam as redes sociais. A coorte de Tóquio oferece uma perspetiva diferente, acompanhando as experiências e a saúde mental posterior ao longo da adolescência.
Os dados nacionais mostram a urgência do problema
Um comunicado de investigação do NCNP de 2025, com base em estatísticas do Ministério da Saúde, do Trabalho e da Segurança Social, registou 430 mortes por suicídio entre raparigas com menos de 20 anos em 2024, contra 370 entre rapazes. O comunicado indicou que, pela primeira vez, o número de raparigas ultrapassou o de rapazes neste grupo etário.
Dez anos antes, os números correspondentes eram 165 raparigas e 373 rapazes. O número de raparigas aumentou, portanto, em 265, ou cerca de 161%, enquanto o número de rapazes se manteve praticamente inalterado. Em 2024, as raparigas representavam cerca de 54% do total combinado, contra aproximadamente 31% uma década antes.
Uma contagem mais restrita, relativa a alunos do ensino primário, básico e secundário, registou 290 raparigas e 239 rapazes em 2024, também a primeira inversão nesta categoria. Em 2025, o número de raparigas voltou a superar o de rapazes. Os dados relativos a alunos abrangem pessoas inscritas na escola, enquanto os números mais amplos incluem todas as pessoas com menos de 20 anos.
O comunicado do NCNP acompanhava um artigo diferente, «A crise silenciosa da saúde mental das raparigas», publicado em linha na Nature Human Behaviour a 30 de setembro de 2025. O artigo identificava vários fatores que poderão contribuir para o problema, incluindo a pressão para corresponder às expectativas tradicionais sobre as mulheres e, ao mesmo tempo, alcançar sucesso social, a utilização nociva da Internet, a exploração sexual em linha e presencial, o desejo excessivo de ser magra e a puberdade mais precoce.
Como se desenvolveu a investigação
A investigação reúne vários períodos: os anos em que os participantes de Tóquio cresceram, as conversas posteriores com jovens e a publicação de dois artigos académicos. Manter essas datas separadas ajuda a compreender como o estudo se desenvolveu.
- 2002 a 2004: nasceram os participantes da coorte de Tóquio.
- Aos 12, 14 e 16 anos: os participantes preencheram os questionários utilizados na análise da coorte.
- Setembro de 2020: os investigadores realizaram o inquérito sobre imagem corporal em Toon, na província de Ehime.
- 2022 a 2025: as conversas com jovens ajudaram a identificar a solidão e o desejo de ser magra como prioridades de investigação.
- 30 de setembro de 2025: «A crise silenciosa da saúde mental das raparigas» foi publicado em linha.
- 15 de setembro de 2026: o artigo sobre a coorte de Tóquio, a solidão, a magreza e as diferenças na saúde mental dos adolescentes foi publicado em linha.
- 17 de setembro de 2026: a Universidade de Tóquio divulgou o comunicado de investigação.
As percentagens relativas a Tóquio descrevem experiências vividas pelos participantes durante a adolescência. As estatísticas nacionais sobre mortes e as consultas posteriores oferecem um contexto mais recente para compreender a relevância das conclusões nos atuais debates sobre o apoio aos jovens.
O que os investigadores querem que os adultos mudem
Narita apelou a medidas sobre os contextos que geram pressão em torno da aparência e solidão. Entre as respostas que propôs estão medidas educativas e nos meios de comunicação social para reduzir as expectativas nocivas em relação à aparência, bem como o reforço dos laços nas escolas e nas comunidades.
Narita, o investigador do NCNP que liderou o estudo, afirmou que os adultos podem ajudar a reduzir o desejo de ser magra. Em declarações traduzidas, disse:
O desejo de ser magra resulta de um ambiente criado pelos adultos e pode ser reduzido. São necessárias medidas educativas e nos meios de comunicação social para reduzir a pressão nociva em torno da aparência, bem como iniciativas para criar laços nas escolas e nas comunidades.
O comunicado da universidade apelou também à participação dos jovens na elaboração de respostas educativas, nos meios de comunicação social e nas políticas públicas. Os relatos das sessões de trabalho apontam para prioridades práticas: reduzir as provocações relacionadas com a aparência, tornar as amizades mais seguras e criar oportunidades para falar com franqueza sem medo de exclusão.
Utsumi destacou a importância de os adultos serem mais acessíveis. Apelou-lhes a que criem confiança, ouvindo as crianças até ao fim e dando-lhes mais oportunidades para se sentirem aceites no quotidiano. A resposta que propõe aborda a necessidade de pertença que, na sua perspetiva, está por detrás da procura de aprovação em linha.
O comunicado de investigação não definiu um calendário de execução para nenhum programa específico. A próxima prioridade da investigação é testar as conclusões fora da zona urbana de Tóquio, enquanto o apoio proposto se centra em dois objetivos concretos: reduzir a pressão em torno da aparência e reforçar os laços com outras pessoas.
Principais conclusões
- Entre 3 171 adolescentes de Tóquio, 15,9% das raparigas e 8,2% dos rapazes referiram sintomas depressivos aos 16 anos.
- 29,8% das raparigas e 18,1% dos rapazes disseram ter tido pensamentos suicidas.
- A solidão e o desejo de ser magra aos 14 anos explicaram uma estimativa de 34,7% da diferença nos sintomas depressivos e de 46,3% da diferença nos pensamentos suicidas.
- Aos 14 anos, 41,4% das raparigas queriam ser mais magras, contra 11,1% dos rapazes.
- Os jovens ajudaram a escolher as prioridades de investigação através de conversas sobre exclusão, amizades e pressão em torno da aparência.
- Os investigadores apelaram ao reforço das relações sociais, à redução da pressão em torno da aparência e à realização de mais estudos noutras populações.






