Um apelo público após anos de atenção indesejada
A estrela chinesa do ténis de mesa Fan Zhendong insurgiu-se contra as gravações clandestinas a 21 de outubro de 2026, traçando uma ligação direta entre apoiar um atleta e invadir a sua vida privada. A sua mensagem dirigiu-se a quem o grava enquanto o chama, apresentando depois o encontro como uma demonstração de afeto.
Índice
- Um apelo público após anos de atenção indesejada
- Uma saudação é diferente de um encontro com uma câmara
- O afeto e a publicação tardia não respondem à sua objeção
- Os avisos começaram muito antes desta publicação
- A intrusão no hotel ultrapassou um limite físico
- Como um número de identificação divulgado chegou à família
- Outros atletas e treinadores enfrentam pressões semelhantes
- Entidades desportivas avançam com restrições
- A proteção da privacidade estende-se para além dos recintos desportivos
- Pontos principais
Fan afirmou que nem a identidade de quem grava nem as suas intenções alteram o desrespeito envolvido. A publicação das imagens mais tarde, em vez de imediatamente, também fazia parte do problema que descreveu. A sua objeção dizia respeito ao ato de gravar e divulgar momentos privados, não apenas ao momento em que o público os pode ver.
A declaração do campeão olímpico surge na sequência de uma série de queixas que remontam a 2021. Entre elas contam-se uma intrusão num quarto de hotel, revelada em abril de 2023, e a divulgação do seu número de identificação, em março de 2024, que, segundo afirmou, permitiu a outras pessoas descobrir números de telefone usados pela sua família e sujeitá-la a assédio.
O mais recente apelo de Fan surgiu também um dia depois de a colega de modalidade Sun Yingsha ter dito que não organizaria, participaria nem incentivaria atividades de apoio por ocasião de aniversários. Em conjunto, as declarações chamam a atenção para um problema prático enfrentado por atletas de destaque: como acolher o apoio desportivo sem perder o controlo do seu tempo, das suas informações pessoais e dos encontros do dia a dia.
Uma saudação é diferente de um encontro com uma câmara
Ao explicar a sua posição numa publicação nas redes sociais a 21 de outubro, Fan disse estar disposto a responder a abordagens normais e amigáveis:
Os adeptos ponderados e os transeuntes simpáticos não me cumprimentam com os telemóveis erguidos e as câmaras a gravar. Longe de rejeitar as suas abordagens, sempre gostei de lhes responder.
Quem o filma enquanto o chama cria uma situação diferente, afirmou. É-lhe difícil perceber se essas pessoas o admiram e apoiam genuinamente ou se gerem contas nas redes sociais à procura de lucrar com a atenção online. Uma conversa que parece pessoal pode também transformar-se em conteúdo para um público muito maior.
A declaração de Fan aborda diretamente essa incerteza. Podem abordá-lo como pessoa e, ao mesmo tempo, gravá-lo para publicar as imagens. Estar disposto a responder a uma saudação e aceitar aparecer no vídeo de alguém são escolhas distintas.
Rejeitou também a ideia de que estabelecer limites pessoais firmes equivale a ser frio. O seu relato deixa espaço para interações amigáveis, desde que o encontro não comece com um telemóvel erguido e uma câmara a gravar.
O afeto e a publicação tardia não respondem à sua objeção
Fan começou a sua publicação com um apelo clássico chinês à reciprocidade: não devemos fazer aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem. Pediu aos leitores que pensassem se gostariam de ser filmados às escondidas.
A referência à publicação tardia respondia a uma justificação específica para as gravações intrusivas. Alguém pode guardar as imagens durante algum tempo antes de as carregar ou partilhar, mas Fan afirmou que essa demora não altera a invasão que sente. O momento pessoal foi, ainda assim, captado e transformado em algo que outras pessoas podem divulgar.
Fan contestou também a justificação de que as gravações são feitas por amor. Na sua mensagem, o efeito sobre a pessoa filmada prevaleceu sobre a explicação de quem segura a câmara.
Comentários de apoio online fizeram eco do seu pedido de distanciamento fora das competições. Alguns criticaram a prática de aproximar os telemóveis dos atletas e defenderam que a admiração se deve centrar nas prestações desportivas, e não no acesso às rotinas privadas.
Os avisos começaram muito antes desta publicação
Fan tem pedido repetidamente aos apoiantes que não sigam os seus movimentos nem importem para o desporto práticas agressivas associadas aos fãs de celebridades. A cronologia mostra como esses apelos evoluíram: de objeções a perseguições e gravações para queixas envolvendo acesso físico e dados pessoais.
- 17 de outubro de 2021: Fan opôs-se à obtenção de informações privadas sobre os seus itinerários por meios especiais, a segui-lo em voos e à organização de sessões fotográficas dos seus movimentos pessoais.
- Durante 2022: Apelou aos apoiantes para respeitarem os treinadores e os colegas de equipa, evitarem conflitos entre fãs e rejeitarem comportamentos que transformam o apoio desportivo em fações hostis. A 15 de novembro, voltou a manifestar o seu desconforto por ser perseguido e filmado às escondidas.
- 6 de abril de 2023: Uma declaração revelou que uma mulher o tinha seguido, conseguido acesso ao seu quarto de hotel e entrado quando ele estava ausente. O caso foi comunicado à polícia.
- 25 de março de 2024: Fan afirmou que o seu número de identificação tinha sido divulgado maliciosamente na Internet e usado para localizar números de telefone registados em seu nome.
- 20 e 21 de outubro de 2026: Sun rejeitou atividades organizadas de apoio por ocasião de aniversários, seguindo-se a renovada oposição de Fan às gravações clandestinas.
Os apelos repetidos dizem respeito a diferentes formas de acesso indesejado. Informações privadas sobre viagens podem ajudar alguém a localizar um atleta; um cartão de acesso ao hotel permite entrar num quarto; um número de identificação pode expor dados de contacto. Cada episódio aproximou a intrusão da vida quotidiana de Fan.
A intrusão no hotel ultrapassou um limite físico
Na declaração de abril de 2023, Fan descreveu uma mulher que o seguiu durante vários dias enquanto se preparava para um torneio do World Table Tennis em Xinxiang, na província de Henan. Segundo a declaração, ela identificou o quarto de hotel e obteve um cartão de acesso junto da receção.
A declaração dizia que ela entrou várias vezes no quarto naquela manhã, enquanto ele estava ausente, havendo provas fornecidas pelos funcionários da limpeza e pelas imagens de videovigilância. Fan comunicou a intrusão à polícia e afirmou que o incidente lhe causou grande angústia.
Deixou então de aceitar qualquer forma de contacto pessoal, incluindo cartas, para proteger a sua segurança. As consequências foram além da pessoa acusada de entrar no quarto: uma atividade que poderia ter sido uma troca bem-vinda com os apoiantes tornou-se algo que sentiu não poder continuar a fazer.
O episódio no hotel também alargou a responsabilidade para além da conduta de um fã. O relato de Fan descreveu como o acesso foi obtido através da receção, tornando a gestão das informações sobre os quartos e dos cartões de acesso parte do problema de segurança.
Como um número de identificação divulgado chegou à família
A queixa de Fan, a 25 de março de 2024, dizia respeito a informações pessoais, e não a perseguição física. Afirmou que tinham divulgado o seu número de identificação na Internet e usado esse número para encontrar telefones registados em seu nome.
Explicou que vários desses números eram usados por familiares. Assim, as chamadas de assédio e os insultos chegaram também aos seus parentes, além de exporem as suas próprias informações. Fan afirmou que a experiência causou um dano psicológico considerável à família.
Um número de identificação é um dado sensível que permite associar uma pessoa a registos e serviços oficiais. No incidente descrito por Fan, o acesso a esse número tornou-se uma via para obter outras informações pessoais. A intrusão passou de uma divulgação online a contactos diretos com pessoas próximas.
Num aviso aos responsáveis, publicado em março de 2024, Fan afirmou que denunciaria à polícia quaisquer violações continuadas:
Se continuarem a ultrapassar o limite, reunirei provas e apresentarei queixa à polícia quando chegar a casa.
Disse também que a Internet estava sujeita à lei e que a cultura de fãs não protegia ninguém da responsabilidade legal. A sua resposta combinou um apelo público para que parassem com a intenção declarada de preservar provas.
Outros atletas e treinadores enfrentam pressões semelhantes
A declaração de Sun Yingsha, a 20 de outubro, abordou o apoio organizado por ocasião de aniversários, e não as gravações. Ao recusar organizar, participar ou incentivar essas atividades, estabeleceu um limite para aquilo que os apoiantes deveriam fazer em seu nome.
Wang Chuqin também pediu aos apoiantes que evitassem comportamentos semelhantes aos dos paparazzi, depois de alguém o ter seguido de perto e filmado num aeroporto, num incidente ocorrido em outubro. Os aeroportos surgem repetidamente em queixas de perseguição, uma vez que os atletas em deslocação entre competições podem tornar-se alvos de gravações e de tentativas de contacto.
Os treinadores também têm sido pressionados por causa de decisões desportivas. Durante o World Table Tennis China Smash, um grupo confrontou o treinador da seleção nacional Wang Hao num corredor do recinto, exigiu explicações sobre a escolha dos jogadores e insultou-o. Wang pediu ajuda à polícia.
Posteriormente, a polícia anunciou a detenção administrativa de três pessoas, incluindo uma de 16 anos, por difamação e insultos graves, e repreendeu outras 17 por infrações menos graves. A detenção administrativa é uma sanção policial por uma violação da ordem pública, distinta de uma pena de prisão aplicada após uma condenação criminal.
Os incidentes mostram várias formas como a atenção em torno do desporto pode tornar-se intrusiva: filmar um atleta durante uma viagem, organizar atividades que este não quer ou confrontar um treinador por causa de quem joga. Os efeitos imediatos recaem sobre pessoas diferentes, mas todos estes casos envolvem apoiantes que reivindicam um acesso que vai além de assistir a um jogo.
Entidades desportivas avançam com restrições
A Associação Chinesa de Ténis de Mesa anunciou planos para criar uma lista de pessoas impedidas de entrar nos estádios por comportamentos extremos enquanto fãs. A medida surgiu após o confronto envolvendo Wang Hao e na sequência de preocupações mais amplas com insultos, rumores, assédio e ataques pessoais contra atletas e treinadores.
A associação afirmou também que trabalharia com as autoridades competentes para combater as condutas impróprias ao abrigo das leis e regulamentos. Uma interdição de entrada num estádio restringiria o acesso aos recintos de competição, enquanto a polícia e as autoridades responsáveis pela Internet têm competências que abrangem comportamentos fora das arenas. O plano anunciado não especificou uma data de implementação nem critérios detalhados para as interdições.
As preocupações no desporto chinês são anteriores aos incidentes mais recentes. Em setembro de 2021, o Comité Olímpico Chinês apelou ao fim da propagação ao desporto de uma cultura de fãs disruptiva e instou os atletas a não organizarem nem integrarem comunidades de fãs, nem a iniciarem conversas relacionadas.
Durante um estágio da seleção nacional, em fevereiro de 2024, Liu Guoliang, então identificado como presidente da Associação Chinesa de Ténis de Mesa, alertou os jogadores para os efeitos nocivos da idolatria e apelou a que lhe resistissem em conjunto.
Yang Yang, primeira campeã olímpica chinesa de Inverno e membro do Comité Olímpico Internacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, apelou também a uma regulamentação mais rigorosa das plataformas online e a medidas contra o ciberassédio durante as reuniões políticas nacionais de 2024. Relacionou o escrutínio e a pressão excessivos com a saúde mental dos atletas e a sua capacidade de se concentrarem nos treinos e nas competições.
A proteção da privacidade estende-se para além dos recintos desportivos
O Código Civil da China reconhece o direito de cada pessoa à privacidade e protege a tranquilidade da vida privada, os espaços privados e as informações pessoais contra intrusões. A Lei das Sanções de Administração da Segurança Pública prevê também sanções para condutas que envolvam espiar ou filmar às escondidas a vida privada de outra pessoa. A aplicação destas proteções depende das circunstâncias de cada caso.
As queixas de Fan reúnem várias preocupações práticas abrangidas pela proteção da privacidade: o acesso a um quarto de hotel, a exposição de informações identificativas, contactos telefónicos indesejados e a gravação de atividades pessoais. As competições tornam um atleta visível ao público, mas estes incidentes dizem respeito ao controlo da vida fora da mesa.
A cultura organizada de fãs, frequentemente chamada fan quan, teve origem no entretenimento. Os grupos podem juntar tempo, dinheiro e competências para promover uma figura de quem gostam. No desporto, as variantes hostis deste comportamento incluíram ataques coordenados online, rivalidades entre grupos que apoiam atletas diferentes e pressões sobre treinadores.
A mensagem de Fan, a 21 de outubro, traz a discussão de volta a um pedido pessoal simples. Acolhe saudações amigáveis, mas quer que deixem de transformar encontros privados em conteúdo gravado. Terminou com um apelo ao respeito mútuo:
Quem respeita os outros será sempre respeitado em troca.
Pontos principais
- Fan Zhendong opôs-se às gravações clandestinas a 21 de outubro de 2026, incluindo à publicação ou divulgação posterior das imagens.
- Disse que acolhe saudações amigáveis, mas que tem dificuldade em distinguir apoiantes genuínos de pessoas que gravam para atrair tráfego online.
- Entre as suas queixas anteriores contam-se uma intrusão num quarto de hotel, revelada em abril de 2023, e a divulgação do seu número de identificação, em março de 2024.
- Sun Yingsha rejeitou atividades organizadas de apoio por ocasião de aniversários no dia anterior à mais recente declaração de Fan.
- A Associação Chinesa de Ténis de Mesa anunciou planos para impedir a entrada nos estádios na sequência de condutas extremas por parte de fãs.
- As preocupações com a privacidade estendem-se para além dos recintos desportivos: incluem hotéis, viagens, informações pessoais e contactos com as famílias dos atletas.






