Uma reserva de 726 mil milhões de dólares sob pressão crescente
As reservas cambiais da Índia caíram para 726,027 mil milhões de dólares na semana terminada a 9 de outubro de 2026, menos 59,679 mil milhões face ao recorde de 4 de setembro, quando o Reserve Bank of India vendeu dólares para apoiar a rupia. A descida foi acompanhada por custos crescentes para as empresas que procuram proteger-se contra uma nova desvalorização da moeda.
Índice
- Uma reserva de 726 mil milhões de dólares sob pressão crescente
- O que diminuiu nas reservas?
- Como aumentou a pressão
- Quanto mobilizou o RBI?
- Petrolíferas obtêm acesso direto a dólares
- Porque ficou mais cara a proteção cambial
- Uma rupia mais forte num mercado mais caro
- O que determinará a próxima fase?
- Principais pontos
O suplemento estatístico semanal do RBI indicou uma queda de 8,578 mil milhões de dólares na semana mais recente, depois de uma descida de 12,952 mil milhões na semana anterior. As reservas recuaram cerca de 7,6% face ao máximo de 785,706 mil milhões, embora permaneçam acima dos níveis registados no final de março e um ano antes.
Os preços elevados do petróleo bruto, a subida das taxas das obrigações do Tesouro dos EUA e as persistentes saídas de investimento estrangeiro aumentaram a procura de dólares. Os investidores estrangeiros em carteira retiraram um saldo líquido de 26,8 mil milhões de dólares dos mercados indianos desde o início do ano, segundo dados da National Securities Depository Limited.
A resposta do banco central vai agora além da venda de dólares no mercado. Abriu uma janela de fornecimento específica para três empresas petrolíferas estatais e encareceu determinadas coberturas cambiais. Estas medidas ajudaram a rupia a recuperar, mas os bancos e as empresas enfrentam menor atividade de negociação, custos de proteção mais elevados e pressão sobre os preços das obrigações.
Para as famílias, o impacto faz-se sentir no preço da energia importada e de outros bens. Para as empresas, a questão imediata é quanto custará obter dólares hoje ou garantir o seu fornecimento para pagamentos futuros.
O que diminuiu nas reservas?
Os ativos em moeda estrangeira, a maior componente das reservas, diminuíram 7,142 mil milhões de dólares na semana mais recente, para 597,605 mil milhões. Representaram cerca de 83% da queda semanal total e ficaram 50,563 mil milhões abaixo do máximo de setembro.
O valor das reservas de ouro caiu 1,319 mil milhões de dólares, para 105,094 mil milhões. Os Direitos de Saque Especiais, um ativo de reserva internacional criado pelo Fundo Monetário Internacional, recuaram 109 milhões, para 18,548 mil milhões. Os DSE podem ser trocados por moedas utilizáveis através de acordos que envolvem membros do FMI.
A posição de reserva da Índia no FMI era de 4,780 mil milhões de dólares. Os relatos sobre a divulgação semanal divergem quanto à sua variação: vários indicam uma descida de 10 milhões de dólares, enquanto outro aponta para uma subida do mesmo montante. O saldo final divulgado é igual.
O valor das reservas muda por várias razões. A venda de dólares reduz o stock, enquanto as variações dos preços do ouro e das moedas, como o euro, a libra e o iene, também alteram o seu valor em dólares. Um euro mais fraco, por exemplo, reduz o valor em dólares dos ativos em euros, mesmo que o RBI detenha a mesma quantidade destes ativos.
O total mais recente ainda era 34,920 mil milhões de dólares superior ao do final de março de 2026 e 28,244 mil milhões acima do valor de um ano antes. Os ativos em moeda estrangeira eram 45,323 mil milhões superiores aos do final de março, enquanto as reservas de ouro eram 10,301 mil milhões inferiores. A Índia perdeu, assim, uma parte considerável do aumento recente das reservas, mas mantém um stock superior ao registado nessas datas de comparação.
Como aumentou a pressão
O máximo das reservas foi atingido após entradas substanciais ao abrigo de um regime especial de swaps, em condições concessionais, para depósitos da diáspora indiana. Os bancos angariaram quase 133 mil milhões de dólares através desse programa. Num swap cambial, as partes trocam moedas e acordam em reverter a operação mais tarde, nos termos definidos.
A sequência mostra a rapidez com que o foco passou de atrair divisas para gerir a sua saída:
- 8 de junho: Entraram em vigor medidas especiais para atrair entradas de divisas.
- 4 de setembro: As reservas atingiram um recorde de 785,706 mil milhões de dólares.
- 2 de outubro: As reservas situavam-se em 734,606 mil milhões de dólares, após uma queda semanal de 12,952 mil milhões, na sequência de uma descida de cerca de 18,34 mil milhões na semana anterior.
- 9 de outubro: As reservas caíram para 726,027 mil milhões de dólares.
- 10 de outubro: O RBI anunciou regras mais restritivas para derivados cambiais e uma facilidade especial de dólares para empresas petrolíferas estatais.
- 12 de outubro: A janela para as petrolíferas começou a funcionar e a rupia valorizou-se cerca de 1%, para 95,77 por dólar.
As medidas de outubro surgiram depois da primeira subida das taxas de juro do RBI em quase quatro anos. As restrições cambiais de outubro também reduziram de 100 milhões para 5 milhões de dólares o limite para determinadas coberturas sem documentação da exposição subjacente e proibiram a recontratação de contratos de derivados cambiais sobre a rupia que tivessem sido cancelados.
Quanto mobilizou o RBI?
Economistas de bancos estimam que o RBI mobilizou entre 75 e 80 mil milhões de dólares através de vendas à vista de dólares e de swaps de dólares e rupias desde 8 de junho. Os seus cálculos ajustam as variações semanais das reservas para excluir as alterações causadas pela valorização dos ativos.
A estimativa abrange um período mais longo e um conjunto mais vasto de operações do que a queda de 59,679 mil milhões de dólares face ao máximo das reservas em setembro. As operações à vista consistem na troca de moedas com entrega imediata. Os swaps combinam uma troca no presente com um acordo para a reverter mais tarde, afetando tanto a disponibilidade de dólares como a oferta de rupias no sistema bancário.
O montante estimado equivale a cerca de metade dos mais de 140 mil milhões de dólares mobilizados através de medidas especiais no início do ano. O RBI não divulgou um total oficial de intervenção que corresponda a essa estimativa.
Os compromissos futuros também são importantes. As responsabilidades líquidas a prazo do RBI em dólares rondavam os 200 mil milhões no final de setembro. Tratam-se de compromissos que envolvem a entrega futura de dólares, pelo que, para avaliar a margem de atuação do banco central, é necessário considerar tanto os ativos atuais como as obrigações posteriores. O ouro, avaliado em 106,4 mil milhões de dólares a 2 de outubro, é outra componente substancial das reservas, mas não corresponde a dinheiro em dólares imediatamente disponível.
Petrolíferas obtêm acesso direto a dólares
A Indian Oil Corporation, a Bharat Petroleum Corporation e a Hindustan Petroleum Corporation podem agora obter as suas necessidades diárias de dólares através de bancos designados, ao abrigo da janela especial do RBI. Anteriormente, as suas avultadas compras concorriam com outras fontes de procura no mercado à vista.
Prashant Vasisht, vice-presidente sénior e co-responsável pelas notações de crédito empresariais na Icra, estima que entre 11 e 12 mil milhões de dólares de procura mensal poderão ser desviados desse mercado. Manas Majumdar, sócio e responsável pelos setores do petróleo, gás, combustíveis e recursos na PwC India, calcula que as importações de petróleo bruto da Índia tenham rondado os 165 mil milhões de dólares no ano passado, o equivalente a cerca de 13 a 14 mil milhões por mês.
A facilidade oferece às três empresas uma forma mais previsível de obter dólares. A sua procura é elevada e recorrente, e a subida dos preços do petróleo aumenta a quantidade de divisas necessária para pagar aos fornecedores. Majumdar afirmou que o cabaz de petróleo bruto indiano teve um preço médio de 114,80 dólares por barril em setembro.
Vivek Iyer, sócio e responsável pela consultoria de risco em serviços financeiros na Grant Thornton Bharat, explicou como a facilidade atual utiliza as reservas:
«Como se trata de vendas definitivas, cada dólar sai diretamente das reservas, pelo que a janela funciona como uma ponte, não como uma solução duradoura», afirmou Iyer.
O mecanismo para as petrolíferas utilizado em 2013 recorria a swaps; o mecanismo atual recorre à venda definitiva de dólares. Os pagamentos das importações de petróleo continuam, cabendo ao RBI uma parte maior da tarefa de fornecer os dólares. As refinarias privadas e os compradores que pagam importações de ouro, equipamento de defesa e outros bens continuam a procurar divisas no mercado.
Porque ficou mais cara a proteção cambial
As novas regras do RBI obrigam os credores a reservar 20% do equivalente em rupias de determinadas operações com derivados cambiais de valor superior a 2 milhões de dólares. A imobilização desse dinheiro tem um custo, que pode refletir-se nos preços cobrados pelos bancos aos clientes.
As empresas usam derivados, como contratos a prazo, para acordar hoje uma taxa de câmbio para um pagamento futuro. Um importador que espere receber uma fatura em dólares pode usar um contrato a prazo para tornar mais previsível o custo em rupias. Esta proteção chama-se cobertura cambial.
A taxa a prazo a três meses, no mercado interno, do dólar face à rupia atingiu 6,54%, o nível de fecho mais elevado desde maio de 2016. Esta taxa cotada é um indicador de mercado associado à obtenção de dólares para entrega futura; o custo de cada contrato depende dos seus termos e da respetiva duração.
Anshul Chandak, responsável pela tesouraria do RBL Bank, em Mumbai, descreveu os efeitos no mercado:
«A disparada dos custos de cobertura e a falta de liquidez nos mercados são consequências não intencionais», afirmou Chandak.
Abhishek Goenka, diretor-executivo da consultora cambial IFA Global, descreveu o mercado a prazo como «extremamente desarticulado» e aconselhou os clientes a protegerem as necessidades imediatas. Afirmou que os preços invulgares tornaram mais barato contrair empréstimos em rupias e trocá-las por dólares do que pedir dólares emprestados diretamente.
O RBI esclareceu posteriormente que as restrições se aplicam às operações destinadas a cobrir o risco cambial, e não às compras e vendas de moeda dos bancos para os clientes nem à sua atividade de manutenção do funcionamento dos mercados. Ainda assim, os bancos esperam uma redução da atividade cambial com os clientes e possíveis perdas na negociação de obrigações durante o trimestre de outubro a dezembro, segundo Chandak.
Uma rupia mais forte num mercado mais caro
A rupia recuperou para cerca de 95 por dólar, depois de se aproximar dos 97 antes das medidas. A sua valorização semanal foi de cerca de 1,8%, tornando-a a moeda com melhor desempenho da região nesse período, apesar da forte desvalorização registada no início do ano.
As taxas das obrigações do Estado atingiram também o nível mais alto em mais de três anos. Os investidores ponderavam a possibilidade de novas subidas das taxas de juro, enquanto os preços elevados do petróleo e as saídas de capitais estrangeiros persistiam. Quando as taxas das obrigações sobem, os preços de mercado das obrigações existentes tendem, em geral, a cair, criando potenciais perdas de negociação para os bancos que as detêm.
Os investidores estrangeiros enfrentam outro cálculo: o retorno de um ativo indiano depois de pagarem para se proteger das variações cambiais. Shamaila Khan, responsável pela dívida de mercados emergentes globais e da Ásia-Pacífico na UBS Asset Management, afirmou que os custos mais elevados de cobertura aumentariam o retorno que a UBS exige dos ativos indianos, embora a sua perspetiva estratégica e a alocação não tivessem mudado de forma significativa.
Khan descreveu as condições de que os investidores precisam:
«O essencial é manter um quadro transparente e uma capacidade eficiente de fazer coberturas e transações», afirmou Khan.
A pressão não se limita às mesas de negociação. A previsão de crescimento revista em alta da Índia pelo FMI apontou para uma expansão de 7% tanto em 2026-27 como em 2027-28, juntamente com uma inflação dos preços no consumidor projetada em 5% em 2026-27. Contas de energia mais elevadas e uma moeda mais fraca podem apertar os orçamentos das famílias, mesmo com o consumo interno e o investimento a sustentar o crescimento.
O que determinará a próxima fase?
A dívida externa da Índia era de 778,2 mil milhões de dólares no final de junho de 2026, mais 15,4 mil milhões do que no final de março. Nessa data de referência, em junho, as reservas equivaliam a 85,9% da dívida externa, abaixo dos 90,6% registados no final de março, segundo dados do RBI.
A análise de abril do Department of Economic Affairs indicava que, no final de dezembro de 2025, as reservas correspondiam a 94% da dívida externa. Estimava também que reservas de 700,9 mil milhões de dólares cobriam cerca de 11 meses de importações. A margem atual para cobrir importações depende da fatura de importação de hoje, incluindo o preço do petróleo, bem como do stock de reservas.
Os investidores têm expectativas diferentes para a moeda. Guan Yi Low, responsável pela dívida de mercados emergentes asiáticos na M&G Investments, afirmou que a determinação do RBI poderia ajudar a manter o dólar perto ou abaixo das 96 rupias. Aaron Hurd, gestor sénior de carteiras de divisas na State Street Investment Management, previu que o dólar subisse para 99 a 100 rupias no ano seguinte, partindo de cerca de 95.
Os preços do petróleo, os fluxos de investimento estrangeiro e o custo da proteção cambial determinarão o nível de apoio necessário. Preços mais baixos do petróleo reduziriam a procura recorrente de dólares, enquanto a retoma das entradas de investimento reforçaria a oferta. Até lá, cada intervenção consome recursos que também ajudam a Índia a pagar importações e a cumprir obrigações externas.
Principais pontos
- As reservas caíram para 726,027 mil milhões de dólares a 9 de outubro, menos 59,679 mil milhões, ou cerca de 7,6%, face a 4 de setembro.
- Os ativos em moeda estrangeira representaram cerca de 83% da queda mais recente das reservas na semana.
- Economistas de bancos estimam que o RBI vendeu entre 75 e 80 mil milhões de dólares e realizou operações de swap desde 8 de junho.
- Uma janela especial poderá desviar do mercado à vista entre 11 e 12 mil milhões de dólares de procura mensal das empresas petrolíferas estatais.
- A rupia recuperou, enquanto os custos de cobertura cambial e as taxas das obrigações subiram acentuadamente.
- As reservas continuaram acima dos níveis do final de março e de um ano antes, mas a procura persistente de petróleo e as saídas de capitais estão a pressionar esta margem de segurança.






