A proteção até fevereiro de 2027 não impediu detenções
Pelo menos 12 residentes de Hong Kong protegidos contra a deportação ao abrigo de uma diretiva presidencial foram detidos em aeroportos dos EUA desde junho de 2026, segundo advogados de imigração. Os juízes ordenaram posteriormente a sua libertação, após períodos de detenção entre 10 dias e dois meses, mas os residentes continuaram sujeitos a pulseiras eletrónicas e a restrições à sua liberdade de circulação.
Índice
- A proteção até fevereiro de 2027 não impediu detenções
- O que a diretiva federal prevê efetivamente
- Por que razão o DHS afirma que os processos de remoção podem prosseguir
- Mo é libertado, mas o seu processo de imigração prossegue
- O que os números sobre detenções mostram e não mostram
- Pressão para sair e receio de viajar dentro do país
- Um projeto de lei criaria uma via para a residência permanente
- Os riscos que motivaram a proteção não desapareceram
- As próximas datas importantes
- Pontos-chave
As detenções expuseram uma discrepância entre as garantias da Deferred Enforced Departure (DED) e a forma como as autoridades de imigração estão a tratar as pessoas abrangidas. A diretiva em vigor suspende a remoção dos residentes de Hong Kong elegíveis até 5 de fevereiro de 2027 e permite-lhes obter autorização de trabalho. Não lhes concede um estatuto de imigração nem residência permanente.
Esta distinção é central no caso de Ho Yin Mo, funcionário da deputada da Assembleia Legislativa da Califórnia Catherine Stefani. Agentes de imigração detiveram-no no Aeroporto Internacional Harry Reid, em Las Vegas, a 17 de setembro. Um juiz de imigração concedeu-lhe liberdade sob fiança a 30 de setembro, e Mo saiu da detenção a 2 de outubro. O processo de remoção prossegue.
Os democratas no Congresso estão a propor uma solução mais duradoura. A 6 de outubro, o senador Jeff Merkley, do Oregon, e o representante Jim McGovern, do Massachusetts, apresentaram a Hong Konger Promise of Refuge Act, que permitiria aos beneficiários elegíveis da DED e às suas famílias pedir residência permanente. A proposta ainda não é lei e não foi anunciada qualquer prorrogação da proteção em vigor.
O que a diretiva federal prevê efetivamente
O Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) definiu as regras em vigor no seu aviso no Federal Register, de 4 de abril de 2025. O aviso aplica o memorando de 15 de janeiro de 2025 do antigo presidente Joe Biden, que prorrogou e alargou a proteção até 5 de fevereiro de 2027.
O aviso descreve a DED como uma suspensão administrativa presidencial da remoção, e não como um estatuto de imigração. Afirma também que as pessoas abrangidas pela diretiva não estão sujeitas a remoção durante o período designado. A proteção não exige que se apresente um pedido ao USCIS, embora a obtenção de documentação de autorização de trabalho geralmente exija um requerimento separado.
Em geral, os residentes elegíveis incluem os abrangidos pelo período anterior da DED e os residentes de Hong Kong que se encontravam nos Estados Unidos desde 15 de janeiro de 2025. A residência contínua e as exclusões previstas são relevantes. Ser de Hong Kong ou ter chegado antes da data-limite não basta, por si só, para determinar a elegibilidade em todos os casos.
A definição vai além da cidadania. Abrange pessoas de qualquer nacionalidade, ou apátridas, que possuam documentos elegíveis, como um passaporte da Região Administrativa Especial de Hong Kong, um passaporte British National (Overseas), um passaporte British Overseas Citizen, um cartão de identidade de residente permanente de Hong Kong ou um documento de identidade de Hong Kong para efeitos de visto.
As exclusões incluem determinados motivos de segurança, extradição, uma condenação por crime grave ou duas ou mais condenações por delitos menores nos Estados Unidos, bem como decisões específicas do governo relativas à segurança pública ou à política externa. O regresso voluntário a Hong Kong ou à China continental depois de 15 de janeiro de 2025 também exclui a pessoa da proteção. A participação anterior em movimentos pró-democracia não é um requisito geral de elegibilidade.
Por que razão o DHS afirma que os processos de remoção podem prosseguir
O Departamento de Segurança Interna (DHS) distingue entre instaurar um processo de remoção contra alguém e remover fisicamente essa pessoa do país. Um porta-voz do departamento defendeu a atuação contra pessoas com proteção administrativa temporária, afirmando ao mesmo tempo que o governo não as está atualmente a remover.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) não está impedido de instaurar processos de remoção contra estrangeiros com essa designação administrativa temporária, nem os está atualmente a remover. A autorização de trabalho ou um pedido pendente não conferem estatuto legal nos Estados Unidos.
Alguns residentes de Hong Kong entraram com vistos de estudante ou de visitante e permaneceram nos Estados Unidos ao abrigo da proteção da DED depois de expirar a autorização inicial de permanência, explicou o advogado de imigração Willis Fu Yiu-wai. A diretiva pode protegê-los contra a remoção sem converter o visto anterior em residência permanente. Fu alertou que obter residência permanente por outra via pode demorar anos.
Isso explica como podem coexistir uma autorização de trabalho válida e um período de admissão expirado. Não esclarece se a detenção é legal num caso específico. O advogado de imigração de Washington Samuel Bickett, especialista em casos de Hong Kong, afirmou que, em todos os casos de que tratou até então, os tribunais tinham ordenado a libertação sob fiança ou considerado a detenção ilegal.
Esta distinção também limita o que uma ordem de libertação prova. A libertação sob fiança não resolve necessariamente a elegibilidade para a DED nem põe fim aos processos de remoção. Sem acesso às decisões judiciais individuais, não é possível determinar o fundamento jurídico exato em todos os casos de libertação.
Mo é libertado, mas o seu processo de imigração prossegue
Mo esteve detido no Nevada Southern Detention Center, em Pahrump, durante cerca de duas semanas. O DHS afirmou que entrara temporariamente nos Estados Unidos a 13 de janeiro de 2020 e não saíra até 15 de maio de 2020. A Casa Branca chamou-lhe "um estrangeiro em situação ilegal", enquanto Stefani sustentou que trabalhava legalmente para a Assembleia Legislativa da Califórnia.
Amigos e advogados familiarizados com as proteções de imigração para residentes de Hong Kong afirmaram que Mo provavelmente estava abrangido pela DED. Um amigo que também depende do programa disse saber que Mo era elegível. Antes da libertação, o DHS não tinha respondido a uma pergunta específica sobre a elegibilidade de Mo para a DED. Por isso, a sua inclusão na proteção não deve ser apresentada como uma decisão oficialmente confirmada pela agência.
Stefani, democrata que representa São Francisco, congratulou-se com a libertação e defendeu o seu trabalho como funcionário público.
A libertação de Mo confirma aquilo que sempre soubemos: é um funcionário público que cumpre a lei e um membro muito querido da nossa comunidade da Bay Area, e nunca deveria ter sido detido.
Mo estudou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, trabalhou como jornalista numa estação de televisão em língua chinesa de São Francisco e integrou a equipa de Stefani em 2025. As suas funções incluíam ajudar os eleitores a lidar com os organismos estaduais e servir de intérprete a residentes de língua chinesa. O presidente da câmara de São Francisco, Daniel Lurie, escreveu ao juiz a apoiar a sua libertação, e o representante Kevin Mullin também manifestou publicamente o seu apoio.
Após a libertação, o ICE afirmou que Mo aguardava em liberdade sob fiança o prosseguimento do processo de remoção e reiterou que não tinha estatuto de imigração legal. Não foi indicada uma data para a próxima audiência. O seu percurso profissional e o apoio público não resolvem, por si só, as questões jurídicas distintas relativas à sua situação de imigração.
O que os números sobre detenções mostram e não mostram
O número de pelo menos 12 refere-se a residentes de Hong Kong que os advogados identificaram como protegidos pela DED e que foram detidos em aeroportos desde junho. Há também relatos de detenções em centros de transporte municipais. Os 12 estiveram detidos entre 10 dias e dois meses antes de os juízes ordenarem a sua libertação; depois disso, continuaram sujeitos a vigilância eletrónica e a restrições de circulação.
Um conjunto de dados mais abrangente apresenta um número diferente. Registos obtidos através de um pedido ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação pelo Deportation Data Project mostram que o ICE deteve 38 cidadãos de Hong Kong entre 1 de janeiro e 6 de agosto de 2026. Os registos não esclarecem por que razão cada pessoa foi detida nem se cada uma era elegível para a DED.
Investigadores académicos identificaram separadamente pelo menos mais duas dezenas de residentes de Hong Kong detidos durante o ano, mas não era claro se eram elegíveis para proteção nem qual era a sua situação de custódia. Estes números não devem ser somados: abrangem períodos e definições diferentes, e as pessoas contabilizadas podem sobrepor-se.
Bickett estimou que pelo menos 3.000 pessoas nos Estados Unidos estavam abrangidas pela DED para Hong Kong, embora o número real pudesse aproximar-se das 7.000. Trata-se de uma estimativa de um advogado, não de um total oficial do USCIS. A incerteza tanto quanto ao número de pessoas abrangidas como ao número de detenções impede calcular com rigor a proporção de residentes protegidos que foram detidos.
Ainda assim, o padrão relatado é consistente em vários testemunhos. Os advogados situam em junho o início das detenções nos aeroportos, e Bickett afirmou ter tomado conhecimento de pelo menos duas detenções por semana. Os dados demonstram detenções repetidas de pessoas que, segundo os relatos, estavam protegidas, mas não constituem uma contagem confirmada de todas as pessoas afetadas no país.
Pressão para sair e receio de viajar dentro do país
Os advogados afirmaram que os seus clientes foram ameaçados com detenção prolongada ou por tempo indeterminado, a menos que aceitassem partir voluntariamente. Um residente de Hong Kong detido em julho quando se preparava para embarcar num voo no Aeroporto Internacional O'Hare, em Chicago, contou que foi pressionado a assinar um documento de partida voluntária e avisado de que poderia passar meses na prisão se recusasse.
São alegações de detidos e dos seus representantes, não factos comprovados em relação a todas as detenções. Descrevem uma preocupação prática distinta da deportação imediata: uma pessoa protegida contra a remoção forçada pode ainda sentir-se obrigada a aceitar sair devido à perspetiva de permanecer detida.
As detenções também alteraram as decisões de viagem da comunidade de Hong Kong. Amigos de Mo falaram de voos cancelados e de avisos partilhados em mensagens privadas. Evelyn Wiese, diretora de programas da Asian Law Caucus, afirmou que a própria DED não impõe restrições às viagens dentro do país.
As viagens internacionais são diferentes. O USCIS exige que os residentes abrangidos que pretendam sair e pedir autorização para regressar requeiram autorização de viagem antecipada através do formulário I-131. Partir sem essa autorização pode pôr fim à elegibilidade ou impedir o regresso. O regresso voluntário a Hong Kong ou à China continental pode retirar a proteção a uma pessoa, mesmo que tenha obtido autorização de viagem antecipada. Estas regras não devem ser confundidas com as restrições de viagem impostas após a libertação da detenção.
Um projeto de lei criaria uma via para a residência permanente
A Hong Kong Watch, uma organização de defesa de direitos, descreveu a proposta Hong Konger Promise of Refuge Act na sua declaração sobre o projeto de lei, de 6 de outubro. Identifica as iniciativas na Câmara dos Representantes e no Senado como H.R.10685 e S.5606, apresentadas, respetivamente, por McGovern e Merkley.
Segundo a organização, os beneficiários da DED teriam um ano após a promulgação para pedir residência permanente ao USCIS. Os cônjuges e filhos elegíveis também poderiam apresentar pedidos. Os requerentes teriam de ter residido continuamente nos Estados Unidos, não ter regressado a Hong Kong ou à China continental e não ter condenações por crimes graves nem várias condenações por delitos menores. Enquanto aguardassem decisão sobre os pedidos, estariam protegidos contra a remoção e autorizados a trabalhar.
A proposta diz respeito a um grupo definido que já se encontra nos Estados Unidos, não a um programa contínuo para novas chegadas. A Hong Kong Watch compara o modelo à Chinese Student Protection Act de 1992, que concedeu residência permanente a cidadãos chineses elegíveis nos Estados Unidos na sequência do massacre da Praça Tiananmen.
Ray Wong, consultor de políticas e estratégia da Hong Kong Watch, defendeu que a lei substituiria uma promessa administrativa prestes a expirar por uma proteção duradoura para pessoas já admitidas e sujeitas a verificação.
Este projeto de lei conclui o trabalho em relação a um pequeno grupo de pessoas que já está aqui e já foi sujeito a verificação. Enviá-las de volta deixá-las-ia à mercê de um governo que já pôs a cabeça de pessoas como elas a prémio.
Segundo os relatos, o projeto não tinha copatrocinadores republicanos à data do artigo, publicado a 12 de outubro. Não foi indicada qualquer data para uma audiência em comissão ou votação. O prazo previsto para apresentar pedidos só começaria após a promulgação, não na data de apresentação do projeto.
Os riscos que motivaram a proteção não desapareceram
A administração Biden criou pela primeira vez a DED para Hong Kong em agosto de 2021, após a imposição da lei de segurança nacional de Hong Kong, em junho de 2020. O memorando de janeiro de 2025, reproduzido no aviso do USCIS, apresenta a oferta de refúgio como servindo os interesses da política externa dos EUA através da proteção da democracia e dos direitos humanos.
A Hong Kong Watch afirma que a lei de segurança nacional reivindica jurisdição sobre atos cometidos em qualquer parte do mundo. A organização aponta para recompensas policiais de até 1 milhão de dólares de Hong Kong, equivalentes a 127.400 dólares norte-americanos na sua declaração, pela captura de ativistas pró-democracia no estrangeiro. A ronda mais recente aí referida data de julho de 2025.
A pressão dentro de Hong Kong também prossegue. As rusgas às livrarias em julho levaram a cinco detenções relacionadas com publicações alegadamente sediciosas em duas livrarias independentes. O caso envolve outras pessoas e não demonstra o risco que qualquer beneficiário específico da DED enfrenta, mas ilustra o contexto de aplicação da lei que continua a alimentar as preocupações com o regresso.
Hanscom Smith, antigo cônsul-geral dos EUA em Hong Kong, afirmou que deter residentes de Hong Kong protegidos contraria o objetivo da política. Frances Hui, responsável de políticas da Committee for Freedom in Hong Kong Foundation, disse que a comunidade recebera um sinal claro de que o governo não estava a ponderar uma renovação. O DHS não tinha respondido formalmente à questão de saber se iria prorrogar a DED, pelo que essa avaliação não corresponde a uma decisão governamental confirmada.
As próximas datas importantes
Os acontecimentos abrangem a criação de uma proteção temporária, um novo período de detenções e uma resposta legislativa. As principais datas são:
- Agosto de 2021: A administração Biden cria a DED para residentes de Hong Kong elegíveis.
- 15 de janeiro de 2025: Biden emite o memorando que prorroga e alarga a proteção até 5 de fevereiro de 2027.
- 4 de abril de 2025: O USCIS publica as regras de aplicação relativas à autorização de trabalho e às viagens.
- Junho de 2026: Segundo os advogados, começam as detenções de residentes de Hong Kong protegidos nos aeroportos.
- 17 de setembro de 2026: O ICE detém Ho Yin Mo no Aeroporto Internacional Harry Reid.
- 30 de setembro e 2 de outubro de 2026: Um juiz concede a libertação de Mo sob fiança e este sai posteriormente da detenção.
- 6 de outubro de 2026: Merkley e McGovern apresentam o projeto de lei sobre residência permanente.
- 5 de fevereiro de 2027: Está previsto que terminem a DED em vigor e o período de autorização de trabalho associado.
O prazo relativo ao emprego é concreto. O USCIS prorrogou automaticamente até 5 de fevereiro de 2027 os cartões de trabalho elegíveis ao abrigo da DED, com a categoria A11 e datas de validade de 5 de fevereiro de 2023 ou 5 de fevereiro de 2025. Assim, a data impressa num desses cartões pode já ter passado, mas o documento continua válido ao abrigo da prorrogação.
Nos termos do aviso em vigor, os empregadores não podem continuar a aceitar os cartões A11 especificados após 5 de fevereiro de 2027. Até 6 de fevereiro, os trabalhadores terão de apresentar outra prova de que mantêm a autorização de trabalho. Os empregadores também não podem exigir comprovativos de residência em Hong Kong no preenchimento do formulário I-9 de verificação da autorização de trabalho.
Continua por decidir se a DED será renovada, se o Congresso aprovará a proposta de residência e qual será o desfecho dos processos de remoção individuais. O prazo de fevereiro não significa, por si só, que todas as pessoas protegidas serão deportadas de imediato, mas põe em risco tanto a proteção contra a remoção como a continuação da autorização de trabalho, salvo se existir outro fundamento jurídico.
Pontos-chave
- Os advogados identificaram pelo menos 12 residentes de Hong Kong protegidos que foram detidos em aeroportos desde junho de 2026 e posteriormente libertados, permanecendo sujeitos a vigilância e a restrições de circulação.
- A DED suspende a remoção até 5 de fevereiro de 2027, mas não constitui um estatuto de imigração nem uma via para obter residência permanente.
- Ho Yin Mo saiu da detenção a 2 de outubro, após uma decisão que lhe concedeu liberdade sob fiança. O processo de remoção prossegue.
- Uma contagem separada de 38 cidadãos de Hong Kong detidos até 6 de agosto não permite determinar se eram elegíveis para a DED.
- A Hong Konger Promise of Refuge Act criaria uma via para pedir residência permanente, caso fosse aprovada.
- Não foi anunciada qualquer decisão sobre a renovação, data de votação legislativa ou resolução final do caso de Mo.






