Nove finalidades permitidas, mas nenhuma categoria expressa para o jornalismo
Hong Kong planeia exigir que quem consulta os registos prediais enquadre o pedido numa de nove finalidades especificadas, suscitando a contestação de jornalistas e deputados quanto a quem decidirá se uma investigação serve o interesse público. As novas regras estão previstas para o primeiro semestre de 2027.
Índice
- Nove finalidades permitidas, mas nenhuma categoria expressa para o jornalismo
- O que mudaria para quem consulta os registos?
- A cobertura imobiliária poderá continuar a ter acesso imediato
- Como funcionariam, segundo os responsáveis, os pedidos baseados no interesse público
- Porque nem todas as investigações seguem a finalidade inicial
- Deputados querem uma via para contestar recusas
- Queixas sobre privacidade fundamentam a reforma proposta pelo Governo
- Isenções para os media e notificações aos proprietários dividem opiniões
- O precedente dos registos automóveis influencia o debate
- Pontos-chave
Numa reunião da subcomissão do Conselho Legislativo, a 3 de novembro de 2026, os responsáveis prometeram decidir os pedidos fundamentados no interesse público no prazo de um a dois dias úteis após a receção de toda a informação necessária. Os registos relativos a outras consultas elegíveis de inscrições em vigor seriam disponibilizados de imediato. Um requerente cujo pedido baseado no interesse público fosse recusado não teria um mecanismo de recurso específico, embora os responsáveis tenham dito que poderia pedir uma reapreciação com novos fundamentos ou contestar a decisão por via de um processo de revisão judicial.
A Associação de Jornalistas de Hong Kong (HKJA) quer que as alterações sejam retiradas. A associação citou 18 investigações que recorreram a registos prediais e que, segundo afirmou, não poderiam ser realizadas ao abrigo das novas regras. A HKJA receia que a exigência de aprovação prévia dificulte o escrutínio da propriedade imobiliária, de suspeitas de irregularidades e da utilização dos terrenos.
O Governo afirma que a privacidade precisa de uma proteção mais forte. A comissária para a privacidade, Ada Chung Lai-ling, disse que o seu gabinete recebeu 20 queixas relativas a uma suspeita de utilização indevida de informações do registo predial ao longo de cinco anos, incluindo seis em 2026. As queixas diziam respeito à utilização de informações para expor dados pessoais na Internet e enviar cartas promocionais a proprietários.
A controvérsia centra-se numa questão prática: como podem os jornalistas explicar a importância de uma consulta antes de verem os registos que poderão revelar a história? Os responsáveis dizem que os requerentes só precisam de descrever as suas suspeitas e a utilização pretendida. Jornalistas e deputados querem regras mais claras, garantias contra recusas e uma forma mais rápida de contestar decisões.
O que mudaria para quem consulta os registos?
As regras atuais permitem que qualquer pessoa consulte registos prediais sem apresentar documentos comprovativos, depois de declarar que cumprirá a legislação em matéria de privacidade. O sistema proposto exigiria, em contrapartida, a indicação de uma finalidade específica e uma declaração que explicasse como os registos seriam utilizados para a alcançar.
As nove finalidades incluem transações imobiliárias, avaliação, auditoria, trabalho académico, estudos sobre o mercado imobiliário e interesse público. A cobertura noticiosa não consta expressamente como categoria autónoma. As organizações de comunicação social não beneficiariam de uma isenção geral.
A subcomissão do Conselho Legislativo está a analisar oito diplomas de legislação subsidiária relacionados com o Sistema de Registo de Títulos. A legislação subsidiária estabelece regras pormenorizadas ao abrigo dos poderes conferidos por uma lei principal. Neste caso, essas regras incluem a forma como as pessoas podem consultar os registos prediais.
O acesso dependeria também do tipo de registo. No caso de informações e documentos comprovativos relativos a inscrições em vigor, apenas os pedidos fundamentados no interesse público seriam avaliados pelo Conservador do Registo Predial. Os registos relativos a inscrições anteriores estariam disponíveis para 15 categorias de pessoas, incluindo requerentes que declarassem uma finalidade de interesse público.
O Governo descreveu o registo sobretudo como um instrumento para manter o mercado imobiliário em funcionamento. Compradores, vendedores e profissionais consultam-no para verificar a titularidade e outros direitos registados. Os jornalistas utilizam as mesmas informações para estabelecer ligações entre pessoas, empresas e imóveis ao investigarem questões de interesse público.
A cobertura imobiliária poderá continuar a ter acesso imediato
Doris Ho Pui-ling, secretária permanente para o Desenvolvimento responsável pelo planeamento e pelos terrenos, disse aos deputados que a finalidade relativa ao trabalho académico e à análise do mercado imobiliário também abrangeria a cobertura mediática de transações imobiliárias e da habitação. Estas consultas poderiam dar acesso imediato aos registos, sem passar por uma avaliação de interesse público.
Este esclarecimento responde a parte das preocupações da HKJA quanto ao jornalismo imobiliário de rotina. A presidente da associação, Selina Cheng, tinha alertado que as regras poderiam eliminar a maior parte da cobertura diária do setor imobiliário e impossibilitar investigações sobre uma eventual utilização indevida de terrenos. As investigações mais abrangentes continuariam a depender de se enquadrarem noutra finalidade permitida ou de obterem aprovação por motivos de interesse público.
A própria redação das regras foi alvo de escrutínio. Um documento anterior do Gabinete para o Desenvolvimento referia estudos de mercado ou reportagens sobre o mercado imobiliário. A versão inglesa da formulação posterior manteve uma referência à cobertura noticiosa, mas a correspondente versão chinesa omitiu-a. A explicação de Ho indica às redações qual é a abordagem pretendida pelo Governo, enquanto os deputados pedem regras mais claras.
Como funcionariam, segundo os responsáveis, os pedidos baseados no interesse público
O Gabinete para o Desenvolvimento apontou como exemplos de investigações que poderiam ser aceites por motivos de interesse público as obras de construção não autorizadas em grande escala e os imóveis sem proprietários identificáveis. O Conservador do Registo Predial avaliaria os pedidos individualmente, tendo em conta a finalidade, os interesses de privacidade, a utilização prevista e a possibilidade de utilização indevida das informações.
O Conservador do Registo Predial, Bruno Luk Kar-kin, disse que os jornalistas não teriam de provar que as irregularidades suspeitas tinham ocorrido. Teriam de declarar as suas suspeitas e explicar a sua relevância para o interesse público. Os responsáveis poderiam pedir mais informações antes de tomar uma decisão.
Ho disse que os requerentes teriam de fornecer o nome e o número do bilhete de identidade, juntamente com uma explicação da utilização que pretendiam dar aos registos. Segundo afirmou, o limiar de informação exigido seria baixo e os responsáveis estariam interessados na orientação da investigação, não num caso já plenamente desenvolvido.
Falando a 6 de novembro, Ho disse que o Governo queria apoiar a cobertura noticiosa ao serviço do interesse público e esperava que os pedidos tivessem uma elevada probabilidade de aprovação:
Acreditamos que deve existir um mecanismo — que não seja demasiado difícil — para os media fazerem cobertura noticiosa ao serviço do interesse público.
Ho disse também aos deputados que um jornalista que obtivesse registos por motivos de interesse público, mas acabasse por não publicar nada, não estaria a fazer uma declaração falsa apenas por a notícia não ter sido publicada. O que importaria seria a suspeita existente no momento do pedido.
Porque nem todas as investigações seguem a finalidade inicial
Rebecca Chan Hoi-yan, deputada e antiga jornalista, argumentou que as investigações mudam muitas vezes de rumo depois de os jornalistas consultarem os registos. Uma investigação sobre negócios financeiros poderia revelar construções não autorizadas ou a suspeita de venda ilegal dos direitos de construção de pequenas casas pertencentes a aldeões indígenas nos Novos Territórios.
Chan referiu consultas que revelaram 11 imóveis de luxo em The Peak alegadamente detidos por redes de burlas cambojanas. Disse que estas descobertas levaram o Departamento de Justiça a congelar os bens. O exemplo mostrou como as informações sobre a titularidade podem ajudar a revelar suspeitas de atividade criminosa para além de uma transação imobiliária comum.
O presidente da comissão, Andrew Lam Siu-lu, perguntou o que aconteceria se os jornalistas obtivessem registos para uma finalidade permitida e depois os utilizassem noutra notícia de interesse público. Ho disse que a utilização teria de corresponder à finalidade declarada e aconselhou as organizações a apresentar prontamente um novo pedido quando a finalidade jornalística mudasse.
Para as redações, isso implicaria uma tarefa administrativa contínua à medida que a investigação avançasse. Chan alertou também que explicar uma investigação antecipadamente poderia obrigar a revelar informações sobre uma fonte ou a divulgar uma notícia antes de a redação estar preparada.
A HKJA argumenta que os utilizadores comerciais continuariam a ter acesso simples, enquanto quem investigasse a titularidade e a equidade nas transações precisaria de aprovação especial. A presidente, Selina Cheng, descreveu a preocupação nestes termos:
«O novo sistema irá agravar a assimetria de informação entre grandes promotores imobiliários ou proprietários e aqueles que dispõem de menos recursos», acrescentou.
Deputados querem uma via para contestar recusas
Vanessa Cheng, consultora jurídica adjunta do Conselho Legislativo, pediu ao Governo que explicasse o que seria considerado de interesse público e se seriam publicados exemplos. Os consultores jurídicos do Conselho levantaram mais de 20 questões sobre as regras, incluindo os motivos de recusa e as garantias para os requerentes.
As questões incidiam sobre a inclusão dos fatores de avaliação na legislação ou em orientações pormenorizadas e sobre a possibilidade de consultar o público acerca dos critérios. Perguntaram também se os requerentes recusados receberiam uma fundamentação por escrito e a oportunidade de apresentar alegações adicionais antes de a recusa ser confirmada.
Luk disse que as disposições atuais em matéria de recurso não abrangiam a recusa de um novo pedido de consulta dos registos prediais. A criação de um mecanismo de recurso exigiria alterações à legislação principal. Continuaria a ser possível recorrer à revisão judicial, um processo em tribunal que permite examinar se uma autoridade pública tomou uma decisão legalmente válida.
Augustine Wong Ho-ming, representante dos setores imobiliário e da construção, alertou que os processos judiciais custariam dinheiro, demorariam tempo e reduziriam o valor noticioso de uma reportagem. Propôs um processo de reapreciação simplificado ou um tratamento mais rápido para organizações de comunicação social aprovadas.
A 6 de novembro, Ho disse que um requerente cujo pedido fosse recusado poderia apresentar novos fundamentos, que não tivessem sido fornecidos anteriormente, para que os responsáveis reapreciassem o caso. Isto permitiria voltar a apresentar o caso a quem tomou a decisão, enquanto os deputados procuram um mecanismo de reapreciação definido. Os critérios, os procedimentos para fundamentar recusas por escrito e as garantias finais continuavam sob análise.
Queixas sobre privacidade fundamentam a reforma proposta pelo Governo
A comissária para a privacidade, Ada Chung, defende limites mais claros às consultas do registo predial. Disse que as queixas recebidas pelo seu gabinete incluíam informações pessoais retiradas dos registos prediais e publicadas em plataformas sociais, bem como proprietários que recebiam cartas de marketing depois de os seus dados terem sido obtidos.
O seu gabinete recebeu 20 queixas ao longo de cinco anos, incluindo seis em 2026, e Chung descreveu sinais de agravamento da situação. Defendeu que a especificação das finalidades permitidas ajudaria a proteger os proprietários, facilitaria o tratamento dos pedidos pelos serviços públicos e permitiria a quem consulta os registos compreender melhor as utilizações legais.
A HKJA argumentou que o Governo não apresentou provas suficientes para justificar restrições mais apertadas ao acesso. A sua objeção prende-se com a possibilidade de a resposta à utilização indevida impor um ónus excessivo ao escrutínio legítimo do mercado imobiliário e dos assuntos públicos.
Chung disse que os jornalistas devem recolher dados pessoais de forma lícita e justa. Referiu o artigo 61.º da Portaria sobre Dados Pessoais (Privacidade), segundo o qual as isenções relativas à utilização de dados pessoais para atividades noticiosas dependem do interesse público. Disse que a exigência proposta de interesse público para as consultas seguia o mesmo princípio.
O acesso e a publicação envolveriam, assim, decisões em fases diferentes. Primeiro, os jornalistas teriam de obter os registos através de uma finalidade de consulta permitida; depois, teriam de utilizar as informações em conformidade com a legislação sobre privacidade. A posição da comissária é que o jornalismo não beneficia de uma isenção geral dos requisitos de recolha lícita e justa.
Isenções para os media e notificações aos proprietários dividem opiniões
Chan propôs que os pedidos fossem considerados de interesse público quando apresentados por um representante legal ou pelo responsável de uma redação de uma organização de comunicação social registada nos Serviços de Informação do Governo. Defendeu que esta medida proporcionaria às reportagens legítimas uma via mais previsível para aceder aos registos.
Ho rejeitou uma lista de meios de comunicação social com acesso privilegiado, afirmando que a via do interesse público proporcionava maior flexibilidade. Kenneth Fok Kai-kong, deputado que representa o setor editorial, pediu separadamente um equilíbrio razoável entre a privacidade e o direito do público a saber, com um tratamento mais favorável para o jornalismo legítimo.
Fok afastou-se da subcomissão porque a reunião coincidia com a sua participação numa reunião da Comissão Permanente da Assembleia Popular Nacional, em Pequim. Andrew Lam também apelou ao Governo para que não obstruísse consultas razoáveis dos media. Doreen Kong, advogada e antiga deputada, questionou por que motivo os investigadores de mercado poderiam ter um acesso que os jornalistas talvez tivessem dificuldade em obter.
Os responsáveis estão também a ponderar notificar os proprietários quando alguém consulta os registos dos seus imóveis. Não foi apresentado um modelo definitivo para esta proposta. Um sistema deste tipo poderia ajudar os proprietários a saber quando as suas informações são consultadas, mas também alertar uma pessoa cujo imóvel fosse alvo de uma investigação.
O precedente dos registos automóveis influencia o debate
Luk disse que as regras de consulta dos registos prediais se inspiravam no sistema do registo automóvel do Departamento dos Transportes e em decisões judiciais relevantes. Os jornalistas já contestaram as restrições ao acesso a esse registo, pelo que o seu funcionamento ocupa um lugar central no debate sobre os registos prediais.
A produtora independente Bao Choy foi acusada em novembro de 2020 por consultas ao registo automóvel utilizadas num documentário da RTHK que investigava o ataque de uma multidão em Yuen Long, a 21 de julho de 2019. Foi condenada em 2021 e multada em 6 000 dólares de Hong Kong. O Tribunal de Última Instância anulou a condenação em 2023.
Em 2024, o Governo introduziu novas regras de acesso aos registos automóveis para os media. Segundo a HKJA, apenas um de 17 pedidos dos media para fins jornalísticos foi parcialmente aprovado, e a aprovação só chegou após um atraso considerável. O Tribunal Superior rejeitou, em 2026, a contestação judicial da associação a essas restrições.
A HKJA considera essa experiência um aviso quanto à dependência de aprovações individuais. Os responsáveis, por sua vez, apontam o sistema automóvel como modelo para equilibrar o acesso permitido com a privacidade. Esta divergência torna especialmente importantes para as redações a rapidez e a transparência prometidas para o novo processo de consulta dos registos prediais.
As principais datas são:
- 2023: O Tribunal de Última Instância anulou a condenação de Bao Choy relacionada com consultas ao registo automóvel.
- 2024: Foram introduzidas novas regras para o acesso dos media aos registos automóveis.
- 3 de novembro de 2026: Uma subcomissão do Conselho Legislativo começou a analisar oito diplomas de legislação subsidiária relacionados com o Sistema de Registo de Títulos.
- 6 de novembro de 2026: Ho disse que a cobertura noticiosa de interesse público deveria ser permitida e que os requerentes recusados poderiam apresentar novos fundamentos para pedir uma reapreciação.
- Primeiro semestre de 2027: Está prevista a entrada em vigor das novas regras de consulta dos registos prediais.
Pontos-chave
- As consultas dos registos prediais exigiriam uma de nove finalidades especificadas. O jornalismo não teria uma categoria expressa nem uma isenção geral.
- Os responsáveis dizem que as notícias sobre o mercado imobiliário poderiam ter acesso imediato aos registos atuais. Outras atividades jornalísticas poderiam exigir aprovação por motivos de interesse público.
- Os pedidos completos baseados no interesse público receberiam, em geral, uma decisão no prazo de um a dois dias úteis.
- Não haveria um mecanismo de recurso específico. Os requerentes poderiam apresentar novos fundamentos para pedir uma reapreciação ou recorrer à revisão judicial.
- A comissária para a privacidade citou 20 queixas ao longo de cinco anos, incluindo seis em 2026, relativas a suspeitas de utilização indevida de informações do registo predial.
- A HKJA quer que as alterações sejam retiradas, enquanto os deputados pedem critérios mais claros e garantias mais fortes para a cobertura noticiosa.
- As novas regras estão previstas para o primeiro semestre de 2027. As autoridades estão também a ponderar notificar os proprietários quando os seus imóveis forem alvo de consultas.






