Detenções intensificam-se antes de manifestação prevista em Deli
O Partido Janata Barata da Índia (CJP) afirma que as autoridades detiveram milhares dos seus apoiantes, estudantes e ativistas da oposição antes de um protesto previsto em Nova Deli contra a revisão dos cadernos eleitorais do país. Ashutosh Ranka, porta-voz do movimento, indicou que foram detidas 10 000 pessoas em todo o país, entre elas Deepak Baliyan, porta-voz nacional do CJP. As autoridades não confirmaram de imediato o número, e não foi possível verificar de forma independente as alegações do grupo.
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Vídeos publicados nas redes sociais pareciam mostrar ativistas a serem levados em carrinhas. O CJP afirmou também que um grupo de estudantes que viajava de autocarro de Pune para Deli, para participar na manifestação, foi levado para um local desconhecido. A manifestação está prevista para sábado, em Jantar Mantar, o local designado para protestos na capital, onde, segundo relatos, a polícia instalou barricadas.
As detenções sucedem-se a vários dias de manifestações de partidos da oposição, grupos de estudantes e organizações da sociedade civil. Os manifestantes exigem a demissão do comissário-chefe eleitoral, Gyanesh Kumar, e o fim da Revisão Intensiva Especial (SIR), uma análise nacional dos cadernos eleitorais. Alegam que o processo corre o risco de eliminar eleitores elegíveis e pode favorecer o Partido Bharatiya Janata (BJP), no poder, do primeiro-ministro Narendra Modi. A Comissão Eleitoral e o Governo negam qualquer interferência política e afirmam que a revisão se destina a eliminar registos duplicados e de pessoas sem direito a voto.
O CJP surgiu de uma campanha juvenil na Internet e ganhou notoriedade nacional depois de protestos contra a fuga de enunciados de exames contribuírem para a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, em julho. Desde então, o movimento tem abordado questões mais amplas de responsabilização governativa e das instituições democráticas. A atual campanha está a testar se o êxito anterior pode repetir-se numa questão que afeta a administração das eleições.
Num protesto em Bengaluru, Khushi Shrivastava, estudante de arquitetura de 22 anos, afirmou que o direito de voto é fundamental para a democracia e que as pessoas que querem votar e se preocupam com o futuro da Índia correm o risco de ser privadas desse direito. Os manifestantes empunhavam cartazes com as frases «Cada nome conta, cada voto importa» e «Parem o assassinato da democracia».
O que é a revisão dos cadernos eleitorais?
A SIR é uma verificação em grande escala dos cadernos eleitorais da Índia, as listas oficiais que determinam quem pode votar. Começou no estado de Bihar, antes das eleições estaduais, e alargou-se à maioria dos estados e territórios administrados pelo Governo federal. O processo obriga os eleitores a apresentar documentos que comprovem que continuam a reunir as condições para estarem inscritos.
A Comissão Eleitoral afirma que a operação elimina registos duplicados, de pessoas falecidas e de outras pessoas sem direito a voto, garantindo ao mesmo tempo que os eleitores legítimos permanecem nas listas. Os críticos dizem que os requisitos documentais podem ser confusos ou difíceis de cumprir, sobretudo para pessoas mais pobres e vulneráveis que poderão não ter registos governamentais antigos. As pessoas cujos nomes forem eliminados podem recorrer, embora os críticos afirmem que, na prática, poderá ser difícil voltar a inscrevê-los.
Segundo números citados em notícias sobre a revisão, foram eliminados mais de 130 milhões de nomes dos cadernos eleitorais. A dimensão é notável num país onde cerca de 969 milhões de pessoas tinham direito a votar nas eleições gerais de 2024. Milhões de pessoas recorreram das eliminações. Dados da Comissão Eleitoral também indicaram que os cadernos eleitorais de algumas regiões poderão diminuir até 30%.
Por si só, o número de eliminações não permite determinar quantas pessoas foram excluídas indevidamente. A questão central é saber se o processo de verificação distingue corretamente os registos de pessoas sem direito a voto das pessoas que ainda têm esse direito, e se as pessoas afetadas conseguem contestar eficazmente uma eliminação antes de uma eleição.
Por que motivo os manifestantes alegam parcialidade política
Os partidos da oposição defendem que estão a ser eliminados eleitores legítimos mais propensos a apoiá-los, enquanto são mantidos ou acrescentados eleitores mais propensos a apoiar o BJP. A Comissão Eleitoral e o Governo rejeitam a acusação e afirmam que as revisões não têm motivação política. O BJP descreveu a operação como uma forma de eliminar os que chama «infiltrados».
A polémica intensificou-se após notícias de que dois dos três comissários eleitorais se opuseram a decisões relacionadas com a inclusão e eliminação de eleitores, os procedimentos de inscrição e os sistemas digitais da comissão. Uma investigação noticiou pelo menos 14 objeções ao longo de 10 meses. A Comissão Eleitoral contestou os relatos que as descreviam como objeções formais por escrito, afirmando que os comissários tinham opiniões divergentes e debateram as questões, mas que as decisões foram unânimes.
A Comissão Eleitoral da Índia é um órgão constitucional responsável pela organização das eleições e pela manutenção dos cadernos eleitorais. As suas decisões determinam quem pode participar nas eleições, pelo que a confiança pública na sua independência é central nesta disputa. A oposição pediu um inquérito à conduta de Kumar, a suspensão da revisão em curso e a utilização de cadernos eleitorais anteriores em futuras eleições. Alguns dirigentes da oposição voltaram também a defender o regresso aos boletins de voto em papel, alegando que as máquinas de voto eletrónicas podem ser vulneráveis à manipulação. A comissão e o BJP rejeitam as alegações de manipulação do sistema de votação.
A disputa chegou também aos tribunais. O Supremo Tribunal enviou notificações ao Governo, à Comissão Eleitoral e a Kumar, pedindo-lhes que respondam a petições contra a revisão. Noutro relato sobre o processo, o tribunal pediu respostas claras e transparentes. O tribunal não ordenou a suspensão do processo, e a comissão afirmou que irá comparar os cadernos atuais com listas anteriores e realizar visitas porta a porta para verificar as pessoas cujos nomes desapareceram.
Protestos alastram para lá da capital
As manifestações estenderam-se muito além de Deli. Apoiantes do CJP manifestaram-se em Bengaluru, enquanto foram noticiados protestos e iniciativas de organização em cidades como Mumbai. Em Bengaluru, o ator Prakash Raj e apoiantes do CJP organizaram um «Tribunal do Povo» no Freedom Park, onde residentes apresentaram documentos e manifestaram preocupações sobre os formulários de inscrição eleitoral. Em Hyderabad, partidos da oposição, liderados pelo Comité do Congresso de Telangana Pradesh, marcharam em direção a Lok Bhavan para exigir o fim da revisão e a destituição de Kumar.
Grupos do Congresso no estado de Karnataka realizaram também uma manifestação com bandeiras negras, protestando contra a detenção de dirigentes da oposição e pedindo que fossem escrutinadas as agências privadas envolvidas na recolha de dados. O movimento e os seus apoiantes afirmam que a questão vai além da disputa entre partidos: as pessoas cujos nomes forem eliminados indevidamente poderão perder a capacidade de participar nas eleições se não conseguirem ultrapassar o processo de recurso.
Uma análise da atividade de protesto registou 278 manifestações em 26 dos 28 estados da Índia nos 10 dias até 2 de outubro, um ritmo muito superior ao habitual nos 18 meses anteriores. Segundo os relatos, mais de nove em cada 10 decorreram pacificamente. Os números são provisórios e dependem da forma como os protestos são registados, mas ilustram a extensão geográfica da indignação.
Os dados sugerem também que os partidos da oposição, em particular o Congresso e os seus aliados, têm tido um papel central na campanha mais ampla. O CJP tem sido um dos principais organizadores, embora a sua proporção das manifestações registadas até agora pareça inferior à da campanha de julho contra a fuga de enunciados de exames. Segundo a mesma análise, durante os últimos 10 dias, essa vaga anterior avançou a um ritmo diário aproximadamente duas vezes superior.
Ação policial suscita críticas
O tratamento dado aos manifestantes tornou-se um segundo foco da disputa. Rahul Gandhi, dirigente da oposição, foi detido brevemente quando tentava chegar a um local de protesto em Deli, naquela que foi descrita como a sua terceira detenção em dois dias. O seu Partido do Congresso acusou a polícia de recorrer à «força bruta». A Polícia de Deli afirmou que as acusações estavam a ser usadas para difamar a corporação, enquanto Gaurav Bhatia, porta-voz do BJP, as classificou como alegações infundadas de uma oposição irresponsável.
A Amnistia Internacional Índia criticou o recurso a ordens de proibição, detenções e alegadas restrições ao acesso à Internet e aos transportes públicos durante os protestos em Deli e Mumbai. A organização afirmou que o direito à reunião pacífica é protegido pela Constituição indiana e pelo direito internacional dos direitos humanos, e defendeu que deter pessoas apenas por tencionarem protestar pode violar os direitos à liberdade e à reunião. Estas são as avaliações expressas pela Amnistia; os relatos das autoridades e a base jurídica das detenções individuais não foram apurados em todos os casos.
Ao abrigo da lei indiana, podem ser impostas restrições a ajuntamentos públicos em nome da ordem pública. Organizações de defesa dos direitos humanos argumentam que o recurso amplo ou habitual a estes poderes pode impedir protestos pacíficos e dificultar a organização, a comunicação e o registo da atuação policial. As alegações do CJP de detenções em massa continuam por verificar, mas os relatos intensificaram as preocupações quanto à liberdade de manifestação à medida que se aproxima o protesto previsto em Deli.
Um teste à confiança pública
A polémica sobre os cadernos eleitorais decorre no contexto de uma disputa política mais ampla. Os protestos deram aos partidos da oposição uma causa comum e levaram jovens para a política de rua, na sequência da campanha do CJP contra a fuga de enunciados de exames. Ao mesmo tempo, as alegações continuam a ser contestadas, e os números disponíveis sobre as eliminações não permitem concluir que a revisão tenha favorecido sistematicamente um partido.
Para os eleitores, o que está imediatamente em causa é concreto: saber se os seus nomes constam dos cadernos eleitorais e se conseguem corrigir erros a tempo de votar. Para a Comissão Eleitoral, o desafio consiste em demonstrar que a verificação é justa, explicar as regras de forma acessível e oferecer um meio eficaz para recorrer. O escrutínio judicial e a pressão pública aumentaram, enquanto a comissão afirma que continua as verificações.
A manifestação prevista será mais uma medida da capacidade de mobilização da campanha e da resposta das autoridades. A questão central vai além da dimensão das manifestações: trata-se de saber se os eleitores podem confiar na instituição que determina quem tem direito a participar nas eleições da Índia.
Em síntese
- O CJP afirma que as autoridades detiveram 10 000 pessoas em todo o país antes de uma manifestação prevista em Deli; a alegação não foi verificada de forma independente.
- Mais de 130 milhões de nomes foram eliminados dos cadernos eleitorais durante a Revisão Intensiva Especial, e milhões de pessoas recorreram.
- A Comissão Eleitoral afirma que a revisão elimina registos duplicados e de pessoas sem direito a voto; os partidos da oposição alegam que eleitores elegíveis podem ser excluídos e contestam a neutralidade política do processo.
- Os protestos alastraram a vários estados, enquanto as detenções e as restrições às manifestações suscitaram críticas de organizações de defesa dos direitos humanos.
- O Supremo Tribunal pediu ao Governo e à Comissão Eleitoral que respondam a petições que contestam a revisão.






