Ganhos com fundos de ações passam a integrar o plano de despesa do Japão
O Japão planeia usar o aumento das transferências dos lucros do Banco do Japão (BOJ) para ajudar a financiar projetos de crescimento e segurança económica, depois de o banco central ter aprovado um forte aumento das vendas dos seus fundos de ações. O ritmo anual de vendas aumentará para cerca de 860 mil milhões de ienes, a valor contabilístico, a partir de janeiro de 2027, face aos 330 mil milhões de ienes atuais.
Índice
- Ganhos com fundos de ações passam a integrar o plano de despesa do Japão
- O que o BOJ vai vender e a que ritmo
- Porque é que 860 mil milhões de ienes não correspondem ao dinheiro recebido pelo Governo
- Uma conta especial e empréstimos antes da chegada da receita
- Como se enquadra o plano nas pressões orçamentais do Japão
- Uma saída mais rápida continua a demorar décadas
- A volatilidade dos mercados complica as perspetivas de receita
- As datas que marcam a próxima fase
- Principais pontos
A primeira-ministra Sanae Takaichi apresentou o plano de financiamento a 6 de novembro de 2026, na Comissão dos Assuntos Financeiros da Câmara dos Representantes. A receita adicional apoiaria o quadro de investimento da sua administração, «Japão Forte e Próspero», incluindo uma nova conta especial para projetos considerados particularmente importantes para a segurança económica.
A proposta liga duas grandes tarefas: reduzir as posições do banco central em ativos adquiridos durante anos de flexibilização monetária e encontrar financiamento para o investimento público sem depender demasiado de mais endividamento. Takaichi descreveu os ganhos adicionais com a venda de ETF como fruto do crescimento económico do Japão e defendeu que reinvesti-los na gestão de crises e no crescimento contribuiria para uma nova expansão.
O dinheiro chegaria ao Governo através das transferências anuais para o Estado dos lucros do BOJ. Os ganhos com a venda de fundos de investimento cotados em bolsa, ou ETF, contribuiriam para esses lucros. O Governo tenciona também usar a receita esperada como garantia para o reembolso de obrigações públicas de curto prazo, que assegurariam financiamento antes de a receita futura ser recebida.
O que o BOJ vai vender e a que ritmo
O BOJ aprovou por unanimidade o aumento do ritmo de venda de ETF a 30 de outubro. A subida para 860 mil milhões de ienes por ano corresponde a cerca de 2,6 vezes o ritmo anterior, ou mais 530 mil milhões de ienes, calculados com base no custo de aquisição dos fundos.
Um ETF é um fundo de investimento negociado em bolsa. Pode deter ações de muitas empresas, permitindo a um investidor comprar um cabaz de ações através de um único investimento. O BOJ acumulou estes fundos no âmbito dos esforços para apoiar as condições financeiras e estimular a atividade económica.
O banco começou a comprar ETF em 2010, tendo a maioria das aquisições ocorrido durante o amplo programa de flexibilização monetária lançado em 2013. A venda gradual reduz a presença do banco central no mercado bolsista japonês e transforma parte dos ganhos dos investimentos em rendimentos realizados.
O banco central começou a vender ETF em janeiro de 2026. Uma venda inicial, divulgada em fevereiro, ascendeu a cerca de 5,37 mil milhões de ienes a valor contabilístico. As suas posições estavam avaliadas em aproximadamente 37 biliões de ienes, o que ilustra a dimensão reduzida das primeiras transações face à carteira acumulada ao longo de muitos anos.
Porque é que 860 mil milhões de ienes não correspondem ao dinheiro recebido pelo Governo
Os valores das vendas do BOJ são apresentados a valor contabilístico, ou seja, pelo montante registado para os ativos com base no respetivo custo de aquisição. O valor de mercado corresponde ao montante que esses ativos podem alcançar aos preços atuais. Como as cotações das ações japonesas subiram desde muitas das aquisições, o valor de mercado dos fundos vendidos é muito superior.
O novo ritmo anual de 860 mil milhões de ienes a valor contabilístico corresponde a um valor de mercado estimado em 2,46 biliões de ienes. A estimativa baseia-se na relação entre os preços de mercado e os valores contabilísticos dos ETF vendidos entre janeiro e setembro de 2026.
A diferença é de cerca de 1,6 biliões de ienes. Este valor dá uma ideia dos ganhos latentes nas posições, segundo essas avaliações. Os ganhos efetivos dependerão dos fundos vendidos e dos respetivos preços no momento das transações.
A receita só chega ao Governo mais à frente neste processo. O produto das vendas entra no banco central, os ganhos são incluídos nos seus resultados financeiros e uma parte do lucro líquido anual é transferida para os cofres do Estado. O quadro de investimento recorreria ao aumento esperado dessas transferências. Nem a meta de vendas de 860 mil milhões de ienes nem a estimativa de 2,46 biliões de ienes a valor de mercado correspondem a um montante automaticamente disponível para novas despesas públicas.
Uma conta especial e empréstimos antes da chegada da receita
O plano de Takaichi prevê incluir numa nova conta especial, integrada no quadro de investimento mais amplo, projetos de particular importância para a segurança económica. Uma conta especial mantém determinadas receitas e despesas públicas separadas do orçamento geral, permitindo gerir em conjunto um grupo específico de atividades.
A proposta de financiamento recorre também a obrigações públicas de curto prazo. Em termos simples, o Governo pediria primeiro dinheiro emprestado e usaria a receita futura esperada para reembolsar essa dívida. O aumento das transferências do BOJ resultante dos ganhos com ETF constituiria a garantia proposta para o reembolso.
Este mecanismo permite ao Governo iniciar investimentos antes de receber toda a receita prevista. Também torna relevante o calendário das transferências dos lucros do banco central, uma vez que as vendas de ações e a despesa pública obedecem a ritmos diferentes.
Takaichi não especificou quanto dinheiro adicional o Governo espera receber, que projetos concretos seriam elegíveis ou quando começaria a funcionar a conta especial. Esses detalhes determinarão o montante e o calendário das despesas que a proposta poderá financiar.
Como se enquadra o plano nas pressões orçamentais do Japão
A administração de Takaichi procura receitas para além dos impostos, enquanto se prepara para assumir compromissos de despesa substanciais. Os rendimentos dos lucros do banco central dariam ao Governo uma fonte adicional de financiamento, a par dos impostos e do endividamento, embora o seu valor dependa, em parte, das condições dos mercados financeiros.
A proposta surge na sequência do desafio de financiamento orçamental de outubro do Governo, que procurava manter a emissão de novas obrigações perto dos 40 biliões de ienes e, ao mesmo tempo, encontrar financiamento para uma proposta de redução do imposto sobre os alimentos, para as indústrias estratégicas e para um orçamento da Defesa maior.
A taxa de rendibilidade das obrigações de referência do Governo japonês subiu de cerca de 1,6% quando a administração tomou posse para 3,115% no final de setembro de 2026. As taxas de rendibilidade das obrigações refletem o retorno exigido pelos investidores para emprestarem dinheiro ao Estado. Taxas mais elevadas podem encarecer novos empréstimos, aumentando a pressão para identificar receitas que cubram a despesa ou permitam reembolsar a dívida.
A proposta relativa aos ETF procura responder a essa pressão através de um ativo específico que já está na posse do banco central. O seu valor orçamental dependerá do montante dos lucros que chegar aos cofres do Estado e da forma como o Governo ajustar essas receitas aos compromissos assumidos no quadro de investimento.
Uma saída mais rápida continua a demorar décadas
Mesmo com o aumento do ritmo de vendas do BOJ, a redução das posições continuará a ser um processo longo. Com base nas posições no final de setembro de 2026, o novo ritmo aponta para cerca de 43 anos até à liquidação da carteira, face a cerca de 112 anos ao ritmo anterior. O cálculo pressupõe as posições e o ritmo de vendas usados na estimativa.
O novo ritmo reduziria, assim, o período estimado em cerca de 69 anos. Mesmo depois dessa aceleração, o banco central continuaria a vender ao longo de várias décadas, em vez de procurar liquidar rapidamente os seus fundos de ações.
O valor de mercado estimado das vendas anuais, de 2,46 biliões de ienes, corresponde a cerca de 0,1% do valor negociado no segmento Prime da Bolsa de Tóquio, com base na atividade entre janeiro e setembro de 2026. Esta comparação explica por que razão um montante anual elevado em ienes pode representar uma pequena parcela das transações no principal mercado bolsista do Japão.
As vendas decorreram sem sobressaltos à medida que a negociação de ações se expandia. O administrador fiduciário responsável pelas transações poderá ajustar temporariamente o ritmo ou suspender as vendas quando as condições dos mercados financeiros mudarem. Essa flexibilidade também é importante para o Governo, pois as interrupções poderão alterar o momento em que os ganhos contribuem para os lucros do BOJ.
A volatilidade dos mercados complica as perspetivas de receita
As declarações de Takaichi no Parlamento foram proferidas num contexto de uma vaga global de vendas nos mercados, na sequência das eleições intercalares nos Estados Unidos. A primeira-ministra afirmou que o Governo acompanhava atentamente a situação, numa altura em que a maior volatilidade afetava economias de todo o mundo.
A primeira-ministra reconheceu as fortes quedas das ações ligadas à inteligência artificial e aos semicondutores. Disse que o Governo se concentraria em construir uma economia forte, nomeadamente reforçando as indústrias em que o Japão tem uma vantagem competitiva.
A descida das cotações afeta diretamente o mecanismo de financiamento proposto. Um fundo vendido a um preço de mercado mais baixo gera menos dinheiro e um ganho menor do que o mesmo fundo vendido a um preço mais elevado, supondo o mesmo custo de aquisição. A possibilidade de o BOJ ajustar o ritmo das vendas é outro fator que poderá fazer variar as receitas do Governo ao longo do tempo.
Na reunião de 30 de outubro, o BOJ manteve também a taxa de juro de referência para operações overnight perto de 1,25%, por uma votação de 8 contra 1, enquanto as vendas anuais de fundos de investimento imobiliário japoneses permaneceram perto dos 5 mil milhões de ienes a valor contabilístico. O banco aumentou o ritmo de alienação de ETF, sem alterar esses dois parâmetros.
As datas que marcam a próxima fase
O programa de ETF passou de pequenas alienações iniciais para um aumento aprovado, que terá início no próximo ano. As principais datas mostram como a decisão de política monetária passou a integrar os planos orçamentais do Governo:
- Janeiro de 2026: O BOJ começou a vender ETF acumulados durante os seus programas de flexibilização monetária.
- 3 de fevereiro de 2026: O início das vendas foi tornado público, com uma alienação inicial de cerca de 5,37 mil milhões de ienes a valor contabilístico.
- 30 de outubro de 2026: O BOJ aprovou por unanimidade o aumento das vendas anuais de ETF, de cerca de 330 mil milhões de ienes para 860 mil milhões de ienes a valor contabilístico.
- 6 de novembro de 2026: Takaichi disse à Comissão dos Assuntos Financeiros da Câmara dos Representantes que o aumento das transferências para os cofres do Estado apoiaria o quadro de investimento e serviria de garantia para o reembolso das obrigações de curto prazo.
- Janeiro de 2027: Está previsto que comece o novo ritmo anual de vendas.
As próximas grandes decisões orçamentais do Governo terão lugar no final de 2026, enquanto prepara o orçamento para o ano fiscal com início em abril de 2027 e um plano de despesas de Defesa para cinco anos. Estes trabalhos integrarão a fonte de receita proposta no mesmo processo orçamental que as restantes prioridades de despesa.
A principal tarefa consiste em ajustar os compromissos de investimento às receitas que chegarão através dos lucros anuais do BOJ. A aceleração das vendas de ETF proporciona um fluxo potencial de ganhos maior, enquanto a conta especial e as obrigações de curto prazo organizariam a forma como o Governo gastaria e se endividaria com base nessa receita prevista.
Principais pontos
- Takaichi pretende que o aumento das transferências dos lucros do BOJ apoie o quadro de investimento «Japão Forte e Próspero».
- Uma nova conta especial geriria projetos considerados particularmente importantes para a segurança económica.
- A receita prevista serviria de garantia para o reembolso de obrigações públicas de curto prazo.
- As vendas anuais de ETF subirão para 860 mil milhões de ienes a valor contabilístico a partir de janeiro de 2027, cerca de 2,6 vezes o ritmo anterior.
- O valor de mercado dessas vendas anuais é estimado em 2,46 biliões de ienes; as receitas do Governo dependem das transferências anuais dos lucros líquidos do BOJ.
- O ritmo acelerado aponta para cerca de 43 anos até à liquidação das posições consideradas no cálculo, podendo o ritmo das vendas ser ajustado em função das condições do mercado.






