Cazaquistão põe preço no equilíbrio em matéria de IA
O Cazaquistão assinou, a 15 de junho de 2026, acordos para um projeto de infraestruturas de inteligência artificial que poderá atrair até 10 mil milhões de dólares, incluindo um centro de dados previsto para Ekibastuz, equipado com processadores da Nvidia. As suas ambições diplomáticas são igualmente grandes: garantir acesso à tecnologia norte-americana e, ao mesmo tempo, ajudar a moldar uma organização de IA promovida pela China.
Índice
- Cazaquistão põe preço no equilíbrio em matéria de IA
- O que envolve, na prática, o projeto de 10 mil milhões de dólares
- Por que razão Washington e Pequim procuram parceiros
- Breve cronologia da estratégia do Cazaquistão
- Indonésia e Singapura procuram margem de manobra
- Arábia Saudita combina chips norte-americanos com modelos chineses
- Europa e Japão enfrentam limitações diferentes
- China amplia a sua influência através do financiamento
- O que transforma um acordo de IA em serviços úteis?
- Pontos-chave
O país da Ásia Central aderiu, em junho, à parceria tecnológica norte-americana Pax Silica. Três semanas depois, o ministro da IA, Zhaslan Madiyev, deslocou-se a Xangai para uma cerimónia de assinatura que tornou o Cazaquistão membro fundador da Organização Mundial de Cooperação em IA da China.
Para um país com cerca de 21 milhões de habitantes, a atração é concreta. As parcerias norte-americanas oferecem chips avançados, infraestruturas de computação e potenciais postos de trabalho. As parcerias chinesas trazem investimento, tecnologia de IA mais acessível e voz numa organização cujos outros 28 membros fundadores incluem o Paquistão e a Rússia.
Washington está a alertar que a participação em iniciativas concorrentes de IA pode pôr em risco o estatuto de um país como parceiro de confiança. Pequim apresenta a sua organização como uma alternativa inclusiva. Os países que procuram estabelecer relações com ambos têm cada vez mais de ponderar se uma compra de tecnologia ou um acordo diplomático poderá afetar o acesso ao outro lado.
A posição do Cazaquistão reflete uma disputa mais ampla, que se estende da Indonésia e de Singapura à Arábia Saudita e à Europa. Os governos querem tirar partido da IA sem dar a outro país o controlo decisivo sobre os processadores, o software e os serviços de computação de que as suas empresas e instituições públicas vão precisar.
O que envolve, na prática, o projeto de 10 mil milhões de dólares
Os acordos do Cazaquistão envolvem a Firebird, uma startup norte-americana apoiada pela Nvidia, e a operadora estatal Kazakhtelecom. O Data Center Valley previsto para Ekibastuz, um polo energético no nordeste do país, beneficiaria do acesso a eletricidade barata, um dos seus principais atrativos.
A primeira fase está avaliada em cerca de 5 mil milhões de dólares, incluindo mil milhões da Kazakhtelecom. O objetivo é iniciar a atividade comercial em 2027, numa instalação com uma potência de 125 megawatts. Os megawatts indicam a dimensão das necessidades de energia elétrica, uma questão central, já que as grandes instalações de computação para IA consomem quantidades substanciais de eletricidade.
O valor de 10 mil milhões de dólares, avançado nos títulos, representa o investimento potencial no âmbito de vários acordos. O quadro de cooperação estratégica define intenções, sem criar uma obrigação de investimento vinculativa, enquanto a carta de intenções entre a Kazakhtelecom e a Firebird é vinculativa. O financiamento, o fornecimento de energia e as entregas de chips ainda têm de se concretizar para a primeira fase avançar.
Os planos de expansão apontam para pelo menos 300 megawatts, com a ambição de chegar, mais tarde, a um gigawatt, ou seja, mil megawatts. O projeto poderá acolher até 100 mil unidades de processamento gráfico da Nvidia, incluindo tecnologia GB300 e Vera Rubin. Estes processadores, geralmente designados por GPU, executam muitos cálculos em simultâneo e são fundamentais para treinar e executar sistemas avançados de IA.
Os 300 megawatts previstos seriam 2,4 vezes a potência inicial de 125 megawatts. Isso dá uma ideia da expansão em discussão, embora os valores mais elevados continuem a ser metas de desenvolvimento.
Por que razão Washington e Pequim procuram parceiros
Os Estados Unidos estão a organizar a Pax Silica em torno de parceiros tecnológicos de confiança e de cadeias de abastecimento seguras. Para os países participantes, os potenciais benefícios incluem uma cooperação tecnológica mais estreita, oportunidades de fabrico e um lugar nas redes que fornecem infraestruturas de IA.
O Departamento de Estado dos EUA alertou que os países com participação significativa em iniciativas que promovam visões concorrentes da superinteligência poderão comprometer a sua posição como parceiros de confiança da Pax Silica. A superinteligência descreve uma hipotética forma futura de IA com capacidades superiores às dos seres humanos numa vasta gama de tarefas.
A embaixada da China em Washington defendeu que as duas potências devem cooperar com base nas respetivas vantagens em IA e que a tecnologia deve estar acessível para além das grandes potências. Pequim procura também parceiros, ao mesmo tempo que enfrenta restrições dos EUA ao acesso a chips avançados para IA e ao equipamento usado no seu fabrico.
Kyle Chan, investigador do John L. Thornton China Center, do Brookings Institution, considera que os pontos de partida diplomáticos são diferentes. Washington já dispõe de uma forte rede de alianças, enquanto Pequim procura atrair países para um grupo alternativo. Os países que conseguem trabalhar com qualquer um dos lados têm, por isso, poder negocial.
Breve cronologia da estratégia do Cazaquistão
As iniciativas do Cazaquistão conjugam a participação diplomática, acordos de investimento e planos para vender serviços de computação no estrangeiro. Os principais desenvolvimentos distribuem-se por várias datas:
- 2025: O investimento direto chinês no Cazaquistão atingiu um recorde de 2,8 mil milhões de dólares, segundo responsáveis locais.
- Junho: Madiyev visitou Washington quando o Cazaquistão aderiu à Pax Silica.
- 15 de junho de 2026: Foram assinados em Astana os acordos para o projeto de infraestruturas de IA previsto.
- Três semanas após a visita a Washington: Madiyev participou na cerimónia de assinatura, em Xangai, da organização chinesa de IA.
- 2027: Prevê-se que os primeiros 125 megawatts do Data Center Valley iniciem atividade comercial, juntamente com o arranque previsto das exportações de capacidade de computação do Cazaquistão.
As autoridades pretendem alcançar 3 mil milhões de dólares em exportações anuais de serviços de computação. Na prática, clientes estrangeiros pagariam para utilizar processadores instalados no Cazaquistão, em vez de adquirirem e instalarem todo o equipamento necessário. Bagdat Mussin, responsável pela Kazakhtelecom, apontou 2027 como a data prevista para o início.
A antiga diplomata cazaque Dana Masalimova, investigadora independente associada ao Davis Center for Russian and Eurasian Studies da Universidade de Harvard, afirma que o país está a diversificar os riscos em vez de aceitar que tem de escolher entre duas potências. Descreve também a sua posição como vulnerável e altamente arriscada.
O Cazaquistão dispõe de eletricidade e recursos minerais que o tornam atrativo para investidores tecnológicos. O desafio é transformar essas vantagens em receitas duradouras e serviços nacionais úteis, mantendo o acesso às parcerias norte-americanas e chinesas.
Indonésia e Singapura procuram margem de manobra
A Indonésia aderiu à iniciativa chinesa de IA, continuando a procurar parcerias tecnológicas norte-americanas. Os seus recursos de níquel e cobre são relevantes para as cadeias de abastecimento tecnológico, embora a riqueza mineral, por si só, não forneça os chips, o software e os conhecimentos necessários à IA avançada.
Mari Pangestu, vice-presidente do Conselho Nacional de Economia da Indonésia, explicou a preferência do país aos jornalistas, à margem de um evento numa escola de negócios da Universidade de Hong Kong. Disse que a Indonésia queria beneficiar das duas potências:
Em termos simples, devemos poder fazer parte de ambos os lados e escolher o que é melhor para o sistema.
Singapura está a ponderar aderir à organização chinesa de IA, ao mesmo tempo que empresas norte-americanas reforçam a sua presença no país. A Anthropic está a criar uma nova sede asiática na cidade-Estado, juntando mais uma empresa norte-americana de IA ao seu setor tecnológico.
A Indonésia e Singapura ilustram diferentes fontes de poder negocial. A Indonésia oferece recursos e um mercado de grandes dimensões. Singapura proporciona uma localização consolidada para operações tecnológicas internacionais. Ambos procuram preservar relações comerciais em ambos os lados da rivalidade, em vez de organizarem toda a sua estratégia de IA em torno de um único país fornecedor.
Arábia Saudita combina chips norte-americanos com modelos chineses
A Arábia Saudita está a procurar infraestruturas de computação avançadas da Nvidia e, ao mesmo tempo, a adotar tecnologia baseada em modelos abertos chineses. A startup saudita de IA Humain lançou, em setembro, uma plataforma que utiliza esses modelos.
O hardware e os modelos têm funções diferentes. Os chips realizam os cálculos, enquanto um modelo de IA é o software treinado que utiliza esses cálculos para gerar respostas, analisar informação ou executar outras tarefas. Assim, um país pode comprar processadores norte-americanos e executar neles software desenvolvido noutro local.
Os modelos abertos dão aos utilizadores acesso a componentes essenciais do sistema treinado, permitindo-lhes executá-lo ou adaptá-lo, sob determinadas condições de licenciamento. Isso pode dar a governos e empresas maior controlo sobre a implementação e reduzir a dependência de um serviço inteiramente gerido por um fornecedor estrangeiro.
A abordagem saudita ajuda a explicar por que razão os blocos emergentes são difíceis de separar de forma clara. Os governos podem preferir o hardware de um país, os modelos de outro e os seus próprios centros de dados. A pressão diplomática pode complicar uma combinação que, de outro modo, faria sentido comercial.
Europa e Japão enfrentam limitações diferentes
A França procura maior independência tecnológica através da Mistral, uma das empresas de desenvolvimento de IA mais ambiciosas fora dos Estados Unidos e da China. A capacidade para desenvolver modelos no próprio país dá à França uma opção que muitos outros governos não têm.
O Reino Unido e a Alemanha têm economias de grande dimensão e capacidades militares substanciais, mas, segundo os investigadores Anton Leicht e Sam Winter-Levy, da Carnegie Endowment for International Peace, não dispõem de modelos de IA de fronteira nacionais com capacidade comparável. Os modelos de fronteira são sistemas que se encontram perto da vanguarda das capacidades de IA.
Os investigadores argumentam que as parcerias com os EUA poderão ser fundamentais para garantir acesso a centros de dados e acordos de fornecimento de chips. Para estes países, as decisões tomadas em Washington e Pequim podem determinar o acesso a sistemas avançados, mesmo quando os seus próprios governos têm pouca influência sobre essas decisões.
O Japão mantém um alinhamento estreito com Washington em matérias estratégicas e de segurança, incluindo semicondutores avançados, IA de confiança e normas. Ainda assim, Takahiro Tsuchiya, professor na Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto, prevê margem para a utilização de modelos chineses baratos em aplicações de menor risco.
O desenvolvimento de modelos nacionais em França e a utilização seletiva de tecnologia estrangeira pelo Japão são vias diferentes para alcançar maior autonomia. Ambos continuam, porém, a operar num setor em que os recursos de computação e os sistemas de IA mais avançados estão concentrados num pequeno número de empresas e países.
China amplia a sua influência através do financiamento
O papel internacional da China na IA vai além da venda ou disponibilização de modelos. Uma investigação da AidData, um centro de investigação da universidade William & Mary, na Virgínia, concluiu que subsídios e empréstimos do Governo chinês apoiavam projetos e atividades que utilizam ou possibilitam a IA em, pelo menos, 77 países de baixo ou médio rendimento.
Entre os principais beneficiários identificados pela investigação encontram-se a Nigéria, a Zâmbia, o Gana, o Bangladesh, o Senegal, os Camarões e o Quénia. O financiamento e a assistência técnica proporcionam aos países outra via para desenvolver as infraestruturas e as competências necessárias à utilização da IA.
Alberto Lemma, investigador da ODI Global, defende que a abordagem chinesa de modelos abertos pode ajudar os países a reduzir a sua dependência dos Estados Unidos. O software acessível é especialmente importante onde os governos e as empresas têm orçamentos limitados para serviços de computação.
Uma investigação do Pew Research Center aponta também para opiniões mais favoráveis à China, em matéria de IA e da sua regulamentação, entre pessoas de países de rendimento médio. Estas atitudes públicas integram o contexto em que os governos escolhem os seus parceiros tecnológicos.
Os Estados Unidos mantêm uma vantagem nos sistemas de IA mais avançados, enquanto a China procura reduzir a diferença na produção de chips e nas capacidades de IA. Os países que optam por financiamento ou software chinês continuam a ter motivos para procurar tecnologia norte-americana para as suas necessidades de computação mais exigentes.
O que transforma um acordo de IA em serviços úteis?
Os planos nacionais do Cazaquistão mostram por que razão os governos querem mais do que ser membros de uma organização internacional. Madiyev, vice-primeiro-ministro e ministro da IA e do Desenvolvimento Digital, afirma que o país tenciona desenvolver cinco níveis de atividade em IA, desde as infraestruturas de energia e de chips até aos modelos linguísticos e às aplicações.
Madiyev estima que a economia mundial da IA poderá ultrapassar os 50 biliões de dólares, uma estimativa de oportunidades futuras, não de receitas atuais. Vê um potencial especial em aplicações práticas que ajudem as empresas a funcionar com maior eficiência e as pessoas a realizar tarefas do dia a dia.
Timur Turlov, responsável pela Freedom Holding, afirma que a empresa planeia uma parceria para um centro de dados com a Nvidia e um assistente de IA integrado na sua superaplicação. O assistente proposto ajudaria os clientes a utilizar serviços que vão dos investimentos e seguros às compras, hotéis e viagens de avião. A empresa já utiliza IA na administração, na elaboração de relatórios e na gestão de processos.
Na AI & Digital Bridge 2026, Shervin Pishevar, fundador e diretor-executivo da Sofreh Capital, manifestou também a intenção de abrir escritórios e investir no Cazaquistão. A empresa nacional cazaque National Information Technologies e a Agência de Governação Digital da Geórgia assinaram um memorando de entendimento para cooperar em matéria de governo digital, serviços públicos e possíveis projetos tecnológicos conjuntos.
Para os investidores, as decisões imediatas dizem respeito ao destino do capital para processadores, eletricidade, computação em nuvem e centros de dados. O projeto do Cazaquistão mostra por que razão os termos são importantes: um acordo vinculativo, um plano de financiamento e uma instalação em funcionamento correspondem a diferentes fases de desenvolvimento. A Firebird afirma que a sua fábrica de IA na Arménia foi construída em cerca de seis meses e que deveria entrar em funcionamento em julho, servindo de termo de comparação para os seus planos de construção.
Alok Mehta, diretor do Wadhwani AI Center, do Center for Strategic and International Studies, afirma que os países estão a ponderar os pontos fortes e fracos dos sistemas tecnológicos concorrentes, procurando simultaneamente alcançar soberania em IA. Em termos práticos, isso significa dispor de controlo suficiente sobre as infraestruturas, o software e o acesso para manter os serviços essenciais a funcionar em condições aceitáveis para o país.
O próximo marco concreto do Cazaquistão é a abertura comercial prevista para 2027. A disponibilização de instalações com fornecimento de energia, a obtenção de chips e a captação de clientes pagantes determinarão até que ponto o equilíbrio diplomático se traduz numa indústria funcional.
Pontos-chave
- O Cazaquistão aderiu à parceria norte-americana Pax Silica e, três semanas depois, tornou-se membro fundador da organização chinesa de IA.
- Os acordos para as suas infraestruturas de IA poderão atrair até 10 mil milhões de dólares, estando a primeira fase avaliada em cerca de 5 mil milhões.
- Prevê-se que uma instalação de 125 megawatts em Ekibastuz inicie atividade comercial em 2027.
- Washington alertou que uma participação significativa em iniciativas concorrentes de IA poderá afetar o estatuto de parceiro de confiança.
- A Indonésia, Singapura e a Arábia Saudita estão a procurar combinar relações tecnológicas com os Estados Unidos e a China.
- A AidData identificou subsídios e empréstimos chineses a apoiar atividades de IA em, pelo menos, 77 países de baixo ou médio rendimento.
- O acesso a financiamento, eletricidade, chips avançados e software utilizável determinará o grau de independência que os países poderão alcançar.






