Um pedido para reabrir a rota para Schwedt
O Cazaquistão pediu formalmente à Rússia que restabeleça o trânsito de petróleo para a Alemanha através do ramal norte do oleoduto Druzhba, procurando reabrir uma rota que transportou 1,02 milhões de toneladas nos primeiros quatro meses de 2026, antes de os envios serem interrompidos a 1 de maio.
Índice
- Um pedido para reabrir a rota para Schwedt
- O que mantém o oleoduto fechado?
- Como um comércio em expansão foi interrompido em maio
- Quanto petróleo está em causa?
- Por que motivo a interrupção afeta mais Schwedt
- Uma rota a norte, através da Rússia e da Bielorrússia
- As exportações alternativas continuam muito dependentes da Rússia
- As metas de produção enfrentam um último trimestre exigente
- A propriedade da refinaria acrescenta outro diferendo
- Principais pontos
O ministro da Energia, Yerlan Akkenzhenov, afirmou numa conferência de imprensa a 4 de novembro, em Astana, que entregou pessoalmente o pedido. O Cazaquistão diz ter capacidade técnica para retomar os envios para a refinaria de Schwedt, mas a Rússia ainda não respondeu. O ministro não indicou uma data para a resposta nem para a retoma.
Akkenzhenov, responsável pelo setor energético do Cazaquistão, descreveu a sua abordagem à parte russa:
Entreguei pessoalmente um pedido oficial numa reunião presencial, e o pedido foi transmitido. A parte cazaque aguarda uma resposta da parte russa sobre a retoma das operações.
A interrupção tem impactos diferentes em cada extremo do oleoduto. O Druzhba transportava menos de 3% das exportações de petróleo do Cazaquistão, enquanto o crude cazaque fornecia cerca de 20% a 30% do petróleo necessário à refinaria de Schwedt. A unidade produz cerca de 90% da gasolina, do combustível de aviação e do gasóleo consumidos em Berlim e no estado vizinho de Brandemburgo.
O Cazaquistão tinha planeado enviar cerca de 3 milhões de toneladas através do Druzhba em 2026, contra 2,1 milhões de toneladas em 2025. Em vez disso, desviou o petróleo para outras rotas de exportação, incluindo o sistema do Consórcio do Oleoduto do Cáspio e o porto russo de Ust-Luga, no Báltico. O restabelecimento do Druzhba voltaria a ligar um fornecedor consolidado a uma refinaria que já teve de ajustar as suas fontes de crude.
O que mantém o oleoduto fechado?
A Rússia interrompeu a 1 de maio o trânsito de petróleo cazaque para Schwedt, alegando limitações técnicas no troço russo da rota. O vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, descreveu a interrupção como temporária e relacionou-a com trabalhos de reparação. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também fez referência a problemas técnicos.
Em maio, Akkenzhenov afirmou que informações não oficiais provenientes da Rússia relacionavam a interrupção com ataques de drones contra infraestruturas russas. Em junho, disse que a Rússia continuava sem confirmar a viabilidade técnica do bombeamento de petróleo pela rota e que os planos de entregas para os seis meses seguintes previam volumes nulos.
A atual declaração de disponibilidade do Cazaquistão diz respeito à sua capacidade de fornecer petróleo. A retoma também exige que a Rússia disponibilize as suas infraestruturas de trânsito e aceite reiniciar o bombeamento. Um oleoduto de exportação funciona como uma cadeia interligada: o petróleo só chega ao comprador se os troços entre a origem e o destino estiverem operacionais.
Como um comércio em expansão foi interrompido em maio
O Cazaquistão começou a abastecer Schwedt através do Druzhba em 2023, entregando cerca de 1 milhão de toneladas nesse ano. Em 2025, as entregas anuais tinham atingido 2,1 milhões de toneladas, mais do dobro do volume inicial.
O início de 2026 apontava para um novo crescimento. Os envios no primeiro trimestre atingiram cerca de 730 000 toneladas, aproximadamente o dobro do volume entregue no mesmo período de 2025. As entregas chegaram a 1,02 milhões de toneladas até ao final de abril, antes do encerramento da rota.
Os principais acontecimentos mostram a passagem de entregas em expansão para uma interrupção prolongada:
- 2023: O Cazaquistão começou a fornecer petróleo à Alemanha através do Druzhba, enviando cerca de 1 milhão de toneladas.
- 2025: As entregas subiram para 2,1 milhões de toneladas.
- Janeiro a abril de 2026: O Cazaquistão enviou 1,02 milhões de toneladas para Schwedt.
- 1 de maio: A Rússia suspendeu o trânsito, invocando limitações técnicas.
- Junho: A Rússia ainda não tinha confirmado que o bombeamento pudesse ser retomado, e os planos de entregas para os seis meses seguintes não incluíam volumes previstos.
- Agosto: Akkenzhenov afirmou que não se esperava a retoma das entregas em setembro, outubro ou novembro.
- 4 de novembro: O ministro anunciou que tinha apresentado pessoalmente um pedido para retomar o trânsito e aguardava a resposta da Rússia.
O pedido de novembro surge, portanto, após meses em que o Cazaquistão já tinha feito planos contando com a indisponibilidade da rota.
Quanto petróleo está em causa?
O plano mais recente anunciado pelo Cazaquistão previa entregar cerca de 3 milhões de toneladas através do Druzhba em 2026, acima de uma estimativa anterior de 2,5 milhões de toneladas. Algumas fontes continuaram a citar o valor anterior. A meta mais elevada representaria um aumento de cerca de 43% face às 2,1 milhões de toneladas enviadas em 2025.
As 1,02 milhões de toneladas entregues antes de maio correspondiam a 34% da meta anual de 3 milhões de toneladas. Quando o trânsito foi interrompido, faltavam cerca de 1,98 milhões de toneladas das entregas previstas. O Cazaquistão desviou o petróleo para outros canais de exportação, em vez de deixar todos esses volumes dependentes da retoma do Druzhba.
Estes valores explicam por que motivo o Cazaquistão procura recuperar a rota, apesar de esta representar uma pequena parte das exportações nacionais. O Druzhba tinha-se tornado uma via de escoamento em crescimento, destinada a um cliente específico. As rotas alternativas permitem que o petróleo chegue aos mercados de exportação, enquanto a reabertura do oleoduto restabeleceria a ligação consolidada a Schwedt.
Por que motivo a interrupção afeta mais Schwedt
A refinaria de Schwedt transforma crude em combustíveis utilizados em Berlim e Brandemburgo. O seu papel no fornecimento de cerca de 90% da gasolina, do combustível de aviação e do gasóleo da região faz com que as alterações no abastecimento de crude sejam importantes para muito mais pessoas do que as que trabalham na unidade.
Segundo a estimativa de Akkenzhenov, feita em maio, o petróleo cazaque cobria entre cerca de um quinto e quase um terço das necessidades da refinaria. A perda deste fornecimento obriga a refinaria a obter crude de substituição ou a processar menos petróleo. Um menor volume de processamento pode deixar alguns equipamentos a funcionar abaixo da capacidade.
Na primavera, o Ministério da Economia alemão afirmou que a interrupção não constituía uma ameaça ao abastecimento geral de produtos petrolíferos do país, reconhecendo, contudo, que Schwedt teria de funcionar com um nível de produção mais baixo. Entre as rotas alternativas de abastecimento estavam o porto polaco de Gdansk e o porto alemão de Rostock, seguindo-se o transporte até à refinaria.
A situação do abastecimento nacional da Alemanha e a situação operacional de Schwedt envolvem, portanto, medidas diferentes. O país pode recorrer a outras refinarias e canais de abastecimento, enquanto a unidade tem de gerir a perda de uma fonte substancial de crude.
Uma rota a norte, através da Rússia e da Bielorrússia
O petróleo cazaque chega a Schwedt pela rota Atyrau-Samara e pelo ramal norte do Druzhba. O sistema de oleodutos passa pela Rússia e pela Bielorrússia; esta rota norte não atravessa a Ucrânia.
O Druzhba tem também outro ramal, utilizado para abastecer outros clientes europeus. O petróleo russo continuou a chegar à Hungria através desse ramal separado até ao início de 2026. A interrupção que afeta Schwedt diz respeito à rota norte, que transporta crude cazaque para a Alemanha.
Historicamente, Schwedt processava petróleo russo. O crude do Cazaquistão tem características técnicas semelhantes, sendo adequado para uma refinaria habituada a esse tipo de matéria-prima. As refinarias são concebidas para processar determinadas variedades de petróleo; por isso, substituir um fornecimento implica encontrar crude que a unidade consiga processar e organizar o seu transporte.
A origem do petróleo cazaque e a rota pela qual é transportado são aspetos distintos do comércio. O petróleo é proveniente do Cazaquistão, mas o seu percurso até Schwedt depende de infraestruturas na Rússia. Essa dependência coloca a decisão de Moscovo sobre o trânsito no centro da tentativa cazaque de retomar as entregas.
As exportações alternativas continuam muito dependentes da Rússia
O Cazaquistão desviou os fluxos para o Consórcio do Oleoduto do Cáspio, conhecido pela sigla CPC, e para Ust-Luga. O CPC transporta petróleo até à costa russa do Mar Negro, enquanto Ust-Luga permite o acesso ao transporte marítimo através do mar Báltico.
Cerca de 80% das exportações de petróleo do Cazaquistão passam pelo CPC, contra menos de 3% pela rota do Druzhba antes da interrupção. Esta diferença mostra o grau de concentração que continua a caracterizar o sistema de exportação cazaque: a principal alternativa ao Druzhba já é responsável por cerca de quatro quintos das exportações.
Desviar os envios altera o destino, mas tanto o CPC como Ust-Luga também dependem de infraestruturas russas. O Cazaquistão pode ajustar a forma como o seu petróleo chega aos compradores, mas continua exposto a perturbações que afetem o transporte através da Rússia.
Houve outra interrupção a 2 de novembro, quando o Cazaquistão suspendeu temporariamente o transporte de crude para a Rússia pelo oleoduto Atyrau-Samara, na sequência de um ataque com drones nessa manhã. O incidente ocorreu dois dias antes de Akkenzhenov anunciar o pedido formal para restabelecer o trânsito pelo Druzhba.
As metas de produção enfrentam um último trimestre exigente
O Cazaquistão manteve a previsão de produção de petróleo para 2026 nos 96 milhões de toneladas. A produção entre janeiro e setembro totalizou 69,4 milhões de toneladas, menos 8,3% do que no mesmo período de 2025.
Para atingir a meta anual, será necessário produzir mais 26,6 milhões de toneladas nos últimos três meses. Isso corresponde a uma média de cerca de 8,9 milhões de toneladas por mês, face a aproximadamente 7,7 milhões de toneladas mensais nos primeiros nove meses. O ritmo mensal necessário é cerca de 15% superior.
O valor anual anterior foi de 99,4 milhões de toneladas de petróleo e condensados de gás em 2025; outro valor divulgado foi de cerca de 99,6 milhões de toneladas. Face aos 99,4 milhões de toneladas, a meta para 2026 representa uma descida de cerca de 3,4%.
Os ataques a infraestruturas, as suspensões temporárias dos envios através dos terminais do CPC e os problemas técnicos em Tengiz, o maior campo petrolífero do Cazaquistão, afetaram a produção em 2026. Ainda assim, Akkenzhenov afirmou que o país continuava no caminho certo para cumprir o plano anual. A previsão preliminar para 2027, segundo o ministro, é de aproximadamente 99 milhões de toneladas, estando ainda a ser definido o valor final.
A propriedade da refinaria acrescenta outro diferendo
A participação de controlo na refinaria de Schwedt pertence a subsidiárias alemãs da russa Rosneft. Em 2022, a Alemanha colocou essas empresas sob gestão estatal, separando a administração de infraestruturas importantes para o abastecimento de combustíveis do controlo da empresa-mãe russa.
No final de fevereiro de 2026, o Ministério da Economia alemão tornou permanente esse regime de gestão, substituindo a prática anterior de o prorrogar de seis em seis meses. A Rosneft contestou a decisão em tribunal no final de março. A suspensão do trânsito cazaque ocorreu a 1 de maio.
A Alemanha também tinha restringido os fornecimentos de crude russo da Rosneft, aumentando a importância de encontrar petróleo de substituição para Schwedt. O pedido do Cazaquistão centra-se agora no restabelecimento do acesso para o seu próprio crude através do oleoduto existente, enquanto o diferendo sobre a gestão da refinaria prossegue em separado.
O próximo passo prático de Akkenzhenov é receber a resposta da Rússia. Para o Cazaquistão, a aprovação restabeleceria uma rota para um cliente que vinha a crescer rapidamente. Para Schwedt, a retoma das entregas devolveria uma fonte que anteriormente cobria entre 20% e 30% das suas necessidades de crude.
Principais pontos
- O Cazaquistão pediu formalmente a retoma do trânsito de petróleo pelo Druzhba para a Alemanha e, a 4 de novembro, aguardava a resposta da Rússia.
- A Rússia interrompeu a rota a 1 de maio, invocando limitações técnicas e necessidades de reparação.
- O Cazaquistão entregou 1,02 milhões de toneladas antes da interrupção, face a um plano anual mais recente de cerca de 3 milhões de toneladas.
- O crude cazaque cobria anteriormente cerca de 20% a 30% das necessidades de petróleo da refinaria de Schwedt.
- As exportações desviadas passam pelo CPC e por Ust-Luga, ambos dependentes de infraestruturas russas.
- O Cazaquistão manteve a meta de produção de 96 milhões de toneladas para 2026 e prevê produzir aproximadamente 99 milhões de toneladas em 2027.
- Não foi anunciada qualquer data para a resposta da Rússia ou para a retoma das entregas.






