Medida de emergência após queda de 8,8% na bolsa
A Coreia do Sul vai suspender durante três meses, a partir de 9 de novembro de 2026, a exigência de manutenção de uma garantia de 140% para empréstimos destinados à compra de ações, depois de uma forte liquidação no mercado ameaçar desencadear uma vaga de vendas forçadas. O índice de referência KOSPI caiu até 8,8% durante as primeiras horas de negociação de sexta-feira, 6 de novembro, descendo abaixo dos 5.000 pontos e levando à suspensão da negociação durante 20 minutos.
Índice
- Medida de emergência após queda de 8,8% na bolsa
- O que significa a exigência de 140%
- Corretoras ganham margem para adiar vendas forçadas
- Porque é importante a abertura do mercado
- Preocupações com a IA ligam Wall Street a Seul
- Responsáveis pedem aos investidores que evitem pessimismo excessivo
- Medida já utilizada, com nova data de início
- O que as autoridades vão acompanhar a seguir
- Principais pontos
O vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Lee Hyoung-il, anunciou a medida numa reunião de emergência para avaliar o mercado, no Complexo Governamental de Seul. Estiveram presentes responsáveis da Comissão de Serviços Financeiros, do Serviço de Supervisão Financeira e do Banco da Coreia, enquanto as autoridades avaliavam se a queda das cotações poderia desencadear novas vendas por parte de investidores que tinham contraído empréstimos para comprar ações.
A Samsung Electronics e a SK Hynix lideraram as perdas. O KOSPI negociou abaixo dos 5.000 pontos pela primeira vez em nove meses, na sequência de fortes quedas durante a noite em Wall Street, associadas a preocupações com os retornos do investimento em inteligência artificial e possíveis restrições ao desenvolvimento de centros de dados.
O objetivo imediato do Governo é travar a reação em cadeia que pode ocorrer quando a queda das cotações deixa os investidores sem garantias suficientes para suportar os empréstimos. Dar às corretoras mais liberdade quanto às exigências de garantias poderá distribuir as vendas forçadas por um período mais longo, reduzindo o volume de ordens de venda que chegam em simultâneo ao mercado na abertura.
O que significa a exigência de 140%
Os investidores que recorrem a empréstimos com margem pedem dinheiro emprestado a uma corretora para comprar ações. A corretora exige garantias, ou seja, ativos que pode vender se o mutuário não cumprir as condições do empréstimo. Ao abrigo da exigência que será suspensa, essas garantias têm de manter um valor equivalente a, pelo menos, 140% do montante do empréstimo por liquidar.
Para um empréstimo de 10 milhões de won, um rácio de 140% significa manter garantias no valor mínimo de 14 milhões de won. Se o valor destas descer para 13 milhões de won, o rácio cai para 130%, ficando um défice de 1 milhão de won face ao nível exigido. Este exemplo ilustra a regra e não corresponde à situação de nenhum investidor em particular.
Uma chamada de margem é uma exigência para repor essa proteção, normalmente através da entrega de dinheiro ou de ativos elegíveis. De acordo com os procedimentos em vigor descritos pelas autoridades, um investidor que não cumpra o prazo pode ser alvo de uma venda forçada de ações, com a corretora a colocar ordens antes da sessão seguinte, ao limite mínimo diário de preço ou ao preço de mercado.
Assim, a queda das cotações pode levar a vendas que os investidores, de outro modo, optariam por adiar. Quando muitas contas ultrapassam o mesmo limite em simultâneo, as respetivas ordens podem chegar ao mercado ao mesmo tempo e exercer ainda mais pressão sobre as cotações.
Corretoras ganham margem para adiar vendas forçadas
A isenção permite às corretoras reduzir os limites mínimos das garantias ou conceder períodos de tolerância antes de venderem os ativos dos clientes. Cada corretora poderá decidir como utilizar essa flexibilidade durante os três meses a partir de 9 de novembro.
Para os mutuários, a diferença prática é o tempo. Um período de tolerância poderá dar ao investidor mais tempo para apresentar garantias ou organizar o reembolso, em vez de ver as ações vendidas logo após o fim do prazo. Um limite mínimo mais baixo poderá permitir que uma conta se mantenha aberta apesar da desvalorização dos ativos detidos.
As corretoras terão, ainda assim, de gerir o risco de conceder empréstimos garantidos por ativos cujos preços podem mudar rapidamente. Os investidores continuam a ser responsáveis pelos empréstimos contraídos, e as condições definidas pela respetiva corretora determinarão a margem adicional de que poderão dispor.
O Governo anunciou a isenção, mas não especificou os novos limites mínimos nem os períodos de tolerância que cada corretora irá adotar. Para perceber como o alívio temporário se aplica às suas contas, os investidores terão, por isso, de consultar as condições da respetiva corretora.
Porque é importante a abertura do mercado
As autoridades procuram reduzir a concentração de vendas automáticas no início da sessão. Quando os investidores não cobrem os défices de garantias dentro do prazo, as corretoras podem preparar ordens para a sessão seguinte, fazendo com que muitas vendas forçadas cheguem ao mercado em simultâneo.
Uma queda acentuada pode criar um ciclo de retroação: as cotações descem, as garantias perdem valor, a redução das garantias desencadeia vendas e essas vendas podem voltar a fazer baixar as cotações. A isenção temporária procura interromper esse ciclo, permitindo às corretoras ajustar o momento e as condições em que vendem.
A suspensão da negociação durante 20 minutos e a isenção relativa às garantias respondem a aspetos diferentes da perturbação. A suspensão interrompeu a negociação durante a queda de sexta-feira. A isenção altera a forma como as corretoras podem gerir as garantias dos empréstimos nos três meses seguintes.
Os investidores que compraram ações exclusivamente com dinheiro próprio também poderão sentir os efeitos da redução das vendas forçadas, uma vez que essas ordens entram no mesmo mercado em que negoceiam os outros acionistas. A dimensão de qualquer benefício dependerá das decisões das corretoras e da evolução das cotações.
Preocupações com a IA ligam Wall Street a Seul
A Samsung Electronics e a SK Hynix estiveram no centro da queda de sexta-feira, à medida que as preocupações em torno do investimento em IA se propagavam às ações tecnológicas. Os investidores ponderavam se os avultados montantes destinados à IA gerariam retornos suficientes, num contexto de incerteza sobre o desenvolvimento dos centros de dados necessários para executar esses sistemas.
Os centros de dados alojam os equipamentos informáticos que suportam os serviços de IA. Restrições à sua construção ou funcionamento podem afetar as expectativas quanto à rapidez com que a capacidade irá aumentar e à quantidade de equipamento que as empresas comprarão. Essas expectativas são importantes para os investidores que avaliam as empresas de semicondutores.
O Governo atribuiu a queda da bolsa sul-coreana a uma combinação de incerteza quanto à política para o setor da IA, incluindo possíveis regras para os centros de dados, e de menor confiança no investimento a nível global. Os responsáveis apontaram também para o aumento da volatilidade do mercado após as eleições intercalares nos EUA e para preocupações de que o investimento em IA abrande na sequência da vitória expressiva do Partido Democrata.
A resposta da Coreia do Sul centra-se no mecanismo de negociação interno que poderia agravar essas pressões externas. A suspensão dá às corretoras maior margem de decisão quanto às garantias, enquanto as autoridades continuam a acompanhar a evolução do setor dos semicondutores e as decisões políticas nas principais economias.
Responsáveis pedem aos investidores que evitem pessimismo excessivo
Lee afirmou que as autoridades estavam a acompanhar o comportamento dos investidores, além das cotações, no âmbito da resposta de emergência. O ministro das Finanças descreveu diretamente a preocupação das autoridades:
«As autoridades estão a acompanhar de perto a ansiedade excessiva e os movimentos unilaterais»,
O Governo afirmou que o mercado interno tinha reagido de forma excessiva aos acontecimentos externos. Na sua avaliação, alertou contra o pessimismo excessivo e defendeu que os fundamentos da economia continuavam sólidos.
Os participantes na reunião referiram previsões de crescimento económico na ordem dos 3% em 2026, exportações no valor de 1 bilião de dólares e lucros operacionais das empresas superiores a 900 biliões de won. Estes valores foram citados como previsões para sustentar a avaliação do Governo durante a queda da bolsa.
Estes indicadores dizem respeito a diferentes dimensões da economia. O crescimento mede a expansão da produção económica, as exportações medem os bens e serviços vendidos ao estrangeiro e o lucro operacional mede os ganhos das atividades empresariais antes de determinados encargos financeiros e fiscais. Os responsáveis recorreram aos três indicadores para explicar por que consideravam excessiva a reação do mercado.
O Governo defende que as perspetivas económicas e empresariais sólidas deverão ajudar a estabilizar a confiança. Ao mesmo tempo, os investidores estão a reavaliar as perspetivas para a despesa em IA, mostrando como as expectativas sobre a procura futura podem fazer oscilar fortemente as cotações, mesmo quando os responsáveis apresentam previsões económicas otimistas.
Medida já utilizada, com nova data de início
As autoridades financeiras recorreram à mesma isenção, por três meses, em julho de 2022, também com o objetivo de travar as vendas forçadas durante uma forte queda da bolsa. A decisão mais recente retoma essa abordagem, dando temporariamente às corretoras maior controlo sobre a gestão das garantias.
A sequência coloca a entrada em vigor da medida após o choque inicial no mercado, com aplicação a partir da segunda-feira seguinte:
- Julho de 2022: As autoridades financeiras introduziram uma isenção semelhante, relativa às garantias, por três meses, durante uma queda do mercado.
- 6 de novembro de 2026: O KOSPI caiu até 8,8%, desceu abaixo dos 5.000 pontos e levou à suspensão da negociação durante 20 minutos. Lee presidiu à reunião de emergência em Seul.
- 9 de novembro de 2026: Entra em vigor, por três meses, a nova isenção da exigência de manutenção de uma garantia de 140%.
O precedente de 2022 mostra que as autoridades já recorreram a este instrumento específico. Desta vez, o objetivo imediato é distribuir por um período mais longo as ordens de venda forçada que, de outro modo, poderiam chegar em simultâneo, enquanto os mutuários tentam repor as garantias perdidas durante a queda do mercado.
O que as autoridades vão acompanhar a seguir
O Governo afirmou que prepararia medidas adicionais de estabilização caso a volatilidade aumentasse ainda mais. Os responsáveis comprometeram-se a acompanhar os mercados bolsistas nacionais e internacionais, os fluxos de capitais, o setor mundial dos semicondutores e a evolução das políticas nas principais economias.
Os fluxos de capitais são movimentos de dinheiro para dentro e para fora de investimentos ou países. Acompanhá-los juntamente com as cotações pode ajudar as autoridades a avaliar se os investidores estão a retirar fundos de forma generalizada ou se as vendas se concentram em determinadas partes do mercado.
Para as corretoras, o próximo passo operacional é decidir se reduzem os limites mínimos das garantias, prolongam os prazos ou recorrem a ambas as opções. Para os investidores com empréstimos com margem, essas decisões determinarão o tempo disponível para cobrir um défice e as condições em que ainda poderá ocorrer uma venda forçada.
A resposta do Governo visa abrandar uma fonte específica de pressão vendedora enquanto acompanha o mercado em sentido mais amplo. O período de três meses concede flexibilidade temporária às corretoras, ficando eventuais medidas adicionais do Governo dependentes da evolução da volatilidade.
Principais pontos
- A Coreia do Sul vai suspender durante três meses, a partir de 9 de novembro de 2026, a exigência de manutenção de uma garantia de 140% para empréstimos com margem.
- O KOSPI caiu até 8,8% em 6 de novembro, desceu abaixo dos 5.000 pontos e levou à suspensão da negociação durante 20 minutos.
- A Samsung Electronics e a SK Hynix lideraram as perdas, em meio a preocupações com os retornos do investimento em IA e a política para os centros de dados.
- As corretoras poderão reduzir os limites mínimos das garantias ou dar mais tempo aos investidores antes de procederem a vendas forçadas.
- As autoridades recorreram a uma isenção semelhante por três meses em julho de 2022 e prometeram medidas adicionais caso a volatilidade se agrave.






