Lee procura transformar o boom dos semicondutores num crescimento mais abrangente
O Presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, propôs a atribuição de 21,3 biliões de wons, cerca de 16 mil milhões de dólares, à inteligência artificial, aos semicondutores e a projetos relacionados em 2027, quase o dobro do montante reservado para 2026. O investimento integra um orçamento recorde de 820,9 biliões de wons, que aumentaria a despesa pública em 12,8 por cento.
Índice
- Lee procura transformar o boom dos semicondutores num crescimento mais abrangente
- Em que seriam aplicados os 21,3 biliões de wons
- Um modelo nacional de IA e as infraestruturas que o sustentam
- Como a despesa pública se articula com o investimento das empresas
- As exportações financiam uma ambição maior
- O que faria o Fundo de Resposta ao Futuro
- Porque está a dívida no centro do debate
- As despesas com a defesa aumentariam a par da IA civil
- As datas que determinam os próximos passos
- Pontos-chave
Num discurso perante a Assembleia Nacional, a 2 de novembro de 2026, Lee pediu aos deputados que aprovassem um plano de despesa que utiliza o aumento das receitas fiscais geradas pelo boom dos semicondutores para financiar novas indústrias, o desenvolvimento regional e o apoio às famílias. O Parlamento tem até 2 de dezembro para aprovar o orçamento, nos termos da lei.
A Samsung Electronics e a SK hynix estão a beneficiar da intensa procura de chips de memória utilizados em sistemas de IA. O seu sucesso impulsionou as exportações, o investimento e as receitas públicas, dando a Lee margem para propor um aumento da despesa e, ao mesmo tempo, prever um défice orçamental menor.
Lee apresentou o orçamento como uma tentativa de fazer chegar esses ganhos para lá de um pequeno número de empresas, trabalhadores e regiões. O presidente descreveu a transformação económica que pretende alcançar:
Temos de fazer uma grande transição do 'crescimento para poucos', em que as oportunidades e os ganhos se concentram em certas regiões, classes e num pequeno número de empresas, para o 'crescimento para todos'
A principal disputa política prende-se com a forma de utilizar esta receita extraordinária. Lee quer investir grande parte dela no crescimento futuro, enquanto o opositor Partido do Poder Popular defende que uma fatia considerável deve ser usada para reduzir a dívida nacional. O seu Partido Democrático detém a maioria parlamentar, pelo que a aprovação é provável, embora os pormenores da despesa ainda tenham de ser analisados pelas comissões.
Em que seriam aplicados os 21,3 biliões de wons
O pacote tecnológico combina um investimento mais amplo em IA com três grandes projetos: produção de semicondutores, IA física e centros de dados de IA. O Governo pretende que estas atividades se apoiem mutuamente, ligando as fábricas que produzem chips às instalações de computação e às máquinas que os utilizam.
IA física é a inteligência artificial aplicada a máquinas no mundo real, incluindo robôs. Um sistema de IA que responde a uma pergunta produz informação; um robô que utiliza IA pode interpretar o que o rodeia e executar uma tarefa física. Os planos de Lee incluem centros de investigação e desenvolvimento em robótica, além de polos de semicondutores e grandes instalações de computação.
Os centros de dados acolhem os computadores, a memória e o equipamento de rede necessários para treinar e operar sistemas de IA. A sua expansão gera procura de chips, mas também exige eletricidade, arrefecimento e ligações fiáveis entre milhares de processadores.
O pacote de 21,3 biliões de wons equivale a cerca de 2,6 por cento do orçamento nacional proposto, de 820,9 biliões de wons. A sua importância vai além dessa proporção, uma vez que o Governo está a conjugar a despesa pública com planos de investimento muito mais avultados que envolvem empresas privadas.
Lee apresentou ainda 13,8 biliões de wons destinados a reforçar a competitividade em 10 setores tecnológicos estratégicos. No discurso, as medidas tecnológicas foram descritas como uma forma de aumentar o potencial de crescimento económico, ou seja, o volume que a economia pode produzir de forma sustentável à medida que melhoram as competências, o equipamento e a produtividade.
Um modelo nacional de IA e as infraestruturas que o sustentam
Lee quer que a Coreia do Sul desenvolva um modelo nacional de IA capaz de competir com os sistemas mais avançados a nível internacional. Este tipo de modelo é frequentemente designado por IA soberana: tecnologia desenvolvida sob controlo nacional, que dá ao país maior influência sobre o seu funcionamento, as práticas relativas aos dados e a disponibilidade futura.
A verba proposta para este esforço foi descrita como sendo de 4,6 biliões de wons para um modelo de IA soberana e de 4,7 biliões de wons para projetos de desenvolvimento de IA de ponta, incluindo um modelo nacional. Os valores dizem respeito a descrições de iniciativas estreitamente relacionadas; não foi apresentada uma conciliação detalhada do respetivo âmbito.
Lee descreveu o modelo nacional como um ativo estratégico do país e estabeleceu como objetivo alcançar os níveis de desempenho internacionais mais elevados. A expressão IA de ponta refere-se a sistemas na vanguarda das capacidades atuais, não a um tipo distinto de equipamento informático.
O Governo propõe também 2,1 biliões de wons para eletricidade, abastecimento de água e infraestruturas ao serviço de zonas industriais. As fábricas de semicondutores precisam de energia estável, a qualquer hora do dia, enquanto o fabrico de chips e o arrefecimento dos centros de dados exigem recursos consideráveis dos sistemas de água e energia.
Para as comunidades que receberão novas instalações, estas obras de apoio são uma parte prática do investimento. Uma fábrica ou um centro de computação precisa de serviços públicos funcionais antes de poder começar a produzir chips ou a operar sistemas de IA.
Como a despesa pública se articula com o investimento das empresas
O orçamento de Lee dá continuidade a uma parceria entre o Governo e as empresas anunciada em junho de 2026. A iniciativa previa polos de semicondutores em todo o país, centros de investigação em robótica e centros de dados de IA com necessidades de eletricidade medidas em gigawatts.
Um gigawatt equivale a mil milhões de watts e mede potência, não capacidade de computação. A utilização desta unidade para descrever centros de dados dá uma ideia da dimensão das infraestruturas elétricas envolvidas.
O programa de junho previa planos de investimento próximos de 1,2 biliões de dólares. A Samsung e a SK hynix anunciaram também planos de investimento nacional superiores a 4755 biliões de wons, enquanto Lee procura promover um investimento de 800 biliões de wons do setor privado no desenvolvimento de semicondutores no sudoeste do país. São compromissos mais amplos das empresas e de desenvolvimento, com âmbitos diferentes da despesa pública proposta para 2027.
A cadeia de abastecimento de IA em expansão na Coreia do Sul já vai além dos dois fabricantes de memória. Um acordo de outubro para linhas dedicadas a substratos para IA prevê que a Samsung Electro-Mechanics e a Nvidia invistam na produção em Sejong e Busan. Os substratos asseguram as ligações elétricas entre um chip e o sistema informático que o envolve.
A dimensão regional é importante para o objetivo declarado de Lee de distribuir os benefícios do crescimento de forma mais ampla. Os polos de produção e centros de investigação em todo o país permitiriam que mais atividades ligadas à IA se desenvolvessem fora de um pequeno número de zonas industriais estabelecidas.
As exportações financiam uma ambição maior
A Coreia do Sul registou exportações no valor de 930 mil milhões de dólares entre janeiro e outubro, faltando 70 mil milhões para alcançar um bilião de dólares no conjunto do ano. Ultrapassar esse limiar faria do país o quarto a consegui-lo, depois dos Estados Unidos, da China e da Alemanha.
A economia também cresceu mais do que o esperado no terceiro trimestre, apoiada pelas exportações e pelo investimento em semicondutores. A forte procura de memória avançada aumentou os lucros da Samsung e da SK hynix, elevando as receitas fiscais que sustentam a proposta orçamental de Lee.
A computação de IA exige que os processadores recebam grandes volumes de informação rapidamente. Os chips de memória fornecem essa informação, tornando a capacidade e a velocidade da memória fundamentais para o desempenho dos sistemas de IA. A posição da Coreia do Sul como importante fornecedora de memória tornou-se, assim, uma fonte de lucros empresariais e de receitas públicas.
A resposta da produção estendeu-se para lá da Coreia do Sul. A Samsung e a SK hynix aumentaram o investimento nas fábricas chinesas à medida que a procura de IA agravava a escassez, enquanto as autorizações de Washington para equipamentos se tornaram uma condição importante para novas modernizações.
A estratégia orçamental de Lee liga o boom atual ao investimento futuro: cobrar mais receitas às empresas de semicondutores lucrativas e, depois, utilizar parte delas para criar indústrias e infraestruturas que sustentem o crescimento a longo prazo. Esta ligação também explica a preocupação da oposição com a dependência de lucros excecionais no setor dos semicondutores.
O que faria o Fundo de Resposta ao Futuro
O Fundo de Resposta ao Futuro proposto está avaliado em 162,3 biliões de wons e seria financiado, em grande parte, pelas receitas fiscais adicionais geradas pelo boom dos semicondutores. Entre os seus objetivos estão apoiar setores em crescimento, os jovens, o desenvolvimento regional e a educação, criando simultaneamente uma reserva para fazer face a futuras quebras de receitas.
Lee apresentou também uma primeira dotação de 45,4 biliões de wons para 2027. O valor global mais elevado do fundo e o montante atribuído no primeiro ano correspondem a partes diferentes do plano: a sua dimensão financeira proposta e a dotação inicial.
O presidente apresentou o fundo como uma plataforma de investimento estratégico que poderá reforçar o potencial de crescimento e reduzir as desigualdades sociais. A reserva de receitas permitiria enfrentar também um problema associado ao boom dos chips: as receitas fiscais podem subir acentuadamente quando os lucros das empresas aumentam e diminuir quando as condições do setor mudam.
Kim Jin-wook, economista do Citi, estimou que as fontes de financiamento acumuladas do fundo poderão atingir 215 biliões de wons em 2026 e 2027. Trata-se da sua previsão de financiamento para dois anos, a par do valor proposto pelo Governo para o fundo.
A habitação, o emprego e a assistência financeira são outros elementos da abordagem de Lee. A sua administração está a promover iniciativas para famílias com rendimentos baixos, incluindo microfinanciamento, que dá acesso a empréstimos relativamente pequenos a pessoas que podem ter dificuldade em obter crédito convencional.
A distribuição desigual da riqueza gerada pelos chips já se tornou uma questão pública. A controvérsia de abril sobre prémios e salários no setor dos chips evidenciou o contraste entre as recompensas excecionais em algumas áreas da indústria dos semicondutores e os ganhos mais modestos noutras partes da economia.
Porque está a dívida no centro do debate
Lee afirmou que se prevê que o défice orçamental desça de 3,9 por cento do produto interno bruto em 2026 para 0,1 por cento em 2027. Previu também que a dívida pública diminuirá de 51,6 por cento do PIB para 48,3 por cento.
O défice mede a diferença entre a despesa e as receitas do Governo durante um determinado período. O rácio da dívida compara o endividamento acumulado com a dimensão da economia. As previsões de Lee correspondem a uma redução de 3,8 pontos percentuais no rácio do défice e de 3,3 pontos percentuais no rácio da dívida.
Antes do discurso, Lee reuniu-se com Cho Jeong-sik, presidente da Assembleia Nacional, e com dirigentes dos partidos no poder e da oposição. Disse que o orçamento permitiria gerir as finanças públicas com uma emissão de novas obrigações praticamente nula, refletindo a sua expectativa de aumento das receitas.
O presidente referiu ainda a reestruturação de 107,2 biliões de wons em despesas e a conversão de 1,9 biliões de wons em benefícios fiscais em apoio financeiro direto. Estas alterações fazem parte da forma como a administração apresenta o financiamento e a distribuição do orçamento mais avultado.
Lim Lee-ja, responsável pelas políticas do Partido do Poder Popular, defendeu que cerca de 100 biliões de wons deveriam ser destinados à amortização da dívida, invocando a incerteza quanto à duração do boom dos semicondutores. Lim atribuiu ao fundo proposto uma designação crítica:
Fundo de Erosão do Futuro
Park Sung-joon, porta-voz do Partido Democrático, defendeu o investimento em IA, nos jovens e no desenvolvimento regional, rejeitando o apelo para redirecionar o dinheiro para a amortização da dívida. Lee reconheceu que a preferência da oposição tinha mérito, mas argumentou que o investimento poderia trazer maiores benefícios ao apoiar um crescimento sustentado.
Kim, economista do Citi, afirmou que a Coreia do Sul poderá vir a obter uma subida da notação de crédito AA- da Fitch para AA. Associou essa possibilidade a um maior potencial de crescimento e à sustentabilidade orçamental. A sua avaliação diz respeito a uma eventual decisão futura sobre a notação.
As despesas com a defesa aumentariam a par da IA civil
O Governo propõe aumentar as despesas com a defesa em 8,2 por cento, para 73,3 biliões de wons em 2027. Lee relacionou o aumento com a aquisição das capacidades necessárias para a Coreia do Sul assumir dos Estados Unidos o controlo operacional das suas forças em tempo de guerra.
O controlo operacional em tempo de guerra determina quem dirige as operações militares durante um conflito. Lee referiu submarinos movidos a reatores nucleares e caças KF-21 entre as capacidades que o Governo pretende assegurar.
O presidente defendeu também um papel mais amplo para a IA, os robôs e os drones em sistemas que combinam pessoal com equipamento não tripulado. Lee descreveu a transformação militar que pretende alcançar:
transformar rapidamente as nossas forças armadas numa força inteligente e de elite, criando sistemas integrados tripulados e não tripulados baseados em IA, robôs e drones
A Coreia do Sul anunciou em 2025 um acordo com Washington para construir submarinos movidos a reatores nucleares. A Coreia do Norte opôs-se a esse programa e afirmou recentemente que um sistema de torpedos de precisão e um míssil hipersónico de alcance intermédio utilizaram tecnologia de IA.
A proposta para a defesa integra a IA nas políticas industrial e de segurança. A despesa civil apoiaria a computação, as fábricas e a robótica, enquanto a despesa militar procuraria aplicar tecnologias relacionadas a equipamentos e sistemas de comando.
As datas que determinam os próximos passos
A Assembleia Nacional tem agora de analisar a proposta e decidir a afetação final das verbas. Está previsto que a Comissão Especial do Orçamento e das Contas Públicas inicie a análise geral das políticas a 4 de novembro, seguida das revisões pelas comissões permanentes e de um exame detalhado por uma subcomissão orçamental.
As principais datas acompanham o percurso desde os compromissos industriais até à decisão parlamentar:
- Junho de 2026: Lee anunciou a parceria para criar polos de semicondutores em todo o país, centros de investigação em robótica e grandes centros de dados de IA.
- Setembro de 2026: O Governo apresentou a proposta de orçamento de 820,9 biliões de wons e anunciou o plano do Fundo de Resposta ao Futuro.
- 2 de novembro de 2026: Lee apresentou o discurso sobre a política orçamental e pediu o apoio dos deputados do partido no poder e da oposição.
- 4 de novembro de 2026: Está previsto que os debates parlamentares sobre o orçamento comecem na Comissão Especial do Orçamento e das Contas Públicas.
- 2 de dezembro de 2026: A Assembleia Nacional tem até esta data para aprovar o orçamento de 2027, nos termos da lei.
A maioria parlamentar de Lee dá à proposta uma forte possibilidade de aprovação. A disputa imediata centra-se na proporção dos ganhos extraordinários dos semicondutores que deverá financiar novos investimentos, apoiar as famílias e reduzir a dívida. Essas decisões determinarão o plano de despesas final para 2027.
Pontos-chave
- A Coreia do Sul propõe um orçamento recorde de 820,9 biliões de wons para 2027, um aumento de 12,8 por cento.
- A IA, os semicondutores, a IA física e os centros de dados receberiam 21,3 biliões de wons, quase o dobro do montante de 2026.
- O Fundo de Resposta ao Futuro proposto canalizaria as receitas fiscais dos semicondutores para o crescimento, o desenvolvimento regional, a educação e o apoio aos jovens.
- A oposição quer destinar cerca de 100 biliões de wons à amortização da dívida.
- As despesas com a defesa aumentariam 8,2 por cento, para 73,3 biliões de wons.
- O Parlamento tem até 2 de dezembro para aprovar o orçamento.






