Marcos nomeia Rodil Zalameda presidente do Supremo Tribunal, escolhendo autor da decisão sobre Imelda Marcos para liderar o tribunal

13 min de leitura
Marcos Names Rodil Zalameda Chief Justice, Choosing Imelda Marcos Ruling Author to Lead Court

Uma mudança no topo do poder judicial filipino

O presidente Ferdinand Marcos Jr. escolheu o juiz associado do Supremo Tribunal Rodil V. Zalameda como 28.º presidente do Supremo Tribunal das Filipinas, promovendo o autor da decisão que anulou as sete condenações por corrupção da sua mãe, Imelda Marcos, para um cargo que poderá ocupar até agosto de 2033.

Índice
  1. Uma mudança no topo do poder judicial filipino
  2. Porque é importante a decisão sobre Imelda Marcos
  3. Como Marcos escolheu entre cinco candidatos
  4. De funcionário judicial a titular do mais alto cargo da magistratura
  5. Que poderes terá o presidente do Supremo Tribunal?
  6. Um percurso que abrange as liberdades civis e a responsabilidade criminal
  7. Os seus votos sobre a despesa pública e os conflitos políticos
  8. As suas prioridades para quem espera por justiça
  9. O legado de Gesmundo
  10. Pontos-chave

O secretário presidencial das Comunicações, Lino Cayetano, anunciou a nomeação na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, na véspera da aposentação obrigatória do presidente do Supremo Tribunal, Alexander Gesmundo, a 6 de novembro, dia em que completa 70 anos. Zalameda, de 63 anos, foi nomeado para o Supremo Tribunal pelo antigo presidente Rodrigo Duterte em agosto de 2019.

Marcos escolheu Zalameda entre cinco candidatos, incluindo dois juízes mais antigos, Marvic Leonen e Alfredo Benjamin Caguioa. A escolha coloca um antigo procurador da cidade de Mandaluyong à frente da administração judicial, sob escrutínio quanto à sua independência e às promessas de reduzir os atrasos para quem aguarda justiça.

Cayetano afirmou que a decisão do presidente refletia a confiança na experiência de Zalameda em todo o sistema judicial. Ao explicar a escolha numa conferência de imprensa no Palácio, o secretário das Comunicações disse:

Ao escolher o juiz Zalameda, o Presidente reconhece a importância de uma liderança experiente e íntegra para preservar a confiança pública nas nossas instituições judiciais.

Zalameda herda o Plano Estratégico para a Inovação Judicial 2022-2027 de Gesmundo, um programa em curso para modernizar os tribunais e tornar a justiça mais acessível. O mandato previsto prolongar-se-ia cerca de seis anos para além do último ano do plano, deixando-lhe a responsabilidade pela sua implementação até ao fim e pela orientação que se lhe seguirá.

O desafio imediato reúne duas exigências: convencer o público de que o tribunal decidirá com independência os processos sensíveis e melhorar a experiência quotidiana de litigantes, advogados e funcionários judiciais.

Publicidade

Porque é importante a decisão sobre Imelda Marcos

Zalameda redigiu a decisão de 50 páginas da Primeira Secção do Supremo Tribunal que anulou a condenação de Imelda Marcos pelo Sandiganbayan, em novembro de 2018, por sete crimes de corrupção relacionados com fundações suíças. A condenação previa penas de prisão que, no total, podiam chegar aos 77 anos.

A absolvição, proferida em junho de 2026, apontou falhas na autenticação adequada de documentos essenciais e na demonstração da culpa para além de qualquer dúvida razoável. Autenticar significa comprovar que um documento é genuíno e pode ser aceite como prova. A prova para além de qualquer dúvida razoável é o exigente padrão que os procuradores têm de cumprir para que alguém possa ser condenado por um crime.

Os outros membros da Primeira Secção concordaram com a decisão. Questionado sobre a independência de Zalameda, Cayetano salientou que a decisão foi tomada pela secção e manifestou confiança na imparcialidade do futuro presidente do Supremo Tribunal.

O advogado Ruben Carranza, antigo comissário da Comissão Presidencial para o Bom Governo, alertou para o risco de a escolha de Zalameda enfraquecer a confiança no sistema de justiça. A comissão é o organismo governamental associado à recuperação de património alegadamente adquirido de forma ilícita durante o governo de Ferdinand Marcos Sr.

A nomeação de Zalameda voltou também a chamar a atenção para uma fotografia em que faz o gesto de punho característico de Duterte, por volta da altura em que entrou no Supremo Tribunal, em 2019. Cayetano respondeu às preocupações sobre ligações políticas, referindo o serviço de Zalameda durante as administrações de Fidel Ramos, Gloria Macapagal Arroyo, Benigno Aquino III e Duterte.

Como Marcos escolheu entre cinco candidatos

O Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados apresentou cinco nomes para a vaga de presidente do Supremo Tribunal: Leonen, Caguioa, Zalameda, Japar Dimaampao e Jose Midas Marquez. Os juízes Ramon Hernando e Henri Jean Inting retiraram a aceitação das respetivas nomeações.

Zalameda era o terceiro candidato mais antigo, atrás de Leonen e Caguioa, ambos nomeados por Aquino. Leonen entrou no Supremo Tribunal em novembro de 2012, Caguioa em janeiro de 2016 e Zalameda em agosto de 2019. Marcos escolheu, assim, um juiz com cerca de sete anos no tribunal em detrimento de colegas com cerca de 14 e quase 11 anos, respetivamente.

O Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados avalia os candidatos a vagas judiciais e recomenda nomes ao presidente. A decisão de Marcos promoveu um membro já em funções no tribunal, em vez de escolher alguém de fora.

Publicidade

Várias organizações e figuras públicas apoiaram diferentes candidatos. Quinze procuradores-chefes da região metropolitana de Manila apoiaram unanimemente Zalameda através da Resolução n.º 03, série de 2026, aprovada a 2 de setembro. Destacaram a sua experiência como procurador, liderança e capacidade administrativa, descrevendo-o como o primeiro antigo procurador municipal a chegar ao Supremo Tribunal.

A antiga vice-presidente Leni Robredo apoiou Leonen numa carta de 23 de setembro, destacando a sua independência, experiência judicial e trabalho na modernização dos tribunais. A Associação de Juízes Aposentados dos Tribunais Regionais de Primeira Instância das Filipinas apoiou, por seu lado, Marquez. Estes apoios expressaram preferências; a decisão cabia ao presidente, de entre os candidatos propostos pelo Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados.

De funcionário judicial a titular do mais alto cargo da magistratura

Zalameda nasceu a 2 de agosto de 1963, na cidade de Caloocan. Concluiu o ensino secundário na Universidade do Oriente em 1979 e licenciou-se em Ciências Políticas na mesma instituição, em 1983. Obteve a licenciatura em Direito na Universidade Ateneo de Manila, em 1987, com uma bolsa de mérito académico.

Na Ateneo, integrou a lista de mérito do reitor, foi editor associado da Revista de Direito da Ateneo e membro sénior da equipa editorial do Boletim de Direito da Ateneo. Depois de passar os exames da Ordem em 1988, tornou-se funcionário judicial no Tribunal Regional de Primeira Instância de Makati.

A sua carreira alternou depois entre a advocacia privada, o Ministério Público e a magistratura. As principais etapas foram:

  • 1990 a 1995: Exerceu advocacia privada.
  • 1995: Tornou-se procurador público em Mandaluyong.
  • 2002: Tornou-se procurador da cidade de Mandaluyong.
  • Setembro de 2008: Entrou no Tribunal de Recurso, onde exerceu funções durante 11 anos e presidiu à sua 17.ª Secção.
  • 6 de agosto de 2019: Foi nomeado para o Supremo Tribunal por Duterte.
  • 26 de outubro de 2026: Apresentou os seus planos de liderança durante a entrevista com o Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados.
  • 5 de novembro de 2026: Foi anunciado como próximo presidente do Supremo Tribunal.
  • 6 de novembro de 2026: Gesmundo atinge a idade de aposentação obrigatória.

A candidatura de Zalameda ao Supremo Tribunal incluiu um exame escrito de redação de decisões, além da entrevista com o Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados. Foi a primeira pessoa nomeada para o tribunal depois de passar por esse processo de exame.

Que poderes terá o presidente do Supremo Tribunal?

O presidente dirige o Supremo Tribunal e a administração judicial, mas as decisões são tomadas coletivamente. Zalameda terá um voto entre os 15 juízes quando o tribunal pleno se reunir. Os processos também podem ser decididos por secções mais pequenas, como aconteceu no caso de Imelda Marcos.

O cargo implica ainda responsabilidades para além da decisão de litígios individuais. O presidente do Supremo Tribunal preside ao Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados, ajuda a dirigir a administração dos tribunais e certifica o cumprimento da exigência de que os juízes consultem os colegas antes de uma decisão ser atribuída ao respetivo relator. Preside também ao julgamento de destituição no Senado quando o presidente é o titular do cargo em julgamento.

Publicidade

O período previsto de funções de Zalameda, até agosto de 2033, decorre da idade de aposentação obrigatória de 70 anos, prevista no artigo VIII, secção 11, da Constituição de 1987. A Lei da República n.º 910 estabelece as pensões de reforma dos membros da magistratura. Zalameda completará essa idade a 2 de agosto de 2033.

Durante a entrevista com o Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados, Zalameda afirmou que lideraria através da cooperação, respeitando as divergências entre juízes. Ao explicar a sua abordagem ao conselho, disse:

A colegialidade não significa ausência de divergências.

Para quem leva processos a tribunal, a consequência prática é que o presidente pode influenciar a administração e as prioridades institucionais, mas as decisões continuam a depender dos votos e da fundamentação dos juízes que apreciam cada processo.

Um percurso que abrange as liberdades civis e a responsabilidade criminal

Zalameda redigiu também o acórdão Deduro v. Vinoya, que reconheceu que a estigmatização como comunista pode ameaçar os direitos à vida, à liberdade e à segurança de uma pessoa. Essa prática consiste em associar publicamente alguém a rebeldes ou organizações comunistas, uma acusação que pode expor essa pessoa a assédio ou violência.

O processo envolvia o antigo deputado do Bayan Muna Siegfred Deduro e o acesso ao mandado de amparo, um recurso judicial destinado a proteger pessoas cuja vida, liberdade ou segurança esteja ameaçada ou tenha sido violada. O acórdão associou as acusações públicas e a culpa por associação a perigos que exigem proteção judicial.

Fides Lim, coordenadora da Kapatid, organização que apoia presos políticos, salientou o contraste entre essa decisão e a absolvição de Imelda Marcos. Numa declaração em resposta à nomeação, apelou à proteção consistente das liberdades civis:

Perante estas decisões contrastantes, esperamos que o Supremo Tribunal, sob a liderança do presidente Zalameda, defenda de forma consistente as liberdades civis e faça justiça, sobretudo a quem está mais vulnerável aos abusos do Estado.

Zalameda redigiu também uma decisão de 2023 que confirmou uma condenação por homicídio de um menor com mais de 15 e menos de 18 anos. O acórdão exigia que os procuradores provassem que a criança compreendia a ilicitude e as consequências do ato, conceito jurídico conhecido como discernimento. Esse requisito torna a compreensão da criança uma questão central na determinação da responsabilidade criminal.

Os seus votos sobre a despesa pública e os conflitos políticos

Zalameda votou vencido quando a maioria do Supremo Tribunal anulou um aumento de 449,5 mil milhões de pesos filipinos nas dotações não programadas do orçamento nacional de 2024. As dotações não programadas são autorizações de despesa dependentes do cumprimento de condições de financiamento específicas, em vez de verbas imediatamente disponíveis para despesas correntes.

Na sua posição, o Congresso podia propor programas, atividades e projetos que não constassem do Programa Nacional de Despesas do poder executivo. Esse programa é a proposta de despesa do presidente, apresentada aos legisladores. O litígio dizia respeito à margem de que o Congresso dispõe para alterar essa proposta ao aprovar o orçamento.

Publicidade

Num processo relativo a 60 mil milhões de pesos filipinos da Corporação Filipina de Seguro de Saúde, Zalameda considerou a transferência inconstitucional, mas também entendeu que o Governo poderia ter agido de boa-fé. A sua posição abordou tanto a conformidade da medida com a Constituição como a forma de avaliar a conduta dos responsáveis.

O seu registo de votos inclui ainda a concordância com decisões que confirmaram as obrigações das Filipinas de cooperar com o Tribunal Penal Internacional, declararam inconstitucional a queixa de destituição apresentada em 2025 contra a vice-presidente Sara Duterte e rejeitaram o pedido do senador Ronald dela Rosa de uma providência cautelar relativa a um mandado do Tribunal Penal Internacional.

Estes processos abrangem questões de dinheiros públicos, poderes presidenciais, justiça internacional e a família Duterte. Zalameda assume agora a responsabilidade de liderar um tribunal que terá de continuar a resolver casos politicamente sensíveis, além de litígios comuns de natureza penal, civil e administrativa.

As suas prioridades para quem espera por justiça

Zalameda apontou a construção de mais tribunais, um maior investimento em tecnologia e a melhoria dos benefícios dos funcionários judiciais como prioridades durante o processo de seleção. Associou estas medidas aos atrasos que pesam sobre quem procura resolver processos.

Na sua explicação, reconheceu que os processos exigem diferentes níveis de trabalho. Um litígio com muitas testemunhas, um grande volume de provas e várias questões jurídicas pode demorar mais do que um caso simples. Gerir essas diferenças fará parte da abordagem que propõe para melhorar o funcionamento dos tribunais.

Na declaração de abertura que apresentou ao Conselho Judicial e da Ordem dos Advogados a 26 de outubro, Zalameda descreveu a confiança pública que pretende conquistar para a magistratura:

Imagino uma magistratura em que o povo filipino confia porque acredita na nossa integridade e responsabilização, e porque asseguramos justiça em tempo útil e melhores serviços públicos através de reformas sustentáveis e baseadas em provas.

Zalameda descreveu também o presidente do Supremo Tribunal como alguém ao serviço dos litigantes, advogados, funcionários, juízes e restantes magistrados. A abordagem que defendeu consiste em ouvir os problemas, apoiar ideias úteis e fornecer às pessoas os meios necessários para desempenharem as suas funções.

Não foram anunciados um orçamento detalhado nem um calendário de conclusão para os tribunais propostos, os investimentos em tecnologia ou os benefícios dos funcionários. Esses pormenores determinarão de que forma os compromissos assumidos na entrevista se traduzirão em mudanças que as pessoas possam sentir nos tribunais.

O legado de Gesmundo

Gesmundo reforma-se após mais de cinco anos como presidente do Supremo Tribunal, cargo que assumiu em 2021. O seu principal quadro de reformas, o Plano Estratégico para a Inovação Judicial 2022-2027, procurava alterar as regras e os sistemas dos tribunais, tornando a justiça acessível, eficaz e mais célere.

Na mensagem de despedida, Gesmundo afirmou querer deixar uma magistratura preparada para enfrentar os desafios futuros com coragem, competência e compaixão. As propostas de Zalameda para a tecnologia, as instalações e os serviços terão agora de se enquadrar no período restante do programa.

Segue-se de perto outra mudança no quadro de pessoal: a juíza associada Amy Lazaro-Javier deverá reformar-se a 16 de novembro. Zalameda inicia, por isso, a sua liderança num período de mudanças tanto na composição do tribunal como na sua administração.

O teste decisivo será concreto: saber se as pessoas têm audiências e decisões em tempo útil, se os funcionários dispõem dos recursos necessários para trabalhar e se o tribunal protege os direitos e aplica a lei com independência em processos que envolvem figuras poderosas.

Pontos-chave

  • Marcos anunciou a escolha de Zalameda como 28.º presidente do Supremo Tribunal a 5 de novembro de 2026.
  • Sucede a Gesmundo, que atinge a idade de aposentação obrigatória, 70 anos, a 6 de novembro.
  • Zalameda, de 63 anos, poderá exercer funções até 2 de agosto de 2033.
  • Marcos escolheu-o entre cinco candidatos, incluindo os mais antigos Leonen e Caguioa.
  • O seu percurso inclui a absolvição de Imelda Marcos das acusações de corrupção e o acórdão Deduro, que reconheceu as ameaças associadas à estigmatização como comunista.
  • As suas prioridades incluem mais tribunais, investimento em tecnologia e melhores benefícios para os funcionários.
  • O presidente dirige a administração judicial, mas dispõe de um voto entre os 15 membros do Supremo Tribunal.
Partilhar este artigo

Também pode gostar