Cinco mandados de detenção chineses, dois homens fora da prisão
A Tailândia afirma que a China tem de recorrer a um processo formal de extradição para pedir o regresso de cinco homens uigures detidos desde 2014. Os casos serão apreciados pelos tribunais tailandeses, enquanto organizações de defesa dos direitos humanos alertam para o risco de tortura e desaparecimento forçado na China.
Índice
- Cinco mandados de detenção chineses, dois homens fora da prisão
- Como funcionaria o processo de extradição
- Foi nomeado um advogado, mas o acesso é contestado
- Os homens pediram para não serem enviados de volta
- Como decorreram mais de 12 anos de detenção
- O que aconteceu aos 40 enviados de volta em 2025?
- A lei tailandesa coloca a proteção contra a tortura no centro
- A China defende a cooperação com a Tailândia
- Um destino seguro dependeria de outro Governo
- Principais pontos
Chaiyapruek Duangprapat, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, disse a 4 de novembro de 2026 que existem mandados de detenção chineses contra os cinco homens e que nenhum tem estatuto de refugiado. Dois receberam um perdão real a 21 de outubro e foram transferidos da prisão para um centro de detenção de imigrantes em Banguecoque. Os outros três têm cerca de um ano de pena por cumprir, relacionada com uma tentativa de fuga da detenção.
A preocupação imediata é o destino dos dois homens perdoados. A saída da prisão deixou-os sob custódia dos serviços de imigração, sem liberdade para partir. Ambos pediram para não serem enviados de volta para a China, onde receiam ser vítimas de abusos.
Chaiyapruek afirmou que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Tailândia analisaria os mandados chineses e qualquer pedido de extradição antes de o caso seguir para os tribunais. Os homens poderão constituir advogado e contestar o regresso. Segundo o responsável, este processo é diferente da deportação de 40 uigures para a China pelo Governo, em fevereiro de 2025.
A declaração de novembro da Amnistia Internacional destaca uma questão jurídica crucial: o artigo 13.º da Lei de Prevenção e Supressão da Tortura e dos Desaparecimentos Forçados da Tailândia proíbe a deportação quando existem motivos substanciais para prever tortura, tratamento cruel ou desaparecimento forçado. A lei está em vigor desde 2023.
No caso dos dois homens, estão, portanto, em causa tanto o procedimento para analisar as exigências da China como a obrigação da Tailândia de proteger as pessoas contra abusos graves.
Como funcionaria o processo de extradição
A Tailândia e a China assinaram o tratado de extradição em 1993, que entrou em vigor em 1999. A extradição é o processo legal pelo qual um país pede a outro que lhe entregue uma pessoa para responder a um processo criminal. A deportação é uma medida de imigração usada para retirar alguém de um país.
Chaiyapruek disse que os casos dos cinco homens seriam tratados pelo sistema judicial, em vez de serem decididos pela sua agência como questão de política governamental. Um tribunal tailandês avaliaria se a entrega solicitada poderia avançar, e os homens teriam direito a contestá-la.
Chaiyapruek, na qualidade de secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, descreveu o possível desfecho:
Mas, se o tribunal decidir contra eles, serão extraditados ao abrigo do tratado. Este é o processo judicial.
Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, não disse se Pequim tinha apresentado um pedido formal de extradição. Não foi anunciada qualquer data de audiência ou calendário para uma decisão.
Uma decisão favorável aos homens deixaria por resolver outra questão prática: para onde poderiam ir. Chaiyapruek disse que a reinstalação dependeria de outro país aceitar recebê-los.
Foi nomeado um advogado, mas o acesso é contestado
Ekkapob Pianpises, porta-voz do Governo, disse que foi nomeado um advogado para os dois homens e que estes poderão contestar a extradição em tribunal. A garantia responde a uma preocupação central para quem está sob custódia dos serviços de imigração: saber se poderá preparar uma resposta jurídica antes de ser enviado para fora do país.
A Amnistia Internacional, porém, afirmou que as autoridades têm impedido os homens de contactar os advogados desde a transferência, a 21 de outubro. Acrescentou que também foi bloqueado o acesso de organizações da sociedade civil e da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Tailândia.
A declaração do Governo refere-se à nomeação de representação jurídica; a denúncia da Amnistia diz respeito à possibilidade de os representantes contactarem efetivamente os seus clientes. Os homens precisam de falar com advogados para explicar os seus receios, analisar o caso a favor do regresso e apresentar objeções.
A secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, pediu que lhes fosse permitido contactar um advogado e que lhes fosse encontrado um destino seguro:
As autoridades tailandesas têm agora de lhes permitir o acesso a um advogado da sua escolha e, juntamente com a comunidade internacional, encontrar urgentemente uma solução segura num terceiro país, de forma voluntária, para eles e para os outros uigures que continuam detidos na Tailândia.
Os homens pediram para não serem enviados de volta
Os dois homens expressaram os seus receios em cartas divulgadas por Kannavee Suebsang, antigo deputado tailandês e fundador da Peace Rights Foundation, que os representa. O pedido é pessoal e direto: querem ser protegidos contra o envio de regresso à China.
Um dos homens escreveu em inglês sobre o seu receio de regressar. Na carta divulgada por Kannavee, afirmou:
Estamos sempre preocupados que a China nos leve de volta.
O mesmo homem rejeitou a descrição dos detidos como terroristas feita pela China:
Não somos terroristas.
Os dois homens estão detidos no centro de detenção de imigrantes de Suan Phlu, em Banguecoque. Segundo a Amnistia, estão detidos na Tailândia há mais de 12 anos, desde que foram intercetados, em março de 2014.
Os cinco foram presos em 2020 por tentarem fugir da detenção de imigrantes. A lei tailandesa só permite deportar cidadãos estrangeiros presos depois de cumprirem as penas, o que explica por que razão os dois homens perdoados enfrentam agora uma possibilidade mais imediata de expulsão, enquanto os outros três continuam na prisão.
Como decorreram mais de 12 anos de detenção
A Amnistia situa a interceção inicial do grupo a 13 de março de 2014. Mais de 300 uigures que tinham fugido da China foram detidos no sul da Tailândia, perto da fronteira com a Malásia. Os uigures são um grupo étnico túrquico, maioritariamente muçulmano, originário de Xinjiang, no noroeste da China.
Posteriormente, a Tailândia enviou grupos para diferentes destinos. Mulheres e crianças foram autorizadas a viajar para a Turquia, enquanto grandes grupos de homens foram enviados de volta para a China, apesar das objeções de organizações de defesa dos direitos humanos e de responsáveis internacionais.
- 13 de março de 2014: As autoridades tailandesas intercetaram mais de 300 uigures, segundo a Amnistia Internacional.
- Junho de 2015: A Tailândia autorizou 173 mulheres e crianças a viajar para a Turquia. Em 2015, deportou também pelo menos 109 uigures para a China.
- 2020: Cinco homens foram presos por tentarem fugir da detenção de imigrantes.
- 7 de janeiro de 2025: A embaixada chinesa pediu o repatriamento de 45 homens uigures, segundo um documento obtido pela Amnistia.
- Fevereiro de 2025: A Tailândia deportou 40 uigures para a China, deixando cinco a cumprir penas de prisão.
- 21 de outubro de 2026: Dois dos cinco receberam um perdão real e foram transferidos para a detenção de imigrantes.
- 4 de novembro de 2026: Responsáveis tailandeses afirmaram que a extradição exigiria um processo judicial.
A carta da embaixada de janeiro de 2025 liga os casos atuais à deportação anterior: a China pediu 45 homens, a Tailândia enviou 40 e cinco ficaram na prisão. Estes cinco são agora alvo dos mandados referidos pelo responsável tailandês pela segurança.
O que aconteceu aos 40 enviados de volta em 2025?
A Tailândia deportou os 40 homens em fevereiro de 2025, apesar dos apelos dos próprios, de deputados tailandeses e de responsáveis das Nações Unidas. Antes da operação, o Governo tailandês tinha negado que planeasse enviá-los para a China.
Mais tarde, responsáveis tailandeses disseram que os homens tinham assinado formulários em chinês a concordar com o regresso voluntário. A Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Tailândia afirmou que os responsáveis envolvidos não apresentaram provas do consentimento nem garantias quanto à segurança dos homens.
A Amnistia afirma que as autoridades tailandesas visitaram Xinjiang em fevereiro e março de 2025, a convite da China. Organizações que acompanham o caso disseram que os visitantes puderam encontrar-se com menos de 10 deportados. Grupos de comunicação social tailandeses selecionados também participaram numa visita oficial, mas não tiveram acesso independente para entrevistar os homens enviados de volta.
Não foi possível apurar o paradeiro e o estado de saúde dos 40. Kannavee disse que os pedidos de informação oficiais que fez enquanto deputado não tiveram resposta. Afirmou que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Tailândia e outros também tentaram obter informações; o ministério recusou-se a comentar.
Elaine Pearson, diretora para a Ásia da Human Rights Watch, alertou para o tratamento dado a pessoas enviadas de volta em operações anteriores:
Governos tailandeses anteriores mantiveram uigures em condições desumanas de detenção durante anos e acabaram por ceder às exigências de Pequim para os enviar para a China, onde foram vítimas de desaparecimento forçado.
O desaparecimento forçado ocorre quando uma pessoa é detida e as autoridades ocultam ou se recusam a reconhecer o seu destino ou paradeiro, deixando-a fora da proteção jurídica habitual.
A lei tailandesa coloca a proteção contra a tortura no centro
A Tailândia não é parte na Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados. Está, ainda assim, vinculada à Convenção contra a Tortura e ao princípio internacional de não repulsão, que proíbe o envio de pessoas para locais onde corram um risco real de determinados abusos graves.
O artigo 13.º da Lei de Prevenção e Supressão da Tortura e dos Desaparecimentos Forçados da Tailândia dá a essa proteção uma base jurídica nacional. Segundo a Amnistia, a disposição proíbe a deportação quando existem motivos substanciais para crer que alguém poderá ser sujeito a tortura, tratamento cruel, desumano ou degradante, ou desaparecimento forçado.
A afirmação de Chaiyapruek de que os cinco não têm estatuto de refugiado não altera estas obrigações. A proteção contra o regresso a um lugar onde exista risco de tortura aplica-se às pessoas que enfrentam esse perigo, independentemente de terem sido formalmente reconhecidas como refugiadas.
Sasinan Thamnithinan, deputada do oposicionista Partido do Povo, afirmou que a Tailândia tinha obrigações ao abrigo do direito nacional e internacional. Numa declaração, instou o Governo a dar prioridade a essas obrigações, em vez da conveniência diplomática:
Manter relações internacionais é importante, mas não pode sobrepor-se aos direitos humanos e ao Estado de direito. Ninguém deve ser enviado de volta para enfrentar perigo apenas porque o Governo quer pôr fim a um problema.
A China defende a cooperação com a Tailândia
Pequim tem pedido repetidamente o regresso dos uigures e descrito como terroristas alguns membros do grupo detido. O Ministério da Segurança Pública da China chamou migrantes ilegais aos 40 homens deportados em 2025.
Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, defendeu a cooperação com a Tailândia quando questionada sobre os casos mais recentes:
A cooperação entre a China e a Tailândia no combate a crimes transfronteiriços, incluindo a imigração ilegal, está em conformidade com as leis dos dois países, bem como com o direito internacional e as práticas internacionais.
A China nega as acusações de abusos em Xinjiang e afirma que as suas políticas têm apoiado o desenvolvimento económico e combatido o extremismo. Organizações de defesa dos direitos humanos e as Nações Unidas acusaram Pequim de abusos graves contra uigures e outras comunidades maioritariamente muçulmanas, incluindo detenções em massa e trabalho forçado.
Uma investigação da Amnistia, publicada em 2021, documentou prisão, tortura e perseguição que a organização descreveu como crimes contra a humanidade. Uma avaliação das Nações Unidas, divulgada em agosto de 2022, afirmou que os abusos em Xinjiang poderiam constituir crimes contra a humanidade. O termo descreve certos atos de extrema gravidade cometidos no âmbito de um ataque generalizado ou sistemático contra civis.
Estas conclusões estão na base dos alertas das organizações de defesa dos direitos humanos sobre os cinco homens. Callamard afirmou que as garantias da China não podem sobrepor-se à obrigação da Tailândia de proteger as pessoas contra um risco real de tortura ou outras violações graves.
Um destino seguro dependeria de outro Governo
A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch instam a Tailândia a permitir que os dois homens perdoados viajem para um terceiro país seguro. Essa solução exigiria que outro Governo os aceitasse e que fosse criado um processo que lhes permitisse sair em segurança da custódia tailandesa.
A Tailândia já permitiu que membros do grupo inicial partissem para a Turquia. Segundo a Amnistia, foram 173 mulheres e crianças, em junho de 2015. Quanto aos cinco homens que continuam na Tailândia, o responsável pela segurança afirmou que a aceitação por outro país seria uma condição para uma eventual reinstalação após uma decisão judicial favorável.
As decisões imediatas dizem respeito ao acesso a advogados, à tramitação do pedido da China e à aplicação das proteções tailandesas contra o regresso a situações de abuso grave. Para os dois homens já perdoados, essas decisões determinarão se o fim das penas de prisão os levará a um lugar seguro ou à transferência para a China.
Principais pontos
- A Tailândia afirma que os pedidos chineses relativos aos cinco homens uigures têm de passar pelo seu sistema judicial.
- Dois homens receberam perdões reais a 21 de outubro de 2026, mas continuam detidos pelos serviços de imigração em Banguecoque.
- O Governo afirma que foi nomeado um advogado; a Amnistia diz que as autoridades têm impedido o acesso dos representantes legais.
- A lei tailandesa proíbe a deportação quando existem motivos substanciais para prever tortura, tratamento cruel ou desaparecimento forçado.
- Continuam por apurar o paradeiro e o estado de saúde dos 40 uigures deportados para a China em fevereiro de 2025.
- Organizações de defesa dos direitos humanos querem que os homens ainda detidos na Tailândia sejam reinstalados em segurança noutro país.






