Proteção mais cedo contra abusos sem violência física
A Coreia do Sul pretende acrescentar nove categorias de comportamento controlador à lei contra a perseguição, incluindo seguir a localização de alguém sem consentimento, exigir palavras-passe, ameaçar animais de estimação e obrigar um antigo parceiro a retomar uma relação. O Ministério da Justiça anunciou a proposta a 3 de novembro de 2026, afirmando que permitiria às autoridades intervir antes de os abusos evoluírem para violência física.
Índice
- Proteção mais cedo contra abusos sem violência física
- O que seria considerado perseguição?
- Vigilância digital em destaque
- A pressão pode estender-se à família, ao trabalho e aos animais de estimação
- Que medidas de proteção poderiam as autoridades aplicar?
- Penas e vontade da vítima
- O homicídio e os dados policiais que motivaram a revisão
- Como chegou a proposta ao Parlamento
- Transformar novas definições em proteção
- Pontos principais
A alteração, proposta a 26 de outubro, alargaria a definição de perseguição prevista no artigo 2.º, n.º 1, da Lei de Punição do Crime de Perseguição. A conduta repetida ou persistente abrangida pela definição alargada poderia ser punida com até três anos de prisão ou uma multa de 30 milhões de wons, cerca de 22 400 dólares. Os processos poderiam avançar mesmo que a vítima declarasse não querer que o autor fosse punido.
A proposta surge na sequência de um homicídio ocorrido em março em Namyangju, na província de Gyeonggi, em que uma mulher foi assassinada por um agressor que usava um dispositivo de localização eletrónico e já estava sujeito a uma ordem de afastamento. O caso trouxe para escrutínio tanto a resposta a queixas anteriores de perseguição como a proteção efetiva proporcionada pelas medidas em vigor.
O principal objetivo do ministério é fazer com que determinados sinais de alerta permitam agir mais cedo para proteger as vítimas. O controlo coercivo consiste em recorrer a um padrão de vigilância, ameaças ou restrições para dominar o quotidiano de outra pessoa. Ao abrigo da proposta, as autoridades poderiam aplicar as medidas de proteção contra a perseguição a formas específicas desse comportamento antes de ocorrer uma agressão ou lesão.
O que seria considerado perseguição?
A lei, aprovada em 2021, não identifica atualmente as nove categorias propostas como atos de perseguição distintos. Segundo o ministério, isto limita a margem de atuação dos investigadores quando o comportamento controlador não se enquadra nas definições de perseguição existentes e não constitui outro crime, como agressão.
A alteração acrescentaria as seguintes categorias, com exemplos de como o controlo pode ocorrer durante ou após uma relação:
- Coação para manter uma relação: obrigar alguém a iniciar, manter ou retomar uma relação, inclusive após uma separação.
- Seguimento da localização sem autorização: instalar ou utilizar um dispositivo ou programa de localização sem o consentimento da outra pessoa.
- Anúncio de vigilância: dizer a alguém que está a ser vigiado.
- Controlo digital: obrigar alguém a fornecer informações, como palavras-passe, ou aceder às suas contas nas redes sociais sem autorização.
- Interferência nas relações sociais: divulgar, ou ameaçar divulgar, informações falsas ou dados privados no local de trabalho ou na escola.
- Controlo através de informações privadas: ameaçar revelar informações pessoais conhecidas durante uma relação.
- Ameaças e intimidação: fazer mal ou ameaçar a vítima ou pessoas próximas, incluindo familiares.
- Ameaças a animais de estimação: fazer mal ou ameaçar um animal que pertença à vítima.
- Isolamento: recorrer ao engano ou a uma posição de poder para limitar o contacto com familiares, amigos ou colegas.
A punição penal proposta diz respeito a comportamentos repetidos ou persistentes. A alteração daria aos investigadores atos mais claramente definidos para avaliar ao decidir se um padrão de conduta constitui perseguição.
Vigilância digital em destaque
Os dispositivos de localização, os programas de monitorização e as contas nas redes sociais ocupam um lugar central na proposta. Entre os exemplos do ministério estão instalar tecnologia de localização sem consentimento, exigir palavras-passe e aceder a contas sem autorização para consultar ou obter informações.
A localização de uma pessoa pode revelar onde trabalha, com quem se encontra e quando está sozinha. O acesso a uma conta pode expor conversas privadas e ligações sociais. A alteração visaria a utilização dessas ferramentas para vigiar ou controlar outra pessoa, mesmo quando a vigilância não envolve contacto físico.
A proposta inclui também o anúncio de vigilância como categoria de conduta. Dizer a alguém que está a ser vigiado pode, por si só, ser uma forma de intimidação, afetando a liberdade que sente para se deslocar, encontrar-se com outras pessoas ou pôr fim a uma relação. Ao enumerar esse comportamento separadamente do seguimento da localização, a alteração abrange tanto a monitorização como o medo transmitido à vítima.
A pressão pode estender-se à família, ao trabalho e aos animais de estimação
As ameaças previstas na definição proposta poderiam visar outras pessoas além da vítima de perseguição. A alteração inclui fazer mal, ou ameaçar fazer mal, à vida, à integridade física ou aos bens de alguém próximo da vítima, como um familiar. Assim, as autoridades poderiam ter em conta a intimidação exercida através de pessoas importantes para a vítima.
Os animais de estimação também seriam expressamente abrangidos. A conduta descrita inclui capturar, ferir ou matar o animal de outra pessoa, bem como ameaçar fazê-lo. O ministério considera que as ameaças contra animais são uma forma de provocar medo indiretamente e exercer pressão sobre os seus donos.
Os locais de trabalho e as escolas são outro foco. Divulgar aí alegações falsas ou informações privadas, ou anunciar a intenção de o fazer, enquadrar-se-ia na categoria proposta de interferência nas relações sociais. Uma categoria distinta abrange ameaças de divulgação de informações privadas conhecidas durante uma relação amorosa.
O isolamento abrangeria limitar ou cortar o contacto com familiares, amigos e colegas através do engano ou do abuso de estatuto ou poder. Em conjunto, estas disposições visam formas de pressionar alguém através das suas relações, reputação e acesso a apoio, mesmo sem confronto físico.
Que medidas de proteção poderiam as autoridades aplicar?
O Ministério da Justiça afirma que a definição alargada permitiria recorrer mais cedo às medidas de proteção existentes em casos que envolvam as novas condutas enumeradas. Estas medidas incluem uma ordem que proíbe o alegado autor de se aproximar a menos de 100 metros da vítima, restrições ao contacto por telecomunicações e monitorização eletrónica da localização.
São medidas provisórias, isto é, proteções aplicadas enquanto o processo decorre, e não penas impostas após uma condenação. Uma restrição de distância limita a proximidade física, enquanto uma restrição de telecomunicações limita o contacto por telefone ou outros meios eletrónicos. A monitorização eletrónica permite às autoridades acompanhar a pessoa sujeita à medida.
Para as vítimas, a mudança pretendida é concreta: um padrão de seguimento não autorizado, ameaças ou acesso forçado a contas poderia constituir fundamento para pedir proteção numa fase mais precoce. Os investigadores teriam categorias expressamente previstas na lei contra a perseguição para aplicar ao avaliar a conduta.
O homicídio de Namyangju também chama a atenção para a forma como as ordens são aplicadas. Nesse caso, o agressor já estava sujeito a uma ordem de afastamento e a monitorização eletrónica. Além da alteração legislativa, o ministério tenciona rever as normas práticas relativas às investigações e às medidas provisórias, colocando a sua aplicação no centro da resposta.
Penas e vontade da vítima
A perseguição repetida ou persistente ao abrigo da definição alargada poderia ser punida com até três anos de prisão ou uma multa de até 30 milhões de wons. Se houver uma arma envolvida, a lei contra a perseguição prevê uma pena máxima mais elevada: cinco anos de prisão ou uma multa de 50 milhões de wons.
Estes valores são limites máximos. Cabe ao tribunal determinar a pena em cada caso. A principal mudança proposta diz respeito às condutas reconhecidas pela lei, passando a abranger outras formas de controlo no quadro legal da perseguição.
Os processos por perseguição já podem avançar independentemente de a vítima querer ou não que haja punição. O ministério afirma que essa regra também se aplicaria aos casos que envolvessem os novos atos definidos. Assim, a declaração de uma vítima de que não quer que o autor seja punido não poria automaticamente termo à investigação ou ao processo.
Esta disposição é importante nos casos em que a pressão continua durante o processo judicial. Uma pessoa ameaçada ou controlada pode continuar a ser pressionada para retirar uma queixa ou opor-se à punição. As autoridades manteriam a possibilidade de prosseguir com o caso.
O homicídio e os dados policiais que motivaram a revisão
O caso de perseguição e homicídio de uma mulher de 27 anos em Namyangju, em março, levou a uma revisão da resposta à violência em relações íntimas. A polícia foi criticada pela forma como tratou as queixas relativas ao suspeito, de 44 anos, antes do homicídio.
Posteriormente, o Ministério da Justiça liderou um grupo de trabalho que envolveu o Ministério da Igualdade de Género e da Família, a polícia e as autoridades judiciais. Entre os temas em debate estiveram o reforço da resposta à perseguição e o tratamento legal da violência e do controlo em relações amorosas.
Dados da Agência Nacional da Polícia divulgados em outubro vieram reforçar a urgência deste trabalho. A agência afirmou que 19,7% dos suspeitos de homicídio desde 2023 tinham cometido anteriormente violência doméstica, violência no namoro, perseguição ou violência sexual. É quase um em cada cinco suspeitos nestas quatro categorias.
Este número enquadra a perseguição num grupo mais vasto de crimes associados a violência ou abusos anteriores. A resposta do Governo combina uma proposta de alargamento das condutas puníveis com planos para melhorar as decisões de proteção e as ligações aos serviços de apoio às vítimas.
Como chegou a proposta ao Parlamento
A alteração surge após vários meses de trabalho governamental na sequência do caso de Namyangju. Um pacote anunciado em julho identificou a legislação sobre a punição da violência no namoro e a proteção das vítimas como uma prioridade.
- 2021: A Coreia do Sul aprovou a Lei de Punição do Crime de Perseguição.
- Março de 2026: O homicídio relacionado com perseguição em Namyangju voltou a pôr sob escrutínio a resposta policial e a proteção das vítimas.
- Julho de 2026: O Governo anunciou medidas para reforçar a resposta à perseguição e à violência no namoro.
- 26 de outubro de 2026: Foi proposta a alteração que acrescenta nove categorias de conduta.
- 3 de novembro de 2026: O Ministério da Justiça anunciou os pormenores e afirmou que apoiaria a aprovação durante a atual sessão ordinária da Assembleia Nacional.
O ministério afirmou que participaria ativamente nos debates da Assembleia Nacional e apoiaria a aprovação durante essa sessão. A proposta continua sujeita a apreciação legislativa; não foi indicada qualquer data para a votação ou para a entrada em vigor das alterações.
Transformar novas definições em proteção
O Ministério da Justiça tenciona trabalhar com a polícia e as autoridades judiciais nas normas de investigação e na aplicação de medidas provisórias. Pretende também coordenar-se com os organismos responsáveis pelo apoio às vítimas para que a lei revista possa ser aplicada na prática quando entrar em vigor.
As nove categorias dão a esse trabalho um ponto de partida mais detalhado. Ao avaliar uma queixa, os investigadores poderiam analisar alegações de seguimento da localização, acesso a contas, ameaças de divulgação de informações privadas e restrições ao contacto com outras pessoas como partes de um padrão contínuo.
Para quem passa por este tipo de conduta, a alteração proposta abriria uma via mais rápida para obter proteção ao abrigo da lei contra a perseguição. Os resultados concretos dependeriam do reconhecimento desses comportamentos, da adoção atempada de medidas de proteção e da resposta a violações das restrições, aspetos que o homicídio de Namyangju colocou em evidência.
Pontos principais
- A Coreia do Sul propôs acrescentar nove categorias de comportamento controlador à lei contra a perseguição.
- As categorias incluem seguimento da localização sem autorização, controlo digital, coação para manter uma relação, ameaças a animais de estimação e isolamento.
- A conduta repetida ou persistente poderia ser punida com até três anos de prisão ou uma multa de 30 milhões de wons.
- As medidas de proteção existentes incluem uma ordem de afastamento de 100 metros, restrições às telecomunicações e monitorização eletrónica.
- Os processos podem avançar mesmo que a vítima diga não querer que haja punição.
- O ministério pretende que a proposta seja aprovada durante a atual sessão ordinária da Assembleia Nacional e planeia emitir novas orientações práticas para os investigadores.






