Nepal cancela concurso de 16 mil milhões de rupias para o projecto Sunkoshi Marin em meio a acusações de pressão política

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Nepal Cancels Rs16 Billion Sunkoshi Marin Tender Amid Allegations of Political Pressure

Um concurso cancelado deixa um túnel concluído à espera

O Nepal cancelou um concurso no valor de cerca de 16 mil milhões de rupias para a barragem e a central eléctrica do Projecto Multipropósito de Transvase Sunkoshi-Marin, poucos dias antes da abertura das propostas financeiras dos três concorrentes apurados. A decisão ameaça provocar mais um atraso num projecto destinado a irrigar 122 000 hectares de terras agrícolas em cinco distritos do sul e a gerar 31,07 megawatts de electricidade.

Índice
  1. Um concurso cancelado deixa um túnel concluído à espera
  2. O que aconteceu antes do cancelamento?
  3. Que concorrentes foram apurados e por que motivo isso era importante?
  4. O Governo alega que poupa dinheiro, mas juristas questionam a via legal
  5. Como podem os concorrentes excluídos contestar uma avaliação
  6. O empreiteiro anterior já acumulava um grande atraso
  7. Milhares de milhões em garantias e outra intervenção contestada
  8. O que significa mais um atraso para Madhesh
  9. Principais pontos

O cancelamento ocorreu após a alegada detenção de Dinesh Rajauria, director-geral do Departamento de Recursos Hídricos e Irrigação, e de Krishna Prasad Rijal, director do projecto. Fontes policiais e ministeriais alegaram que responsáveis ligados ao Secretariado do primeiro-ministro Balendra Shah os pressionaram para suspender o concurso, depois de empresas favorecidas por pessoas próximas do Secretariado terem sido excluídas na avaliação técnica.

O ministro das Infra-estruturas, Sunil Lamsal, apresentou outra explicação. Disse que uma queixa contestara a conformidade do concurso com as novas regras de contratação pública e alegou que prosseguir com o processo poderia custar mais 2 a 3 mil milhões de rupias ao Estado. Afirmou que apenas informara os administradores distritais de que os responsáveis deveriam ser enviados para Catmandu.

O diferendo tem uma consequência prática imediata: o túnel de transvase já concluído não pode entrar em funcionamento enquanto a barragem não estiver pronta. Os agricultores de Bara, Rautahat, Sarlahi, Mahottari e Dhanusha terão de continuar à espera do sistema de irrigação, enquanto o Governo decide como retomar o concurso.

O que aconteceu antes do cancelamento?

O projecto lançou um concurso internacional a 8 de Junho, dando 30 dias para a apresentação de propostas. Seis empresas ou agrupamentos concorreram à barragem, à central eléctrica e às estruturas associadas. A avaliação técnica reduziu o número de concorrentes a três, cujas propostas financeiras deveriam ser abertas na segunda-feira, 16 de Kartik.

Fontes policiais disseram que Rajauria e Rijal foram detidos em Siraha e Sindhuli a 12 de Kartik e levados para o Gabinete do Primeiro-Ministro e do Conselho de Ministros. Terão sido libertados na noite seguinte. As fontes alegaram que Rajauria foi levado sem mandado de detenção e que concordou em cancelar o concurso antes de ser libertado.

O aviso de cancelamento foi publicado no jornal Gorkhapatra no sábado. O engenheiro do projecto, Ashok Raj Gautam, confirmou que a instrução partiu do departamento, deixando a esse organismo a decisão sobre os próximos passos do concurso.

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Gautam, engenheiro sénior de divisão que trabalha no projecto, descreveu a decisão:

O contrato foi cancelado por determinação do Departamento de Recursos Hídricos e Irrigação. O departamento terá de decidir se lança um novo concurso ou se adopta outra medida.

O ministro da Energia, dos Recursos Hídricos e da Irrigação, Birajbhakta Shrestha, encontrava-se na Tailândia a participar num evento das Nações Unidas sobre energia quando ocorreu o cancelamento. Tinha apoiado o avanço do concurso. Depois, recusou fazer comentários substantivos, dizendo que presumia que o Gabinete do Primeiro-Ministro teria uma boa razão e que o trabalho do Governo deveria ser transparente.

Que concorrentes foram apurados e por que motivo isso era importante?

A China International Water & Electric Corporation, o agrupamento ANENG-RCC e a Sinohydro Corporation passaram a avaliação técnica preliminar. A avaliação técnica verifica se os concorrentes cumprem requisitos como experiência relevante, capacidade financeira e aptidão para executar a obra antes de serem considerados os preços apresentados.

As três propostas não seleccionadas foram as do agrupamento SIL-KC Construction-Phewa, do agrupamento Songda-Kalika Construction e do agrupamento CREGC-SWDCC. Algumas empresas não seleccionadas escreveram ao projecto a pedir os motivos da sua exclusão. Um representante de uma delas reconheceu ter apresentado uma queixa a Lamsal.

A Kalika Construction pertence a Nicholas Pandey, presidente da Federação de Empresários da Construção do Nepal. Fontes ministeriais alegaram que a pressão aumentou depois de a sua parceria com a vietnamita Songda ter sido excluída na avaliação técnica. Afirmaram que Pandey desenvolvera relações estreitas com o Secretariado do primeiro-ministro, que queria que a parceria obtivesse o contrato.

A Rasuwa Construction, parceira nepalesa do agrupamento apurado ANENG-RCC, pertence a Mohan Acharya, deputado do Congresso Nepalês. Fontes ministeriais esperavam que esse agrupamento vencesse. As propostas financeiras ainda não tinham sido abertas, pelo que a comparação de preços ficou por concluir quando o concurso foi suspenso.

As alegações dizem respeito, por isso, tanto à concorrência entre empreiteiros como à conduta de responsáveis governamentais. As fontes descreveram ligações políticas em torno de concorrentes rivais, enquanto Lamsal apresentou a intervenção como uma tentativa de proteger o dinheiro público através do cumprimento das regras revistas.

Lamsal disse que o Gabinete do Primeiro-Ministro recebera, cerca de dez dias antes do cancelamento, uma queixa segundo a qual o concurso não respeitava os novos regulamentos de contratação pública. A sua estimativa de uma possível perda de 2 a 3 mil milhões de rupias corresponde a cerca de 12,5% a 18,75% do valor estimado do concurso, de 16 mil milhões de rupias. A poupança alegada seria, assim, substancial, embora não tenha apresentado cálculos que explicassem esse valor.

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O aviso de cancelamento invocou o artigo 3.º, n.º 2, da Lei de Contratação Pública do Nepal. O advogado Semanta Dahal e o antigo secretário do Desenvolvimento Urbano Maniram Gelal questionaram essa escolha, afirmando que a disposição diz respeito ao quadro jurídico que rege a contratação pública, não conferindo ao organismo contratante poderes próprios para cancelar um concurso.

Dahal e Gelal disseram que o artigo 26.º estabelece as competências e os fundamentos para o cancelamento. Entre os fundamentos que referiram contam-se a falta de propostas conformes, a impossibilidade de celebrar um acordo, preços superiores ao custo estimado ou a decisão de que a construção ou os serviços já não são necessários.

O ponto central, segundo ambos, é que os responsáveis devem indicar os motivos de facto e de direito para suspender o processo. Gelal disse que um órgão de revisão ou um tribunal poderia analisar se a contratação infringira a lei, enquanto um serviço de projecto que cancelasse o seu próprio concurso teria de recorrer à disposição aplicável ao cancelamento.

O Secretariado do Primeiro-Ministro não tinha apresentado publicamente pormenores sobre a falha concreta que motivara a intervenção. O departamento também não anunciara se iria lançar um novo concurso, rever o actual ou adoptar outra medida. Essas decisões determinarão quanto trabalho terá de ser repetido.

Como podem os concorrentes excluídos contestar uma avaliação

O sistema de contratação pública do Nepal prevê uma via formal para as empresas insatisfeitas com as decisões relativas aos concursos. Os concorrentes podem pedir uma revisão ao Comité de Revisão da Contratação Pública e, se necessário, contestar as decisões em tribunal. Até ao momento referido, não tinha sido apresentada qualquer queixa sobre este concurso ao comité.

O engenheiro Laxman KC criticou a alegada intimidação de responsáveis. Disse que as empresas insatisfeitas com uma avaliação técnica deveriam recorrer aos procedimentos de revisão ou aos tribunais e alertou que cancelar um concurso internacional na fase final poderia desperdiçar as despesas dos concorrentes e atrasar durante anos um projecto de importância nacional.

O projecto ultrapassava o limiar de 5 mil milhões de rupias estabelecido para concursos internacionais ao abrigo dos regulamentos de contratação pública. As empresas estrangeiras podiam participar com parceiros nepaleses. O diferendo envolvia também as preferências declaradas pela participação nacional, incluindo pontos adicionais na avaliação e ajustamentos de preços para parcerias elegíveis.

Essas preferências influenciam a comparação das propostas apuradas. Neste caso, o processo terminou antes da abertura das propostas financeiras, pelo que o diferendo imediato diz respeito à legalidade do cancelamento e ao tratamento dos concorrentes que já tinham cumprido os requisitos técnicos.

A administração de Shah enfrenta estas alegações após uma campanha eleitoral marcada pelas exigências de um Governo mais íntegro. A sua vitória esmagadora nas eleições de Março sucedeu ao movimento da Geração Z contra a corrupção e os privilégios políticos. O diferendo sobre o concurso põe essas promessas à prova numa decisão que envolve milhares de milhões de rupias e o tratamento de funcionários públicos.

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O empreiteiro anterior já acumulava um grande atraso

A Patel-Raman JV, uma parceria entre a indiana Patel Engineering e a nepalesa Raman Construction, recebeu o contrato anterior em Janeiro de 2023, no valor de cerca de 14,08 mil milhões de rupias, com impostos incluídos. Tinha decorrido cerca de 60% do prazo do contrato, mas a execução física rondava apenas os 10%.

O valor estimado de 16 mil milhões de rupias do novo concurso é cerca de 1,92 mil milhões superior ao do contrato anterior, um aumento de aproximadamente 14%. Uma estimativa e um preço adjudicado são medidas diferentes, mas os valores mostram a dimensão da contratação que está agora a ser retomada após a remoção do empreiteiro original.

A cronologia da rescisão inclui datas diferentes. O relato do processo judicial situa a decisão de rescisão em 11 de Novembro de 2025, após notificação ao empreiteiro; o relato anterior do projecto aponta a rescisão para 8 de Mangsir de 2082. Ambos descrevem o mesmo problema de fundo: os avisos repetidos não tinham produzido avanços suficientes na construção.

A Patel-Raman contestou a decisão no Supremo Tribunal a 25 de Novembro de 2025. No dia seguinte, o juiz Tek Prasad Dhungana emitiu uma ordem provisória que impedia a execução da rescisão e a apreensão das garantias bancárias. O tribunal revogou essa ordem a 9 de Fevereiro, permitindo ao Governo avançar.

A sequência dos principais marcos mostra como o projecto chegou a uma nova suspensão do concurso:

  • Janeiro de 2023: a Patel-Raman JV recebeu o contrato da barragem e das estruturas associadas.
  • Maio de 2024: a escavação abriu passagem no túnel de transvase.
  • 27 de Agosto de 2025: foram concluídos os acabamentos do túnel.
  • Novembro de 2025: o contrato anterior entrou em fase de rescisão e de processo judicial.
  • 9 de Fevereiro: o Supremo Tribunal levantou a restrição provisória à rescisão.
  • 8 de Junho: o projecto lançou um novo concurso.
  • 16 de Kartik: as propostas financeiras deveriam ser abertas, mas o cancelamento impediu essa etapa.

Posteriormente, o Gabinete de Fiscalização da Contratação Pública incluiu a Patel-Raman na lista negra por três anos, impedindo-a de obter novos contratos públicos durante esse período, mas permitindo-lhe prosseguir os projectos já existentes.

Milhares de milhões em garantias e outra intervenção contestada

O empreiteiro anterior recebera cerca de 2,14 mil milhões de rupias em pagamentos, aproximadamente 15% do valor adjudicado. Os montantes associados às suas garantias eram igualmente elevados: 2,4 mil milhões de rupias em garantia de boa execução e 1,2 mil milhões para garantir os pagamentos antecipados.

O relato inicial do projecto descreveu os 3,6 mil milhões de rupias como tendo sido integralmente confiscados. O relato financeiro posterior afirmou que os 1,2 mil milhões relativos ao adiantamento tinham sido recuperados, mas que ainda faltava cobrar a garantia de boa execução, no valor de 2,4 mil milhões. A diferença é importante para determinar quanto dinheiro foi efectivamente recuperado pelo Governo.

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Uma garantia de boa execução protege financeiramente o Governo caso um empreiteiro não cumpra as suas obrigações. Uma garantia de adiantamento protege o dinheiro pago antes da conclusão dos trabalhos correspondentes. A cobrança de qualquer uma delas pode envolver bancos e processos judiciais, como mostra a anterior decisão do Supremo Tribunal.

Também são alegadas interferências políticas em torno do antigo contrato. Uma fonte próxima do antigo ministro da Energia Kulman Ghising disse que pessoas ligadas a Shah, então presidente da Câmara de Catmandu, tinham pedido a Ghising que não rescindisse o contrato da Patel-Raman. A fonte afirmou que Lamsal pedira mais tempo e que o empreiteiro recebera mais dois meses.

Lamsal negou ter-se reunido com Ghising para lhe pedir que mantivesse o contrato. Disse que o empreiteiro o contactara e que apenas ajudara a organizar uma reunião. A sua resposta acrescenta a sua própria intervenção ao diferendo sobre as explicações para o mais recente cancelamento.

O que significa mais um atraso para Madhesh

O projecto Sunkoshi-Marin foi concebido para transferir água do rio Sunkoshi para o rio Marin, em Sindhuli, e depois fornecer água de irrigação a cinco distritos de Tarai. A barragem prevista terá cerca de 30 metros de altura e 158 metros de comprimento. A água que chegar a Kusumtar, no município de Kamalamai, também alimentará a central eléctrica.

O túnel de transvase concluído é descrito como tendo 13,3 quilómetros no relato pormenorizado da construção e 13,1 quilómetros na descrição anterior do projecto. Foi escavado pela China Overseas Engineering Group com uma tuneladora. Os trabalhos de acabamento e os ensaios já foram realizados, mas a ausência da barragem impede o funcionamento do sistema mais amplo.

O projecto global teve início no ano fiscal de 2016-17 e tem um custo estimado de 49,42 mil milhões de rupias. O plano director revisto aponta agora para a conclusão no ano fiscal de 2032-33. Os agricultores que aguardam água de irrigação ao longo de todo o ano enfrentam, portanto, um calendário muito mais longo do que poderia sugerir a construção isolada do túnel.

Ghising disse que um novo concurso poderia acrescentar seis meses a um ano até à retoma das obras. O antigo ministro da Energia explicou por que se opunha a nova suspensão:

O contrato do empreiteiro anterior foi rescindido porque este não estava a executar a obra. O novo contrato deve ser adjudicado o mais depressa possível para que a construção possa avançar.

Os benefícios prometidos dependem do funcionamento conjunto da barragem, da central eléctrica e do sistema de distribuição de água. A conclusão do concurso permitiria avançar com as estruturas por concluir; um novo diferendo prolongado deixaria um túnel concluído e dispendioso à espera, enquanto as terras agrícolas que deveria servir continuariam sem água para irrigação.

Principais pontos

  • O Nepal cancelou um concurso no valor de cerca de 16 mil milhões de rupias antes da abertura das propostas financeiras dos três concorrentes apurados.
  • Fontes policiais e ministeriais alegaram detenções e pressão política; o ministro Sunil Lamsal invocou as regras de contratação pública e possíveis poupanças para o Estado.
  • O advogado Semanta Dahal e o antigo secretário Maniram Gelal questionaram a disposição legal usada para cancelar o processo.
  • O projecto pretende irrigar 122 000 hectares em cinco distritos de Tarai e gerar 31,07 megawatts de electricidade.
  • O túnel concluído precisa da barragem ainda por construir para que o sistema de transvase possa funcionar.
  • O plano revisto aponta para a conclusão no ano fiscal de 2032-33, enquanto o departamento tem de decidir como retomará o concurso.
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