Um destino final após décadas de viagens
Depois de várias empresas de viagens recusarem levá-lo devido à idade, um reformado chinês de apelido Tan organizou a sua própria viagem de mais de 3 000 quilómetros, de Wuxi a Lhasa. Usou inteligência artificial para pesquisar o destino, reservou o bilhete de comboio e o hotel no telemóvel e passou 43 horas a viajar até ao Tibete.
Índice
- Um destino final após décadas de viagens
- O que Tan perguntou à IA antes de partir
- Porque eram importantes a altitude e a mobilidade
- Uma cama inferior e uma receção na estação
- Palácios, templos e ruas do quotidiano
- Uma ambição de viajar que cresceu depois da reforma
- A viagem por datas
- Já tem mais destinos na lista
- Pontos principais
Tan partiu de Wuxi, na província de Jiangsu, a 10 de outubro e chegou a Lhasa a 12 de outubro. Regressou a casa em segurança a 21 de outubro, depois de visitar o destino que deixara para último nas suas viagens pela China. Alguns relatos sobre o regresso indicam que tem 96 anos, enquanto outros sobre a mesma viagem apontam para 94. Uma verificação com a Universidade Jiao Tong de Xangai confirmou que a idade real é 94 anos; os 96 resultam da convenção local de Wuxi para o cálculo da idade nominal.
Antes da viagem, Tan já tinha visitado 33 das 34 regiões administrativas de nível provincial que constavam da sua lista. O Tibete continuava por visitar porque o considerava o destino mais difícil. Familiares e amigos receavam os efeitos da altitude, enquanto as agências de viagens recusavam os seus pedidos para se juntar a um grupo.
A sua viagem chamou a atenção nas redes sociais depois de outro viajante o ter encontrado num restaurante em Lhasa e o ter filmado. Por detrás da história, amplamente partilhada, estiveram a preparação pessoal, as competências com o smartphone e a ajuda prática de pessoas ao longo do percurso.
O que Tan perguntou à IA antes de partir
Tan começou a experimentar a IA depois de ver a filha utilizá-la no telemóvel no ano anterior. Curioso, descarregou uma aplicação e aprendeu a usá-la sozinho.
Antes de partir para o Tibete, perguntou se alguém da sua idade podia viajar até Lhasa. O assistente não conseguiu dar-lhe uma resposta definitiva. Tan percebeu que a condição física varia de pessoa para pessoa e continuou a pesquisar a viagem.
Ao explicar por que razão decidiu partir apesar dessa incerteza, Tan disse:
Às perguntas a que a IA não consegue responder, irei eu próprio procurar as respostas ao local.
Usou o assistente para tarefas mais específicas: verificar a altitude, encontrar atrações e preparar um itinerário. À parte, utilizou o smartphone para comprar o bilhete de comboio e reservar alojamento. Durante as viagens, também podia consultar percursos e reservar viagens, incluindo viagens partilhadas.
A sua experiência mostra as diferentes tarefas envolvidas no planeamento desta viagem em particular. A IA ajudou-o a recolher informações sobre locais e percursos. A questão que mais preocupava a família, a forma como o seu próprio organismo reagiria ao planalto, continuou a ser uma incerteza de saúde pessoal antes da partida.
Porque eram importantes a altitude e a mobilidade
A elevada altitude de Lhasa era o principal motivo pelo qual familiares e amigos de Tan lhe recomendavam prudência. Em grandes altitudes, a pressão atmosférica mais baixa faz com que cada respiração forneça menos oxigénio do que em altitudes inferiores. Alguns visitantes sofrem de mal de altitude, que pode provocar dores de cabeça, náuseas, tonturas ou cansaço invulgar.
Tan disse não ter sentido sintomas de mal de altitude durante a estadia. Ainda assim, a viagem envolveu outra dificuldade física que o afetava há grande parte da vida: a atrofia muscular na perna esquerda.
Durante anos, andou de bicicleta para exercitar os músculos, mas em locais com muitos degraus continuava a poder precisar de ajuda ou de um auxiliar de mobilidade. Para ele, chegar a um destino e deslocar-se nele eram tarefas práticas distintas. As camas do comboio, as transferências nas estações e o acesso às atrações eram todos importantes.
A recusa das agências de viagens obrigou-o a organizar a viagem fora de um circuito turístico convencional. Contudo, já em Lhasa, recebeu ajuda com reservas e visitas turísticas, bem como assistência de funcionários dos transportes e do hotel.
Uma cama inferior e uma receção na estação
Inicialmente, Tan só conseguiu obter uma cama superior para a longa viagem de comboio. Uma jovem que viajava numa cama inferior ofereceu-se para trocar de lugar com ele.
Ele ofereceu-se para pagar a diferença de preço, mas ela recusou. A troca deu-lhe um lugar onde dormir sem ter de subir repetidamente para um beliche superior, uma mudança útil para alguém com dificuldade em subir degraus.
Na estação ferroviária de Lhasa, os funcionários disponibilizaram-lhe uma cadeira de rodas e acompanharam-no até à zona de recolha de passageiros dos automóveis reservados através de aplicações de transporte. Os funcionários do hotel também lhe perguntaram quais eram os seus planos e se precisava de ajuda.
Esses gestos individuais facilitaram a viagem em vários momentos: dormir no comboio, sair da estação e organizar cada dia. Tan partira sozinho e tratara das próprias reservas, aceitando a ajuda quando lha ofereciam.
No relato da viagem, deu bastante destaque a esses encontros. Para além dos locais que visitou, a disponibilidade de desconhecidos para o ajudar tornou-se uma das experiências de que mais se recordou.
Palácios, templos e ruas do quotidiano
Tan visitou a Praça do Palácio de Potala, o Templo de Jokhang, o Parque Zongjiao Lukang e o Museu do Tibete. Visitou também Norbulingka, o histórico complexo de palácio e jardins de Lhasa.
Depois de saber da sua viagem, o Gabinete de Cultura e Turismo de Lhasa entrou em contacto com ele. Ajudou a organizar visitas ao Museu do Tibete e a Norbulingka, tratou de reservas e disponibilizou alguém para o acompanhar durante as atividades.
Numa atualização partilhada através do WeChat, o departamento de turismo disse que os funcionários tinham localizado Tan depois de ouvirem a sua história. Quando souberam que queria visitar o Museu do Tibete e Norbulingka, fizeram prontamente as reservas e acompanharam-no durante as visitas. Com o seu consentimento, os funcionários foram ao hotel ao meio-dia de 16 de outubro e, depois de conversarem sobre as suas necessidades, acompanharam-no às duas atrações. O departamento descreveu-o como fisicamente robusto, com audição e visão apuradas, muita energia e comunicação clara, acrescentando que perguntava repetidamente aos funcionários se estavam cansados. Planeava ainda acompanhá-lo a um espetáculo de ópera tibetana e a outras visitas em Lhasa.
Tan também fez um cruzeiro ao fim do dia no rio Lhasa e experimentou vestuário tradicional tibetano. Percorreu de autocarro as ruas da cidade, reservando tempo para conhecer o quotidiano urbano, além das atrações mais conhecidas.
Ao descrever as conversas com jovens visitantes no Palácio de Potala, Tan disse:
Conheci muitos jovens no Palácio de Potala. Conversar com eles deixou-me muito feliz e senti-me mais jovem também.
O seu gosto pela conversa não se limitou a essa visita. Nas viagens, gostava de apanhar autocarros locais e táxis, passear pelas ruas e falar com os residentes. Em Lhasa, esses hábitos permitiram-lhe conhecer a cidade para além de um programa fixo de visitas turísticas.
Uma ambição de viajar que cresceu depois da reforma
A família de Tan é originária de Taishan, na província de Guangdong. Os dados biográficos disponíveis referem que passou a infância na Malásia e regressou à China aos 19 anos. Os relatos que mencionam esses pormenores da infância não identificam a fonte original.
Entrou na Universidade Jiao Tong de Xangai em 1954 e estudou fabrico de veículos num curso de cinco anos. Depois de se formar, trabalhou na fábrica de fabrico de veículos de Puzhen, em Nanjing, atualmente integrada na CRRC Nanjing Puzhen. A sua admissão, o curso que frequentou e o emprego subsequente foram confirmados junto da Universidade Jiao Tong de Xangai. Informações da associação de antigos alunos da universidade em Wuxi também indicam que se formou em 1959 e se reformou em 1988.
Viajar interessava-lhe desde jovem, mas o trabalho e as responsabilidades familiares deixavam-lhe pouco tempo. A reforma, em 1988, deu-lhe a oportunidade de concretizar essa ambição. Fixou-se em Wuxi com a mulher e começou as viagens por Pequim.
Nas décadas seguintes, viajou por toda a China, incluindo Xinjiang, antes da viagem ao Tibete. Lhasa foi, por isso, o culminar de um longo projeto pessoal, e não a sua primeira viagem de longa distância.
A dimensão desse projeto ajuda a explicar a sua determinação. Das 34 regiões de nível provincial da sua lista, já tinha visitado 33, pelo que o Tibete era a última que faltava. Adiara deliberadamente o destino que esperava ser o mais difícil.
A viagem por datas
A viagem de Tan abrangeu 12 dias de calendário, desde a partida até ao regresso a Wuxi. Só a viagem de comboio de ida durou 43 horas e percorreu mais de 3 000 quilómetros.
- 1988: Tan reformou-se, fixou-se em Wuxi e começou a dedicar mais tempo às viagens.
- 10 de outubro: Partiu de Wuxi de comboio para Lhasa, depois de organizar o bilhete e o alojamento.
- 12 de outubro: Chegou a Lhasa e começou a explorar a cidade.
- Durante a estadia: Visitou as principais atrações, fez um cruzeiro ao fim do dia no rio e recebeu ajuda de responsáveis do turismo e de outras pessoas que encontrou.
- 21 de outubro: Regressou em segurança a Wuxi.
O comboio levou-o da região do baixo Yangtzé em direção ao planalto do Qinghai-Tibete. Para Tan, a longa viagem era o início necessário de uma visita que adiara enquanto completava o resto da sua lista.
Já tem mais destinos na lista
Tan tem outros planos de viagem, apesar de já ter completado o seu percurso pelas regiões de nível provincial da China. Quer visitar Guangxi e conhecer o canal de Pinglu, e espera também regressar a Hefei, na província de Anhui, para descobrir como a cidade mudou. Ainda não foi anunciada qualquer data de partida.
O conselho que deixou aos mais jovens juntava curiosidade e atenção à saúde: dormir o suficiente, evitar deitar-se demasiado tarde e viajar sempre que possível. A sua própria viagem exigiu tanto vontade de partir como o trabalho prático de organizar bilhetes, alojamento e transporte.
Ao encorajar outras pessoas a visitar os locais que desejam conhecer, Tan disse:
Seja qual for o lugar aonde querem ir, tentem primeiro dar esse primeiro passo com coragem.
Pontos principais
- Tan viajou sozinho de Wuxi a Lhasa, numa viagem de comboio de 43 horas e mais de 3 000 quilómetros.
- Usou IA para pesquisar a altitude e as atrações e reservou o bilhete de comboio e o hotel pelo smartphone.
- As agências de viagens recusaram levá-lo devido à idade, confirmada como 94 anos, ou 96 segundo a convenção local de Wuxi para o cálculo da idade nominal.
- Disse não ter sofrido de mal de altitude e regressou a casa em segurança a 21 de outubro.
- Passageiros, funcionários ferroviários, trabalhadores do hotel e responsáveis do turismo de Lhasa ajudaram-no durante a viagem.
- Espera visitar o canal de Pinglu, em Guangxi, e Hefei, sem que tenha sido anunciada uma data para a viagem.






