Filhas de membros dos Talibãs frequentaram escola clandestina em Cabul, afirma trabalhadora humanitária italiana

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Taliban Members' Daughters Attended Secret Kabul School, Italian Aid Worker Says

Uma sala de aula escondida entre máquinas de costura

Filhas de membros dos Talibãs frequentaram uma escola clandestina em Cabul, onde raparigas e mulheres estudavam numa sala com máquinas de costura, segundo Susanna Fioretti, fundadora da organização italiana de ajuda humanitária Nove Caring Humans. Disse ter descoberto as ligações familiares das alunas dois anos depois da abertura da escola.

Índice
  1. Uma sala de aula escondida entre máquinas de costura
  2. Os pais contornaram discretamente as restrições
  3. Como evoluiu a proibição da educação
  4. O que dizem os números oficiais
  5. Os custos fazem-se sentir nos hospitais e nas famílias
  6. A aprendizagem continua por outras vias
  7. Negociar oportunidades de rendimento para as mulheres
  8. A autorização dependia de encontros pessoais
  9. Pontos-chave

Os pais queriam que elas tivessem acesso à educação, apesar das restrições impostas pelo movimento a que as suas famílias pertenciam, afirmou Fioretti. O seu relato descreve uma via privada de acesso à aprendizagem num país onde as raparigas estão impedidas de prosseguir os estudos formais além do sexto ano e as mulheres estão excluídas das universidades.

A sala tinha uma segunda finalidade: podia passar por uma oficina para mulheres. Os organizadores planearam esconder os cadernos e as canetas e tirar os materiais de costura se aparecessem inspetores. Fioretti disse que nenhum funcionário dos Talibãs inspecionou o espaço durante os primeiros dois anos.

A escola permitia continuar a aprender, mas o segredo condicionava o seu funcionamento. Fioretti afirmou que uma denúncia à polícia moral dos Talibãs poderia ter consequências graves para as alunas e para quem organizava as aulas.

Os pais contornaram discretamente as restrições

Fioretti, cuja organização tem sede em Roma, disse que as alunas com ligações familiares aos Talibãs frequentavam a escola porque os pais queriam que estudassem. Descreveu algumas pessoas associadas ao movimento como contrárias a certas restrições e dispostas a contorná-las discretamente.

O seu relato enquadra as decisões privadas dessas famílias nas regras públicas aplicadas em todo o Afeganistão. Para as filhas envolvidas, o acesso dependia de os pais encontrarem uma sala de aula escondida, em vez de poderem inscrevê-las abertamente numa escola normal.

Não foram divulgados o número de alunas com ligações familiares aos Talibãs, nem as identidades ou cargos dos seus pais. Fioretti também não indicou a data de abertura da escola nem deu pormenores sobre o seu funcionamento atual.

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Outras escolas clandestinas continuaram a funcionar apesar das restrições. Algumas terão funcionado com o conhecimento ou a tolerância informal de funcionários dos Talibãs, enquanto outras foram encerradas. Uma investigação de 2022 descreveu também membros de alto escalão dos Talibãs a organizarem a educação das filhas através de escolas clandestinas no Afeganistão ou enviando-as para o estrangeiro.

Essas soluções fazem com que o acesso dependa dos recursos familiares, das ligações pessoais e das decisões de funcionários individuais. Uma rapariga cujos pais consigam garantir-lhe um lugar numa sala de aula escondida tem uma oportunidade que muitas outras não têm.

Como evoluiu a proibição da educação

Os Talibãs regressaram ao poder em agosto de 2021. Desde então, as restrições impostas excluíram as raparigas do ensino secundário e as mulheres das universidades e da maioria dos empregos. O Afeganistão é o único país onde as raparigas estão impedidas de estudar para além do ensino primário, segundo a UNESCO.

A UNICEF assinalou, a 21 de março de 2025, três anos desde a proibição do ensino secundário. Num comunicado, descreveu o início de mais um ano letivo com quase mais 400 mil raparigas privadas de educação, elevando o total para 2,2 milhões.

  • Agosto de 2021: Os Talibãs regressaram ao poder, dando início ao período de alterações jurídicas e institucionais analisado pela UNESCO.
  • 2022: Uma investigação descreveu alguns membros dos Talibãs a organizarem a educação das filhas, apesar das restrições impostas a outras raparigas.
  • 7 de março de 2025: A UNESCO organizou a Conferência Internacional sobre as Mulheres e as Raparigas Afegãs.
  • 21 de março de 2025: A UNICEF afirmou que a proibição do ensino secundário tinha privado 2,2 milhões de raparigas de escolaridade.
  • 26 de março de 2025: A UNESCO publicou a sua análise do direito à educação no Afeganistão. A página da publicação foi atualizada a 16 de janeiro de 2026.

O sexto ano tornou-se um ponto final para as raparigas que deveriam prosseguir para o ensino secundário. A cada novo ano letivo, outro grupo chega a esse limite, enquanto as que já foram excluídas passam mais tempo afastadas do ensino formal.

O que dizem os números oficiais

O comunicado da UNICEF de março de 2025 estimou em 2,2 milhões o número de raparigas privadas do ensino secundário. A análise da UNESCO sobre o direito à educação afirmou que, em 2025, 1,5 milhões de raparigas e mulheres jovens continuavam fora da escola, enquanto um número mais abrangente das Nações Unidas, citado em notícias sobre a escola clandestina, ultrapassava os 2,5 milhões de raparigas. As publicações usam descrições diferentes das populações contabilizadas e não explicam a razão da discrepância.

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A UNESCO analisou as alterações às leis, regras e instituições que regem a educação desde agosto de 2021. A análise baseou-se na pesquisa documental e em entrevistas, examinando os obstáculos à frequência escolar, a qualidade da aprendizagem e os efeitos mais amplos na sociedade.

A análise foi publicada após a conferência de 7 de março, na qual a UNESCO apelou a respostas lideradas por mulheres afegãs e orientadas pelo princípio de não causar danos. Essa abordagem é importante para a educação organizada clandestinamente: as decisões sobre o acesso e a visibilidade afetam diretamente as mulheres e raparigas envolvidas.

A UNICEF apresentou também uma projeção. Se a proibição se mantiver até 2030, mais de quatro milhões de raparigas terão sido privadas de educação para além do ensino primário, afirmou. Esse número será superior em mais de 1,8 milhões ao total de 2,2 milhões registado em março de 2025.

Os custos fazem-se sentir nos hospitais e nas famílias

Catherine Russell, diretora executiva da UNICEF, alertou para o impacto da exclusão das raparigas da escola no sistema de saúde e na economia do Afeganistão, além de nas próprias alunas. Associou também a exclusão da educação a um maior risco de casamento infantil e a danos para a saúde e o bem-estar das raparigas.

Russell explicou que a redução do número de raparigas a concluir os estudos diminuiria a oferta futura de médicas e parteiras. No seu comunicado de 21 de março, afirmou:

Com menos médicas e parteiras, as raparigas e as mulheres não receberão os cuidados médicos e o apoio de que precisam. Estimamos mais 1.600 mortes maternas e mais de 3.500 mortes de bebés. Não são apenas números: representam vidas perdidas e famílias destroçadas.

A formação de uma médica ou parteira exige anos de escolaridade, seguidos de estudos especializados. Quando as raparigas perdem acesso ao ensino secundário, diminui o número de mulheres que podem ingressar nessa formação. Com o tempo, as famílias poderão dispor de menos profissionais qualificados para prestar cuidados durante a gravidez, o parto e os primeiros meses de vida.

Os números da UNICEF são estimativas de mortes adicionais associadas à escassez prevista. O alerta de Russell liga uma decisão tomada hoje sobre a educação aos profissionais e serviços de que as famílias precisarão nos próximos anos.

A aprendizagem continua por outras vias

A UNICEF afirmou ter proporcionado acesso à educação a 445 mil crianças através de programas de aprendizagem comunitária, dos quais 64 por cento eram raparigas. Isso corresponde a cerca de 284.800 raparigas. A organização referiu também o apoio a professoras, para que as raparigas pudessem ter mulheres como modelos.

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Os programas de aprendizagem comunitária aproximam a educação dos locais onde as crianças vivem, em vez de dependerem exclusivamente das escolas convencionais. O programa da UNICEF abrange rapazes e raparigas. A sala de aula clandestina de Cabul descrita por Fioretti funcionava de outra forma: os organizadores preparavam-se para esconder as aulas caso aparecessem funcionários.

A rádio também tem transmitido programas educativos para raparigas excluídas do ensino secundário. Após a suspensão das emissões BBC FM em todo o Afeganistão, em outubro de 2026, os ouvintes perderam uma das vias locais de transmissão de um serviço cuja programação afegã incluía esses programas. As emissões prosseguiram noutras bandas de rádio, em plataformas online e por satélite.

Para uma rapariga sem acesso ao ensino secundário, estas vias podem permitir-lhe continuar a aprender. O acesso depende, ainda assim, da sala de aula, do programa ou da emissão que consegue alcançar, enquanto a restrição nacional continua a determinar a entrada no ensino formal.

Negociar oportunidades de rendimento para as mulheres

Fioretti descreveu também uma iniciativa à parte para criar oportunidades económicas para as mulheres afegãs. Através de conversações com funcionários dos Talibãs, afirmou ter conseguido a aprovação de um programa de reconhecimento de mulheres empresárias.

Segundo o seu relato, os funcionários começaram por questionar se ela compreendia em que país estava. Fioretti respondeu que a atividade económica das mulheres poderia gerar rendimentos para o Afeganistão. As autoridades acabaram por aprovar o programa, e as mulheres distinguidas participaram numa cerimónia com um ministro dos Talibãs.

As negociações mostram os argumentos práticos com que Fioretti procurou obter autorização: as mulheres que geriam empresas podiam contribuir para a economia do país. Para as participantes, a aprovação permitiu-lhes receber reconhecimento público na presença de um alto funcionário.

A escola e o programa de empreendedorismo funcionavam através de relações diferentes com as autoridades. As aulas dependiam do segredo; o programa de prémios avançou após negociações e aprovação. As mulheres que procuravam estudar ou ganhar a vida enfrentavam condições diferentes, mesmo no âmbito das atividades da mesma organização de ajuda humanitária.

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A autorização dependia de encontros pessoais

Fioretti disse que as autoridades dos Talibãs a trataram com respeito por ser italiana e que pôde expressar as suas opiniões no Afeganistão. Recordou que um alto funcionário lhe perguntou o que pensava do Governo dos Talibãs.

Disse-lhe que, se tivesse crescido sob um governo como o dele, não poderia fazer o trabalho que atualmente desenvolvia na organização. Segundo Fioretti, ele acusou-a de ter uma mentalidade colonialista e, depois, convidou-a para uma refeição. Afirmou que nunca mais o voltou a ver.

O seu relato descreve espaço para conversas pessoais e exceções negociadas, a par de restrições que continuam a marcar o quotidiano das mulheres afegãs. Na escola de Cabul, alguns pais com ligações aos Talibãs procuravam aulas para as filhas. Em todo o país, milhões de raparigas continuavam sem poder prosseguir a educação formal.

A UNICEF apelou às autoridades para que levantem imediatamente a proibição. A análise da UNESCO coloca a liderança das mulheres afegãs no centro das respostas. Para as alunas, a questão imediata é simples: saber se podem regressar abertamente a uma sala de aula, continuar a estudar e preparar-se para trabalhar sem terem de esconder os livros.

Pontos-chave

  • A trabalhadora humanitária italiana Susanna Fioretti afirmou que filhas de membros dos Talibãs frequentaram uma escola clandestina para raparigas em Cabul.
  • As aulas decorriam entre máquinas de costura e havia planos para esconder os materiais de estudo caso aparecessem inspetores.
  • Fioretti disse que nenhum funcionário dos Talibãs inspecionou o espaço durante os primeiros dois anos.
  • Em março de 2025, a UNICEF contabilizou 2,2 milhões de raparigas privadas do ensino secundário e projetou que o número ultrapassaria os quatro milhões em 2030, caso a proibição se mantivesse.
  • A UNICEF alertou que a redução do número de profissionais de saúde do sexo feminino poderia contribuir para uma estimativa de mais 1.600 mortes maternas e mais de 3.500 mortes de bebés.
  • Fioretti afirmou também ter conseguido a aprovação dos Talibãs para um programa de reconhecimento de mulheres empresárias afegãs.
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