Uma casa no mar faz escala em Sihanoukville
A Villa Vie Residences suspendeu o seu cruzeiro mundial contínuo em Sihanoukville, no Camboja, depois de as despesas mensais com combustível terem aumentado de cerca de 1.800 dólares por cabine para um valor estimado entre 6.000 e 8.000 dólares em algumas zonas da Ásia. Os residentes receberam ordem para abandonar o Villa Vie Odyssey até às 14h00, transformando uma viagem promovida como um modo de vida permanente numa busca urgente por alojamento em terra.
Índice
- Uma casa no mar faz escala em Sihanoukville
- Os residentes tiveram poucas horas para sair
- As despesas com combustível ultrapassaram o orçamento operacional
- Os pedidos de dinheiro antecederam a suspensão
- Quanto pagavam os residentes para viver a bordo
- Quantas pessoas foram afetadas?
- Dos atrasos em Belfast à imobilização no Camboja
- Um itinerário mundial e um segundo navio
- O que implicam os próximos 60 dias
- Principais pontos
A empresa anunciou a suspensão a 27 de outubro de 2026 e disse que passaria os 60 dias seguintes a procurar uma reestruturação e novo financiamento. Os tripulantes permaneceriam a bordo para manter o navio e os seus sistemas essenciais enquanto este entrava em imobilização temporária, um período em que as operações normais são interrompidas, mas a manutenção prossegue.
Muitos residentes venderam as casas ou rescindiram contratos de arrendamento para embarcar no cruzeiro, que começou em 2024. Alguns compraram direitos permanentes sobre cabines, enquanto outros pagaram por anos de residência ou estadias mais curtas. As necessidades imediatas incluem agora quartos de hotel, transporte e acesso aos pertences deixados a bordo.
A Villa Vie disse que estava a coordenar o desembarque e a procurar soluções temporárias de alojamento. A empresa não anunciou quanto pagaria em alojamento ou assistência em viagens, se seriam concedidos reembolsos ou quando o cruzeiro seria retomado. Não foi concluído qualquer acordo de financiamento ou transação.
Mesmo no limite inferior da estimativa da empresa, o choque financeiro é considerável. Um aumento de 1.800 para 6.000 dólares representa mais 4.200 dólares por cabine todos os meses. Com um valor de 8.000 dólares, o aumento chega aos 6.200 dólares, cerca de 344% acima do valor histórico.
Os residentes tiveram poucas horas para sair
A directora-executiva Kathy Villalba comunicou a suspensão através do sistema interno de mensagens do navio. O residente Randy Cassingham publicou o aviso, que dizia que a empresa não conseguia obter o combustível necessário para continuar a operar.
Descrições publicadas sobre a divulgação do aviso datam-no de 26 e 27 de outubro. As que apontam para 27 de outubro dizem que foi enviado por volta das 7h00, hora do navio, deixando aos residentes cerca de sete horas até ao prazo das 14h00.
O aviso de Villalba explicava por que razão os residentes tinham de sair e o que aconteceria a bordo:
Infelizmente, não conseguimos garantir o combustível necessário para continuar as operações. Por conseguinte, o Odyssey entrará esta tarde numa imobilização temporária, permanecendo a tripulação a bordo para manter o navio e os seus sistemas essenciais. Todos os residentes têm de desembarcar até às 14h00 de hoje.
Os residentes que não conseguissem retirar todos os seus pertences antes de sair foram aconselhados a coordenar-se com os Serviços aos Passageiros. Estava previsto que os vaivéns continuassem disponíveis até às 18h00 do dia seguinte, para que pudessem voltar a buscar o que restasse a bordo.
Sihanoukville, na costa sul do Camboja, era uma escala num itinerário mundial. Para os residentes que abandonavam o navio, tornou-se o ponto de partida para encontrar um lugar onde dormir e decidir se ficariam por perto ou organizariam uma viagem para outro destino.
As despesas com combustível ultrapassaram o orçamento operacional
A Villa Vie descreveu os valores do combustível como despesas calculadas numa base equivalente por cabine. Em termos simples, a empresa dividiu os custos com combustível por cabine para mostrar quanto tinha aumentado o custo de operação do navio.
O novo intervalo, de 6.000 a 8.000 dólares, corresponde a cerca de 3,3 a 4,4 vezes o valor histórico de 1.800 dólares por mês. Estes valores dizem respeito apenas ao combustível, a que se juntam as restantes despesas de operação de um navio residencial, incluindo pessoal, alimentação, manutenção e escalas portuárias.
O presidente executivo Mikael Petterson atribuiu a subida à guerra com o Irão. A empresa disse que o conflito começou no final de fevereiro e perturbou os mercados energéticos e o transporte marítimo. O encerramento do estreito de Ormuz, uma passagem estreita utilizada para o transporte de grandes volumes de petróleo, reduziu o abastecimento dos mercados internacionais e fez subir os preços da energia.
A Villa Vie Residences disse que já tinha alterado o itinerário para reduzir o consumo:
Desde o início do conflito, no final de fevereiro, tomámos medidas significativas para reduzir o consumo de combustível, incluindo abrandar o itinerário e passar mais tempo nos portos.
Estadias mais longas nos portos e menos tempo de navegação reduziram as necessidades de combustível para a propulsão do navio. No entanto, a empresa disse que as poupanças eram insuficientes e que já não conseguia suportar as perdas operacionais daí resultantes nem transferir o aumento total para os residentes.
Os pedidos de dinheiro antecederam a suspensão
A Villa Vie tinha pedido dinheiro adicional aos residentes antes de suspender as operações. Entre os pedidos de financiamento estavam 360.000 dólares para combustível e uma proposta de empréstimo de emergência apresentada em abril, no valor de 3 milhões de dólares, com taxas de juro entre 12% e 24%. O montante obtido através destas iniciativas não foi divulgado.
Um empréstimo concedido pelos residentes teria disponibilizado dinheiro imediato à empresa, em troca da promessa de reembolso nos termos propostos. Aos residentes que ponderavam esse acordo era, portanto, pedido que financiassem a empresa, além de pagarem o alojamento e as viagens.
A empresa também tinha introduzido sobretaxas de combustível e solicitado outras contribuições financeiras. Estas medidas mostram que a pressão já vinha a aumentar antes da ordem para abandonar o navio.
Cassingham, residente a bordo do Odyssey, descreveu dificuldades mais amplas relacionadas com o modelo de negócio, as decisões da administração e o custo e a disponibilidade de combustível. Disse que os residentes estavam a par dos problemas e descreveu as suas expectativas após a suspensão:
ter pouca esperança, pelo menos a curto prazo.
Cassingham disse ainda que o navio tinha chegado com a reserva de combustível obrigatória, mas sem combustível suficiente para navegar em segurança até outro destino. A sua descrição situou o problema imediato no momento da partida: o navio precisava de combustível adicional antes de poder prosseguir viagem.
Quanto pagavam os residentes para viver a bordo
A Villa Vie comercializava várias formas de fazer do Odyssey uma casa. As cabines permanentes eram anunciadas por preços entre 119.999 e 439.999 dólares, enquanto as residências por cinco anos começavam nos 59.999 dólares. A opção Endless Horizons oferecia cruzeiros para toda a vida mediante um pagamento único de 349.999 dólares.
A compra de cabines também implicava encargos recorrentes. A oferta inicial de propriedade incluía mensalidades até 5.000 dólares, enquanto os diferentes pacotes individuais e as suites maiores tinham preços distintos. Os residentes enfrentavam, assim, um investimento inicial avultado e custos contínuos.
O acordo de Meredith Shay ilustra a dimensão de alguns destes compromissos. Pagou 159.000 dólares por uma suite durante cinco anos, com mensalidades de 7.999 dólares. Ao longo de 60 meses, essas mensalidades totalizam 479.940 dólares, elevando o custo combinado para cerca de 639.000 dólares.
Shay tinha planeado anteriormente juntar-se ao Life at Sea, outro projeto de cruzeiros residenciais que foi cancelado antes de zarpar por não dispor de um navio operacional. Mais tarde, escolheu o Odyssey, apesar do atribulado lançamento.
Outros residentes faziam planos para muito mais do que umas férias convencionais. Melody e John Hennessee, de Palm Beach, na Florida, esperavam passar o resto da vida a bordo. Para quem tinha abandonado a sua casa em terra, a suspensão interrompeu tanto o alojamento como a viagem.
Quantas pessoas foram afetadas?
A Villa Vie não divulgou o número oficial de residentes afetados. As estimativas do número de passageiros variavam entre pouco mais de 300 pessoas a viver a bordo no momento da suspensão e referências a um máximo de 650 residentes.
O navio tem 509 cabines. A capacidade declarada para passageiros é de 970 pessoas, enquanto as descrições da operação residencial apontam para uma capacidade superior a 600 residentes. O número de pessoas que viviam efetivamente a bordo quando as operações pararam é o necessário para medir a procura imediata de assistência.
Os residentes estavam a organizar estadias em hotéis e viagens para outros destinos, incluindo percursos através de Phnom Penh e de centros regionais como Banguecoque e Ho Chi Minh. Quem regressasse a um país onde já não tinha casa enfrentava também decisões sobre alojamento de longa duração e transporte ou armazenamento dos seus pertences.
Os clientes que tinham reservado segmentos mais curtos foram afetados, tal como os residentes permanentes. Uma partida de Singapura prevista para 10 de novembro era uma das próximas viagens cuja realização se tornou incerta.
Dos atrasos em Belfast à imobilização no Camboja
As dificuldades do Odyssey começaram antes da viagem à volta do mundo. O navio foi construído em 1993 e navegou anteriormente como Crown Dynasty da Cunard e, mais tarde, como Braemar da Fred. Olsen Cruise Lines. A Villa Vie adaptou-o para uso residencial; entre as comodidades contam-se um convés com piscina, um spa e um campo de pickleball.
O lançamento estava previsto para maio de 2024, mas problemas no eixo do leme, outras reparações e atrasos na certificação mantiveram o navio em Belfast durante mais de quatro meses. A partida de Belfast foi registada em setembro de 2024, enquanto o início da viagem contínua à volta do mundo foi datado de outubro desse ano.
As principais etapas do projeto mostram como a crise atual se seguiu a um início atribulado:
- Maio de 2024: A partida prevista da Irlanda do Norte foi adiada para permitir reparações.
- Setembro e outubro de 2024: O Odyssey deixou Belfast e iniciou a viagem contínua à volta do mundo, após meses de atrasos.
- Verão de 2025: O navio obteve 81 pontos numa inspeção sanitária dos Estados Unidos, seguida de um relatório de medidas corretivas com 11 páginas, enviado aos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças.
- Abril de 2026: Foi oferecida aos residentes a possibilidade de recorrer a um empréstimo de emergência de 3 milhões de dólares.
- Outubro de 2026: As operações foram interrompidas no Camboja e os residentes receberam ordem para desembarcar.
- 10 de novembro de 2026: A partida prevista de Singapura ficou em dúvida após a suspensão.
O longo atraso em Belfast também passou a fazer parte da vida pessoal dos residentes. Angela Harsanyi e Gian Perroni conheceram-se a bordo e casaram junto ao rio Lagan antes de o navio iniciar a viagem pelo mundo.
Um itinerário mundial e um segundo navio
A Villa Vie anunciava um itinerário que abrangia 147 países e mais de 425 portos, com uma viagem completa à volta do mundo a cada três anos e meio. A promessa central era a continuidade: os residentes podiam permanecer a bordo enquanto a sua casa se deslocava entre destinos.
Apenas três meses antes da suspensão, a empresa anunciou planos para um segundo navio residencial, o Legacy, que deveria entrar ao serviço no início de 2029. Foi descrito como aproximadamente 50% maior do que o Odyssey, com aposentos e espaços comuns mais amplos.
A expansão incluía planos para alargar ao Legacy os direitos de residência vitalícia e permitir que alguns compradores vivessem a bordo do Odyssey antes de se mudarem para o novo navio. Na altura, a Villa Vie disse que mais de 85% das residências disponíveis no Odyssey tinham sido vendidas.
Esse valor de vendas mostra a dimensão dos compromissos já assumidos com o projeto. O atual problema de financiamento diz respeito ao dinheiro necessário para continuar a operar um navio no qual os residentes já tinham pago quantias substanciais para embarcar.
O que implicam os próximos 60 dias
A Villa Vie disse que estava a trabalhar numa reestruturação e recapitalização. Reestruturação significa alterar os acordos financeiros ou operacionais, podendo incluir dívidas e despesas. Recapitalização significa alterar ou aumentar o capital investido na empresa para que esta possa satisfazer as suas necessidades.
A empresa anunciou um período de 60 dias para trabalhar nestas opções. No comunicado, apresentou esse período como uma tentativa de obter financiamento, sendo necessário apoiar residentes e tripulantes enquanto prosseguissem as negociações.
A Villa Vie Residences descreveu as suas prioridades e a incerteza em torno do processo:
A nossa prioridade agora é apoiar os residentes, a tripulação e os trabalhadores enquanto procuramos avançar com uma reestruturação e recapitalização nos próximos 60 dias. Esse trabalho está em curso e não há qualquer resultado garantido.
Para os residentes, as decisões imediatas são mais concretas do que os termos financeiros: onde viver, como recuperar os seus pertences e se devem permanecer suficientemente perto para regressar caso o navio retome o serviço. Para a empresa, o desafio é encontrar dinheiro suficiente e um orçamento operacional viável para honrar os compromissos que assumiu.
Principais pontos
- O Villa Vie Odyssey suspendeu as operações em Sihanoukville, no Camboja, e ordenou aos residentes que saíssem até às 14h00.
- A empresa disse que as despesas mensais com combustível aumentaram de cerca de 1.800 dólares por cabine para 6.000 a 8.000 dólares em algumas zonas da Ásia.
- Os tripulantes deveriam permanecer a bordo para manter o navio durante a imobilização temporária.
- Os residentes tinham comprado direitos permanentes sobre cabines, residências por vários anos, pacotes de cruzeiros vitalícios ou estadias mais curtas.
- A Villa Vie está a procurar uma reestruturação e novo financiamento ao longo de 60 dias, sem que tenha sido concluído qualquer acordo de financiamento.
- Não foram anunciados acordos de reembolso, uma data para retomar as operações nem o estado das próximas viagens.






