Um mês de gás de cozinha em reserva
A Nepal Oil Corporation está a avançar com os planos para um gasoduto de cerca de 131 quilómetros entre Motihari, na Índia, e Sarlahi, no Nepal, acompanhado por um terminal de armazenamento com capacidade para 50 000 toneladas de gás de petróleo liquefeito. A reserva proposta cobriria cerca de um mês da procura nacional, dando às famílias uma margem de segurança quando estradas danificadas, atrasos no trânsito ou conflitos no transporte interromperem as entregas de gás de cozinha.
Índice
- Um mês de gás de cozinha em reserva
- Como os atrasos rodoviários chegam às cozinhas das famílias
- Que proteção dariam 50 000 toneladas?
- Por onde passaria o gasoduto
- Terrenos garantidos, engenharia ainda em definição
- Três instalações com funções distintas
- Quem pagaria o projeto?
- Os custos de transporte poderão passar para o Nepal
- O que as famílias podem esperar a seguir
- Principais pontos
A empresa, conhecida como NOC, propôs três instalações principais em Sarlahi: armazenamento de gás a granel, uma unidade capaz de encher 25 000 botijas por dia e equipamento para carregar pelo menos 100 camiões-cisterna de gás por dia. Em conjunto, estas instalações mudariam a forma como o gás importado chega ao Nepal e como os abastecimentos são depois distribuídos pelas 58 unidades privadas de engarrafamento e recarga do país.
Binit Mani Upadhyaya, diretor do Departamento de GPL e Aviação da NOC, afirma que o projeto recebeu aprovação de princípio na quinta reunião do Grupo de Trabalho Conjunto entre o Nepal e a Índia, em Nova Deli. A NOC e a Indian Oil Corporation, ou IOC, constituíram posteriormente uma comissão empresarial conjunta para dar seguimento ao trabalho técnico.
As estimativas preliminares apontam para um investimento total entre 25 mil milhões e 30 mil milhões de rupias nepalesas (NPR), embora responsáveis da NOC também tenham referido uma estimativa inferior, de cerca de 15 mil milhões de NPR, para o gasoduto e o terminal. Prevê-se que o relatório detalhado do projeto defina o traçado e um custo mais rigoroso antes de os dois governos acordarem o modelo de financiamento.
Para os consumidores, a principal mudança seria a criação de uma reserva pública capaz de disponibilizar gás durante interrupções. Atualmente, o Nepal depende em grande medida do transporte rodoviário de gás a partir de refinarias indianas, com uma presença governamental reduzida no armazenamento de GPL a granel.
Como os atrasos rodoviários chegam às cozinhas das famílias
O Nepal importa gás de cozinha da Índia em camiões-cisterna especializados para transporte a granel, vulgarmente chamados «bullets». Estes transportam GPL até às unidades de engarrafamento, onde o combustível é transferido para as botijas utilizadas em casas e empresas. O GPL é armazenado em estado líquido sob pressão, o que permite guardar uma grande quantidade de combustível num depósito.
As entregas a partir das refinarias indianas podem demorar entre três ou quatro dias e uma semana, consoante o ponto de partida. O congestionamento, os procedimentos alfandegários, os acidentes e os encerramentos de estradas podem causar atrasos adicionais. O ciclo completo de um camião-cisterna, incluindo a recolha e a viagem de regresso, pode demorar até 17 dias.
Upadhyaya apontou os danos causados a projetos hidroelétricos e autoestradas durante a catástrofe de 26 de agosto em Bhotekoshi como exemplo da importância de dispor de armazenamento de combustível fiável. Quando as estradas e as infraestruturas elétricas são afetadas em simultâneo, as famílias têm menos alternativas práticas para cozinhar.
A reserva proposta pela NOC separaria o momento das importações do consumo diário imediato. O gás já armazenado em Sarlahi poderia continuar a abastecer o sistema de distribuição enquanto se resolvesse uma interrupção no fornecimento. A entrega de Sarlahi às unidades de engarrafamento continuaria, contudo, dependente das estradas do Nepal.
Que proteção dariam 50 000 toneladas?
Segundo os dados de abastecimento citados no planeamento do projeto, o Nepal importa cerca de 1 500 toneladas de GPL por dia. A esse ritmo, uma reserva completa de 50 000 toneladas corresponde a cerca de 33 dias de consumo, o que sustenta a descrição da NOC de uma instalação capaz de garantir abastecimento durante aproximadamente um mês.
As empresas privadas dispõem atualmente de uma capacidade de armazenamento conjunta de cerca de 10 000 toneladas. O terminal público proposto teria, portanto, cinco vezes essa capacidade. Ao mesmo ritmo de consumo diário, 10 000 toneladas representam menos de sete dias de procura, embora os níveis efetivos de reserva dependam da quantidade de gás armazenada nas instalações em cada momento.
A NOC decidiu avançar primeiro com uma reserva que cubra cerca de 30 dias, antes de procurar atingir o objetivo de 90 dias a mais longo prazo. A empresa adquiriu os terrenos em Sarlahi ao abrigo de uma política governamental anterior, destinada a manter reservas de combustível para 90 dias.
Circulam no Nepal mais de 15 milhões de botijas domésticas, cada uma concebida para conter 14,2 quilogramas de GPL. A reserva abasteceria o sistema que enche essas botijas, sem exigir que as famílias mudassem os seus equipamentos de cozinha.
Por onde passaria o gasoduto
O traçado preliminar tem 130,953 quilómetros: 32,654 quilómetros no estado indiano de Bihar e 98,299 quilómetros na província nepalesa de Madhesh. Ligaria Motihari ao futuro depósito de Netraganj, em Sarlahi, passando pela zona alfandegária de Birgunj e por Pathlaiya.
A NOC afirma que o traçado seguirá o corredor do gasoduto de produtos petrolíferos já existente entre Motihari e Amlekhgunj até Pathlaiya, no distrito de Bara, prolongando-se depois para leste, em direção a Sarlahi. O troço entre Pathlaiya e Sarlahi teria aproximadamente 60 a 62 quilómetros. Upadhyaya afirma que, nesse troço, o traçado proposto acompanha o lado esquerdo da estrada.
Cerca de 45 quilómetros do percurso planeado atravessariam zonas florestais. Para atravessar rios e outros cursos de água, a proposta prevê a perfuração horizontal dirigida. Esta técnica abre uma passagem por baixo de um obstáculo, permitindo instalar a conduta no subsolo em vez de a colocar sobre o leito do rio.
Os pressupostos operacionais preliminares incluem uma vida útil de 25 anos e 8 000 horas de funcionamento anuais, o equivalente a cerca de 22 horas por dia. Prevê-se que a construção demore 36 meses após o início das obras. Não foi anunciada qualquer data para o início da construção nem um acordo definitivo de financiamento.
Terrenos garantidos, engenharia ainda em definição
A NOC adquiriu 15 bighas e 6 katthas de terreno nas zonas de Nawalpur e Netraganj, em Sarlahi, durante o ano fiscal de 2016/17, por 300,5 milhões de NPR. O local fica a cerca de três quilómetros da estrada nacional e junto a terrenos florestais.
A IOC analisou se seria adequado um gasoduto de oito ou de 10 polegadas. A escolha do diâmetro é um dos elementos que determinarão a quantidade de gás que a conduta pode transportar e a forma como o gasoduto, as bombas e o terminal deverão funcionar em conjunto.
A NOC entregou à IOC um relatório de análise do solo solicitado pela empresa indiana. Preparou também um levantamento atualizado dos terrenos, com coordenadas geográficas, para enviar à IOC. Os dados sobre o solo e as medições rigorosas do local ajudam os engenheiros a decidir onde podem ser construídas as estruturas e como devem ser projetadas as respetivas fundações.
Os trabalhos preparatórios avançaram por várias etapas:
- Ano fiscal de 2016/17: a NOC comprou os terrenos em Sarlahi ao abrigo da política governamental de reservas de combustível.
- Aprovação do Grupo de Trabalho Conjunto: o Nepal e a Índia acordaram, em princípio, avançar com o projeto de GPL.
- Preparação técnica: a IOC analisou os diâmetros do gasoduto, enquanto a NOC apresentou as necessidades de capacidade e os dados sobre o solo.
- Próximas etapas: a IOC deverá elaborar o projeto detalhado, seguindo-se decisões governamentais sobre o financiamento.
Três instalações com funções distintas
A instalação de armazenamento proposta, com capacidade para 50 000 toneladas, receberia GPL através do gasoduto e guardá-lo-ia antes da distribuição. A unidade de engarrafamento planeada pela NOC encheria 25 000 botijas domésticas por dia. Com 14,2 quilogramas por botija, isso corresponde a 355 toneladas de gás por dia.
Essa capacidade de engarrafamento equivale a cerca de um quarto das importações diárias indicadas, de 1 500 toneladas. Assim, a maior parte do gás que chegasse ao terminal teria ainda de ser transportada a granel para outras unidades de engarrafamento, em vez de sair de Sarlahi apenas em botijas domésticas.
O terceiro componente, a instalação de enchimento de camiões-cisterna, carregaria pelo menos 100 «bullets» por dia. A NOC estima que o abastecimento da rede de engarrafamento existente exige entre 100 e 120 cargas de camião-cisterna por dia. O projeto definitivo terá de traduzir essa necessidade em capacidade de carregamento, horas de funcionamento e espaço para os veículos.
A NOC espera que a automatização reduza o tempo necessário para carregar e expedir camiões-cisterna, incluindo os que abastecem unidades que fornecem o vale de Catmandu. A empresa planeia também comercializar botijas com a sua própria marca quando o gasoduto e o terminal estiverem em funcionamento, alargando o seu papel para além da importação e do armazenamento de gás a granel.
Quem pagaria o projeto?
Prevê-se que o Nepal e a Índia discutam o modelo financeiro depois de o relatório detalhado do projeto apresentar um traçado definido e custos mais precisos. A NOC procura obter uma subvenção do Governo indiano, mas continuam a ser possíveis outros modelos de financiamento.
A estimativa preliminar, entre 25 mil milhões e 30 mil milhões de NPR, abrange o gasoduto, o armazenamento e as infraestruturas associadas descritas na proposta da NOC. Também foi referida a estimativa inferior de cerca de 15 mil milhões de NPR para o gasoduto e o terminal. Ambas são ainda estimativas de planeamento, sendo necessário o relatório detalhado para clarificar o âmbito e o orçamento finais.
Um cálculo adicional citado por responsáveis da empresa atribui cerca de 12 mil milhões de NPR ao próprio gasoduto e prevê poupanças anuais de 6 a 7 mil milhões de NPR em custos de transporte. Com base nesses valores, os responsáveis sugeriram que as poupanças poderiam igualar o custo de construção do gasoduto em cerca de dois anos.
No caso do projeto mais amplo, o cálculo financeiro também terá de incluir a operação do gasoduto, a manutenção do terminal, o financiamento da construção e o transporte do gás no interior do Nepal. Esses custos determinarão que parte das despesas de transporte evitadas se traduzirá numa poupança duradoura.
Os custos de transporte poderão passar para o Nepal
A NOC estima que gasta atualmente cerca de 6 mil milhões de NPR por ano no transporte de GPL. Um gasoduto substituiria grande parte da longa viagem por estrada entre os pontos de abastecimento na Índia e o Nepal por entregas diretas a Sarlahi.
Cerca de 600 a 700 camiões-cisterna matriculados na Índia servem o comércio de GPL do Nepal. O porta-voz da NOC, Manoj Thakur, afirma que os camiões-cisterna matriculados no Nepal assegurariam a distribuição do terminal de Sarlahi para as unidades de engarrafamento em todo o país.
Esta mudança poderia redirecionar parte dos pagamentos de transporte para proprietários de veículos, motoristas, empresas de manutenção e instituições de crédito nepaleses. A NOC prevê a criação de emprego direto e indireto, mas não indicou o número de postos de trabalho.
A distribuição interna continuaria a ser uma tarefa de grande dimensão. Os camiões-cisterna teriam ainda de recolher o gás em Sarlahi e chegar a unidades espalhadas pelo Nepal. A proposta altera o ponto de partida dessas viagens e as empresas que as podem realizar, mantendo a rede de unidades de engarrafamento do país.
O que as famílias podem esperar a seguir
Deepak Kumar Sah, ministro da Indústria, Comércio e Abastecimento, instruiu a NOC a tratar o projeto como uma prioridade urgente e a acompanhar os progressos. O trabalho imediato continua a ser técnico: concluir a troca de informações sobre o local, desenvolver o projeto e estabelecer um custo fiável.
Esperava-se que a IOC apresentasse uma avaliação técnica no prazo de duas semanas após receber documentação recente. Como a data de envio dessa documentação não foi indicada, a próxima etapa prática é a entrega do relatório técnico, seguida de conversações entre os governos sobre o financiamento.
Os consumidores beneficiariam diretamente da disponibilidade de gás armazenado quando as importações fossem interrompidas. A reserva poderia dar tempo às autoridades e aos distribuidores para reagir antes de um atraso no transporte se transformar numa escassez generalizada.
A proposta também atribui uma nova responsabilidade à NOC: manter a reserva abastecida e coordenar a sua distribuição através das unidades de engarrafamento e dos camiões-cisterna. O benefício para as famílias dependerá do funcionamento de toda a cadeia, desde a entrada do gasoduto em Sarlahi até à chegada da botija a um revendedor local.
Principais pontos
- A NOC propõe um gasoduto de GPL com cerca de 131 quilómetros, entre Motihari e Sarlahi, e uma capacidade de armazenamento de 50 000 toneladas.
- Ao ritmo de importação indicado, de 1 500 toneladas por dia, a reserva cobriria cerca de um mês de procura.
- A proposta para o terminal inclui o enchimento de 25 000 botijas e o carregamento de pelo menos 100 camiões-cisterna por dia.
- As estimativas preliminares de custos variam entre cerca de 15 mil milhões e 30 mil milhões de NPR, estando sujeitas à conclusão do projeto e do orçamento detalhados.
- A NOC procura obter uma subvenção indiana; o financiamento ainda terá de ser acordado pelos dois governos.
- Prevê-se que a construção demore 36 meses após o início das obras, cuja data ainda não foi anunciada.
- Espera-se que camiões-cisterna matriculados no Nepal distribuam o gás de Sarlahi pelas unidades de engarrafamento em todo o país.






