Polícia norte-coreana terá confiscado casacos de pele para impedir que os cidadãos imitassem Kim Jong Un

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North Korean Police Reportedly Seized Leather Coats to Stop Citizens Copying Kim Jong Un

Um casaco associado ao poder tornou-se alvo da polícia

Em novembro de 2021, a polícia norte-coreana confiscou gabardinas de pele a clientes e vendedores de mercado, numa operação que, segundo residentes, visava impedir que pessoas comuns imitassem o líder Kim Jong Un. Em Pyongsong, uma cidade a norte de Pyongyang, na província de Pyongan do Sul, um residente disse que os agentes consideravam a imitação do vestuário do líder um desafio à sua autoridade.

Índice
  1. Um casaco associado ao poder tornou-se alvo da polícia
  2. A importância do desfile de janeiro
  3. O que os residentes disseram sobre a aplicação da medida
  4. Como a moda passou das importações às cópias locais
  5. Quanto custava um casaco?
  6. As empresas comerciais por detrás do material
  7. Os compradores contestaram a perda dos seus bens
  8. Pontos principais

Os casacos eram uma compra dispendiosa. Uma versão em pele genuína custava, alegadamente, cerca de 170 000 won norte-coreanos, enquanto uma versão sintética custava cerca de 80 000 won. Face a um salário mensal médio de 4 000 won em 2018, segundo os valores divulgados, esses preços correspondiam, respetivamente, a cerca de 42,5 e 20 meses de salário base. Quem tinha poupado ou feito negócios para comprar um enfrentava o risco de o perder ao usá-lo na rua.

Kim ajudou a popularizar o estilo de gabardina numa aparição televisiva em 2019. Inicialmente, os compradores abastados adquiriram casacos de pele genuína importados da China. Depois, fabricantes de vestuário nacionais produziram cópias mais baratas em pele sintética, levando um visual associado à liderança para os mercados frequentados pela população em geral.

O relato detalhado da aplicação da proibição foi feito por dois residentes que falaram sob anonimato, incluindo o residente de Pyongsong entrevistado a 21 de novembro de 2021. Descreveram apreensões que afetaram vendedores, fabricantes e pessoas que usavam os casacos. Os seus relatos não foram acompanhados por qualquer texto legal divulgado publicamente, dados nacionais sobre a aplicação da medida ou uma data para o seu fim, pelo que o alcance e a duração exatos da restrição permanecem pouco claros.

A importância do desfile de janeiro

Um desfile militar associado ao oitavo congresso do Partido dos Trabalhadores, em janeiro de 2021, deu ao estilo outra forte montra. Kim surgiu com um casaco de pele ao lado de altos responsáveis, segundo o residente de Pyongsong. A mensagem transmitida aos telespectadores era a de que aquele era um vestuário usado no topo da hierarquia política.

A irmã de Kim, Kim Yo Jong, e outras mulheres influentes também usavam casacos de pele, disse o residente. As suas aparições ajudaram a despertar o interesse das mulheres e alargaram um mercado que já atraía homens jovens.

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O residente de Pyongsong, que pediu para não ser identificado por razões de segurança, descreveu como essas aparições alteraram o apelo do casaco:

«Assim, o casaco de pele tornou-se também um símbolo das mulheres poderosas»,

Os comerciantes de vestuário responderam à procura. O residente disse que, a partir de setembro de 2021, vendedores privados começaram a pedir a responsáveis de empresas comerciais que importassem pele sintética, para que os fabricantes locais pudessem copiar os casacos usados por Kim e outros responsáveis.

A cadeia comercial era simples: a televisão tornou o modelo desejável, os comerciantes obtiveram o material, os fabricantes reproduziram-no e os vendedores levaram os casacos acabados para o mercado. A resposta policial terá interrompido essa cadeia em vários pontos.

O que os residentes disseram sobre a aplicação da medida

A polícia de Pyongsong terá começado a confiscar casacos tanto aos vendedores como a quem os usava em público. Um segundo residente, da província de Pyongan do Norte, no noroeste do país, descreveu as autoridades a perseguirem empresas que fabricavam casacos muito semelhantes ao vestuário de Kim.

O residente de Pyongsong disse que os agentes justificaram a restrição com uma diretiva do partido que determinava quem podia usar aquelas peças. Segundo esse relato, o problema era a associação do modelo ao líder, e não o facto de ser feito de pele.

O residente contou o que a polícia dizia quando as pessoas contestavam as apreensões:

«A polícia responde às queixas dizendo que usar roupa feita para se parecer com a do “Mais Digno” é uma “tendência impura que desafia a autoridade do Mais Digno”. Instruiu a população a não usar casacos de pele, porque cabe ao partido decidir quem os pode usar»,

«Mais Digno» é um título honorífico usado para Kim. As palavras atribuídas aos agentes transformavam uma compra quotidiana numa questão política: um casaco semelhante ao do líder podia ser entendido como uma reivindicação não autorizada do estatuto associado à sua imagem.

Os residentes descreveram um conflito direto entre essa justificação e a sua ideia de propriedade. Tinham pago por roupa à venda no mercado e esperavam poder usá-la.

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Como a moda passou das importações às cópias locais

Os blusões de pele já tinham uma história na Coreia do Norte antes de a gabardina de Kim se tornar moda. O residente de Pyongan do Norte situou o início da sua popularidade no começo dos anos 2000, quando filmes sul-coreanos começaram a circular nas cidades provinciais e o blusão de pele usado pelo ator Jang Dong-gun chamou a atenção.

Continuaram a vender-se nos mercados casacos importados já confecionados e peças produzidas na Coreia do Norte, disse o residente. Mais tarde, as aparições de Kim desviaram a procura para o estilo de gabardina mais comprida.

Esta história reúne duas formas diferentes de a moda chegar aos compradores. O entretenimento sul-coreano ajudou a popularizar os blusões de pele, enquanto as aparições da própria liderança norte-coreana tornaram desejáveis as gabardinas de pele. Os comerciantes abasteciam os clientes que respondiam a ambas as influências.

As principais etapas descritas pelos residentes foram:

  • Início dos anos 2000: Os blusões de pele ganharam popularidade à medida que os filmes sul-coreanos se difundiam nas cidades provinciais.
  • 2019: A aparição televisiva de Kim com uma gabardina de pele estimulou a procura de peças semelhantes.
  • Janeiro de 2021: Kim e altos responsáveis surgiram com casacos de pele num desfile militar associado ao oitavo congresso do partido.
  • Abril de 2021: Terá sido retomada parte do comércio marítimo clandestino através de empresas comerciais estatais.
  • Setembro de 2021: Os comerciantes procuraram importar pele sintética para reproduzir os modelos de casaco da liderança.
  • Novembro de 2021: Os residentes relataram que a polícia confiscava casacos e visava empresas que faziam cópias muito semelhantes.

A sequência ajuda a explicar por que razão a operação policial foi além dos utilizadores individuais. No final de 2021, as empresas já tinham investido na obtenção de materiais e na produção de um estilo reconhecível para os clientes que o procuravam.

Quanto custava um casaco?

Os casacos de pele genuína eram vendidos, alegadamente, por cerca de 170 000 won, contra 80 000 won pelas versões sintéticas. Um casaco de pele genuína custava, portanto, pouco mais do dobro. A pele sintética é um material fabricado para imitar a pele animal, permitindo aos produtores oferecer um aspeto semelhante por um preço inferior.

Os preços indicados em dólares eram de aproximadamente 34 dólares para a pele genuína e 16 dólares para a pele sintética. Mesmo a opção mais barata representava uma despesa considerável face aos valores salariais divulgados na altura.

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Os relatos apresentavam valores diferentes para o rendimento base: um indicava que o salário mensal médio em 2018 era de 4 000 won, ou cerca de 0,66 dólares, enquanto outro estimava o rendimento base em cerca de 4 dólares e os ganhos anuais, incluindo prémios, em 201 dólares. Os valores descrevem os salários de formas diferentes e recorrem a conversões distintas para dólares. Com base nos preços e no salário indicados em won, um casaco sintético custava 20 meses do salário base referido, enquanto um de pele genuína custava 42,5 meses.

Usando a estimativa separada de rendimentos anuais de 201 dólares, um casaco de 34 dólares correspondia a cerca de 17% do rendimento anual, ou aproximadamente dois meses de ganhos médios distribuídos ao longo do ano. Um casaco de 16 dólares correspondia a cerca de 8%.

Para quem o comprava, a apreensão significava perder um bem dispendioso que já tinha pago. Para um vendedor ou fabricante, significava perder mercadoria ou ficar impedido de vender um modelo produzido para responder a uma procura visível.

As empresas comerciais por detrás do material

Segundo o residente de Pyongan do Norte, os empresários norte-coreanos obtinham tecido para os casacos fazendo encomendas através de empresas comerciais estatais. Essas empresas ligavam a procura privada ao abastecimento de produtos importados.

A Coreia do Norte e a China suspenderam o comércio normal no início da pandemia de COVID-19, em janeiro de 2020. Em abril de 2021, algumas empresas estatais terão retomado o comércio marítimo clandestino, dando às empresas uma forma de obter mercadorias apesar das restrições fronteiriças.

Um documento aduaneiro chinês terá registado importações norte-coreanas de vários tipos de tecido em 2021, incluindo dezenas de metros de pele sintética. Esse pormenor é compatível com o relato dos residentes de que os fabricantes de vestuário procuravam material para a produção local à medida que os casacos se tornavam mais populares.

As empresas comerciais estatais e os negócios privados de vestuário ocupavam lugares diferentes na mesma cadeia de abastecimento. Os empresários procuravam materiais através das empresas, os fabricantes transformavam-nos em casacos e os vendedores dos mercados ofereciam os produtos acabados aos compradores. As apreensões policiais colocavam então em risco a mercadoria resultante.

A operação policial terá, por isso, afetado mais do que um visual na moda. Atingiu uma pequena rede comercial cujos participantes tinham gasto dinheiro a obter tecido, confecionar peças e levá-las ao mercado.

Os compradores contestaram a perda dos seus bens

Segundo o residente de Pyongsong, jovens protestaram quando a polícia lhes tirou os casacos. A sua contestação centrava-se num ponto simples: tinham comprado a roupa com o seu próprio dinheiro.

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O residente descreveu a reação às apreensões:

«Os jovens protestam, dizendo que compraram os casacos com o seu próprio dinheiro e que não há razão para lhos tirarem»,

O residente de Pyongan do Norte também descreveu pessoas a questionarem por que razão escolher um casaco de pele deveria ser considerado politicamente censurável. Essas queixas contrapunham o custo concreto da aplicação da medida à linguagem de lealdade atribuída à polícia.

Em 2021, também foram noticiadas restrições aos cortes de cabelo à tigela e às calças de ganga justas, no âmbito de uma campanha contra a influência cultural estrangeira. A justificação apresentada para as apreensões dos casacos de pele era mais específica: segundo os residentes, os agentes objetavam ao vestuário que imitava a imagem do líder.

Kim e outros altos responsáveis tornaram os casacos atraentes ao usá-los em público. Os comerciantes abasteceram essa procura e os clientes pagaram pelas peças resultantes. A intervenção noticiada reservava depois um símbolo visível de poder a quem estava autorizado a exibi-lo, deixando os compradores comuns e as empresas a suportar os custos.

Pontos principais

  • Os residentes relataram apreensões de casacos de pele em novembro de 2021, com relatos detalhados de Pyongsong e da província de Pyongan do Norte.
  • A polícia terá invocado uma diretiva do partido contra a imitação do vestuário de Kim Jong Un.
  • As aparições de Kim em 2019 e num desfile de janeiro de 2021 ajudaram a popularizar as gabardinas de pele.
  • Kim Yo Jong e outras mulheres influentes ajudaram a alargar o apelo do estilo entre as mulheres.
  • Os casacos de pele genuína custavam, alegadamente, 170 000 won, contra 80 000 won pelas versões sintéticas.
  • A aplicação da medida terá afetado quem usava os casacos, os vendedores e os fabricantes que faziam cópias muito semelhantes das peças do líder.
  • Os relatos não incluíam um texto legal público nem um calendário claro para a restrição.
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