Calor profundo no subsolo abre uma nova possibilidade energética
Singapura identificou recursos geotérmicos com um potencial preliminar superior a 60 vezes o seu consumo anual atual de eletricidade, o que levou à realização de um novo estudo para avaliar se o calor existente a vários quilómetros de profundidade pode fornecer eletricidade, aquecimento industrial e arrefecimento.
Índice
- Calor profundo no subsolo abre uma nova possibilidade energética
- O que significa a comparação com 60 anos
- Como o levantamento cartografou os recursos sem perfurar
- O que os investigadores encontraram em Admiralty e Sembawang
- Como as rochas quentes podem produzir eletricidade
- A segurança e o espaço urbano serão determinantes
- O calor a menor profundidade poderá abastecer fábricas
- Porque é importante dispor de uma fonte local de energia
- O que o próximo estudo terá de esclarecer
- Principais pontos
A Autoridade do Mercado da Energia (EMA) anunciou os resultados a 26 de outubro de 2026, na sequência de um levantamento geofísico a nível nacional realizado entre 2024 e 2026. O levantamento analisou recursos subterrâneos a profundidades até 10 quilómetros, sem perfurar nem escavar o terreno.
Singapura consome atualmente cerca de 60 terawatts-hora de eletricidade por ano. Multiplicar esse valor por 60 resulta em 3 600 terawatts-hora, o que ilustra a dimensão da estimativa preliminar dos recursos. A quantidade de eletricidade que Singapura poderia efetivamente obter dependerá de avaliações adicionais da tecnologia de extração, dos custos, da segurança e do espaço disponível para as instalações.
Tan See Leng, ministro da Energia, do Comércio e da Indústria, responsável pelas pastas da energia e da indústria, anunciou o novo estudo na abertura da Singapore International Energy Week. Descreveu os resultados como um começo promissor, mas afirmou que uma decisão sobre o desenvolvimento da energia geotérmica poderá demorar anos.
A EMA contratou a Surbana Jurong e a consultora energética GLJ Ltd para avaliarem a instalação de centrais geotérmicas de nova geração. O estudo deverá começar até ao final de 2026 e durar cerca de 15 meses.
O que significa a comparação com 60 anos
A estimativa da EMA compara o potencial energético existente no subsolo com a eletricidade que Singapura consome num ano. Um terawatt-hora mede uma quantidade de eletricidade, tal como um litro mede uma quantidade de água. A estimativa descreve, portanto, uma quantidade potencial de energia, e não a produção de uma central elétrica proposta.
Um sistema geotérmico em funcionamento teria de recolher o calor subterrâneo, trazê-lo à superfície e convertê-lo em eletricidade. A produção útil dependeria da quantidade de calor que é possível recuperar e da rapidez com que o sistema consegue fazê-lo.
O consumo atual de Singapura serve de referência para a comparação. A procura futura de eletricidade e o ritmo a que os recursos venham a ser extraídos determinarão durante quanto tempo um recurso desenvolvido poderá contribuir para o abastecimento nacional.
O próximo estudo irá testar as estimativas preliminares e clarificar a dimensão dos recursos utilizáveis. Para as famílias e as empresas, a questão prática é saber quanta eletricidade fiável as centrais poderão fornecer a um custo aceitável.
Como o levantamento cartografou os recursos sem perfurar
A Chevron, o Metatek Group e a Surbana Jurong formaram o consórcio responsável pelo levantamento a nível nacional. Foram utilizados dois métodos, com recurso a uma aeronave especial e a sensores no solo, para investigar a geologia subterrânea de Singapura.
O Metatek recolheu e processou os dados do levantamento. A Chevron utilizou depois a informação processada para criar modelos tridimensionais das estruturas geológicas e dos recursos térmicos. Estes modelos permitem visualizar o que poderá existir sob a superfície e ajudam os investigadores a avaliar onde será útil realizar novas pesquisas.
A EMA afirmou que o levantamento identificou recursos a altas temperaturas, a vários quilómetros de profundidade, que poderão ser adequados para a produção de eletricidade. Foram também encontrados recursos a temperaturas mais baixas e mais perto da superfície, potencialmente úteis para aquecimento e arrefecimento industriais.
O trabalho de seguimento passará do mapeamento dos recursos potenciais à avaliação das possibilidades práticas de desenvolvimento. A Surbana Jurong e a GLJ identificarão zonas para análise adicional, que poderá incluir perfurações para examinar mais diretamente as condições subterrâneas.
O que os investigadores encontraram em Admiralty e Sembawang
A investigação académica já identificou locais que merecem ser estudados. Em março de 2023, investigadores da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU) e do TUMCREATE registaram uma temperatura de 70 graus Celsius a 1,12 quilómetros de profundidade em Admiralty.
O TUMCREATE é uma plataforma de investigação da Universidade Técnica de Munique. A descoberta em Admiralty forneceu aos investigadores uma medição de temperatura a uma profundidade específica, constituindo uma referência local para estudar o aumento do calor a maiores profundidades.
Em julho de 2025, foram divulgados novos resultados que indicavam temperaturas subterrâneas elevadas em Sembawang. Pulau Tekong é outro local de interesse, devido à existência de uma nascente termal conhecida na região de Unum, a norte da ilha. Admiralty, Sembawang e Pulau Tekong surgiram, assim, como possíveis zonas de investigação geotérmica.
Segundo o comunicado de investigação da NTU, o projeto conjunto incluiu duas sondagens em Sembawang e registou temperaturas até 122 graus Celsius a 1,76 quilómetros de profundidade. O estudo foi realizado pela NTU e pelo TUMCREATE, em colaboração com a Surbana Jurong, com o apoio da Fundação Nacional de Investigação e da EMA. A equipa de investigação foi liderada pelo professor Alessandro Romagnoli, do Energy Research Institute @ NTU, e pelo doutor Tobias Massier, do TUMCREATE.
A medição em Sembawang foi feita a cerca de 600 metros da nascente termal de Sembawang. Com base na análise de amostras de rocha e nos gradientes de temperatura, os investigadores calcularam que o fluxo térmico no norte de Singapura é pelo menos o dobro da média continental mundial. Os locais de Admiralty e Sembawang situam-se ambos sobre granito de Simpang, cujos elementos naturais produtores de calor poderão contribuir com até cerca de 40 por cento do fluxo térmico medido à superfície.
Se o gradiente de temperatura medido se mantiver, os investigadores estimam que a temperatura poderá atingir 230 graus Celsius a 5 quilómetros de profundidade, acima do mínimo de 150 graus Celsius geralmente necessário para a produção de eletricidade. Esta projeção serve de base a novas investigações, não correspondendo a uma medição da temperatura a essa profundidade.
Os marcos da investigação e da política energética de Singapura estendem-se agora por vários anos:
- 2022: Uma perspetiva energética identificou tecnologias emergentes, incluindo a energia nuclear e geotérmica, como possíveis contributos para o abastecimento até 2050.
- Março de 2023: Investigadores da NTU e do TUMCREATE registaram 70 graus Celsius a 1,12 quilómetros de profundidade em Admiralty.
- 2024 a 2026: O levantamento a nível nacional cartografou a geologia e os recursos térmicos até 10 quilómetros de profundidade.
- Julho de 2025: Novos resultados em Sembawang registaram temperaturas até 122 graus Celsius a 1,76 quilómetros de profundidade.
- 26 de outubro de 2026: A EMA anunciou a estimativa preliminar nacional e o próximo estudo de viabilidade.
- Até ao final de 2026: Está previsto o início do estudo da Surbana Jurong e da GLJ, com uma duração aproximada de 15 meses.
Como as rochas quentes podem produzir eletricidade
A produção geotérmica tradicional aproveita reservatórios naturais de água quente no subsolo. Estes recursos encontram-se em regiões vulcanicamente ativas, incluindo a Islândia e algumas zonas dos Estados Unidos. O potencial de Singapura poderá, em vez disso, envolver rochas quentes e secas a grande profundidade, com poucas fraturas naturais.
Os sistemas geotérmicos profundos oferecem formas de recolher o calor dessas rochas. Uma abordagem consiste em injetar um fluido no subsolo, deixá-lo absorver calor e trazê-lo de volta à superfície. O calor recuperado pode depois ser utilizado para acionar equipamentos de produção de eletricidade.
Mark Lim, investigador científico associado do Energy Research Institute @ NTU, explicou que a recolha de calor suficiente através desta abordagem poderá exigir o alargamento de fraturas existentes ou a criação de novas fissuras na rocha. Assim, o fluido poderá circular por uma área maior de rocha quente e absorver mais calor.
Lim descreveu também uma alternativa que utiliza uma série de tubos fechados no subsolo. O fluido circula no interior dos tubos, absorve calor e transporta-o até à superfície, sem se misturar diretamente com a rocha envolvente. Este sistema é designado por circuito fechado.
A segurança e o espaço urbano serão determinantes
Lim afirmou que o alargamento ou a criação de fraturas subterrâneas comporta riscos de tremores, sismos e outros problemas de segurança. A forma como um sistema geotérmico interage com a rocha é, por isso, uma decisão de engenharia fundamental para Singapura.
Tan afirmou que a elevada densidade urbana de Singapura também condicionará o número de centrais geotérmicas que poderão ser instaladas na prática. Mesmo quando existe calor no subsolo, o desenvolvimento exige locais adequados para a perfuração e para a instalação de equipamentos à superfície.
O ministro colocou a segurança no centro da avaliação:
«Acima de tudo, temos de manter a segurança como prioridade absoluta», afirmou.
A Surbana Jurong e a GLJ analisarão a segurança, bem como a viabilidade técnica, ambiental e comercial. O seu trabalho avaliará se os sistemas geotérmicos profundos podem funcionar nas condições locais e quanto custaria produzir energia útil.
A perfuração em profundidade é outro fator importante. Tan afirmou que a produção futura de eletricidade dependerá dos custos e da viabilidade técnica de aceder a recursos a vários quilómetros de profundidade, bem como do ritmo de evolução da tecnologia de perfuração.
O calor a menor profundidade poderá abastecer fábricas
O levantamento da EMA identificou uma segunda possível utilização dos recursos geotérmicos: o fornecimento de aquecimento e arrefecimento industriais a partir de calor a temperaturas mais baixas e a menor profundidade.
As bombas de calor transferem calor de um local para outro utilizando eletricidade. Consoante a conceção e a aplicação, podem aumentar a temperatura do calor recolhido do solo ou retirar o calor indesejado de um processo. A sua utilidade depende da compatibilidade entre as condições subterrâneas e as temperaturas de que o utilizador necessita.
Os refrigeradores de absorção funcionam de outra forma. Utilizam calor para acionar um ciclo de refrigeração, permitindo que uma fonte de calor contribua para a produção de água refrigerada. Isto explica por que razão o calor subterrâneo pode ser relevante tanto para o arrefecimento como para o aquecimento.
O estudo avaliará em conjunto a produção de eletricidade, aquecimento e arrefecimento. Os recursos úteis para uma fábrica poderão exigir temperaturas e condições de funcionamento diferentes das necessárias para produzir eletricidade destinada à rede nacional.
Porque é importante dispor de uma fonte local de energia
Puah Kok Keong, diretor executivo da EMA, descreveu a energia geotérmica como uma fonte de energia limpa disponível em Singapura, capaz de fornecer eletricidade de forma contínua. Se for viável para a produção de eletricidade, afirmou, poderá reforçar a resiliência energética, diversificar o abastecimento e apoiar os esforços para reduzir as emissões de carbono do setor elétrico.
Singapura produz cerca de 95 por cento da sua eletricidade a partir de gás natural. A importância de garantir o abastecimento de combustível ficou patente com a redução do fornecimento de gás da Indonésia, iniciada a 24 de outubro, dois dias antes do anúncio sobre a energia geotérmica. A EMA estimou que esta redução temporária representava menos de 2 por cento da procura diária nacional de gás e afirmou que havia energia suficiente disponível.
O desenvolvimento da energia geotérmica insere-se num horizonte de planeamento mais longo. O calor extraído em Singapura poderá constituir uma fonte adicional de energia, a par do abastecimento dependente de importações de combustível. A prioridade imediata é determinar se as condições locais permitem desenvolver esse recurso em segurança e a custos competitivos.
Uma perspetiva energética de 2022 estimou que as tecnologias emergentes, incluindo a energia nuclear e geotérmica, poderão eventualmente fornecer cerca de 10 por cento das necessidades energéticas de Singapura até 2050. Este valor agregava várias tecnologias emergentes e descrevia o seu possível contributo para o abastecimento futuro.
O que o próximo estudo terá de esclarecer
A avaliação da Surbana Jurong e da GLJ relacionará a estimativa geológica com as exigências de um sistema energético em funcionamento. Entre as principais tarefas estão a análise das tecnologias adequadas, a identificação de zonas para investigação adicional e a avaliação dos custos de produção e das considerações ambientais.
Singapura ainda não decidiu se irá desenvolver a produção de energia geotérmica. Tan afirmou que essa decisão poderá demorar muitos anos, pelo que o estudo previsto se insere num período mais longo de investigação e não num calendário para a construção de centrais.
Ainda assim, o ministro afirmou que Singapura continuará a analisar seriamente esta possibilidade:
«Nenhuma opção está excluída para nós, aqui em Singapura. Por isso, vamos estudar seriamente esta possibilidade», afirmou.
O levantamento preliminar deu a Singapura uma estimativa substancial dos recursos a investigar. A fase seguinte determinará até que ponto esse potencial subterrâneo poderá responder às necessidades do país em eletricidade fiável, calor industrial útil e arrefecimento.
Principais pontos
- A EMA estima que o potencial geotérmico de Singapura exceda 60 vezes o consumo anual atual de eletricidade, de cerca de 60 terawatts-hora.
- O levantamento nacional, realizado entre 2024 e 2026, analisou recursos até 10 quilómetros de profundidade, sem perfurações.
- A investigação da NTU e do TUMCREATE registou temperaturas até 122 graus Celsius a 1,76 quilómetros de profundidade em Sembawang.
- A Surbana Jurong e a GLJ realizarão um estudo de viabilidade com início previsto até ao final de 2026 e duração aproximada de 15 meses.
- A avaliação abrangerá a segurança, a tecnologia, as considerações ambientais, a viabilidade comercial e os custos de produção.
- Os recursos a temperaturas mais baixas poderão permitir o aquecimento e o arrefecimento industriais.
- Singapura ainda não decidiu desenvolver a produção de energia geotérmica, e essa decisão poderá demorar anos.






