Importações recorde superam forte aumento das exportações
A Tailândia exportou bens no valor de 38,438 mil milhões de dólares em setembro de 2026, mais 24% do que um ano antes, mas registou um défice comercial de cerca de 5,9 mil milhões de dólares, uma vez que as importações dispararam para um valor recorde de 44,296 mil milhões de dólares. Os dados do Ministério do Comércio, divulgados a 26 de outubro, mostram uma economia que vende mais produtos eletrónicos e alimentares ao estrangeiro, mas gasta ainda mais rapidamente em energia, maquinaria e componentes.
Índice
- Importações recorde superam forte aumento das exportações
- Porque surpreenderam os mercados os dados de setembro
- A procura de IA impulsiona as exportações e a fatura das importações
- Alimentos e fruta também contribuem para a expansão de setembro
- Os Estados Unidos tornam-se um cliente mais importante
- As negociações comerciais continuam por concluir
- A maquinaria chinesa abastece uma economia industrial em crescimento
- A perturbação em Ormuz prejudica as vendas ao Golfo
- Previsões mais elevadas, seguidas de um abrandamento do crescimento
- Principais pontos
Setembro foi o 27.º mês consecutivo de crescimento das exportações. Excluindo produtos petrolíferos, ouro e equipamento militar, as exportações aumentaram 28,2%, mostrando que a subida abrangeu também outros bens. Os envios de componentes eletrónicos dispararam 66%, impulsionados pela procura associada à inteligência artificial, aos centros de dados e às redes internacionais de produção.
As importações aumentaram 50,4% face a setembro de 2025, acelerando acentuadamente em relação à subida de 25,1% registada em agosto. O défice comercial mensal atingiu 5,857 mil milhões de dólares, contra 2,48 mil milhões em agosto. Um défice comercial significa que um país compra mais bens ao estrangeiro do que aqueles que vende para outros mercados.
Nos primeiros nove meses do ano, a Tailândia exportou 304,589 mil milhões de dólares, mais 19,6%, e importou 348,283 mil milhões, mais 37,8%. O défice resultante foi de 43,694 mil milhões de dólares. Para as fábricas, estas compras incluem equipamentos e fatores de produção que podem apoiar a produção. Para as empresas que enfrentam contas mais elevadas de combustível e transporte, representam também uma pressão imediata sobre os custos.
Porque surpreenderam os mercados os dados de setembro
O crescimento das exportações em setembro superou em seis pontos percentuais a previsão mediana do mercado, de 18%. As importações aumentaram mais do que a previsão mais elevada, de 41,5%, num inquérito a economistas. O défice comercial esperado era de cerca de 1,8 mil milhões de dólares, pelo que o valor efetivo foi mais de três vezes superior a essa estimativa.
Agosto já tinha registado um forte crescimento das exportações, que subiram 24,3% para 34,62 mil milhões de dólares, enquanto as importações atingiram 37,10 mil milhões. Setembro trouxe, por isso, poucas alterações ao ritmo anual de crescimento das exportações, mas um aumento muito mais rápido das importações. O défice mensal mais do que duplicou, subindo cerca de 3,38 mil milhões de dólares.
A Tailândia tinha acumulado um défice de 37,84 mil milhões de dólares entre janeiro e agosto. Em setembro, acrescentou quase 5,9 mil milhões a esse valor num único mês. Agosto foi o 11.º mês consecutivo com défice, pelo que o resultado de setembro se insere numa sequência prolongada de importações superiores às exportações.
Este padrão já era visível após a inversão da balança comercial em outubro de 2025, quando a Tailândia registou um défice de 3,4 mil milhões de dólares apesar de as exportações continuarem a crescer. As importações da China e os envios para os Estados Unidos foram então determinantes, e ambas as relações comerciais continuam a ser centrais nos dados mais recentes.
A procura de IA impulsiona as exportações e a fatura das importações
Os produtos eletrónicos ajudam a explicar os dois lados das contas comerciais da Tailândia. Os clientes estrangeiros estão a encomendar mais componentes e equipamentos associados às infraestruturas digitais, enquanto os fabricantes na Tailândia compram maquinaria e fatores de produção importados para responder a essa procura. As compras de equipamento entram na fatura das importações quando este chega ao país, mesmo que os bens resultantes sejam exportados mais tarde.
A atividade industrial mundial fortaleceu-se em setembro, com o índice de gestores de compras a atingir 53, o nível mais elevado em 55 meses. O índice recorre a inquéritos a empresas para acompanhar as alterações das condições empresariais. Uma leitura acima de 50 indica, em geral, expansão. O aumento das novas encomendas e a acumulação de inventários por parte dos fabricantes sustentaram a subida mais recente.
O Instituto de Estratégias Comerciais da Universidade da Câmara de Comércio da Tailândia, ou UTCC, identificou um grande aumento das importações relacionadas com produtos eletrónicos antes de setembro. As importações de componentes eletrónicos e aparelhos elétricos aumentaram 40,1 mil milhões de dólares, ou 92,4%, nos primeiros oito meses de 2026.
O instituto concluiu também que as importações de componentes eletrónicos passaram de 1,17 vezes o valor das exportações de produtos eletrónicos entre janeiro e agosto de 2025 para 1,40 vezes no mesmo período de 2026. Sugeriu que os fabricantes poderão estar a acumular matérias-primas ou a reter uma parcela menor do valor da produção na Tailândia.
O valor acrescentado interno é a parcela do valor de um produto criada localmente, através de atividades como o fabrico, a conceção e a montagem. Uma fábrica pode aumentar as vendas ao estrangeiro e, ao mesmo tempo, gastar muito em peças importadas. O montante que fica disponível para salários, fornecedores e lucros locais depende, em parte, da proporção do produto fabricada na Tailândia.
Alimentos e fruta também contribuem para a expansão de setembro
Os ganhos das exportações em setembro estenderam-se para além da tecnologia. A borracha, o frango congelado, a comida para animais de estimação, o durião fresco, o mangostão e o longan contribuíram para o crescimento. A continuidade do fornecimento de fruta do sul da Tailândia ajudou a sustentar os envios de produtos frescos.
O desempenho agrícola variou ao longo do ano. A avaliação da UTCC para os primeiros oito meses mostrou uma descida de 1,2% nas exportações agrícolas, enquanto as exportações de produtos agrícolas transformados aumentaram 0,6%. Os bens industriais cresceram 26,5% nesse período, representando a maior parte do aumento das exportações.
Os envios mais fortes de alimentos e fruta em setembro oferecem, assim, uma fonte mais diversificada de receitas de exportação, após um período dominado pela indústria. Os produtores e transformadores enfrentam riscos diferentes dos dos fabricantes de produtos eletrónicos. As condições meteorológicas afetam as colheitas, enquanto os custos de refrigeração, combustível e entrega influenciam os rendimentos dos exportadores de produtos perecíveis.
Wichian Kaeowsombat, diretor do Instituto de Estratégias Comerciais da UTCC, apontou o El Niño e os seus efeitos na produção agrícola entre os riscos para as perspetivas. O instituto defendeu medidas para fazer face aos riscos relacionados com a oferta e a seca no arroz e na mandioca, bem como aos problemas associados aos preços do açúcar.
Os Estados Unidos tornam-se um cliente mais importante
Os Estados Unidos continuaram a ser o maior mercado de exportação da Tailândia, representando 26,5% das exportações nos dados mais recentes relativos a setembro. Os números da UTCC para janeiro a agosto indicam que a quota norte-americana foi de 24,3%, com os envios a subirem 42,6%, para 64,7 mil milhões de dólares. Só em agosto, as exportações para os Estados Unidos aumentaram 48,7%, contra um crescimento de 15,5% nas vendas à China.
A importância dos Estados Unidos aumentou consideravelmente. A UTCC calculou que a sua quota nas exportações tailandesas foi de 12,7% em 2019 e de 20,3% em 2025. Assim, nos primeiros oito meses de 2026, a quota foi quase o dobro da registada em 2019.
A forte procura norte-americana proporciona um mercado de grande dimensão aos fabricantes tailandeses, mas uma dependência maior também concentra a exposição às decisões dos Estados Unidos em matéria de direitos aduaneiros. Wichian apontou as taxas dos direitos aduaneiros recíprocos, as medidas comerciais norte-americanas ao abrigo da Secção 301 e a durabilidade da procura de IA como fatores que moldarão as encomendas futuras. A Secção 301 permite a Washington tomar medidas contra práticas comerciais que considera injustas.
Segundo o instituto, alguns clientes anteciparam encomendas antes da aplicação de medidas pautais. Estas compras podem impulsionar as exportações atuais, transferindo a procura dos meses seguintes. A UTCC recomendou a diversificação dos mercados e dos produtos, o avanço das negociações com Washington e a aceleração do acordo de comércio livre proposto entre a Tailândia e a União Europeia.
As negociações comerciais continuam por concluir
As exportações da Tailândia continuaram a expandir-se enquanto Banguecoque e Washington trabalham para concluir um acordo comercial recíproco. A vice-primeira-ministra e ministra do Comércio, Suphajee Suthumpun, afirmou a 8 de setembro que as principais questões estavam resolvidas e que as negociações tinham chegado à fase final de redação do texto.
O primeiro-ministro Anutin Charnvirakul afirmou a 20 de setembro que Washington tinha introduzido uma condição adicional. Não foi indicada uma data para a conclusão do processo, e a sua visita posterior aos Estados Unidos terminou sem um anúncio de acordo definitivo.
Os principais acontecimentos desenrolaram-se da seguinte forma:
- Janeiro a agosto de 2026: a Tailândia acumulou um défice comercial de 37,84 mil milhões de dólares.
- 8 de setembro: Suphajee afirmou que as principais questões das negociações comerciais com os Estados Unidos estavam resolvidas.
- 20 de setembro: Anutin afirmou que Washington tinha acrescentado uma condição.
- 25 de setembro: Anutin chegou a Londres para procurar reforçar as relações comerciais e o investimento.
- 23 de outubro: a UTCC publicou as suas perspetivas para as exportações, com base em dados até agosto.
- 26 de outubro: os dados comerciais de setembro revelaram um défice mensal de cerca de 5,9 mil milhões de dólares.
As regras de origem fazem parte do que está em jogo comercialmente. Determinam onde se considera que um produto foi fabricado e se este beneficia de um determinado tratamento pautal. Para os fabricantes que utilizam componentes importados, o trabalho de produção realizado na Tailândia pode influenciar o tratamento aduaneiro dos produtos acabados.
A maquinaria chinesa abastece uma economia industrial em crescimento
Os dados aduaneiros chineses mostram exportações para a Tailândia no valor de 83,3 mil milhões de dólares entre janeiro e agosto, contra importações da Tailândia no valor de 36 mil milhões. A China registou, assim, um excedente bilateral de 47,3 mil milhões de dólares. Em agosto, as exportações chinesas para a Tailândia atingiram 11,3 mil milhões de dólares, mais do dobro dos cerca de 5 mil milhões em compras à Tailândia.
A maquinaria e o equipamento elétricos constituíram a maior categoria de exportação da China para a Tailândia em agosto. A maquinaria e os aparelhos mecânicos foram outra categoria importante, ilustrando o papel do equipamento e dos componentes importados na produção tailandesa.
As autoridades aduaneiras chinesas e tailandesas utilizam métodos diferentes para compilar os seus dados, pelo que a balança bilateral chinesa deve ser considerada separadamente da balança comercial da Tailândia com o resto do mundo. Para a indústria transformadora tailandesa, a questão é saber até que ponto o país consegue desenvolver mais produção local à medida que as suas indústrias exportadoras se expandem. A UTCC recomendou o investimento no fabrico interno de componentes eletrónicos para reduzir a dependência dos fatores de produção importados.
A perturbação em Ormuz prejudica as vendas ao Golfo
O encerramento prolongado do estreito de Ormuz está a afetar a Tailândia através do aumento dos custos da energia e do transporte marítimo e da quebra da procura nos mercados do Golfo. O gabinete de promoção comercial da Tailândia no Dubai afirmou que as exportações para o Conselho de Cooperação do Golfo, ou GCC, caíram 1,68% entre janeiro e agosto de 2026.
Excluindo as pedras preciosas e a joalharia, as exportações tailandesas para os seis países do GCC diminuíram cerca de 27,73%. A joalharia ajudou a sustentar o total, enquanto os veículos, os aparelhos elétricos e o marisco enlatado e transformado registaram quebras. Esta diferença mostra até que ponto o desempenho de uma única categoria de produtos pode influenciar os números de exportação de uma região.
O gabinete do Dubai citou as projeções do Fundo Monetário Internacional, segundo as quais a economia do GCC deverá contrair-se 4,8% em 2026, com o Kuwait, o Qatar e o Barém a registarem as maiores quedas. Previa-se que as importações em todos os países do GCC, com exceção de Omã, diminuíssem entre cerca de 5% e 16%.
As empresas de transporte marítimo desviaram as cargas por portos alternativos, incluindo Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, e Sohar e Salalah, em Omã, seguindo-se o transporte por via terrestre. Estas rotas aumentam o tempo de transporte, os custos de frete e os prémios de seguro contra riscos de guerra. Os exportadores tailandeses enfrentam também possíveis perturbações na logística europeia, caso os protestos se transformem em greves.
O cenário do FMI citado pelo gabinete do Dubai prevê um crescimento de 9,1% do GCC em 2027, se Ormuz reabrir por volta de março. As importações do Kuwait poderão aumentar 25,6%, as do Qatar 18,8% e as do Barém 18,2%, à medida que as empresas repõem existências e reparam infraestruturas. O gabinete identificou os alimentos, os bens essenciais, os materiais de construção, os veículos e os aparelhos elétricos como potenciais exportações tailandesas para essa recuperação. Se a reabertura for adiada para o segundo semestre de 2027, a recuperação poderá transitar para 2028.
Previsões mais elevadas, seguidas de um abrandamento do crescimento
Nuntapong Jiralerspong, diretor do Gabinete de Política e Estratégia Comercial da Tailândia, reviu em alta a previsão de crescimento das exportações em 2026, de 11% para 15–16%. Afirmou que o crescimento poderá atingir 19,6%, elevando as exportações para cerca de 404,9 mil milhões de dólares, um valor recorde. A procura de produtos eletrónicos, o investimento em infraestruturas de IA e uma base de comparação relativamente baixa no último trimestre de 2025 sustentam este cenário mais favorável.
A previsão da UTCC, publicada a 23 de outubro, apontava para exportações de 401 mil milhões de dólares em 2026, um aumento de 17,8%. Projetava exportações para os Estados Unidos de 98,9 mil milhões de dólares e exportações de produtos eletrónicos de 90,8 mil milhões. A previsão foi publicada antes da divulgação dos dados de setembro, que mostraram que o défice acumulado da Tailândia já tinha ultrapassado o défice anual de 41,7 mil milhões de dólares projetado pelo instituto.
Ambas as instituições preveem um crescimento mais lento das exportações em 2027, embora as estimativas sejam diferentes. A previsão preliminar do Gabinete de Política e Estratégia Comercial aponta para 2–4%, em parte porque as exportações serão comparadas com o nível elevado de 2026. A UTCC projeta um crescimento de 7,4%, para 431 mil milhões de dólares, com um intervalo entre 0,8% e 11,1%, consoante as condições externas.
O cenário central da UTCC aponta também para importações de 479 mil milhões de dólares em 2027 e um défice de 48,1 mil milhões. A Tailândia poderá, assim, continuar a aumentar as exportações e, simultaneamente, a gastar mais em bens importados. As encomendas futuras, a produção local de componentes, os custos da energia e as condições de acesso ao mercado norte-americano determinarão em que medida a subida das exportações beneficiará as empresas e os trabalhadores.
Principais pontos
- As exportações de setembro aumentaram 24%, para 38,438 mil milhões de dólares, assinalando 27 meses consecutivos de crescimento.
- As importações dispararam 50,4%, para um valor recorde de 44,296 mil milhões de dólares, deixando um défice de cerca de 5,9 mil milhões.
- O défice entre janeiro e setembro atingiu 43,694 mil milhões de dólares.
- As exportações de componentes eletrónicos aumentaram 66%, enquanto as compras de maquinaria, componentes e energia elevaram a despesa com importações.
- Os Estados Unidos continuaram a ser o maior mercado de exportação da Tailândia, enquanto se aguarda a conclusão de um acordo comercial bilateral definitivo.
- A perturbação em Ormuz enfraqueceu a procura no Golfo e aumentou os custos de transporte marítimo.
- O Governo reviu em alta a previsão de crescimento das exportações em 2026 para 15–16%, com um cenário mais favorável próximo de 19,6%.
- As previsões do Governo e da universidade apontam ambas para um crescimento mais lento das exportações em 2027.






