Vídeo de 42 segundos destaca pontos de referência de Taiwan
A China divulgou no domingo, 25 de outubro de 2026, imagens detalhadas de satélite de Taiwan, num vídeo de 42 segundos que mostra os principais pontos de referência de Taipé, um porto comercial, cadeias montanhosas e zonas húmidas costeiras. A divulgação assinalou 81 anos desde o fim do domínio colonial japonês e um ano desde que Pequim instituiu uma comemoração anual da restituição de Taiwan.
Índice
- Vídeo de 42 segundos destaca pontos de referência de Taiwan
- Porque escolheu Pequim o dia 25 de outubro
- O que mostram as imagens
- O que consegue ver o Jilin-1?
- Visitas frequentes exigem transmissão rápida
- Porque pode ser importante um parque de estacionamento para a recolha de informações
- A mensagem já chegou a Washington em 2025
- Taiwan quer controlar o seu próprio calendário de observação por satélite
- Interpretar as imagens também faz parte do trabalho
- Pontos principais
As imagens foram captadas pelo Jilin-1, uma constelação comercial de satélites desenvolvida pela Chang Guang Satellite Technology. O vídeo passou de uma vista da ilha para locais como o Museu do Palácio Nacional, o Memorial de Chiang Kai-shek, a Taipei Dome, o Lago do Sol e da Lua e o Porto de Taipé.
Pequim associou as paisagens a uma reivindicação de soberania sobre Taiwan, enquanto o Comando do Teatro Oriental do Exército de Libertação Popular divulgou um cartaz comemorativo que ligava o aniversário à unidade territorial. Taiwan governa-se a si própria, com um governo eleito e forças armadas próprias, e as suas autoridades rejeitam a reivindicação de Pequim.
A divulgação reúne três desenvolvimentos: a crescente capacidade da China para fotografar Taiwan a partir da órbita, a utilização dessas imagens para promover a unificação e o investimento de Taiwan em satélites que possam recolher informações de acordo com as suas próprias prioridades.
As especificações publicadas do Jilin-1 indicam que as imagens têm uma resolução de cerca de 0,5 metros. Investigadores taiwaneses na área da defesa afirmam que observações repetidas poderão revelar alterações na atividade militar, incluindo algo tão banal como o número de carros estacionados numa base. A velocidade e a continuidade dessa monitorização dependem dos satélites, dos seus sensores e dos sistemas que fazem chegar as imagens às pessoas no terreno.
Porque escolheu Pequim o dia 25 de outubro
O dia 25 de outubro associa a divulgação ao fim do domínio colonial japonês, em 1945. Pequim descreve esse acontecimento como a restituição de Taiwan à China e usa o aniversário para sustentar a sua atual reivindicação sobre a ilha. A República Popular da China, fundada em 1949, nunca governou Taiwan.
O Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional da China instituiu o dia 25 de outubro como data comemorativa em 2025. O vídeo de 2026 exibiu as datas de 25 de outubro de 1945 e 25 de outubro de 2026, enquadrando as imagens de satélite mais recentes nessa narrativa histórica.
As declarações anteriores do presidente chinês, Xi Jinping, sobre Taiwan e a unificação voltaram a circular durante o aniversário. O cartaz do Comando do Teatro Oriental também apresentou o fim do domínio japonês como uma memória nacional partilhada e associou-o à defesa da unidade territorial.
A sequência mostra a evolução da campanha de imagens:
- 2015: Foram lançados os primeiros satélites Jilin-1.
- Setembro de 2024: A Chang Guang publicou um mosaico global detalhado, composto a partir de fotografias de satélite.
- 25 de outubro de 2025: Pequim instituiu a comemoração anual e imagens de Taiwan captadas pelo Jilin-1 acompanharam o 80.º aniversário.
- 1 de novembro de 2025: A embaixada da China em Washington divulgou imagens de satélite de Taiwan na rede X, suscitando protestos de responsáveis taiwaneses e norte-americanos.
- 25 de outubro de 2026: Um novo vídeo assinalou o 81.º aniversário com imagens de satélite, música e mensagens de apoio à unificação.
O que mostram as imagens
Museus, memoriais, pontes e instalações desportivas de Taipé têm lugar de destaque no vídeo. Além do Museu do Palácio Nacional e da Taipei Dome, a sequência inclui o Memorial Nacional de Sun Yat-sen e a Ponte de Zhongzheng. O memorial é identificado pelo nome pessoal chinês de Sun Yat-sen, em vez do nome oficial atualmente usado em Taiwan.
As imagens estendem-se muito para além da capital. Mostram a cadeia montanhosa de Yushan, o Lago do Sol e da Lua, o rio Tamsui, a falésia de Qingshui, em Hualien, Zhuangwei, em Yilan, os campos de sal em forma de leque de Qingkunshen, em Tainan, e zonas húmidas de Chiayi.
O Porto de Taipé acrescenta uma dimensão prática ao conjunto de imagens paisagísticas. Imagens detalhadas de um porto podem mostrar a disposição dos cais, das áreas de armazenamento e das ligações de transporte. Imagens captadas repetidamente podem ajudar os observadores a acompanhar alterações na utilização dessas instalações.
A banda sonora, a canção chinesa geralmente traduzida como «Nuvens do Lar», apela repetidamente ao regresso a casa. Juntamente com as legendas, apresenta as paisagens familiares de Taiwan como parte do argumento de Pequim a favor da unificação. O cartaz militar divulgado no mesmo dia transmite esse argumento através da linguagem da defesa territorial.
O que consegue ver o Jilin-1?
A Chang Guang Satellite Technology desenvolveu o Jilin-1 como um sistema comercial de deteção remota. A deteção remota consiste em recolher informações sobre um local à distância, neste caso através de instrumentos instalados em satélites. Uma constelação é um grupo de satélites cujas observações podem ser combinadas para cobrir mais território ou revisitar um local com maior frequência.
As descrições técnicas que acompanharam a cobertura de 2026 indicam que a frota conta com 161 satélites, enquanto outra descrição da divulgação comemorativa aponta para cerca de 141. Os números da Chang Guang citados durante a divulgação de 2025 também indicavam uma constelação de 141 satélites. A frota é descrita como capaz de produzir imagens com uma resolução de cerca de 0,5 metros.
Essa resolução significa que cada elemento da imagem representa aproximadamente meio metro no terreno. Ajuda a explicar por que motivo ruas, edifícios e objetos de maiores dimensões podem surgir com bastante detalhe. A utilidade de cada imagem depende também da iluminação, do ângulo de observação, do estado do tempo e da qualidade da imagem.
A Chang Guang afirmou que a constelação pode revisitar alvos em todo o mundo até 40 vezes por dia. As suas alegações mais abrangentes sobre cartografia incluem cobertura global seis vezes por ano e cobertura da China continental cerca de duas vezes por mês.
Estas medidas dizem respeito a tarefas diferentes. Revisitar um alvo significa ter outra oportunidade para observar um local escolhido. Elaborar um mapa de grandes dimensões implica recolher imagens adequadas em quantidade suficiente para cobrir uma área muito mais vasta. Um sistema pode passar frequentemente sobre um determinado local e, ainda assim, demorar muito mais tempo a compor uma imagem regional ou global completa.
Visitas frequentes exigem transmissão rápida
Joseph Wen, investigador associado do Instituto de Investigação para a Defesa e Segurança Nacional de Taiwan, identifica vários fatores que permitem uma monitorização contínua: o número de satélites, as configurações orbitais, a combinação de sensores óticos e de radar e a velocidade de transferência, processamento e distribuição dos dados.
Os satélites óticos usam a luz para produzir imagens detalhadas da superfície. As nuvens podem obstruir a visão e as câmaras de luz visível precisam de luz do dia. Os instrumentos de radar usam ondas de rádio e conseguem observar através das nuvens e na escuridão. A escolha do sensor determina, por isso, quando podem ser recolhidas imagens úteis.
Wen considera provável que a China já consiga observar Taiwan com muito pouco atraso, ou esteja a aproximar-se dessa capacidade. A sua avaliação relaciona o crescimento da frota com todo o processo de transmissão, desde a captação da imagem até à sua chegada às mãos de alguém que possa agir com base nela.
Não foram divulgadas as datas em que cada uma das imagens do vídeo comemorativo foi captada. A data da divulgação pública indica aos espectadores quando as imagens foram mostradas; a monitorização operacional depende também da data em que cada imagem foi captada e da rapidez com que ficou disponível.
O mosaico global da Chang Guang, de setembro de 2024, ilustra a tarefa distinta de elaborar um mapa detalhado. A empresa afirmou ter selecionado 1,2 milhões de imagens de um conjunto de 6,9 milhões para cobrir 99% da superfície terrestre fora da Antártida e da Gronelândia. Isso equivale a cerca de uma imagem selecionada por cada seis do conjunto maior, dando uma ideia da dimensão do trabalho de composição.
Porque pode ser importante um parque de estacionamento para a recolha de informações
Wen aponta os parques de estacionamento militares como exemplo de como pormenores banais podem tornar-se informação útil. Alterações no número e nas cores dos veículos podem ajudar um observador a estimar quantas pessoas estão numa base ou a identificar uma concentração associada a uma reunião importante.
Muitos locais militares taiwaneses instalaram coberturas de aço sobre as áreas de estacionamento, inicialmente para suportar painéis solares. Wen afirma que essas estruturas também podem ocultar informação dos satélites. Para quem é responsável por uma base, a questão não se limita a esconder armamento: passa também por gerir os pequenos sinais repetidos de atividade nas imediações.
Tu Cheng-yi, investigadora assistente no mesmo instituto, descreve os serviços comerciais espaciais como uma tecnologia com aplicações civis e militares. Uma empresa pode vender serviços de cartografia ou informação ambiental, enquanto as suas imagens também apoiam operações de segurança.
Tu referiu as sanções impostas pelos Estados Unidos à Chang Guang em maio, devido ao fornecimento de imagens de satélite utilizadas para selecionar alvos pelo Irão e pelo grupo armado Houthi. Descreveu também ligações operacionais anteriores à infraestrutura chinesa de controlo de satélites militares e considerou que a cooperação estreita poderá continuar.
Wang Hsiu-wen, outra investigadora assistente do instituto, interpretou a divulgação pública de imagens detalhadas de Taiwan como uma tentativa de promover a unificação e criar a sensação de estar a ser observado. Aponta também a pressão financeira sobre a Chang Guang, incluindo prejuízos contínuos e uma tentativa falhada de entrada em bolsa, como um desafio ao seu modelo comercial.
A mensagem já chegou a Washington em 2025
Pequim utilizou um conjunto semelhante de imagens durante o 80.º aniversário, em 2025. Essa divulgação incluiu o Lago do Sol e da Lua, Alishan e o Porto de Taipé, enquanto outras imagens divulgadas durante a campanha mostravam o Parque Científico de Hsinchu e o cabo Eluanbi. A seleção combinou destinos turísticos com infraestruturas industriais e de transporte.
O comentador de assuntos militares chineses Zhang Junshe descreveu as imagens como um aviso aos apoiantes da independência de Taiwan. Chi Chia-lin, presidente honorário do Partido da Aliança para a Reunificação de Taiwan, saudou-as como motivo de orgulho nacional. As suas reações mostram os diferentes públicos que Pequim procurou alcançar com as mesmas imagens.
A embaixada da China em Washington alargou o alcance internacional da campanha ao publicar as fotografias em 1 de novembro de 2025. A campanha de imagens da embaixada suscitou protestos por parte da liderança da segurança nacional de Taiwan e do senador norte-americano Jim Risch.
Risch, presidente da Comissão de Relações Externas do Senado, contestou a reivindicação política associada às imagens:
A República Popular da China nunca controlou o território de Taiwan, e esta publicação é um excelente exemplo da deturpação da história pelo Partido Comunista Chinês e das ameaças explícitas que faz contra uma democracia pacífica.
O Parque Científico de Hsinchu conferiu particular peso económico ao conjunto anterior, por acolher grandes empresas de semicondutores, incluindo a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company e a United Microelectronics Corporation. O cabo Eluanbi, no extremo sul de Taiwan, fica sobranceiro ao canal de Bashi, entre Taiwan e as Filipinas. Estes locais associam as imagens à produção industrial e às rotas marítimas, além da disputa de soberania.
Taiwan quer controlar o seu próprio calendário de observação por satélite
A resposta de Taiwan inclui o FORMOSAT-8, uma constelação planeada de seis satélites óticos de deteção remota e dois satélites adicionais concebidos para obter maior resolução. O programa prevê concluir o grupo principal de seis até 2031. Os primeiros satélites terão uma resolução declarada de um metro, enquanto os aparelhos posteriores deverão produzir imagens mais detalhadas.
Wu Jong-shinn, diretor da Agência Espacial de Taiwan, explicou de forma prática o valor para a segurança nacional: ter um satélite permite a Taiwan decidir que locais fotografar, sem ter de competir com outros clientes pelo mesmo período de observação.
Os operadores de satélites têm de definir para onde apontam os instrumentos e o que registam. Um país que compre imagens comerciais pode querer fotografar um local com urgência, enquanto o operador tem outros compromissos. Os satélites próprios dão às autoridades de Taiwan maior controlo sobre essas prioridades.
O aumento previsto da frequência de observação é substancial. O FORMOSAT-5 passa sobre Taiwan cerca de uma vez a cada dois dias, enquanto se espera que a constelação FORMOSAT-8 planeada permita cerca de três passagens por dia. Com base nestes valores, a possibilidade de passar sobre Taiwan aumentaria cerca de seis vezes, de uma média de meia passagem por dia para três.
As condições meteorológicas e a luz do dia continuam a afetar a fotografia ótica, pelo que a recolha bem-sucedida de imagens depende das condições em cada passagem. Mais oportunidades dão aos operadores maior probabilidade de obter imagens úteis e de construir um registo das alterações ao longo do tempo.
Interpretar as imagens também faz parte do trabalho
Lin Ying-yu, professor associado do Instituto de Pós-Graduação em Assuntos Internacionais e Estudos Estratégicos da Universidade Tamkang, descreve as imagens repetidas como uma forma de estudar exercícios militares. Fotografias da mesma área de treino, captadas ao longo do tempo, podem ajudar a identificar veículos, formações e padrões de movimento.
Wen utilizou imagens de satélite de acesso público, imagens militares, dados sobre o terreno e pormenores de veículos para mapear instalações militares chinesas. Este trabalho é conhecido como recolha de informações a partir de fontes abertas: consiste em reunir e verificar informação publicamente acessível ou disponível comercialmente para responder a uma questão específica de informações.
Tseng Kuo-hsin, responsável pela estação de receção de satélites da Universidade Nacional Central, descreve uma etapa adicional: combinar imagens para acompanhar a atividade ao longo do tempo. Uma série de imagens pode mostrar quando um navio de grandes dimensões sai de um porto, para onde se desloca e quando regressa, desde que estejam disponíveis observações adequadas.
O centro de deteção remota da Universidade Nacional Central tem monitorizado mais de 200 ilhas e recifes no mar da China Meridional. O seu arquivo de imagens regista alterações como a recuperação de terras ao mar, a construção de edifícios e o desenvolvimento de pistas de aterragem. Essa experiência ilustra por que motivo um registo prolongado pode ser mais útil do que uma única fotografia impressionante.
Lin defende que as forças armadas e os serviços de segurança nacional de Taiwan precisam de desenvolver competências mais sólidas na interpretação de imagens de satélite e de reforçar a cooperação com instituições científicas. O desafio prático é transformar as imagens num relato fiável do que mudou e, depois, cruzá-lo com outras informações.
O vídeo comemorativo da China integra a visibilidade dos satélites numa mensagem política pública. O programa de constelação de Taiwan aborda a mesma tecnologia do ponto de vista de um governo que procura definir o seu próprio calendário de observação. Para ambos, o valor reside na combinação de imagens detalhadas, passagens repetidas e capacidade para compreender o que mostram.
Pontos principais
- A China divulgou um vídeo de 42 segundos com imagens de satélite de Taiwan em 25 de outubro de 2026, assinalando o 81.º aniversário do fim do domínio colonial japonês.
- O vídeo mostrou pontos de referência de Taipé, o Porto de Taipé, o Lago do Sol e da Lua, montanhas, campos de sal e zonas húmidas, juntamente com mensagens de apoio à unificação.
- As especificações do Jilin-1 indicam uma resolução de cerca de 0,5 metros e oportunidades frequentes para revisitar locais selecionados.
- Investigadores taiwaneses afirmam que a eficácia da monitorização depende dos sensores, da cobertura orbital e da rapidez com que as imagens são transmitidas e interpretadas.
- Uma campanha semelhante, em 2025, suscitou protestos de responsáveis taiwaneses e norte-americanos, depois de a embaixada da China em Washington divulgar as imagens.
- Taiwan prevê concluir o grupo principal de seis satélites do FORMOSAT-8 até 2031, aumentando o controlo sobre a recolha de informações.






