Islamabad exige medidas contra refúgios de militantes
O Paquistão exigiu, a 24 de outubro de 2026, medidas verificáveis contra militantes que operam a partir do Afeganistão, referindo uma estimativa de 4 000 a 6 000 combatentes do Tehreek-i-Taliban Pakistan e acusando as autoridades talibãs de ignorarem as suas preocupações de segurança. A exigência surgiu num contexto de repetidos confrontos fronteiriços, ataques aéreos paquistaneses em território afegão e divergências sobre a responsabilidade por ataques no Paquistão.
Índice
- Islamabad exige medidas contra refúgios de militantes
- O que o Paquistão quer que Cabul impeça
- As avaliações internacionais que sustentam a exigência
- O TTP e o BLA são grupos diferentes
- Cabul rejeita a responsabilidade e aponta o dedo ao Paquistão
- O custo humano e os números divergentes sobre os ataques
- Uma segunda disputa sobre alegado recrutamento de afegãos
- Como se chegou a este ponto
- As conversações e o comércio dependem da cooperação em matéria de segurança
- Principais pontos
O Ministério da Informação e Radiodifusão do Paquistão instou Cabul a impedir que o TTP, o Exército de Libertação do Baluchistão e os seus afiliados utilizem território afegão para planear, preparar ou lançar ataques. Alegou também que responsáveis talibãs, incluindo em Kandahar, tinham ajudado grupos militantes.
O porta-voz dos talibãs afegãos, Zabihullah Mujahid, rejeitou as acusações do Paquistão. Disse que o Afeganistão não tinha interesse nem capacidade para criar insegurança no Paquistão e acusou as instituições militares e de segurança paquistanesas de responsabilizarem o país vizinho pelos seus próprios fracassos.
A resposta de Islamabad coloca no centro da disputa uma exigência concreta: medidas contra os refúgios de militantes, as redes de apoio e a circulação através da fronteira, que o Paquistão possa verificar. Cabul continua a rejeitar a acusação de fundo de que permite a utilização do seu território contra países vizinhos.
O que o Paquistão quer que Cabul impeça
O Ministério da Informação do Paquistão exigiu o fim da tolerância, assistência ou apoio ao TTP e ao BLA. As exigências abrangem as etapas anteriores a um ataque, bem como o próprio ataque, incluindo o planeamento, a formação, a preparação e a entrada no Paquistão.
O ministério afirmou que culpar as instituições paquistanesas não isentava o Governo talibã da responsabilidade de impedir ataques com origem em território sob o seu controlo. Expôs a sua exigência numa declaração:
O regime talibã afegão tem de pôr fim a qualquer tolerância, facilitação ou apoio a organizações terroristas, incluindo o TTP, o BLA e os seus afiliados, e garantir que o território afegão não é utilizado para planear, preparar ou lançar ataques contra o Paquistão.
O Paquistão referiu ainda repetidas tentativas de militantes armados de atravessar a fronteira, a morte de cidadãos afegãos durante operações antiterroristas paquistanesas e a apreensão de armas fabricadas no estrangeiro. Exigiu explicações credíveis e medidas verificáveis, em vez de negações genéricas.
As avaliações internacionais que sustentam a exigência
O ministério paquistanês identificou dois documentos que apoiam a sua posição: o 16.º relatório da Equipa de Apoio Analítico e Monitorização de Sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, S/2025/796, publicado em 2025, e o relatório do Inspector-Geral Especial dos EUA para a Operação Enduring Sentinel, referente ao período entre janeiro e março de 2026.
Segundo a descrição que o ministério fez da avaliação norte-americana, as autoridades talibãs continuavam a permitir que o TTP operasse a partir do Afeganistão. O ministério afirmou que o apoio dos talibãs e uma maior liberdade de circulação do grupo tinham contribuído para o aumento dos ataques contra o Paquistão.
O ministério atribuiu a estimativa de 4 000 a 6 000 combatentes do TTP ao relatório norte-americano. Este intervalo dá uma ideia da força que, segundo o Paquistão, beneficia do acesso a território afegão, embora o número exacto continue a ser uma estimativa.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Sajjad Haider Khan, manifestou uma preocupação mais ampla numa conferência de imprensa a 23 de outubro. Citando a monitorização da ONU e avaliações dos EUA, afirmou que mais de 20 grupos terroristas estavam baseados no Afeganistão e operavam sem controlo efectivo. Nomeou a China, o Uzbequistão e o Irão entre os países ameaçados por esses grupos.
O TTP e o BLA são grupos diferentes
O TTP, vulgarmente conhecido como talibãs paquistaneses, é distinto dos talibãs que governam o Afeganistão, embora os dois estejam estreitamente aliados. O Paquistão acusa dirigentes e combatentes do TTP de se refugiarem no Afeganistão para organizar ataques dentro do território paquistanês.
O BLA é um grupo militante separatista que opera na província paquistanesa do Baluchistão, no sudoeste do país. A sua inclusão na exigência de Islamabad alarga a disputa para além do TTP, abrangendo a violência que afecta outra vasta região da fronteira ocidental do Paquistão.
Os responsáveis paquistaneses também manifestaram preocupação com a Al-Qaeda, a Al-Qaeda no Subcontinente Indiano, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental e o Estado Islâmico-Khorasan. Islamabad afirma que os refúgios de militantes, os centros de treino, o acesso a armas sofisticadas e as rotas através da fronteira fazem parte da ameaça que pretende que Cabul enfrente.
O Paquistão afirma que a violência aumentou, em particular, em Khyber Pakhtunkhwa e no Baluchistão desde que os talibãs afegãos regressaram ao poder, em agosto de 2021. As autoridades paquistanesas estão a realizar várias operações contra militantes junto à fronteira afegã.
Cabul rejeita a responsabilidade e aponta o dedo ao Paquistão
Mujahid afirmou, a 23 de outubro, que a insegurança no Paquistão também prejudicaria o Afeganistão nos planos económico, social e humanitário. O seu argumento foi o de que o Afeganistão seria afectado pela instabilidade no país vizinho, em vez de beneficiar dela.
O porta-voz dos talibãs acusou o aparelho militar e os serviços de segurança do Paquistão de usarem o Afeganistão para desviar a indignação pública:
Infelizmente, sempre que o aparelho militar do Paquistão e os restantes serviços de segurança não conseguem garantir a segurança dentro do seu próprio país, atribuem a culpa por esses incidentes ao Afeganistão, numa tentativa de induzir a sua própria população em erro.
As autoridades afegãs também acusaram combatentes de atravessarem a fronteira no sentido inverso. Afirmaram que as suas forças mataram 28 combatentes e capturaram 32 em setembro, incluindo alegados membros do Estado Islâmico que tinham entrado a partir do Paquistão; outros números atribuídos às autoridades afegãs apontam para 58 mortos e 23 ou 28 capturados.
As discrepâncias entre os números deixam por esclarecer a dimensão dessa operação. Ainda assim, a acusação de Cabul mostra que ambos os governos apresentam a circulação de militantes através da fronteira como uma ameaça à segurança proveniente do outro lado.
O custo humano e os números divergentes sobre os ataques
As autoridades paquistanesas afirmam que 1 327 pessoas foram mortas em 2026 por actos de terrorismo que atribuíram a território afegão, e que 2 484 ficaram feridas. Estes números referem-se às vítimas que Islamabad associa especificamente a ataques com origem do outro lado da fronteira.
Quanto à violência militante em todo o Paquistão desde janeiro, números atribuídos às autoridades paquistanesas incluem mais de 2 800 ataques e 3 000 mortos, a par de um balanço muito inferior, de mais de 2 600 ataques e cerca de 1 300 mortos. Os números nacionais divergentes não podem ser conciliados com base na informação divulgada juntamente com as declarações.
Khan afirmou, à parte, que mais de 1 300 cidadãos paquistaneses tinham sido mortos em ataques transfronteiriços ao longo do ano anterior. Esse período difere do ano civil a que se referem os outros números, pelo que estes abrangem períodos distintos.
Em setembro de 2026, o Paquistão registou também o maior número mensal de ataques militantes em 12 anos. A pressão sobre o Governo vai, por isso, além da mais recente troca de declarações: as forças de segurança estão a realizar operações enquanto as comunidades do noroeste e do Baluchistão enfrentam violência repetida.
Uma segunda disputa sobre alegado recrutamento de afegãos
O antigo representante especial dos EUA para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, fez outra acusação a 23 de outubro. Numa publicação na rede X, citou alegações de que o Paquistão estava a armar afegãos para combater os talibãs no interior do Afeganistão e a recrutar cidadãos afegãos para lutar contra insurgentes que visam o Paquistão.
Khalilzad não apresentou provas nem identificou as fontes dessas alegações. No dia seguinte, o Ministério da Informação do Paquistão rejeitou ambas, classificando-as como infundadas e enganadoras.
O ministério afirmou que as suas operações antiterroristas visavam organizações militantes que ameaçavam os cidadãos paquistaneses. Acusou Khalilzad de desviar a atenção da responsabilidade do Governo talibã de impedir ataques com origem em território afegão.
Khalilzad teve um papel central nas negociações do acordo entre os EUA e os talibãs, em fevereiro de 2020, que abriu caminho à retirada das forças norte-americanas e da NATO. A sua mais recente intervenção levou a uma resposta separada do Paquistão, além da declaração dirigida a Cabul.
O Paquistão também alegou que grupos militantes que operavam contra si tinham o apoio da Índia. Nova Deli nega apoiar a violência militante. Esta acusação acrescenta uma dimensão regional a uma disputa que já envolve alegações contraditórias do Paquistão e do Afeganistão sobre grupos armados que atravessam a fronteira comum.
Como se chegou a este ponto
O Paquistão afirma ter mantido conversações com as autoridades talibãs em reuniões bilaterais e fóruns internacionais desde 2021. Khan referiu o Formato de Moscovo e reuniões que envolveram o Catar, a Turquia, a Arábia Saudita e a China, mas afirmou que esses esforços não produziram as medidas pretendidas por Islamabad.
Os principais acontecimentos estendem-se por vários anos e incluem uma intensa troca de declarações em outubro:
- Fevereiro de 2020: Os Estados Unidos e os talibãs chegaram a um acordo, após negociações em que Khalilzad teve um papel central.
- Agosto de 2021: Os talibãs afegãos regressaram ao poder. O Paquistão afirma que a violência militante aumentou posteriormente, sobretudo nas regiões ocidentais do país.
- 2025: A equipa de monitorização de sanções da ONU publicou o relatório S/2025/796, posteriormente citado pelo Paquistão em apoio às suas preocupações de segurança.
- Janeiro a março de 2026: Período abrangido pela avaliação norte-americana da Operação Enduring Sentinel, citada pelo Paquistão.
- 23 de outubro de 2026: Mujahid rejeitou as acusações do Paquistão, Khalilzad fez alegações de recrutamento e Khan expôs as condições para novas conversações.
- 24 de outubro de 2026: O Paquistão exigiu medidas verificáveis contra os militantes e rejeitou, em separado, as alegações de Khalilzad.
Os repetidos confrontos fronteiriços e os ataques aéreos paquistaneses em território afegão tornaram o desacordo mais perigoso. A acção militar acompanha agora as trocas diplomáticas sobre qual dos governos é responsável por impedir os ataques.
As conversações e o comércio dependem da cooperação em matéria de segurança
Khan afirmou que a retoma do diálogo exigia que os talibãs reconhecessem a presença de grupos terroristas no Afeganistão e aceitassem um mecanismo credível para impedir ameaças aos países vizinhos. Na prática, Islamabad pretende compromissos acompanhados de mecanismos que permitam verificar se os grupos armados estão a ser contidos.
Zamir Kabulov, representante especial do Presidente russo para o Afeganistão, confirmou que a oitava reunião do Formato de Moscovo terminou sem uma declaração conjunta, devido a divergências entre o Paquistão e os talibãs. Khan afirmou que o Paquistão valorizava o papel da Rússia na segurança regional, mas que não estava em cima da mesa nenhuma nova proposta russa de mediação.
O Paquistão afirmou estar disposto a reabrir as passagens fronteiriças e a retomar o comércio se as autoridades talibãs cooperarem para impedir a entrada de grupos armados no país. Para os comerciantes e para as pessoas cujo sustento depende da circulação de mercadorias entre os dois países, a cooperação em matéria de segurança está, por isso, directamente ligada ao acesso à fronteira.
Islamabad afirmou que as suas medidas visavam as ameaças militantes, não o povo afegão, e que continuava disponível para dialogar com base no respeito mútuo e em compromissos verificáveis. Não foi anunciada qualquer data para novas conversações, um mecanismo de verificação ou a reabertura das passagens fronteiriças.
Principais pontos
- O Paquistão exigiu medidas contra o TTP, o BLA e os seus afiliados que operam a partir de território afegão.
- O Ministério da Informação citou uma avaliação norte-americana que estimava entre 4 000 e 6 000 combatentes do TTP.
- Os talibãs rejeitaram a responsabilidade pela insegurança no Paquistão e acusaram Islamabad de lhes atribuir a culpa.
- O Paquistão negou separadamente as alegações de Khalilzad de que tinha armado ou recrutado combatentes afegãos.
- Os números de vítimas e ataques atribuídos às autoridades apresentam divergências substanciais por esclarecer.
- O Paquistão condicionou novas conversações e a retoma do comércio fronteiriço a uma cooperação concreta em matéria de segurança.






