Um apelo à demissão chega ao presidente
Um grupo que representa 150 professores universitários indonésios instou o vice-presidente Gibran Rakabuming Raka a demitir-se voluntariamente, devido a dúvidas sobre os documentos de habilitações apresentados na sua candidatura às eleições presidenciais de 2024. A carta aberta, datada de 19 de outubro de 2026, foi dirigida ao presidente Prabowo Subianto e ao antigo presidente Joko Widodo, pai de Gibran.
Índice
- Um apelo à demissão chega ao presidente
- O que os professores dizem que o tribunal concluiu
- A regra sobre habilitações no centro do processo
- O que os requerentes pediram ao tribunal
- Como evoluiu o litígio
- PDIP pede uma resposta política
- Polícia interroga queixosos sobre documento de equivalência
- Duas propostas opostas para os requisitos dos futuros candidatos
- O que revelam os dados das redes sociais
- Pontos principais
O Forum Guru Besar Indonesia, ou Fórum de Professores Universitários da Indonésia, associou o apelo ao processo n.º 01/PHPU.PRES-XXIV/2026 do Tribunal Constitucional, cuja decisão foi lida a 6 de outubro. Os professores defendem que as questões levantadas durante o processo têm consequências éticas, apesar de Gibran não ter sido desqualificado.
Idrus Paturusi, professor da Universidade Hasanuddin, afirmou que 13 académicos deram início à carta e que os professores assinaram em representação de um grupo mais vasto, composto por 150 pessoas. O professor Ryaas Rasyid foi também identificado como um dos promotores. Ambos são da província de Celebes do Sul.
O título da carta pode traduzir-se por Proteger a Dignidade da Constituição, a Ética do Estado e a Legitimidade da Liderança Nacional. O pedido central é que Gibran abandone voluntariamente o cargo. Idrus afirmou que os organizadores não sabiam se o apelo levaria a alguma iniciativa na Câmara dos Representantes, conhecida como DPR, onde qualquer tentativa de destituição seguiria um processo constitucional distinto.
O que os professores dizem que o tribunal concluiu
O argumento do fórum centra-se na sua interpretação dos fundamentos do Tribunal Constitucional. Segundo a carta, o tribunal não considerou convincentes as provas que estabeleciam a validade de documentos de habilitações obtidas no estrangeiro, equivalentes às qualificações do ensino secundário indonésio, na altura em que Gibran se registou como candidato.
Os professores reconheceram também que o tribunal não impôs a desqualificação, o que atribuíram a questões de legitimidade processual e a limites procedimentais. A legitimidade processual determina se alguém tem o direito de apresentar determinado caso a um tribunal. Os limites procedimentais regem a forma e o momento em que um tribunal pode apreciar um litígio.
O fórum defende que um titular de um cargo público deve responder a questões sobre honestidade, responsabilidade pública e elegibilidade, mesmo quando um processo termina sem o afastar do cargo. Assim, o apelo pede a Gibran que tome uma decisão política pessoal, em vez de aguardar por um processo de destituição compulsiva.
Idrus Paturusi, professor da Universidade Hasanuddin e um dos promotores da carta, formulou o pedido de forma direta:
«Apelamos a Gibran para que se demita voluntariamente»,
O apelo pede a Gibran que se demita voluntariamente. Os professores apresentam esse pedido como um teste aos padrões exigidos nos mais altos cargos do Governo, em particular quando a confiança pública depende da exatidão dos documentos apresentados pelos candidatos.
A regra sobre habilitações no centro do processo
O antigo vice-ministro da Justiça e dos Direitos Humanos Denny Indrayana e outros 11 requerentes contestaram as eleições. A Comissão Geral de Eleições, ou KPU, foi a entidade demandada. A Agência de Supervisão Eleitoral, conhecida como Bawaslu, e a Perkumpulan Militan Gibran 08 Nusantara foram partes relacionadas.
Os requerentes invocaram o artigo 169.º, alínea r), da Lei n.º 7 de 2017 sobre as Eleições Gerais, que estabelece como requisito mínimo para os candidatos a presidente e vice-presidente terem concluído o ensino secundário ou equivalente. Alegaram que os candidatos têm de cumprir legalmente esse requisito tanto no momento do registo como quando as candidaturas são aprovadas.
O recurso contestou também o artigo 18.º, n.º 3, do Regulamento n.º 19 da KPU, de 2023. A disposição em causa permite que candidatos com comprovativos de conclusão do ensino superior avancem sem apresentar separadamente provas de conclusão do ensino secundário no estrangeiro ou equivalente.
Para os leitores que não estejam familiarizados com a equivalência de habilitações, a questão é saber como uma qualificação obtida no estrangeiro é reconhecida no sistema de ensino da Indonésia. Um documento que comprove a frequência, um certificado de conclusão e uma declaração oficial de reconhecimento de um nível de ensino equivalente respondem a diferentes questões administrativas. Os requerentes contestaram se os documentos aceites durante o registo de Gibran satisfaziam o requisito legal.
O litígio também faz referência a uma declaração do Ministério da Educação, emitida em 2019, sobre os estudos de Gibran na UTS Insearch, na Austrália. A declaração indicava que concluíra o 12.º ano e que possuía conhecimentos equivalentes aos de um diplomado de uma escola secundária profissional indonésia. Os críticos questionaram os documentos subjacentes a esse reconhecimento.
O que os requerentes pediram ao tribunal
Denny e os restantes requerentes pediram medidas que iam muito além de uma declaração sobre os requisitos de habilitações. Pediram ao Tribunal Constitucional que desqualificasse Gibran e anulasse as decisões da KPU relativas à sua candidatura e eleição.
Entre as decisões contestadas estavam a Decisão n.º 1632 da KPU, de 2023, que aprovou as candidaturas presidenciais, a n.º 1644, de 2023, que lhes atribuiu números de voto, a n.º 360, de 2024, que estabeleceu os resultados nacionais das eleições, e a n.º 504, de 2024, que declarou eleita a candidatura presidencial. O pedido dizia respeito a essas decisões na parte aplicável a Gibran.
Os requerentes pediram ainda o cancelamento da tomada de posse de Gibran como vice-presidente. Solicitaram uma ordem para que a Assembleia Consultiva Popular, conhecida como MPR, elegesse um substituto de entre dois candidatos propostos pelo presidente, no prazo de 60 dias após a decisão, invocando o artigo 8.º, n.º 2, da Constituição.
O prazo de 60 dias fazia parte das medidas pedidas pelos requerentes. Gibran não foi desqualificado, pelo que esse calendário proposto não se tornou um prazo para escolher um substituto. Posteriormente, os professores optaram por exigir a demissão através da carta aberta.
Como evoluiu o litígio
O processo judicial, o debate nas redes sociais e o apelo dos professores decorreram ao longo de várias semanas. A ordem dos acontecimentos é importante porque os dados das redes sociais que circulam atualmente foram recolhidos antes da carta de 19 de outubro.
- 21 de setembro de 2026: O tribunal realizou a audiência preliminar, na qual os requerentes apresentaram os seus argumentos e pediram medidas.
- 6 de outubro: O Tribunal Constitucional começou a ler a decisão no processo n.º 01/PHPU.PRES-XXIV/2026, presidido pelo presidente do tribunal, Suhartoyo, em Jacarta.
- 6–13 de outubro: A Drone Emprit analisou as discussões em linha sobre a polémica das habilitações e os apelos à destituição de Gibran.
- 19 de outubro: Os professores dataram a carta aberta em que pediam a demissão voluntária de Gibran.
- 21 de outubro: Hasto Kristiyanto, secretário-geral do PDIP, instou o presidente e os partidos com assento no parlamento a ouvirem o apelo. O analista político Muhammad Asratillah avaliou também os seus possíveis efeitos.
A sequência mostra como um litígio judicial se transformou num debate mais amplo sobre o exercício de cargos públicos. A carta dos professores acrescentou um apelo académico organizado após a decisão, enquanto políticos partidários e queixosos da sociedade civil avançavam com as suas próprias respostas.
PDIP pede uma resposta política
O Partido Democrático de Luta da Indonésia, conhecido como PDIP, confirmou que a sua direção nacional recebera a carta dos professores. O secretário-geral, Hasto Kristiyanto, instou Prabowo e os partidos políticos representados na DPR a ouvirem as exigências dos académicos.
Hasto falou na Sekolah Rakyat PDIP, em Jacarta do Sul, a 21 de outubro. Acusou os responsáveis pela candidatura de Gibran de terem abandonado a decência, a honestidade e o dever de dar o exemplo, alegando que os requisitos mínimos tinham sido impostos através da intervenção do poder político.
Os seus comentários levaram o apelo ao debate partidário, mas nessas declarações não anunciou qualquer calendário parlamentar. Idrus afirmou igualmente que os académicos não podiam dizer se a sua iniciativa avançaria na DPR.
O analista político Muhammad Asratillah descreveu a carta como uma intervenção de intelectuais preocupados com a ética democrática. Disse que a sua influência dependeria da qualidade dos argumentos, da exatidão dos factos e da base constitucional de quaisquer exigências.
Asratillah apontou três possíveis desenvolvimentos: um debate público mais amplo, uma explicação do Governo ou do vice-presidente, ou uma pressão política mais forte caso outras figuras públicas e grupos da sociedade civil se associassem ao apelo. Distinguiu a pressão exercida sobre um titular de um cargo dos procedimentos formais necessários para pôr fim ao mandato.
Polícia interroga queixosos sobre documento de equivalência
A agência de investigação criminal da polícia nacional da Indonésia, Bareskrim, também interrogou pessoas que apresentaram queixa por alegada falsificação de uma declaração que reconhecia as habilitações de Gibran como equivalentes a uma qualificação indonésia. A declaração é geralmente designada pela abreviatura indonésia suket, que significa certificado ou documento oficial.
Os investigadores interrogaram o queixoso Syamsuddin e, mais tarde, Riadi. Riadi afirmou ter respondido a cerca de 15 perguntas sobre o conteúdo da queixa, os motivos para a apresentar e a possibilidade de a iniciativa estar a ser dirigida por outros interesses.
Riadi negou que a sua queixa tivesse motivações políticas. Disse ter agido por preocupação com a Indonésia e com a ética na educação, e pediu à polícia que tratasse do assunto com profissionalismo.
A atividade policial descrita diz respeito ao interrogatório de queixosos sobre uma alegação. Os relatos não anunciaram qualquer decisão de acusação nem conclusões definitivas da polícia sobre a alegada falsificação. Para as pessoas envolvidas, o próximo desenvolvimento concreto será uma decisão oficial sobre a forma como os investigadores tencionam proceder.
Duas propostas opostas para os requisitos dos futuros candidatos
Ahmad Doli Kurnia, político do Golkar e membro da Comissão II da DPR, instou os deputados e o Governo a tornarem mais rigorosos e precisos os requisitos de habilitações para os candidatos presidenciais. Defende que a Lei Eleitoral especifique como devem ser verificadas as qualificações obtidas na Indonésia e no estrangeiro.
Doli defende que os requisitos de habilitações devem manter-se e podem ser reforçados. Na sua opinião, uma legislação mais pormenorizada daria à KPU uma base mais sólida para estabelecer regras técnicas e examinar os documentos dos candidatos, reduzindo os litígios sobre a aplicação dos requisitos.
O antigo juiz do Tribunal Constitucional Jimly Asshiddiqie propôs uma abordagem diferente: eliminar os requisitos relativos aos diplomas e fornecer aos eleitores informações claras sobre o percurso académico de cada candidato. Na sua proposta, caberia aos eleitores decidir se esse percurso torna um candidato apto para o cargo.
As duas propostas alterariam de formas diferentes as funções da KPU. Doli defende uma verificação mais exigente das qualificações antes de um candidato poder concorrer. Jimly prefere a divulgação de informação para que os eleitores possam fazer essa avaliação nas urnas. Ambas dizem respeito às regras de futuras eleições, enquanto a atual polémica se prende com os documentos aceites para as eleições de 2024.
O debate voltou também à decisão n.º 90/PUU-XXI/2023 do Tribunal Constitucional, relativa à idade mínima dos candidatos. Essa decisão abriu caminho à candidatura de pessoas com menos de 40 anos que tivessem exercido cargos eletivos regionais. Gibran tinha 36 anos quando se candidatou. O processo sobre as habilitações diz respeito a outra parte das regras de elegibilidade.
O que revelam os dados das redes sociais
A Drone Emprit analisou 59 615 menções no X, Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e Threads, bem como 9771 menções nos meios de comunicação em linha, entre 6 e 13 de outubro. A sua classificação das discussões no X revelou mais apoio às contestações a Gibran do que oposição.
Os dados do X incluíam 24 351 menções classificadas como favoráveis às contestações ou aos apelos à destituição, 5706 desfavoráveis e 4400 neutras. As percentagens indicadas foram 70,7%, 16,6% e 12,8%, respetivamente. O número de menções favoráveis foi cerca de 4,3 vezes superior ao das desfavoráveis, com base nos valores de 24 351 e 5706.
A categoria favorável incluía apelos à demissão voluntária, críticas a alegadas irregularidades na candidatura de Gibran e exigências de escrutínio parlamentar. A categoria desfavorável incluía argumentos em defesa do documento de equivalência do Ministério e acusações de que o litígio era motivado por hostilidade política.
Estas percentagens referem-se às menções classificadas no X durante o período de recolha, não a um inquérito aos eleitores indonésios. A recolha terminou seis dias antes da data da carta dos professores, situando os dados no debate anterior sobre o processo judicial.
O próximo desafio político de Gibran é saber se responderá às preocupações específicas dos professores sobre os documentos apresentados no registo da candidatura. Os próximos acontecimentos a acompanhar são uma resposta do seu gabinete ou da presidência, uma iniciativa parlamentar concreta ou um anúncio da polícia. Nos relatos sobre o apelo, não foi anunciada qualquer data para essas ações.
Pontos principais
- Um fórum que representa 150 professores universitários pediu a demissão voluntária de Gibran numa carta datada de 19 de outubro de 2026.
- O apelo foi dirigido ao presidente Prabowo Subianto e ao antigo presidente Joko Widodo.
- Os professores fundamentaram o seu argumento ético na interpretação de um processo do Tribunal Constitucional relativo aos requisitos de habilitações.
- Gibran não foi desqualificado e o prazo para escolher um substituto, pedido pelos requerentes, não entrou em vigor.
- O PDIP instou os líderes políticos a ouvirem o apelo, enquanto a polícia interrogou queixosos sobre uma alegada falsificação de documentos.
- Deputados e um antigo juiz do Tribunal Constitucional apresentaram propostas opostas para os requisitos de habilitações em futuras eleições.
- Os dados do X citados pela Drone Emprit abrangem o período de 6 a 13 de outubro, antes da carta dos professores.






