Presidente da Câmara de Seul vence recurso num caso que ameaçava o seu futuro político
O Tribunal Superior de Seul absolveu o presidente da Câmara, Oh Se-hoon, a 23 de outubro de 2026, revogando uma condenação relacionada com alegados pagamentos de 33 milhões de won por sondagens de opinião e aliviando a ameaça jurídica às suas perspetivas de concorrer às eleições presidenciais sul-coreanas de 2030. A equipa de procuradoria especial anunciou de imediato que pretende recorrer.
Índice
- Presidente da Câmara de Seul vence recurso num caso que ameaçava o seu futuro político
- Em que consistiam os pagamentos das sondagens
- Por que motivo o tribunal pôs em causa o testemunho de Myung
- Uma gravação e mensagens alteraram a avaliação
- Procuradores dizem que outras provas foram ignoradas
- Como o caso chegou a este ponto
- Por que razão a decisão é importante para o PPP
- Democratas exigem recurso e reforma judicial
- O mesmo coletivo julgou o recurso de Yoon relativo a sondagens
- Principais pontos
A Secção Criminal 7 do tribunal, presidida pelo juiz Koo Hoe-geun, rejeitou a decisão anterior, segundo a qual Oh recebera ilegalmente financiamento político antes das eleições para a Câmara de Seul, a 7 de abril de 2021. O antigo vice-presidente da Câmara de Seul Kang Cheol-won e Kim Han-jung, apoiante de Oh, que foram julgados juntamente com ele, também foram absolvidos.
Oh arriscava uma multa de 10 milhões de won e a perda de mais 21 milhões de won. Nos termos da Lei do Financiamento Político, uma multa definitiva de pelo menos 1 milhão de won por recebimento indevido de fundos políticos afastá-lo-ia do cargo e impedi-lo-ia de exercer funções públicas durante cinco anos. Isso deixá-lo-ia de fora da próxima eleição presidencial.
A decisão tem, por isso, consequências que vão muito além da fatura das sondagens em disputa. Oh garantiu por margem estreita o seu quinto mandato como presidente da Câmara de Seul em junho e é considerado um potencial candidato presidencial no seio do conservador Partido do Poder Popular (PPP), principal força da oposição ao Partido Democrático (PD) do presidente Lee Jae Myung.
O tribunal de recurso concluiu que os procuradores não tinham provado, para além de qualquer dúvida razoável, que Oh encomendara especificamente as sondagens e acordara pagá-las. A fundamentação centrou-se na fiabilidade do intermediário político Myung Tae-kyun, cujo testemunho estabelecia a ligação direta entre Oh e o alegado acordo.
Em que consistiam os pagamentos das sondagens
Os procuradores acusaram Oh de ter recebido resultados de sondagens de Myung em 10 ocasiões antes das eleições de 2021 e de ter combinado que Kim cobrisse 33 milhões de won em despesas, através de Kang. Três sondagens foram publicadas e sete não foram divulgadas.
As sondagens de opinião medem as preferências do público, questionando uma amostra de pessoas. Numa campanha, os resultados podem ajudar a identificar adversários, avaliar o apoio e decidir onde concentrar recursos. A disputa judicial dizia respeito à questão de saber se Oh solicitara esses serviços e combinara que um apoiante os pagasse como financiamento político.
Em julho, o tribunal de primeira instância deu como provadas as acusações relativas a cinco das 10 sondagens, num valor total de 21 milhões de won. Aplicou a multa de 10 milhões de won e ordenou a perda adicional desse montante. Assim, os 33 milhões de won mencionados na acusação e os 21 milhões de won considerados provados em julgamento abrangem parcelas diferentes do mesmo caso.
O tribunal de recurso aceitou que alguns resultados das sondagens chegaram à campanha de Oh e que Kim fez vários pagamentos a pessoas ligadas a Myung. Ainda assim, considerou que as provas eram insuficientes para demonstrar que Oh encomendara as sondagens e acordara os pagamentos. Para haver condenação criminal, os procuradores têm de provar os elementos essenciais da acusação para além de qualquer dúvida razoável, o que significa que as dúvidas sérias sobre esses elementos devem ser resolvidas a favor do arguido.
Por que motivo o tribunal pôs em causa o testemunho de Myung
Myung afirmou que Oh lhe telefonou quatro vezes a 22 de janeiro de 2021, pedindo uma sondagem que o colocasse à frente da adversária Na Kyung-won. O tribunal de recurso considerou o relato incoerente e incompatível com várias circunstâncias envolventes.
Na disputa de 2021, o apoio a Oh entre a população em geral era mais forte do que entre os membros do partido. O tribunal aceitou o argumento de Oh de que a sua posição eleitoral não lhe dava motivos para pedir o tipo de sondagem favorável descrito por Myung.
Kang Hye-kyung, que trabalhava na empresa de sondagens gerida por Myung, também testemunhou que uma sondagem que colocava Oh em primeiro lugar fora alterada para pôr Na à frente, alegadamente por instruções de Myung. O seu relato descreveu uma manipulação contra Oh, e não uma tentativa de produzir resultados que o favorecessem.
Os juízes tiveram em conta a própria declaração de Myung de que a primeira sondagem fora realizada para Kim Jong-in, então líder interino do PPP, e não encomendada por Oh. Analisaram também provas da deterioração das relações entre Myung e o círculo de Oh a partir de fevereiro de 2021, bem como o descontentamento de Myung por considerar que não recebera reconhecimento suficiente após as eleições.
O tribunal afirmou que Myung começou a apresentar alegações detalhadas sobre o financiamento político de Oh em dezembro de 2024, quando Oh anunciou que tencionava processá-lo. Considerou que o relato se tornou mais específico à medida que os investigadores apresentavam provas, o que aumentou as dúvidas quanto à sua fiabilidade.
Uma gravação e mensagens alteraram a avaliação
Uma gravação telefónica datada de 6 de março de 2021 tornou-se outro elemento importante do recurso. A conversa entre Myung e Kim indicava que fora Kang, e não Oh pessoalmente, quem os apresentara.
O tribunal teve em conta essa gravação ao avaliar a alegação de Myung de que Oh contactara diretamente Kim para lhe pedir que pagasse as sondagens. Na conversa, Kim disse que conhecera Myung através de Kang e que não recebera qualquer explicação direta do presidente da Câmara.
Os juízes analisaram também a relação entre Oh e Kim. Embora Kim apoiasse Oh desde que, em 2011, afixara voluntariamente faixas durante o referendo de Seul sobre refeições escolares gratuitas, não tinha qualquer cargo ou função formal na campanha de 2021.
Os registos de comunicações mostraram que Oh e Kim trocaram cinco mensagens de texto entre 1 de janeiro e 15 de abril de 2021. Depois de Kim ter aderido ao Telegram, em fevereiro, 16 das 18 mensagens que trocaram nessa aplicação foram enviadas por Kim. O tribunal considerou que a relação entre ambos não era suficientemente próxima para sustentar a versão da acusação de que Oh fizera um pedido direto de financiamento político ilegal.
Estes pormenores ajudam a explicar por que razão o recurso teve um desfecho diferente do primeiro julgamento. Os juízes confrontaram o testemunho em causa com conversas gravadas, funções na campanha e padrões de contacto, em vez de tomarem a duração do apoio de Kim como medida da proximidade a Oh.
Procuradores dizem que outras provas foram ignoradas
A equipa de procuradoria especial liderada por Min Joong-ki contestou a forma como o tribunal avaliou as provas. O procurador especial adjunto Park No-soo disse que a acusação se baseava em mais do que o testemunho de Myung e argumentou que o tribunal se concentrara demasiado na sua credibilidade.
Park citou uma conversa em que um responsável da campanha descreveu as sondagens em causa como tendo sido encomendadas pela campanha e afirmou que os resultados desfavoráveis tinham provocado grande agitação. Apontou também conversas sobre a forma como Kim conhecera Myung e notas de entrevistas elaboradas por um advogado enviado por Oh.
A divergência diz respeito tanto à fiabilidade do relato de Myung como ao peso das provas envolventes. O tribunal descreveu o seu testemunho como a única prova direta sobre os principais pontos em disputa; os procuradores afirmaram que mensagens, conversas e notas de entrevistas sustentavam as acusações e mereciam uma resposta mais aprofundada.
A equipa pretende levar o caso ao Supremo Tribunal. As disposições de tramitação acelerada previstas na Lei de Procuradoria Especial Kim Keon-hee poderão permitir uma decisão definitiva já em janeiro de 2027, embora ainda não tenha sido fixada uma data para a decisão do Supremo Tribunal.
Como o caso chegou a este ponto
A disputa remonta aos preparativos para as eleições de Seul de 2021 e prolongou-se até ao recurso, julgado depois de Oh ter conquistado outro mandato como presidente da Câmara. Várias datas ajudam a perceber como os calendários judicial e eleitoral se cruzaram.
- 22 de janeiro de 2021: Myung alegou que Oh lhe telefonou quatro vezes a pedir uma sondagem favorável; o tribunal de recurso rejeitou o relato por não ser fiável.
- 6 de março de 2021: Myung e Kim tiveram a conversa gravada sobre a forma como se conheceram.
- 7 de abril de 2021: realizaram-se as eleições para a Câmara de Seul, antes das quais foram fornecidas as sondagens em disputa.
- Dezembro de 2024: segundo o tribunal de recurso, Myung começou a fazer alegações detalhadas sobre Oh depois de o presidente da Câmara anunciar que tencionava processá-lo.
- Junho de 2026: Oh venceu por margem estreita o seu quinto mandato como presidente da Câmara, enquanto o processo prosseguia.
- Julho de 2026: o tribunal de primeira instância aplicou uma multa de 10 milhões de won e ordenou a perda de 21 milhões de won.
- 23 de outubro de 2026: o Tribunal Superior de Seul revogou a condenação e absolveu Oh e os dois coarguidos.
- Janeiro de 2027: ao abrigo do calendário acelerado, poderá haver uma decisão do Supremo Tribunal já neste mês.
Oh chegou ao Tribunal Superior de Seul, no distrito de Seocho, por volta das 13h30, antes da leitura da sentença, marcada para as 14h00. Disse que, durante o recurso, tinham sido apresentadas provas favoráveis e decisivas que não estavam disponíveis no primeiro julgamento.
Questionado sobre a decisão iminente, o presidente da Câmara de Seul, Oh Se-hoon, respondeu brevemente:
Vamos aguardar o resultado do julgamento.
Após a absolvição, Oh pediu desculpa por ter comparecido perante os procuradores e os tribunais, prometeu exercer as suas funções públicas com maior cuidado e agradeceu aos residentes de Seul que confiaram nele e votaram para o manter no cargo durante o processo.
Por que razão a decisão é importante para o PPP
A absolvição de Oh dá ao PPP uma base mais sólida para o considerar um potencial candidato presidencial, em vez de um presidente da Câmara cujo direito a exercer o cargo poderia em breve cessar. A sua vitória por margem estreita em junho já dera aos conservadores um resultado de destaque, numa eleição em que o partido sofreu perdas mais amplas.
Oh tem sido um crítico veemente das políticas de habitação da administração Lee, um tema politicamente sensível, associado à descida dos índices de aprovação do presidente nos últimos meses. A manutenção do cargo permite-lhe continuar a contestar o Governo a partir de um cargo executivo para o qual foi eleito.
A decisão poderá também reforçar a sua posição num partido em que a sua influência tem sido relativamente limitada. O líder do PPP, Jang Dong-hyeok, enfrenta uma disputa interna por se recusar a romper com o antigo presidente Yoon Suk Yeol e pelo seu papel na derrota eleitoral de junho.
Alguns deputados e comentadores políticos esperam que o reforço da posição de Oh contribua para os esforços de substituir Jang. O deputado independente Han Dong-hoon, antigo líder do PPP e outro possível candidato presidencial conservador, poderá beneficiar de uma cooperação com Oh em torno da liderança do partido. Essa cooperação continua a ser uma possibilidade política, não um acordo anunciado.
A reação imediata do partido centrou-se na administração de Seul. Park Choong-kwon, principal porta-voz do PPP, saudou a decisão num comentário:
É um grande alívio e, ao mesmo tempo, simplesmente o que é justo: que a administração da cidade, confiada ao presidente da Câmara Oh Se-hoon por dez milhões de residentes de Seul, possa prosseguir sem interrupções.
Para os residentes, a consequência imediata é a continuidade na presidência da Câmara enquanto o processo judicial avança para uma decisão definitiva. Para o PPP, a disputa a mais longo prazo é saber quem liderará o partido e, eventualmente, enfrentará o PD no Governo.
Democratas exigem recurso e reforma judicial
O PD reagiu com dureza. O porta-voz sénior Park Sung-joon afirmou que o tribunal de recurso rejeitara acusações relativas a pagamentos que o tribunal de primeira instância considerara financiamento político ilegal.
Park Sung-joon, em representação do partido no Governo, associou a decisão à agenda de reforma judicial do partido:
Esta decisão desafia o bom senso.
Servirá de catalisador para a reforma judicial.
O líder parlamentar do PD, Han Byung-do, também manifestou pesar e instou a equipa de procuradoria especial a recorrer de imediato. Park comparou o coletivo de juízes a uma «máquina de venda automática» de absolvições, apontando para a decisão de absolver Yoon noutro processo relacionado com sondagens, no início de outubro.
Os riscos políticos já eram evidentes antes do recurso de Oh. Em setembro, o líder do PD, Kim Min-seok, foi fotografado a consultar um bloco de notas com uma lista de cinco possíveis candidatos, incluindo ele próprio, para uma eleição destinada a substituir Oh. A absolvição de sexta-feira desviou a atenção dessa possibilidade e voltou a centrá-la no futuro de Oh.
O mesmo coletivo julgou o recurso de Yoon relativo a sondagens
O coletivo presidido pelo juiz Koo revogara outra condenação de destaque a 7 de outubro, absolvendo Yoon num processo separado ao abrigo da Lei do Financiamento Político, também relacionado com Myung. A acusação dizia respeito a 58 sondagens, avaliadas em 274,4 milhões de won, realizadas antes das eleições presidenciais de 2022.
A sentença de Yoon em primeira instância fora de dois anos de prisão. Em sede de recurso, o coletivo considerou insuficientes as provas de um acordo entre Myung e Yoon ou a sua mulher para encomendar ou receber as sondagens sem pagamento. A fundamentação também abordou a questão de saber se as sondagens constituíam um benefício financeiro.
Os dois casos levaram as atividades de sondagem do mesmo intermediário ao mesmo tribunal de recurso num intervalo de 16 dias. O caso de Oh dizia respeito a um alegado acordo para que um apoiante pagasse as sondagens; o de Yoon, a sondagens alegadamente fornecidas gratuitamente.
Koo, de 58 anos, tornou-se juiz em 1996 e integrou o Tribunal Superior de Seul em 2019. Entre as suas decisões anteriores contam-se uma multa de 500 000 won, em 2010, a Lee, então candidato à presidência da Câmara de Seongnam, por violação da lei eleitoral, e uma decisão de 2023 que ordenou ao Japão o pagamento de 200 milhões de won por requerente num processo apresentado por 16 sobreviventes da escravatura sexual em tempo de guerra e seus familiares.
Para Oh, o ganho imediato é a anulação da condenação em primeira instância que ameaçava o seu cargo e a sua elegibilidade eleitoral. O próximo passo jurídico é o recurso previsto para o Supremo Tribunal; a oportunidade política consiste em transformar a elegibilidade recuperada numa maior influência no campo conservador.
Principais pontos
- O Tribunal Superior de Seul absolveu Oh Se-hoon a 23 de outubro de 2026, revogando a sua condenação ao abrigo da Lei do Financiamento Político.
- As acusações envolviam 10 sondagens e pagamentos de 33 milhões de won; o tribunal de primeira instância considerara provadas acusações relativas a cinco sondagens, no valor de 21 milhões de won.
- O tribunal de recurso considerou pouco fiável o testemunho central de Myung Tae-kyun e insuficientemente provado o alegado acordo.
- A equipa de procuradoria especial pretende recorrer, argumentando que outras provas sustentavam a acusação.
- Ao abrigo das disposições de tramitação acelerada, poderá haver uma decisão definitiva já em janeiro de 2027.
- A absolvição reforça a posição de Oh como possível candidato do PPP às eleições presidenciais de 2030.






