Escassez de gás no mercado interno põe renovações das exportações sob escrutínio
A Indonésia está a ponderar se deve renovar as exportações de gás para países vizinhos, numa altura em que as fábricas nacionais enfrentam restrições no abastecimento e os atuais contratos de importação com Singapura se aproximam do fim, no final de 2028. O ministro da Energia e dos Recursos Minerais, Bahlil Lahadalia, levantou essa possibilidade a 21 de outubro de 2026 e, no dia seguinte, alargou o aviso a países que acusou de não respeitarem a Indonésia.
Índice
- Escassez de gás no mercado interno põe renovações das exportações sob escrutínio
- Um aviso mais abrangente sobre o respeito entre países
- A Indonésia já ponderou redirecionar este gás
- O que incluem os contratos em vigor até 2028
- Natuna permite manter as exportações e abastecer Samatra
- Fábricas descrevem escassez de volumes e custos mais elevados
- A nova produção em Kalimantan Oriental é central para o plano
- Negociações sobre eletricidade acrescentam outro ponto de tensão
- Como se chegou a este ponto
- Pontos principais
Singapura recebeu 3,22 milhões de toneladas de gás natural indonésio em 2025, segundo a Agência Central de Estatística da Indonésia. A relação comercial inclui contratos de fornecimento por gasoduto com a Gas Supply Pte Ltd, conhecida como GSPL, e a SembCorp Gas, pelo que as decisões sobre futuras entregas indonésias terão consequências para compradores e produtores.
Bahlil, que também exerce funções de ministro coordenador da indústria transformadora e da transição energética, falou após uma reunião do Conselho de Ministros em Jacarta. Relacionou possíveis mudanças com a instrução do presidente Prabowo Subianto para proteger os recursos naturais e dar prioridade às necessidades internas.
Bahlil explicou o seu raciocínio após a reunião de 21 de outubro:
Também estou talvez a ponderar não prolongar as exportações de gás para países vizinhos, porque temos de sobreviver e satisfazer as necessidades internas.
Não foi anunciada qualquer decisão final nem uma data de aplicação, e Bahlil não identificou qualquer país ou contrato específico nas suas declarações de 21 e 22 de outubro. O prazo comercial imediato, identificado pelo vice-primeiro-ministro de Singapura, Gan Kim Yong, no Parlamento, em setembro de 2025, é o final de 2028, quando expiram os atuais contratos de importação de gás indonésio.
Um aviso mais abrangente sobre o respeito entre países
As declarações de Bahlil, a 22 de outubro, acrescentaram uma condição diplomática ao argumento do abastecimento interno. Durante a inauguração de instalações de produção de gás associadas a Jangkrik North East 6 e ao campo de Maha, em Kalimantan Oriental, afirmou que os acordos energéticos poderiam ser reavaliados caso os parceiros não cooperassem.
O ministro, que é também presidente do Partido Golkar, descreveu a possível resposta:
Vou fazer uma avaliação. Não hesitarei em ponderar a suspensão das exportações para países que não respeitem a Indonésia.
Bahlil afirmou também que os desacordos devem ser resolvidos através do diálogo e do respeito mútuo. A Indonésia continuaria disponível para celebrar acordos de exportação com países que a tratassem como igual, incluindo países sem contratos em vigor. A sua posição mantém aberta a possibilidade de exportações, mas atribui maior peso à avaliação do Governo sobre cada relação.
As instruções de Prabowo ao Conselho de Ministros abrangiam uma agenda económica mais ampla. O presidente apelou a grandes poupanças orçamentais, à unidade nacional e à proteção contra a perda de riqueza natural. As suas declarações abordaram o contrabando de estupefacientes, estanho, ouro, carvão, madeira, combustíveis e fertilizantes. Bahlil afirmou que os ministérios devem traduzir essa orientação em programas concretos e agir rapidamente, dentro da lei.
A Indonésia já ponderou redirecionar este gás
O Ministério da Energia e dos Recursos Minerais da Indonésia anunciou, em fevereiro de 2020, que o fornecimento por gasoduto a Singapura seria interrompido em 2023, para que o gás pudesse abastecer clientes nacionais. O comunicado de 2020 sobre o fornecimento de gás do ministério identificou cerca de 300 milhões de pés cúbicos padrão por dia provenientes do bloco Corridor, então gerido pela ConocoPhillips.
Fansurullah Asa, então diretor da Agência Reguladora do Petróleo e do Gás a Montante, conhecida como BPH Migas, afirmou que as autoridades procuravam mercados nacionais para o fornecimento redirecionado. Arifin Tasrif, então ministro da Energia, tinha dito ao Parlamento que o gás de Samatra deveria ser redirecionado quando terminassem os acordos com Singapura.
A proposta era concreta: transportar o gás pelos gasodutos Duri-Dumai até zonas industriais de Samatra. O preço industrial previsto era de 6 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas, ao abrigo do Regulamento Presidencial n.º 40 de 2016 sobre os preços do gás natural. Uma unidade térmica britânica mede energia, pelo que este preço descreve o custo da energia contida no gás.
O ministério identificou também as infraestruturas de apoio, incluindo o gasoduto de transporte Dumai-KEK Seimangke e redes de distribuição. As empresas tinham proposto 193 zonas de redes de distribuição. As autoridades esperavam que a substituição de combustíveis petrolíferos por gás apoiasse a produção industrial e reduzisse o défice comercial.
Posteriormente, o Governo optou por prolongar o acordo, em vez de pôr fim ao fornecimento em 2023, como previsto. Este historial enquadra o debate atual: Jacarta tem procurado repetidamente reservar mais gás para os consumidores nacionais, mantendo ao mesmo tempo algumas exportações.
O que incluem os contratos em vigor até 2028
A Indonésia anunciou em 2022 que as vendas a Singapura seriam prolongadas por mais cinco anos, para além de 2023. Arifin afirmou que a Indonésia ainda tinha fornecimento disponível e que Singapura tinha solicitado a continuação das entregas. Em 2023, a SKK Migas, a agência que supervisiona as atividades de exploração e produção de petróleo e gás, registou a prorrogação do contrato da GSPL até 2028.
A SKK Migas indicou entregas à GSPL de 160 mil milhões de unidades térmicas britânicas por dia em 2023 e de 180 mil milhões por dia entre 2024 e 2028. Estes valores medem o conteúdo energético diário. Outros contratos usam milhões de pés cúbicos padrão por dia, abreviados como MMSCFD, uma medida do volume de gás em condições padrão.
Durante as negociações de 2022, o então presidente da SKK Migas, Dwi Soetjipto, afirmou que o volume renovado seria cerca de 30 a 40 por cento inferior ao do contrato anterior. Atribuiu a redução ao aumento da procura por parte dos produtores de fertilizantes e das zonas industriais de Java Ocidental. Disse também que o novo preço de venda era mais favorável, devido à forte procura mundial de gás.
Os registos contratuais da SKK Migas de 2020 descreviam pelo menos três acordos de fornecimento a Singapura, com volumes combinados de cerca de 700 MMSCFD. Os registos indicavam que, nessa altura, a Indonésia representava quase 60 por cento do abastecimento de gás de Singapura.
O acordo da GSPL era abastecido por campos geridos pela ConocoPhillips Grissik, atualmente Medco E&P Grissik, e pela PetroChina. Os contratos da SembCorp Gas envolviam campos associados à Medco Natuna, à Premier Oil e à Star Energy, incluindo um acordo separado com a Premier Oil. Os contratos da SembCorp também estavam previstos até 2028.
Natuna permite manter as exportações e abastecer Samatra
O presidente da SKK Migas, Djoko Siswanto, apresentou outra abordagem em abril de 2025: reduzir o gás enviado de Samatra para Singapura e aumentar as entregas a partir de Natuna. O objetivo era disponibilizar a produção de Samatra aos clientes nacionais, mantendo o abastecimento contratado a Singapura.
Djoko identificou a distribuidora estatal de gás PGN e a empresa estatal de eletricidade PLN como destinatárias do gás redirecionado. Afirmou que o ministro tinha assinado o acordo. Estava prevista, a partir de junho de 2025, uma redução de cerca de 30 MMSCFD no fluxo de exportação de Samatra.
Na altura, Djoko afirmou que as necessidades internas estavam asseguradas em abril e maio e que ainda não era necessário importar gás natural liquefeito. O GNL é gás natural arrefecido até se tornar líquido, para poder ser transportado por navio. As possíveis compras aos Estados Unidos continuavam em avaliação, enquanto a Indonésia dava prioridade ao abastecimento interno de GNL.
As infraestruturas de exportação de Natuna têm uma longa história. A SembCorp Gas começou por receber cerca de 100 MMSCFD do mar de Natuna Ocidental, em julho de 2001, ao abrigo de um acordo de venda que previa até 325 MMSCFD. Entre os campos de abastecimento estavam South Natuna Sea Block B, Kakap e Natuna Sea Block A.
A rede também enfrentou interrupções operacionais. Uma paragem inesperada em Anoa, a 21 de julho de 2021, seguida de trabalhos de manutenção programados em Gajah Baru, a 23 de julho, reduziu a pressão no gasoduto e as entregas a Singapura. Anoa retomou a atividade a 28 de julho, e a SKK Migas anunciou, no dia 29, que o fluxo contratado total, de cerca de 300 MMSCFD, tinha sido restabelecido.
Fábricas descrevem escassez de volumes e custos mais elevados
Os fabricantes indonésios deram uma explicação mais imediata para a pressão no sentido de reservar gás para o mercado interno. Yustinus Gunawan, presidente do Fórum dos Utilizadores Industriais de Gás Natural, afirmou que a PGN restringiu o abastecimento a partir de 14 de setembro de 2026, para cerca de 78 por cento dos volumes mínimos contratados. O período de controlo abrangeu de 1 a 30 de setembro.
Um nível de entrega de 78 por cento significa que os clientes receberam cerca de 22 por cento menos do que o volume mínimo especificado nos contratos. Yustinus afirmou que a utilização da capacidade industrial estava limitada a 80 por cento, e que alguns fabricantes estavam a reduzir a produção e a começar a despedir trabalhadores.
As empresas de cerâmica e vidro estão particularmente expostas, porque utilizam fornos e processos de funcionamento contínuo. Segundo Yustinus, interrupções abruptas podem danificar equipamentos e reduzir a produção. Por isso, a fiabilidade das entregas é tão importante como o preço pago por cada unidade de energia.
Yustinus afirmou que o abastecimento ao abrigo do programa de preços industriais de gás designados em Java Ocidental atingiu apenas cerca de 88 a 90 por cento das quotas previstas na Decisão n.º 281.K/2026 do Ministério da Energia. Referiu também custos mais elevados em agosto: 40 por cento do gás foi vendido a 13 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas e 60 por cento a 15,60 dólares.
Fajriyah Usman, secretária-geral da PGN, afirmou que o abastecimento a montante era insuficiente para satisfazer plenamente as necessidades dos clientes. Descreveu os controlos de distribuição como medidas temporárias para proteger a fiabilidade da rede e manter as entregas a todos os clientes. As restrições variavam consoante o abastecimento disponível em cada período, acrescentou.
Saleh Husin, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria da Indonésia para a indústria, congratulou-se com a possibilidade de suspender as exportações. Afirmou que os utilizadores nacionais de gás tinham dificuldade em garantir o abastecimento e defendeu que dar-lhes prioridade poderia apoiar a indústria transformadora, a produção de maior valor acrescentado e o emprego.
A nova produção em Kalimantan Oriental é central para o plano
Bahlil associou o aviso sobre as exportações aos planos de aumentar a produção de gás a partir de projetos em Kalimantan Oriental. Os acréscimos de Jangkrik foram estimados em cerca de 290 MMSCFD, com novos volumes previstos para o final de outubro de 2026. A inauguração abrangeu o poço Jangkrik North East 6 e instalações de produção associadas a Maha e South Hub.
Ao falar dos projetos, Bahlil referiu uma produção atual de cerca de 750 MMSCFD. O objetivo a mais longo prazo para os campos operados pela Eni e pelos seus parceiros era de cerca de 3 mil milhões de pés cúbicos padrão por dia, o equivalente a 3.000 MMSCFD, até 2029. Também apontou 2028 a 2029 como período-alvo.
O objetivo é quatro vezes superior ao valor de 750 MMSCFD referido na discussão sobre o projeto. Alcançá-lo daria à Indonésia mais gás para distribuir, embora, segundo Bahlil, os utilizadores nacionais tivessem prioridade antes de se destinar uma parte à exportação.
O Governo planeia também criar um centro de transformação petroquímica em Kalimantan Oriental, utilizando o gás como matéria-prima. Neste contexto, o gás serve para produzir bens industriais, em vez de ser utilizado apenas como combustível. A proposta liga a nova produção à pasta de Bahlil para a indústria transformadora, centrada no processamento de recursos em produtos de maior valor.
Negociações sobre eletricidade acrescentam outro ponto de tensão
A Indonésia e Singapura estão a negociar o comércio de eletricidade, além da relação no setor do gás. A 19 de outubro, Bahlil afirmou que as conversações sobre exportação de eletricidade não tinham chegado a acordo devido a divergências sobre os preços. A 7 de outubro, tinha defendido a revisão dos acordos para que a Indonésia obtivesse maiores benefícios económicos e tivesse voz na definição dos preços e no desenvolvimento dos projetos.
A Autoridade do Mercado da Energia de Singapura concedeu licenças condicionais a seis projetos indonésios de importação de eletricidade, com uma capacidade combinada de 3 gigawatts. Os dois países trabalham para desenvolver pelo menos 3,4 gigawatts de projetos de eletricidade que os liguem até 2035.
A capacidade abrangida pelas seis licenças condicionais corresponde a cerca de 88 por cento do objetivo de 3,4 gigawatts. A aprovação condicional é uma etapa do processo de desenvolvimento; as entregas de eletricidade continuam dependentes do avanço dos projetos e da definição dos termos comerciais.
O negócio do gás da Indonésia estende-se também muito para além de Singapura. Os dados de 2025 da Agência Central de Estatística indicam exportações de 3,8 milhões de toneladas para o Japão, 3,79 milhões de toneladas para a China e 2,27 milhões de toneladas para a Coreia do Sul. A Tailândia recebeu cerca de 291.000 toneladas e as Filipinas cerca de 138.000 toneladas.
Estes destinos ajudam a explicar por que razão as declarações mais abrangentes de Bahlil sobre os acordos energéticos são relevantes para toda a região. O prazo contratual de 2028 para Singapura dá aos seus compradores um horizonte de planeamento concreto, enquanto a Indonésia pondera as receitas de exportação face às necessidades das fábricas, dos produtores de eletricidade e das novas indústrias transformadoras.
Como se chegou a este ponto
As decisões da Indonésia oscilaram entre propostas para pôr fim às exportações, reduções nos volumes contratuais e alterações nos campos que abastecem as exportações. As principais datas mostram como a procura interna se manteve no centro do debate:
- Fevereiro de 2020: O Ministério da Energia anunciou planos para pôr fim ao fornecimento por gasoduto a Singapura em 2023 e redirecionar o gás para a indústria nacional.
- 2022 a 2023: Em vez disso, a Indonésia acordou uma prorrogação até 2028, com volumes reduzidos no contrato renovado da GSPL.
- Abril de 2025: A SKK Migas apresentou planos para redirecionar gás de Samatra para a PGN e a PLN a partir de junho, aumentando ao mesmo tempo o abastecimento de Natuna a Singapura.
- Setembro de 2026: Os utilizadores industriais denunciaram restrições nas entregas, e a PGN reconheceu que o abastecimento a montante era insuficiente.
- 21 de outubro de 2026: Bahlil levantou a possibilidade de não renovar as exportações de gás, na sequência das instruções de Prabowo ao Conselho de Ministros.
- 22 de outubro de 2026: Bahlil alargou o aviso aos parceiros energéticos que considerava não cooperantes, deixando aberta a possibilidade de novos acordos.
- 2028 a 2029: Os contratos existentes com Singapura chegam ao fim e está previsto um aumento substancial da produção em Kalimantan Oriental.
Para os fabricantes indonésios, a prioridade prática é receber gás suficiente e de forma regular para manter a produção. Para os compradores de Singapura, a aproximação do fim dos contratos traz para primeiro plano as negociações de renovação. Os planos de produção da Indonésia e a sua capacidade para encaminhar gás para os clientes nacionais determinarão a margem disponível para satisfazer ambas as necessidades.
Pontos principais
- A Indonésia está a ponderar não renovar as exportações de gás, dando prioridade ao abastecimento interno.
- Bahlil não identificou qualquer país nos avisos de 21 e 22 de outubro.
- Os atuais contratos de importação de gás indonésio com Singapura expiram no final de 2028.
- Os utilizadores industriais denunciaram restrições no abastecimento em setembro de 2026; a PGN descreveu os controlos como temporários.
- Planos anteriores procuraram substituir as exportações de Samatra por gás de Natuna, redirecionando o abastecimento de Samatra para clientes nacionais.
- Os projetos de Kalimantan Oriental têm como objetivo atingir cerca de 3.000 MMSCFD até 2029, a par dos planos para a transformação petroquímica no mercado interno.
- As negociações com Singapura sobre exportações de eletricidade continuam sem acordo devido a divergências sobre os preços.






