Indonésia prepara uma revisão profunda da Lei do Cinema enquanto Jacarta procura atrair a Netflix e produções internacionais

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Indonesia Prepares Film Law Overhaul as Jakarta Courts Netflix and Global Productions

A ambição de criar um polo cinematográfico cruza-se com uma revisão da legislação nacional

A Indonésia está a preparar uma revisão da sua Lei do Cinema para apresentar uma proposta em 2027, enquanto Jacarta procura atrair produções internacionais. O vice-governador Rano Karno afirma que a Netflix tem agora quatro títulos em produção através do serviço Filming in Jakarta, da cidade. A iniciativa conjunta vai além de atrair equipas de filmagem: procura mudar a forma como os filmes são financiados, como os trabalhadores são protegidos e como o cinema indonésio é preservado.

Índice
  1. A ambição de criar um polo cinematográfico cruza-se com uma revisão da legislação nacional
  2. O que mudaria com a revisão da lei
  3. Porque é difícil obter empréstimos com direitos cinematográficos como garantia
  4. Jacarta reúne as produções num único ponto de contacto
  5. Estúdios e incentivos são o próximo desafio
  6. A cimeira junta localizações e financiamento
  7. Levar os filmes indonésios para além do mercado nacional
  8. Trabalhadores e património cinematográfico entram na reforma
  9. Fazer chegar os benefícios ao público e às regiões
  10. Pontos-chave

O Ministério Coordenador do Desenvolvimento Humano e dos Assuntos Culturais, conhecido como Kemenko PMK, definiu o objetivo legislativo no seu comunicado sobre a revisão da Lei do Cinema. Numa reunião de coordenação a 7 de abril de 2026, o ministério afirmou que o Ministério da Cultura e o Ministério da Economia Criativa estavam a preparar uma proposta de lei e o respetivo estudo académico de apoio, para apresentação em 2027.

Fauzan Zidni, presidente da Agência Indonésia do Cinema (BPI), quer que a revisão atribua poderes à sua organização por via legislativa e lhe reserve financiamento. Jacarta, por sua vez, está a oferecer acesso mais barato a algumas localizações, a desenvolver parcerias internacionais e a planear estúdios e outras instalações para os próximos três a cinco anos.

As produções indonésias já atraem um vasto público nacional. Segundo Zidni, representaram cerca de 67% das receitas de bilheteira do país em 2025, aproximadamente dois terços do total. O crescimento em 2026 está a ser mais lento, num contexto de pressões económicas globais. O desafio passa agora por transformar essa força junto do público em financiamento fiável, carreiras duradouras e maior distribuição internacional.

O que mudaria com a revisão da lei

A Lei n.º 33 de 2009 relativa ao Cinema continua a ser a base da regulamentação do setor cinematográfico na Indonésia. Substituiu a Lei n.º 8 de 1992, promulgada em março de 1992. A retoma dos esforços de revisão foi anunciada em outubro de 2025, e desde o início de 2026 decorre um processo intensivo de elaboração do projeto, que envolve a BPI, o Instituto de Censura Cinematográfica e a Kemenko PMK.

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Ahmad Saufi, secretário-adjunto da Kemenko PMK para a promoção e preservação da cultura, afirmou que a revisão deve equilibrar a cultura e a economia criativa. Entre as prioridades declaradas pelo ministério estão a simplificação das licenças, o reforço dos dados e do financiamento e a adaptação das regras ao uso crescente de tecnologias digitais no setor.

A BPI reúne atualmente organizações, defende os interesses do setor e coordena atividades. Segundo Zidni, não pode financiar filmes de forma independente nem exigir alterações nas políticas. Pretende uma instituição com recursos fiáveis e competências mais claras, comparável, na sua função, a entidades de apoio ao cinema como o CNC francês, o KOFIC sul-coreano e a IMDA de Singapura.

O cinema é tutelado por dois ministérios, e Zidni afirma que a BPI não pretende substituir nenhum deles. Descreve a coordenação como parte da própria reforma:

Esse problema de coordenação é tanto político como institucional, e resolvê-lo faz parte do trabalho.

O objetivo do governo para 2027 diz respeito à apresentação da proposta legislativa. Não foi indicada uma data para a sua aprovação parlamentar. Entretanto, Judi Wahjudin, responsável do Ministério da Cultura, descreveu o processo de elaboração como participativo, com contributos de profissionais do setor e de outras partes interessadas, após mais de uma década de experiência com a lei atual.

Porque é difícil obter empréstimos com direitos cinematográficos como garantia

O Regulamento Governamental n.º 24 de 2022 já permite o financiamento baseado na propriedade intelectual. Para os cineastas, a propriedade intelectual inclui direitos de autor e direitos de transmissão ou distribuição de um filme. Esses direitos podem gerar receitas quando o filme chega às salas de cinema, à televisão ou aos serviços de streaming.

Os bancos, porém, concedem frequentemente empréstimos com base em ativos físicos, como terrenos, edifícios e maquinaria. Uma garantia é um bem que o credor pode reclamar se o mutuário não pagar o empréstimo. Uma produtora pode deter direitos cinematográficos valiosos e, ainda assim, possuir poucos bens que um banco aceite como garantia.

Zidni afirma que faltam um método de avaliação aceite pelos bancos e pela Autoridade dos Serviços Financeiros (OJK), orientações técnicas da OJK e uma revisão do Regulamento OJK n.º 40 de 2019 sobre a qualidade dos ativos. Avaliar significa estimar o valor de um ativo, uma tarefa difícil quando as receitas futuras dependem do público e dos acordos de venda.

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A Jakarta Film Summit está a reunir a OJK, o Ministério da Economia Criativa, a Direção-Geral da Propriedade Intelectual, bancos e a Associação Indonésia de Avaliadores. O trabalho proposto abrange um método-padrão para avaliar direitos cinematográficos, um projeto-piloto de financiamento e as alterações regulamentares necessárias para o pôr em prática.

Para um produtor, o benefício concreto seria poder obter empréstimos garantidos pelos direitos que a empresa detém. Para isso, credores, avaliadores e reguladores têm de chegar a acordo sobre a forma de avaliar esses direitos e os riscos que lhes estão associados.

Jacarta reúne as produções num único ponto de contacto

A Jakarta Film Commission foi lançada em junho, em conjunto com o Filming in Jakarta, um serviço criado para concentrar num único local as autorizações e o apoio à produção. Karno afirma que, desde então, empresas da Malásia e da Índia se deslocaram à capital para filmar longas-metragens e séries.

As quatro produções da Netflix seguem-se a Tygo, um filme derivado da franquia Extraction da plataforma. Karno afirma ainda que um memorando de entendimento associado à primeira Jakarta Film Summit prevê o apoio da Netflix ao desenvolvimento de talentos locais na área do cinema.

O governador Pramono Anung apontou Busan como referência para as ambições de Jacarta. A cidade sul-coreana combina um importante festival internacional de cinema com instituições do setor e atividade de produção. Jacarta procura estabelecer uma ligação semelhante entre a produção cinematográfica, o financiamento e o acesso a compradores.

Na abertura da cimeira, Pramono descreveu a posição que pretende que Jacarta alcance:

Tenho grandes esperanças de que a nossa equipa tome medidas concretas e com impacto. Espero que, um dia, mencionar Jacarta evoque o mesmo estatuto cinematográfico que Busan.

Busan já é um parceiro ativo. Karno atribui à Busan Film Commission a ajuda para a comissão de Jacarta obter a adesão oficial à AFCNet, a Rede Asiática de Comissões Cinematográficas. Jacarta está também a procurar formas de cooperação com delegados turcos e com o British Council, alargando os seus contactos para além das empresas de streaming.

Estúdios e incentivos são o próximo desafio

Jacarta reduziu em 50% certas taxas de utilização de localizações e introduziu uma redução fiscal de 50% sobre as entradas de cinema para filmes indonésios que cumpram os requisitos. As medidas incidem sobre custos distintos: uma beneficia produções que utilizem localizações elegíveis; a outra diz respeito ao imposto aplicado às entradas elegíveis.

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Karno afirma que os incentivos à produção ainda estão numa fase inicial e que Jacarta está a estudar os modelos da Tailândia e da Malásia. Ao longo de cinco anos, a cidade pretende reforçar toda a cadeia, da produção ao financiamento e ao acesso aos mercados. As maiores lacunas em termos de infraestruturas são os estúdios, os palcos de filmagem e as instalações de pós-produção, que a cidade pretende colmatar no prazo de três a cinco anos.

Um palco de filmagem é um espaço fechado onde os cineastas podem controlar a iluminação, o som e os cenários. A pós-produção abrange o trabalho realizado depois das filmagens, incluindo a montagem, o som e os efeitos visuais. Estas instalações ajudam a determinar quanto do investimento numa produção e do trabalho especializado pode permanecer na cidade.

Pramono invocou a economia e a rede de transportes de Jacarta para convencer os produtores. Referiu um crescimento económico de 5,52%, uma inflação de 2,7% e uma cobertura de 93% pelos transportes públicos. Mencionou também a subida do 17.º para o 15.º lugar dos transportes públicos no Oxford Economics Global Cities Index 2026.

Iwan Setiawan, responsável do Banco da Indonésia, associou a produção cinematográfica às oportunidades para empresas locais, hotéis e operadores logísticos. Uma produção que se desloca à cidade precisa de muito mais do que atores e câmaras: necessita também de alojamento, transportes, alimentação e serviços que liguem a atividade de filmagem a outros setores da economia.

A cimeira junta localizações e financiamento

A Jakarta Film Summit 2026 decorre de 20 a 22 de outubro, com mais de 500 participantes de 10 países e 40 oradores. Organizada pela Jakarta Film Commission em conjunto com a BPI, conta também com a participação do governo provincial e do Banco da Indonésia. O programa reúne responsáveis públicos e instituições financeiras com investidores, plataformas de streaming e profissionais do cinema.

As sessões abordam políticas de produção, licenças, incentivos, investimento e cooperação no Sudeste Asiático. O programa de 21 de outubro centra-se na preparação de projetos para obter financiamento, no papel dos bancos e na utilização de dados sobre o público para avaliar o risco do investimento.

No dia 22 de outubro, o Jakarta Scouting Day leva comissários de cinema e produtoras ao Pasar Rumput, ao porto de Muara Angke, à Kota Tua e ao miradouro Bundaran HI Skydeck. Está também prevista uma sessão entre Jacarta e Hong Kong para explorar formas de cooperação entre as duas cidades.

Os marcos legislativos e do setor estendem-se por vários anos:

  • 2022: O Regulamento Governamental n.º 24 permite o financiamento baseado na propriedade intelectual.
  • 2024: A Indonésia assina o seu primeiro acordo de coprodução audiovisual, com os Países Baixos, no JAFF Market.
  • Outubro de 2025: É anunciada a retoma dos esforços para rever a Lei do Cinema de 2009.
  • 7 de abril de 2026: A Kemenko PMK realiza uma reunião de coordenação sobre a revisão e define 2027 como prazo para a apresentação da proposta.
  • 20 a 22 de outubro de 2026: A Jakarta Film Summit aborda políticas, financiamento e localizações.
  • 2030: Termina o mandato de Zidni na BPI, data-limite para concretizar os seus objetivos institucionais.
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Levar os filmes indonésios para além do mercado nacional

A quota de cerca de 67% das receitas de bilheteira na Indonésia dá aos filmes locais uma posição forte no mercado nacional. A preocupação de Zidni é saber como chegar a públicos de outros países. A BPI está a desenvolver relações mais estreitas com agentes de vendas internacionais, a alargar a distribuição no Sudeste Asiático e a estudar uma presença conjunta de produtores indonésios nos principais mercados de cinema.

O Ministério da Cultura anunciou um novo fundo internacional de coprodução na Lumière Summit, criado com o apoio do CNC francês. Está aberto a cineastas de todo o mundo que trabalhem com parceiros indonésios. A coprodução permite que parceiros de diferentes países juntem dinheiro, talento e outros recursos num projeto.

Um fundo de cofinanciamento distinto atribui verbas públicas, até um limite por projeto, quando os produtores conseguem obter financiamento internacional. Zidni reconhece que os produtores sem contactos no estrangeiro continuam a ter dificuldade em dar esse primeiro passo. Defende que uma contribuição concreta do governo lhes dá um incentivo mais forte para estabelecer essas relações.

O acordo audiovisual de 2024 entre a Indonésia e os Países Baixos oferece uma parceria já existente sobre a qual se pode construir, enquanto prosseguem as conversações com a França. Zidni vê também interesse por parte de produtores coreanos que procuram oportunidades no Sudeste Asiático.

O investimento das plataformas de streaming continua a ser bem-vindo, mas a BPI quer abrir mais caminhos para chegar ao público. Zidni, que trabalhou anteriormente na Disney, aponta para a retração das plataformas globais relativamente a produções originais no Sudeste Asiático depois de 2023:

Uma plataforma pode mudar a sua estratégia de conteúdos, sair de um mercado ou dar menos prioridade aos conteúdos indonésios, e nós não temos qualquer recurso.

A resposta que propõe passa por desenvolver uma rede mais ampla de compradores e relações de distribuição, para que os produtores indonésios tenham mais destinos onde apresentar os seus filmes.

Trabalhadores e património cinematográfico entram na reforma

Segundo Zidni, há cursos de cinema em 27 universidades na Indonésia, que formam cerca de 1200 diplomados por ano. Afirma que a maioria não é absorvida pelo setor e estima a rotatividade no setor em cerca de 60%. Formar mais pessoas é, por isso, apenas parte do desafio: também é importante mantê-las no setor e ligar a formação ao emprego.

A proposta de revisão criaria obrigações básicas para as entidades empregadoras e reforçaria a educação, o desenvolvimento de competências e a proteção de trabalhadores vulneráveis, incluindo crianças intérpretes. Zidni afirma que a lei criaria um quadro de referência, em vez de fixar as remunerações das equipas, deixando os termos comerciais específicos para negociação entre empresas e profissionais.

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As Normas Nacionais de Competências Profissionais da Indonésia já abrangem profissões como a realização, a representação e a direção artística. Estas normas descrevem as competências exigidas para cada profissão. As disposições propostas para os trabalhadores abordariam as responsabilidades nas relações laborais, a par das competências profissionais.

A preservação cinematográfica é outra questão central na elaboração da revisão. Numa conversa que assinalou os 101 anos do nascimento do cineasta e escritor Asrul Sani, Zidni defendeu a criação de uma instituição de preservação para ajudar a salvaguardar a obra dos cineastas indonésios. Referiu a dificuldade de dar a conhecer figuras culturais importantes aos jovens quando os seus filmes não estão acessíveis.

Judi Wahjudin, responsável do Ministério da Cultura, enquadrou o cinema na Lei n.º 5 de 2017 relativa à Promoção da Cultura. A sua posição associa o cinema à expressão cultural, à diplomacia e à identidade nacional. Assim, o objetivo da revisão vai além do sucesso comercial dos novos filmes e inclui também a preservação e a acessibilidade de obras antigas.

Fazer chegar os benefícios ao público e às regiões

A iniciativa Jaksinema, em Jacarta, leva salas de cinema aos mercados públicos e oferece bilhetes mais baratos, dirigidos a pessoas com rendimentos baixos e médios. A par dos esforços para atrair produções, aborda outra dimensão do setor: a possibilidade de os residentes terem meios para ver filmes.

Karno quer também que Jacarta funcione como porta de entrada para filmagens noutras partes da Indonésia. Numa declaração após a cimeira, a 20 de outubro, afirmou que quase 91 sultões e representantes de casas reais de todo o país tinham visitado a cidade e manifestado interesse na Jakarta Film Commission, incluindo na possibilidade de atrair filmagens para as suas regiões.

A cooperação da cidade com a representação de Jacarta do Banco da Indonésia e os convites a cineastas de fora da capital enquadram-se nessa ambição mais ampla. Os gastos de produção poderão chegar a mais comunidades se as ligações internacionais de Jacarta conduzirem a filmagens, serviços e parcerias noutros locais.

Zidni definiu três objetivos para o fim do seu mandato, em 2030: a entrada em vigor de pelo menos dois tratados bilaterais de coprodução, um sistema de financiamento com atividade efetivamente concretizada e a participação regular de produtores indonésios nos principais mercados internacionais. Descreve assim o padrão que pretende que o trabalho da BPI alcance:

Quando o sistema funcionar com regularidade, sem depender de esforços extraordinários, saberei que construímos algo duradouro.

Pontos-chave

  • O governo está a preparar uma revisão da Lei do Cinema para apresentar uma proposta em 2027, sem anunciar uma data para a aprovação parlamentar.
  • A BPI pretende obter competências legais mais claras e financiamento próprio, enquanto a proposta aborda também os trabalhadores e a preservação cinematográfica.
  • Jacarta afirma que quatro títulos da Netflix estão em produção através do Filming in Jakarta.
  • A cidade pretende colmatar, no prazo de três a cinco anos, as lacunas em estúdios, palcos de filmagem e instalações de pós-produção.
  • As conversações sobre financiamento cinematográfico centram-se em métodos de avaliação da propriedade intelectual aceites, orientações da OJK e alterações regulamentares.
  • Fundos internacionais, parcerias de distribuição e acordos de coprodução procuram alargar o alcance do cinema indonésio para além do seu forte público nacional.
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