O teste financeiro vai além dos títulos civis de Myanmar
O plano de ação contra o branqueamento de capitais de Myanmar, ainda por concluir, remonta a fevereiro de 2020, antes de os militares tomarem o poder, e o prazo terminou em setembro de 2021. Anos depois, o Grupo de Ação Financeira Internacional continua a exigir provas de que as autoridades investigam património suspeito, instauram processos compatíveis com os riscos de criminalidade do país e confiscam os lucros ilícitos.
Índice
- O teste financeiro vai além dos títulos civis de Myanmar
- O que a lista negra exige aos bancos
- Como foram sendo adiados os prazos
- Regras melhores e aplicação eficaz são tarefas distintas
- O poder militar tem remodelado repetidamente a riqueza privada
- As reformas bancárias interrompidas pelo golpe
- A inflação transfere o peso para os aforradores
- Os centros de fraude colocam a aplicação da lei sob escrutínio
- Proteger os pagamentos legítimos e perseguir o dinheiro do crime
- Principais pontos
A declaração de fevereiro de 2026 do organismo de supervisão manteve Myanmar sob vigilância reforçada, o que implica controlos mais rigorosos das operações financeiras. Indicou que seriam ponderadas contramedidas caso o país não registasse mais progressos até junho de 2026. Não há aqui registo de uma decisão posterior que resolva esse aviso, pelo que o resultado dessa avaliação permanece incerto.
Este escrutínio financeiro decorre em paralelo com o esforço de Min Aung Hlaing para ser aceite como presidente, depois de ter liderado o golpe de 1 de fevereiro de 2021. A sua eleição por um parlamento dominado pelos militares mudou o cargo que ocupa, enquanto as questões económicas dizem respeito a quem controla os bancos, quem beneficia da subida dos preços dos imóveis e se os investigadores conseguem seguir o rasto do dinheiro até pessoas poderosas.
Para as famílias comuns, estas questões são imediatas. Três meses após o golpe, um banco em Sittwe permitia que apenas 50 clientes por dia levantassem o seu próprio dinheiro. Desde então, os preços dos apartamentos em condomínio em Yangon duplicaram aproximadamente, em parte porque os compradores procuravam proteger-se da inflação. Os aforradores com dificuldade em aceder a dinheiro e os proprietários que veem os imóveis valorizar-se têm vivido versões muito diferentes da mesma economia.
O que a lista negra exige aos bancos
Myanmar foi incluído na lista do GAFI de jurisdições de alto risco sujeitas a um apelo à ação em 21 de outubro de 2022, na sequência de uma reunião plenária em Paris, realizada nos dias 20 e 21 de outubro. O país juntou-se ao Irão e à Coreia do Norte, embora as medidas financeiras aplicadas aos três países sejam diferentes.
A declaração do GAFI de fevereiro de 2026 apela à aplicação de contramedidas contra o Irão e a Coreia do Norte. Myanmar continua na categoria que exige diligência reforçada. Os bancos que operam com Myanmar têm de intensificar a monitorização para identificar atividades invulgares ou suspeitas, ajustando o rigor dos controlos ao nível de risco.
A diligência reforçada pode implicar mais perguntas sobre a identidade de um cliente, a origem dos fundos, a finalidade de um pagamento e as pessoas que, em última instância, são proprietárias de uma empresa. As contramedidas constituem uma resposta mais forte e podem incluir restrições às relações financeiras. A declaração de fevereiro não decide ainda qualquer pacote futuro para Myanmar.
Uma análise da Asia Pacific Foundation sobre a designação de 2022 explicou que o escrutínio e a comunicação adicionais poderiam desencorajar empresas e instituições financeiras de fazer negócios em Myanmar. Registou também a resposta do banco central, segundo a qual Myanmar se encontrava numa situação diferente da do Irão e da Coreia do Norte.
A análise da fundação indicou que Yangon e Ayeyarwady receberam 70 por cento do investimento que entrou em Myanmar no início desse ano fiscal. Esta concentração ajuda a explicar por que razão as restrições financeiras podem ter efeitos desiguais no país, onde o investimento e o acesso à banca formal já se encontram distribuídos de forma desigual.
Como foram sendo adiados os prazos
O processo do GAFI começou com deficiências identificadas na avaliação mútua de Myanmar de 2018. As autoridades acordaram um plano de ação em fevereiro de 2020, durante o mandato do governo eleito, mas o plano continuava por concluir após o prazo de setembro de 2021.
A declaração de outubro de 2025 do organismo de supervisão, publicada a 24 de outubro, após a reunião plenária de 22 a 24 de outubro, reconheceu que Myanmar melhorara a gestão dos bens apreendidos, preservando o seu valor até ao confisco. Considerou lento o progresso e alertou que poderiam ser ponderadas contramedidas em fevereiro de 2026. A declaração de fevereiro adiou posteriormente esse aviso para junho.
- 2018: Uma avaliação mútua identificou fragilidades nas salvaguardas financeiras de Myanmar.
- Fevereiro de 2020: Myanmar comprometeu-se com um plano de ação.
- 1 de fevereiro de 2021: Os militares derrubaram o governo eleito.
- Setembro de 2021: O prazo do plano de ação terminou.
- 21 de outubro de 2022: Myanmar foi incluído na lista do GAFI de países de alto risco.
- 24 de outubro de 2025: O GAFI manteve os controlos reforçados e alertou para a possibilidade de contramedidas em fevereiro de 2026.
- 13 de fevereiro de 2026: Os controlos reforçados foram mantidos, com junho de 2026 indicado como próximo prazo para uma possível escalada.
Segundo o GAFI, Myanmar tem de concluir todo o plano de ação para sair da lista de países sujeitos a um apelo à ação. A avaliação centra-se, portanto, no trabalho ainda por fazer, não numa mudança de título do governo.
Regras melhores e aplicação eficaz são tarefas distintas
Myanmar melhorou partes do seu quadro jurídico e regulamentar. A página do GAFI que apresenta o relatório de acompanhamento de 2024 regista sete recomendações consideradas conformes, 19 maioritariamente conformes e 14 parcialmente conformes.
Estes números colocam 26 das 40 recomendações, ou 65 por cento, nas duas categorias superiores. Duas recomendações, as de número 7 e 25, passaram de não conformes a parcialmente conformes. Estas classificações avaliam a conformidade técnica, incluindo a existência das regras e instituições exigidas.
O plano de ação de fevereiro de 2026 exige resultados concretos em quatro áreas: utilização mais eficaz da informação financeira, investigações e processos judiciais compatíveis com os riscos de branqueamento de capitais, cooperação internacional em casos transfronteiriços e aumento do congelamento, apreensão e confisco de bens de origem criminosa.
A informação financeira consiste em analisar dados como comunicações de transações suspeitas para identificar possíveis atividades criminosas. O congelamento impede que um bem seja transferido ou vendido; a apreensão coloca-o sob controlo oficial; o confisco retira-o definitivamente ao proprietário por via judicial.
As autoridades de Myanmar afirmaram ter concluído 13 das 15 medidas do plano de ação. A declaração do GAFI de fevereiro continua, ainda assim, a indicar as quatro áreas que exigem trabalho. A questão central para os bancos e investigadores é saber se as transações suspeitas dão origem a processos e se esses processos conduzem à recuperação dos lucros do crime.
O poder militar tem remodelado repetidamente a riqueza privada
Os problemas financeiros de Myanmar inserem-se numa história muito mais longa de controlo militar da vida económica. O general Ne Win tomou o poder em 2 de março de 1962, detendo o primeiro-ministro eleito e dirigentes étnicos que se reuniam em Rangum para discutir propostas de uma união federal.
O cancelamento de notas em 1987 eliminou cerca de 80 por cento do dinheiro em circulação. As famílias que detinham as notas afetadas perderam as suas poupanças de um momento para o outro, demonstrando como decisões tomadas ao mais alto nível podiam destruir a riqueza das famílias.
Durante o governo do general Than Shwe, 782 empresas públicas foram vendidas abaixo do valor de mercado, sobretudo a famílias militares e empresários com ligações ao poder. Sob Min Aung Hlaing, 55 das 107 fábricas de um departamento ministerial foram transferidas para compradores privados, incluindo conglomerados militares. Isso representa pouco mais de metade das fábricas do departamento.
Entre 1988 e 2011, os governos militares atribuíam normalmente mais de 40 por cento do orçamento à defesa e apenas 1 a 2 por cento à educação. Essas escolhas canalizavam recursos públicos para as forças armadas, deixando às escolas uma parcela muito menor.
A preocupação económica recorrente é concreta: o controlo dos bens públicos, do crédito bancário e da despesa do Estado pode dar a proprietários ligados ao poder oportunidades que não estão ao alcance dos cidadãos comuns. Seguir o rasto dos verdadeiros proprietários por detrás das empresas e das transações imobiliárias é, por isso, essencial para perceber para onde foi a riqueza.
As reformas bancárias interrompidas pelo golpe
Sean Turnell, o economista que aconselhou o governo da Liga Nacional para a Democracia de Aung San Suu Kyi, descreveu em termos incisivos a relação entre os bancos privados e os grupos empresariais com ligações ao poder.
pouco mais do que caixas de dinheiro das empresas
Os grandes devedores renovavam repetidamente empréstimos garantidos por terrenos. A partir de 2017, o banco central da era civil passou a exigir que os bancos classificassem os empréstimos segundo normas internacionais, convertessem os descobertos bancários prolongados em empréstimos com obrigações de reembolso e mantivessem capital adequado.
O capital bancário é a almofada financeira que absorve perdas quando os devedores não pagam. O Fundo Monetário Internacional alertou que as reformas estavam a revelar um aumento dos empréstimos malparados e níveis de capital já frágeis. A pandemia adiou o prazo de cumprimento para 2023.
O golpe interrompeu esse esforço de reforma. Turnell foi detido poucos dias depois e passou 650 dias na prisão. Mais tarde, afirmou acreditar que um núcleo de conglomerados com ligações ao poder fora cúmplice da tomada do poder, uma alegação que coloca os interesses dos grandes devedores no centro do debate mais amplo sobre quem beneficiou do golpe.
Para quem tem depósitos bancários, a preocupação prática é saber se os bancos reconhecem as perdas com transparência e mantêm recursos suficientes para satisfazer os levantamentos. Auditorias independentes ajudariam a apurar a situação das carteiras de crédito e a exposição dos depósitos públicos aos grandes devedores e ao financiamento do governo.
A inflação transfere o peso para os aforradores
O Banco Mundial descreveu os défices de Myanmar desde 2021 como sendo financiados sobretudo através da criação de moeda pelo banco central e, mais recentemente, por meio da detenção de depósitos públicos pelos bancos comerciais. Estes canais ligam a despesa do governo ao valor do dinheiro e à utilização das poupanças das famílias.
A inflação pode reduzir o peso de uma dívida de valor fixo, ao mesmo tempo que corrói o poder de compra do dinheiro. Um devedor continua a dever o mesmo número de kyats, mas esses kyats compram menos. O benefício depende dos rendimentos do devedor e da sua capacidade de pagar; uma empresa em dificuldades pode continuar a falir.
Um exemplo ilustrativo considera um empréstimo de 10 mil milhões de kyats, equivalente a cerca de 7,5 milhões de dólares em 2020. Às taxas de câmbio usadas no exemplo, o seu valor desce para cerca de 4,8 milhões de dólares à taxa oficial ou 2,2 milhões à taxa de mercado, enquanto o terreno que serve de garantia duplica aproximadamente de preço. O exemplo descreve um mecanismo, não as contas de uma empresa identificada.
A taxa de câmbio oficial é fixada pelas autoridades, enquanto a taxa de mercado reflete o preço praticado nas transações de mercado. A diferença entre ambas explica por que razão a mesma dívida em kyats pode corresponder a valores em dólares muito diferentes. O montante a reembolsar em moeda nacional mantém-se nos 10 mil milhões de kyats.
Os aforradores, trabalhadores e pensionistas enfrentam o outro lado da inflação. Os preços subiram para perto ou acima de 20 por cento durante anos, a par de choques nos preços dos combustíveis, da guerra e do terramoto de 2025. Segundo os dados divulgados, cerca de 16,4 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar nacional de pobreza, enquanto a deslocação de cerca de 3,5 milhões de pessoas aumentou a pressão sobre a habitação em cidades como Yangon.
As autoridades alargaram também uma amnistia fiscal introduzida em 2019, cobrando apenas 3 por cento sobre dinheiro não declarado utilizado para comprar imóveis ou veículos. Estes mecanismos tornam especialmente importantes os controlos sobre a origem do dinheiro: pagar impostos e investigar se os fundos provêm de atividades criminosas são tarefas distintas.
Os centros de fraude colocam a aplicação da lei sob escrutínio
A economia de fraude nas zonas fronteiriças de Myanmar constitui um teste direto às exigências do GAFI em matéria de investigação, cooperação internacional e recuperação de bens. Os militares apresentaram a operação de outubro de 2025 em KK Park, perto de Myawaddy, como uma ação repressiva, seguida da demolição de edifícios.
Após as demolições de KK Park, as estimativas continuavam a apontar para 50 000 a 100 000 pessoas em centros de fraude na região de Myawaddy. Os militares tinham anunciado 2 198 detenções em KK Park e planos para demolir 148 edifícios, enquanto trabalhadores fugiam através do rio Moei para a Tailândia.
As consequências internacionais tornaram-se visíveis quando a Índia começou a repatriar cidadãos que tinham escapado a 6 de novembro de 2025. Um primeiro voo transportou 270 pessoas a partir de Mae Sot. Faziam parte de um grupo de 465 titulares de passaporte indiano que chegaram à Tailândia depois de fugirem do complexo.
Mais tarde, as autoridades de Myanmar divulgaram números mais abrangentes para a região de Myawaddy: 14 730 estrangeiros detidos e 13 553 deportados. Disseram que 662 pessoas estavam a ser processadas por infrações à legislação da imigração e por crimes relacionados com drogas. Estes números abrangem uma operação mais vasta do que a contagem anterior de detenções em KK Park.
O trabalho financeiro exige identificar os organizadores, seguir os pagamentos e recuperar os lucros do crime além-fronteiras. Os investigadores têm também de distinguir as pessoas que dirigem redes de fraude dos trabalhadores traficados através de falsas ofertas de emprego e forçados a cometer burlas.
Jay Kritiya, ativista contra o tráfico de seres humanos, descreveu o tipo de responsabilização que se pretende para os responsáveis pelas redes.
têm de ser detidos e processados, e todos os seus bens têm de ser apreendidos.
Proteger os pagamentos legítimos e perseguir o dinheiro do crime
O GAFI exige explicitamente a proteção da ajuda humanitária, da atividade legítima de organizações sem fins lucrativos e das remessas, o dinheiro que as pessoas que trabalham no estrangeiro enviam para casa. A declaração de fevereiro destaca também a ajuda às vítimas do terramoto e alerta contra o escrutínio excessivo de fluxos financeiros legítimos.
O GAFI, organismo intergovernamental que define estas normas, afirma que esses fluxos devem ser protegidos quando os países aplicam controlos reforçados.
nem interrompidos nem desencorajados
Para as famílias, essa proteção significa manter abertos os canais legais para receber dinheiro destinado a alimentação, renda e cuidados médicos. Para as organizações de ajuda, significa poder pagar aos funcionários, comprar bens e prestar assistência, cumprindo ao mesmo tempo os controlos financeiros adequados.
Os apelos a medidas mais firmes têm-se centrado em instituições controladas pelo regime, incluindo o Myanma Foreign Trade Bank e o Myanma Investment and Commercial Bank, sancionados pelo Tesouro dos EUA em 2023. Outras propostas defendem a divulgação dos verdadeiros proprietários de imóveis e concessões, auditorias bancárias independentes e proteção prioritária para os pequenos depositantes.
O envolvimento diplomático avança a par destas exigências. Durante a visita de Min Aung Hlaing à Malásia, a 7 e 8 de outubro de 2026, reuniu-se com o primeiro-ministro Anwar Ibrahim e falou perante líderes empresariais. A Malásia apoiou uma participação mais plena de Myanmar na ASEAN, enquanto negociava o regresso de cidadãos de Myanmar.
O reconhecimento, o investimento e o acesso a bancos estrangeiros são importantes para a liderança e a elite empresarial de Myanmar. As exigências enunciadas pelo GAFI são claras: investigar o branqueamento de capitais em função do risco, cooperar internacionalmente, recuperar bens de origem criminosa e preservar os pagamentos legítimos. O cumprimento destas exigências teria impacto tanto na segurança do sistema financeiro como na sobrevivência quotidiana das pessoas que dele dependem.
Principais pontos
- Myanmar foi incluído na lista do GAFI de países de alto risco em outubro de 2022, depois de não ter concluído um plano de ação acordado em fevereiro de 2020.
- A declaração de fevereiro de 2026 manteve a diligência reforçada e indicou junho de 2026 como prazo para ponderar contramedidas.
- O GAFI exige investigações e processos judiciais mais robustos, cooperação internacional e recuperação de bens de origem criminosa.
- A avaliação técnica de 2024 classificou 26 das 40 recomendações como conformes ou maioritariamente conformes.
- A inflação, a deslocação de pessoas e a subida dos custos da habitação têm pressionado as famílias, enquanto alguns proprietários e devedores beneficiaram.
- O GAFI exige salvaguardas para a ajuda humanitária, a atividade legítima de organizações sem fins lucrativos, as remessas e a ajuda às vítimas de terramotos.






