Sharif repete aviso sobre a água durante visita às Maldivas
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, avisou na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, que o seu país consideraria qualquer violação indiana do Tratado das Águas do Indo um acto de guerra, reacendendo o confronto em torno dos rios que abastecem a maior parte das culturas paquistanesas. As declarações foram feitas em Islamabad, após conversações com o Presidente das Maldivas, Dr. Mohamed Muizzu.
Índice
- Sharif repete aviso sobre a água durante visita às Maldivas
- O que o tratado estipula
- Pode algum dos países suspender o acordo unilateralmente?
- Como evoluiu o confronto
- Porque está o Paquistão tão vulnerável
- Quanta água poderia a Índia reter?
- Porque são importantes o momento das descargas e os dados de alerta
- O que exigem as regras para as barragens
- Os mecanismos jurídicos continuam a fazer parte do diferendo
- Pontos-chave
A Índia anunciou em abril de 2025 que suspendia a aplicação do acordo, na sequência de um ataque de militantes perto de Pahalgam, na Caxemira administrada pela Índia, que matou pelo menos 26 pessoas. Nova Deli responsabilizou o Paquistão, que negou qualquer envolvimento. Islamabad sustenta que a Índia não pode suspender o tratado unilateralmente.
Sharif, numa declaração conjunta à imprensa com Muizzu, descreveu a água como uma linha vermelha para o Paquistão e reiterou uma posição que, segundo afirmou, já tinha apresentado em fóruns internacionais, incluindo na Assembleia Geral das Nações Unidas no mês anterior.
A nossa posição é clara. A água é vital para a humanidade, sobretudo para os países situados a jusante», afirmou o primeiro-ministro. «Que todos saibam que qualquer violação neste domínio será considerada pelo Paquistão um acto de guerra.
O Paquistão é o país situado a jusante neste diferendo, ou seja, recebe a água dos rios depois de esta atravessar território indiano a montante. Esta geografia torna o momento das descargas, a operação das albufeiras e a informação sobre os caudais previstos elementos centrais para a segurança hídrica paquistanesa.
Nova Deli não respondeu de imediato às declarações de Sharif. O confronto reúne três questões distintas: o que o tratado exige juridicamente, o que as barragens da Índia podem fazer na prática e em que medida o Paquistão depende de abastecimentos de água previsíveis.
O que o tratado estipula
O Banco Mundial mediou o acordo, assinado em Carachi a 19 de setembro de 1960. A Série de Tratados das Nações Unidas publica o Tratado das Águas do Indo e os seus anexos pormenorizados. O artigo XII atribui-lhe efeitos retroactivos a partir de 1 de abril de 1960.
O tratado divide os seis rios principais em dois grupos. A Índia tem o uso prioritário dos rios orientais: Ravi, Beas e Sutlej. O Paquistão recebe as águas dos rios ocidentais — Indo, Jhelum e Chenab —, sem prejuízo dos usos indianos especificados.
O artigo III obriga a Índia a deixar correr as águas dos rios ocidentais, permitindo, no entanto, o uso doméstico, os usos que não consumam a água, determinados usos agrícolas e a produção hidroeléctrica prevista nos anexos. O artigo III também limita o armazenamento de água e a construção de estruturas de armazenamento, com as excepções previstas nos anexos D e E.
David Michel, investigador sénior de segurança hídrica no Center for Strategic and International Studies, explica na sua análise de maio de 2025 que os rios ocidentais transportam cerca de 80% do caudal médio anual do sistema do Indo. A atribuição abrange, por isso, a maior parte da água da bacia, e não uma divisão igual entre os seis rios.
Pode algum dos países suspender o acordo unilateralmente?
O artigo XII determina que as disposições do tratado podem ser alteradas através de um tratado devidamente ratificado pelos dois governos. Estipula também que o acordo permanece em vigor até ser denunciado por outro tratado devidamente ratificado entre ambos. Estas cláusulas estão no centro da contestação paquistanesa ao anúncio unilateral da Índia.
A Índia descreveu a decisão de abril de 2025 como uma suspensão da aplicação do tratado, ou seja, uma interrupção temporária da sua execução. A análise de Michel regista a condição anunciada por Nova Deli: o Paquistão teria de abandonar, de forma credível e irrevogável, o apoio ao terrorismo além-fronteiras. O Paquistão rejeita a acusação de base.
Sharif, primeiro-ministro paquistanês, afirmou em Islamabad que as obrigações do tratado e os recursos partilhados devem ser protegidos de pressões políticas.
«A posição do Paquistão é inequívoca e não deixa margem para dúvidas: os tratados juridicamente vinculativos têm de ser respeitados e os recursos hídricos partilhados nunca devem ser instrumentalizados nem usados como meio de pressão política ou chantagem», afirmou.
O anúncio da Índia, em abril, foi a primeira suspensão declarada por qualquer dos dois países. O aviso do Paquistão associa agora directamente o diferendo em torno do tratado à segurança nacional, embora o próprio acordo estabeleça procedimentos para resolver divergências quanto à sua interpretação e aplicação.
Como evoluiu o confronto
O aviso mais recente surge na sequência de um diferendo que se agravou em abril de 2025. As principais datas mostram como a resposta a um ataque se transformou num desacordo prolongado sobre direitos à água e obrigações previstas no tratado.
- 1 de abril de 1960: data a partir da qual o tratado produziria efeitos retroactivos.
- 19 de setembro de 1960: a Índia e o Paquistão assinaram o acordo em Carachi, após mediação do Banco Mundial.
- 22 de abril de 2025: militantes atacaram turistas perto de Pahalgam, matando pelo menos 26 pessoas. A análise de Michel identifica a Frente da Resistência como responsável pelo ataque.
- Abril de 2025: a Índia anunciou que suspendia a aplicação do tratado. O Paquistão rejeitou a decisão e negou envolvimento no ataque.
- Setembro de 2026: Sharif afirmou ter exposto a posição paquistanesa sobre a água na Assembleia Geral das Nações Unidas.
- 21 de outubro de 2026: Sharif reiterou, ao lado de Muizzu em Islamabad, o aviso de que uma violação seria considerada um acto de guerra.
O Paquistão também acusou a Índia de avançar com projectos de expansão de albufeiras e de desvio de água que violam o acordo. Responsáveis paquistaneses afirmam ter observado flutuações invulgares nos caudais dos rios nos últimos meses. As declarações mais recentes não apresentaram medições, identificaram projectos ou divulgaram registos operacionais que explicassem essas flutuações.
Porque está o Paquistão tão vulnerável
A agricultura representa 94% das captações de água do Paquistão, e o sistema do Indo irriga mais de 90% das culturas do país, segundo a análise de Michel de maio de 2025. Uma captação é água retirada de um rio, de uma albufeira ou de reservas subterrâneas para uso agrícola, doméstico ou industrial.
A mesma análise atribui à agricultura 22,9% do produto interno bruto do Paquistão e 37,4% do emprego. Estes valores ligam directamente a gestão dos rios aos rendimentos agrícolas, ao emprego e à produção alimentar. As alterações na disponibilidade de água podem ter consequências muito para além dos campos irrigados.
Carachi e Lahore também dependem do Indo ou de reservas de água subterrânea reabastecidas pelo sistema fluvial. Michel estima que nove em cada dez paquistaneses vivem na bacia do Indo, enquanto mais de três quartos da água renovável disponível anualmente no país provêm do exterior, quase inteiramente através do Indo.
O Paquistão dispõe de reservas limitadas para enfrentar uma escassez prolongada. Em conjunto, as albufeiras da bacia do Indo armazenam menos de 10% dos caudais anuais dos rios, escreve Michel. Assim, o país depende fortemente da continuidade do abastecimento quando as famílias, os agricultores e os operadores do sector eléctrico precisam de água.
Quanta água poderia a Índia reter?
A avaliação de Michel, publicada a 1 de maio de 2025, concluiu que a Índia não tinha infra-estruturas para impedir, a curto prazo, que as águas do Indo chegassem ao Paquistão. A construção de barragens, albufeiras e canais de desvio capazes de redireccionar volumes substanciais demoraria anos. Os projectos hidroeléctricos então em desenvolvimento tinham prazos de conclusão que se estendiam até 2032 ou mais tarde.
A análise estima em cerca de 182 quilómetros cúbicos o caudal médio anual que atravessa os seis rios da Índia para o Paquistão, incluindo mais de 170 quilómetros cúbicos pelos rios ocidentais. O limite de armazenamento permitido à Índia nos rios ocidentais é de 3,6 milhões de acre-pés, ou aproximadamente 4,4 quilómetros cúbicos.
O volume de armazenamento permitido equivale a cerca de 2,4% dos 182 quilómetros cúbicos que atravessam a fronteira anualmente. Esta comparação relaciona um limite de armazenamento com o caudal total de um ano: uma albufeira retém água num dado momento, enquanto o rio transporta água nova ao longo do ano. Ajuda a perceber a dimensão das infra-estruturas necessárias para controlar um sistema fluvial tão vasto.
Himanshu Thakkar, especialista regional em recursos hídricos da South Asia Network on Dams, Rivers and People, descreveu as limitações das infra-estruturas em abril de 2025.
«As infra-estruturas que a Índia possui são, na sua maioria, centrais hidroeléctricas a fio de água, que não precisam de grandes reservas», afirmou.
Estas centrais produzem electricidade sobretudo fazendo passar a água corrente por turbinas, em vez de a armazenarem em enormes albufeiras. O tratado também permite determinadas estruturas de armazenamento ao abrigo do anexo E, com limites à sua capacidade, concepção e operação.
Porque são importantes o momento das descargas e os dados de alerta
A preocupação mais imediata do Paquistão pode ser o momento em que a água chega, sobretudo durante os períodos secos. Um atraso nas descargas tem maior impacto quando os caudais naturais já são baixos e os agricultores dispõem de pouca água para irrigação.
Hassan F Khan, professor auxiliar de Política Ambiental Urbana e Estudos Ambientais na Universidade Tufts, identificou este risco sazonal numa avaliação de abril de 2025.
«Uma preocupação mais premente é o que acontece na estação seca, quando os caudais em toda a bacia são menores, o armazenamento ganha importância e o momento das descargas se torna mais crítico», escreveu.
A informação é outro ponto de pressão. O tratado exige a troca de dados sobre os rios e os projectos, utilizados na previsão de cheias e na gestão da água. Pradeep Kumar Saxena, antigo comissário indiano do Tratado das Águas do Indo, afirmou, após o anúncio de abril, que a Índia poderia deixar de partilhar dados sobre cheias. Shiraz Memon, antigo comissário adjunto do Paquistão para o tratado, disse que a Índia já só partilhava cerca de 40% dos dados.
Michel alertou igualmente que a interrupção da troca de informações poderia prejudicar os avisos de cheias e a gestão da água no Paquistão. A descarga de sedimentos das albufeiras representa outro risco potencial: libertar o lodo acumulado e voltar a encher uma albufeira pode alterar os caudais a jusante e transportar sedimentos prejudiciais. A sua análise observa que estas operações também poderiam afectar os utilizadores de água na Índia.
O que exigem as regras para as barragens
O anexo D estabelece limites pormenorizados para novas centrais que utilizem a água corrente dos rios. Salvo as excepções especificadas, o volume de armazenamento operacional — a pequena reserva usada para regular a produção — não pode exceder o dobro do necessário para assegurar uma produção firme, ou seja, uma produção eléctrica fiável.
O anexo também regula as descargas. Segundo a regra geral de operação, o volume recebido a montante ao longo de sete dias consecutivos tem de ser libertado a jusante dentro do mesmo período, sem prejuízo das disposições do anexo. Em geral, as descargas diárias têm de se situar entre 30% e 130% do volume recebido nesse dia.
Aplicam-se regras diferentes no troço principal do Chenab. A jusante de Ramban, o volume recebido num período de 24 horas tem de ser libertado durante esse mesmo período. A montante de Ramban, as descargas diárias têm, em geral, de corresponder a entre 50% e 130% do volume recebido. Estes limites numéricos fazem do momento das descargas uma parte do cumprimento do tratado.
O artigo VII exige que um país notifique o outro e lhe forneça as informações disponíveis sobre projectos de engenharia que, na sua opinião, o possam afectar significativamente. O anexo E exige, em separado, que a Índia forneça os dados de concepção das estruturas de armazenamento abrangidas pelo anexo pelo menos seis meses antes do início da construção. Em regra, o Paquistão dispõe de três meses para contestar a concepção, prazo que desce para dois meses numa categoria específica.
Os mecanismos jurídicos continuam a fazer parte do diferendo
O artigo IX determina que as questões de interpretação, aplicação ou possíveis violações sejam primeiro submetidas à Comissão Permanente do Indo. Algumas divergências técnicas podem depois ser encaminhadas para um Perito Neutro. Outros diferendos podem seguir para um Tribunal Arbitral, nas condições previstas no tratado.
O anexo F estabelece que a decisão de um Perito Neutro é final e vinculativa nas matérias da sua competência. O anexo G determina que uma sentença arbitral é final e vinculativa para o diferendo em causa e permite a uma das partes pedir medidas provisórias enquanto o tribunal aprecia a sua decisão.
O aviso de Sharif foi feito durante uma visita diplomática mais ampla entre o Paquistão e as Maldivas. Muizzu realizava a primeira visita de um Presidente maldivo em 11 anos, no ano em que os dois países assinalam 60 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1966.
Os dois governos assinaram 20 memorandos de entendimento e fixaram como meta aumentar o comércio bilateral de 13,9 milhões para 200 milhões de dólares em dois anos, cerca de 14,4 vezes o valor inicial. A visita incluiu também conversações sobre defesa com o marechal-de-campo Asim Munir, chefe das Forças de Defesa e do Exército do Paquistão. A declaração sobre a água colocou o confronto do Paquistão com a Índia lado a lado com essa diplomacia regional mais ampla.
Pontos-chave
- Sharif afirmou, a 21 de outubro de 2026, que o Paquistão consideraria qualquer violação indiana do tratado um acto de guerra.
- A Índia suspendeu a aplicação do acordo após o ataque de Pahalgam, em abril de 2025. O Paquistão negou envolvimento e rejeitou a decisão.
- O tratado atribui principalmente os rios ocidentais ao Paquistão, permitindo determinados usos e armazenamento por parte da Índia.
- O artigo XII prevê a alteração e a denúncia do tratado através de um acordo devidamente ratificado pelos dois governos.
- A avaliação de Michel, de maio de 2025, apontou a capacidade limitada de armazenamento da Índia e identificou a partilha de dados e o momento dos caudais sazonais como riscos mais imediatos.
- O sistema do Indo abastece mais de 90% das culturas do Paquistão, tornando a previsibilidade dos caudais essencial para os meios de subsistência e a produção alimentar.






