Dois anos para transformar relações diplomáticas em comércio
O Paquistão e as Maldivas acordaram aumentar o comércio bilateral anual de 13,9 milhões de dólares para 200 milhões de dólares no prazo de dois anos, fixando uma ambiciosa meta comercial juntamente com 20 acordos que abrangem áreas desde o abastecimento alimentar e a saúde até à segurança marítima e à inteligência artificial.
Índice
- Dois anos para transformar relações diplomáticas em comércio
- Comércio alimentar dá um ponto de partida concreto ao plano económico
- Voos diretos podem ligar turismo e negócios
- Acordos na área da saúde assentam numa força de trabalho existente
- Cinco parcerias universitárias alargam a agenda educativa
- Cooperação digital abrange competências e centros de dados
- Cooperação em segurança abrange as forças policiais e a administração pública
- Paquistão promete sementes e estacas para a plantação de cinco milhões de árvores
- Diplomacia regional acompanha os acordos bilaterais
- Como decorreu a visita
- Pontos-chave
O primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o Presidente maldiviano Mohamed Muizzu assistiram à troca dos acordos em Islamabad, a 21 de outubro de 2026. A visita de Muizzu, de 20 a 22 de outubro, é a primeira de um Presidente das Maldivas ao Paquistão desde a deslocação de Abdulla Yameen Abdul Gayoom, em maio de 2015.
A meta exigiria que o comércio atingisse cerca de 14,4 vezes o valor atual, um aumento de 186,1 milhões de dólares. Sharif indicou como ponto de partida o valor de 13,9 milhões de dólares, embora o seu anúncio também tenha sido registado como 130 milhões de dólares. O cálculo aqui apresentado utiliza o valor de 13,9 milhões de dólares, mais frequentemente referido.
A visita assinala 60 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em julho de 1966. Os dois líderes afirmaram que a relação económica deve crescer significativamente, com maior participação das empresas, universidades, hospitais e instituições públicas.
Ao explicar o que esperava dos acordos, Muizzu colocou no centro das suas declarações o valor prático dos mesmos:
O nosso próximo passo, naturalmente, é transformar estes entendimentos em oportunidades concretas e benefícios significativos para os povos das duas nações.
O pacote inclui memorandos de entendimento, habitualmente designados por MoU. Estes definem áreas em que as instituições tencionam trabalhar em conjunto. O seu efeito prático depende dos projetos, dos recursos humanos, do financiamento e dos acordos comerciais que se seguirem. Sharif comprometeu-se a trabalhar pessoalmente com Muizzu para concretizar os compromissos, através de decisões e implementação mais rápidas.
Comércio alimentar dá um ponto de partida concreto ao plano económico
A State Trading Organisation das Maldivas e a Trading Corporation of Pakistan assinaram um acordo que abrange produtos agrícolas, alimentos e outros produtos. O acordo cria um canal institucional identificado para expandir o comércio, incluindo a compra a granel de produtos alimentares essenciais.
Os dois países concluíram também acordos distintos nas áreas da agricultura e das pescas. Em conjunto, estes ligam a ambição comercial a setores específicos, em vez de a deixarem reduzida a um valor destacado nos títulos. As empresas terão ainda de acordar produtos, preços, quantidades e condições de transporte antes de se concretizar comércio adicional.
O Fórum Empresarial Maldivas-Paquistão estava previsto para quinta-feira, 22 de outubro, reunindo líderes empresariais, investidores, inventores e inovadores. O objetivo era transformar os compromissos dos líderes em propostas de investimento e parcerias empresariais.
O vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Ishaq Dar, reuniu-se também com Muizzu em Islamabad. Identificou o comércio, o investimento, a educação, as alterações climáticas e o turismo como prioridades e saudou a participação da delegação empresarial maldiviana no fórum. Dar afirmou que o contacto direto entre empresas poderia criar oportunidades concretas.
A meta de 200 milhões de dólares é ambiciosa devido ao baixo valor de partida. O acordo de comércio estatal e o fórum empresarial oferecem duas vias para a alcançar: compras através de organismos públicos de comércio já estabelecidos e novos negócios entre empresas privadas.
Voos diretos podem ligar turismo e negócios
Muizzu saudou as conversações sobre a criação de voos diretos entre o Paquistão e as Maldivas. Os países trocaram um acordo sobre conectividade aérea e comprometeram-se a aprofundar a cooperação turística.
Os voos diretos poderão facilitar as deslocações de turistas, visitantes em negócios, estudantes e profissionais de saúde. Não foram anunciadas as companhias aéreas, as rotas, a frequência dos serviços nem a data de início.
Muizzu apontou o turismo halal e adaptado aos viajantes muçulmanos como uma área com potencial. Na prática, pode incluir acesso a alimentos halal, espaços de oração e serviços de alojamento adequados a viajantes muçulmanos. Afirmou que os valores e a experiência partilhados constituíam uma base para a cooperação.
O turismo está também ligado à agenda mais ampla da educação. A Universidade Nacional das Maldivas identificou a hotelaria e o turismo como áreas em que a sua experiência poderia apoiar parcerias académicas com o Paquistão. Isto confere à cooperação uma dimensão recíproca, a par das ofertas paquistanesas de formação e assistência técnica.
Acordos na área da saúde assentam numa força de trabalho existente
Cerca de 250 médicos e profissionais paramédicos paquistaneses trabalham nas Maldivas, segundo Sharif. O Paquistão ofereceu-se para enviar mais profissionais, em resposta às necessidades maldivianas, dando continuidade a uma relação já existente em vez de iniciar de raiz um novo programa de recrutamento.
Os acordos incluem o recrutamento de profissionais de saúde e uma cooperação mais ampla na área da saúde. Outro acordo liga a Autoridade Maldiviana para a Alimentação e os Medicamentos à Autoridade Reguladora dos Medicamentos do Paquistão, integrando na parceria as instituições responsáveis pela regulamentação dos medicamentos.
Estudantes maldivianos frequentaram também universidades e institutos superiores paquistaneses, em particular na área da saúde. Os líderes discutiram o aumento das vagas de formação médica ao abrigo do Programa de Assistência Técnica do Paquistão e a possibilidade de estágios no Paquistão para recém-formados maldivianos em medicina.
Para os estudantes e recém-formados, estas propostas dizem respeito a diferentes etapas de uma carreira médica. As vagas de formação proporcionam ensino, enquanto os estágios oferecem experiência prática supervisionada. Para os serviços de saúde maldivianos, o acordo de recrutamento diz respeito aos profissionais disponíveis para prestar cuidados aos doentes.
A oferta do Paquistão combina, assim, apoio imediato à força de trabalho com formação que poderá ajudar a preparar futuros profissionais. O número de trabalhadores adicionais, vagas de formação e estágios dependerá dos acordos posteriores entre as instituições responsáveis.
Cinco parcerias universitárias alargam a agenda educativa
A Comissão de Ensino Superior do Paquistão facilitou cinco acordos entre a Universidade Nacional das Maldivas e universidades paquistanesas durante a visita. As instituições parceiras foram a Universidade Nacional de Ciências e Tecnologia, a Universidade de Agricultura Árida Pir Mehr Ali Shah de Rawalpindi, a Universidade de Wah, a Universidade Governamental de Lahore e a Universidade Foundation de Islamabad.
A reitora da Universidade Nacional das Maldivas, Aishath Shehenaz Adam, identificou as ciências marinhas, o turismo e a hotelaria, a sustentabilidade ambiental e as alterações climáticas como áreas promissoras para a cooperação. Referiu também parcerias paquistanesas já existentes no ensino da medicina, nos sistemas de gestão universitária, nas ciências agrícolas e alimentares e no direito.
O presidente da Comissão de Ensino Superior, Niaz Ahmad Akhtar, incentivou a investigação conjunta, os intercâmbios de pessoal e os programas de diplomas conjuntos ou duplos. Afirmou que o número de instituições paquistanesas presentes em classificações internacionais tinha aumentado de duas em 2015 para 56 em 2026, embora não tenha identificado uma classificação específica nessas declarações.
O pacote governamental mais amplo abrange o ensino técnico e profissional, o ensino superior, a juventude e o desporto. Os líderes discutiram também oportunidades no Paquistão para estudantes, atletas, treinadores e jovens profissionais maldivianos, incluindo formação em empreendedorismo, inovação e liderança.
Cooperação digital abrange competências e centros de dados
A cooperação em tecnologias da informação inclui cibersegurança, inteligência artificial, competências digitais, tecnologia e inovação. Sharif ofereceu conhecimentos técnicos paquistaneses para apoiar as Maldivas no desenvolvimento de centros de dados.
Os centros de dados albergam os computadores e equipamentos utilizados para armazenar e processar informação digital. Os governos e as empresas usam-nos para operar serviços e aplicações. Sharif afirmou que o Paquistão tinha desenvolvido capacidades profissionais relevantes ao criar instalações deste tipo em vários locais.
A cibersegurança diz respeito à proteção de sistemas informáticos e informação contra intrusões, roubo e interrupções. A sua inclusão a par das competências digitais e da inteligência artificial liga a agenda de formação à proteção e ao funcionamento dos serviços digitais.
Muizzu destacou também a digitalização e as tecnologias emergentes como áreas que poderão criar novas oportunidades profissionais para os jovens maldivianos. As propostas combinam apoio técnico institucional com educação e desenvolvimento de competências.
Cooperação em segurança abrange as forças policiais e a administração pública
A defesa e a segurança marítima fazem parte dos 20 acordos. O Paquistão e as Maldivas já mantêm relações de cooperação na formação, incluindo um entendimento de 2016 para alargar as oportunidades destinadas ao pessoal militar maldiviano.
O novo pacote abrange também o combate ao tráfico ilícito e ao consumo abusivo de estupefacientes. Um acordo institucional liga a Escola Nacional de Políticas e Aplicação da Lei do Serviço Policial das Maldivas à Academia Nacional de Polícia do Paquistão, em Islamabad.
Talal Chaudhry, ministro de Estado paquistanês do Interior, reuniu-se separadamente com Ali Ihusaan, ministro maldiviano da Segurança Interna, do Trabalho e da Tecnologia. As conversações abordaram o tráfico de seres humanos, a migração irregular, o crime organizado e o intercâmbio de conhecimentos especializados em segurança. O Ministério do Interior do Paquistão não anunciou qualquer nova operação conjunta ou calendário de implementação.
Chaudhry explicou por que razão os dois governos pretendiam estreitar os contactos entre as autoridades responsáveis pela aplicação da lei:
Reforçar os contactos e a cooperação é essencial para enfrentar desafios comuns, como a imigração ilegal e o tráfico de seres humanos.
A Comissão da Função Pública das Maldivas celebrou também acordos com a Comissão Federal da Função Pública e a Academia da Função Pública do Paquistão. Estes alargam a parceria à administração pública, a par de compromissos distintos nas áreas da proteção social, das artes, da cultura e do património.
Paquistão promete sementes e estacas para a plantação de cinco milhões de árvores
O Paquistão fornecerá 100 000 estacas de oliveira e 100 000 sementes de outras espécies vegetais para apoiar o plano maldiviano de plantar cinco milhões de árvores. A entrega deverá ocorrer dentro de um prazo acordado mutuamente.
A promessa totaliza 200 000 estacas e sementes, um valor numericamente equivalente a 4% da meta de cinco milhões de árvores. O número de árvores que acabará por vingar dependerá da propagação, plantação e sobrevivência bem-sucedidas.
Muizzu descreveu as alterações climáticas como um desafio direto à segurança, ao desenvolvimento e ao futuro das Maldivas. Saudou o apoio do Paquistão e apelou à cooperação na conservação ambiental, na gestão de resíduos, nas energias renováveis e na resiliência climática.
Resiliência climática significa ajudar comunidades, infraestruturas e serviços a fazer face às pressões climáticas. Os países concluíram um acordo de cooperação ambiental distinto, enquanto as parcerias de investigação propostas pela Universidade Nacional das Maldivas oferecem outro canal de trabalho na sustentabilidade ambiental e nos desafios que se colocam às pequenas nações insulares.
Muizzu plantou também uma árvore jovem na residência do primeiro-ministro, após receber honras militares. O gesto acompanhou uma visita cujos compromissos ambientais vão além da plantação de árvores e abrangem energia, conservação e investigação.
Diplomacia regional acompanha os acordos bilaterais
Muizzu apelou à retoma da atividade da Associação da Ásia do Sul para a Cooperação Regional, ou SAARC. A organização, composta por oito membros, realizou a última cimeira de líderes em Catmandu, em novembro de 2014. Uma cimeira prevista para Islamabad, em 2016, foi adiada depois de a Índia e vários outros membros terem recusado participar, num contexto de tensões regionais.
Muizzu afirmou que as Maldivas estavam prontas para trabalhar com todos os Estados-membros para criar as condições necessárias a uma nova cimeira. Destacou também a cooperação através das Nações Unidas e da Organização da Cooperação Islâmica.
Os dois líderes reiteraram o apoio à autodeterminação palestiniana. Muizzu defendeu um Estado palestiniano independente, com base nas fronteiras anteriores a 1967 e com Jerusalém Oriental como capital. Sharif reafirmou também a posição do Paquistão de que o diferendo de Jammu e Caxemira deve ser resolvido em conformidade com as resoluções pertinentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e com os desejos do povo caxemiriano.
Sharif abordou a decisão da Índia de suspender a aplicação do Tratado das Águas do Indo, em abril de 2025. Afirmou que os tratados juridicamente vinculativos devem ser respeitados e que os recursos hídricos partilhados não devem ser utilizados como instrumentos de pressão política. Classificando a água como uma linha vermelha nacional, advertiu que o Paquistão consideraria um ato de guerra qualquer violação que afetasse o seu abastecimento de água.
Como decorreu a visita
Muizzu deslocou-se ao país a convite de Sharif, acompanhado pela primeira-dama Sajidha Mohamed, ministros do Governo e altos funcionários. O programa combinou eventos oficiais com conversações governamentais, acordos institucionais e reuniões comerciais previstas.
- Julho de 1966: O Paquistão e as Maldivas estabeleceram relações diplomáticas.
- Maio de 2015: O então Presidente maldiviano Abdulla Yameen Abdul Gayoom visitou o Paquistão.
- 20 de outubro de 2026: Muizzu chegou a Islamabad para uma visita de três dias.
- 21 de outubro de 2026: Muizzu e Sharif reuniram-se e assistiram à troca de 20 acordos de cooperação.
- 22 de outubro de 2026: Estava previsto que o Fórum Empresarial Maldivas-Paquistão reunisse as comunidades empresariais dos dois países.
Muizzu recebeu também um doutoramento honoris causa em Ciências Políticas pela Universidade Islâmica Internacional de Islamabad. O programa incluía uma reunião prevista com o Presidente Asif Ali Zardari e um banquete de Estado.
O próximo passo prático cabe aos organismos de comércio, ministérios, universidades e empresas mencionados nos acordos. Os contratos de compra, os acordos de recrutamento, os programas de formação e as decisões de investimento determinarão até que ponto a expansão prometida beneficiará as populações dos dois países.
Pontos-chave
- O Paquistão e as Maldivas fixaram a meta de atingir 200 milhões de dólares em comércio bilateral anual no prazo de dois anos.
- Os líderes trocaram 20 acordos que abrangem o comércio, a saúde, a educação, a tecnologia, a segurança e outros setores.
- Um acordo de comércio estatal abrange produtos agrícolas, alimentos e outros produtos.
- Estão em discussão voos diretos, mas não foi anunciada uma data de início.
- O Paquistão ofereceu mais profissionais de saúde e prometeu 100 000 estacas de oliveira e 100 000 sementes de outras espécies.
- Cinco parcerias universitárias acrescentam investigação e intercâmbios académicos ao programa de cooperação mais amplo.
- Muizzu apelou à retoma das cimeiras da SAARC no ano em que os países assinalam 60 anos de relações diplomáticas.






