Coligação perde o registo antes de uma votação crucial
O Registo das Associações da Malásia cancelou o registo da Perikatan Nasional a 20 de outubro de 2026, na sequência de uma queixa do Bersatu, que alegou ter sido excluído de uma reunião da liderança da coligação. A decisão foi tomada dois dias antes de uma audiência marcada no Tribunal Superior e 11 dias antes da apresentação de candidaturas às eleições estaduais de Melaka.
Índice
- Coligação perde o registo antes de uma votação crucial
- O que levou à decisão do registo?
- Como se chegou a este ponto
- Porque contesta a PN o momento da decisão
- O que muda para os candidatos e os representantes eleitos?
- Porque se tornou o PAS o protagonista central
- Uma disputa por influência, dinheiro e autoridade
- Os partidos mais pequenos enfrentam o teste do seu próprio apoio
- Melaka vai pôr à prova possíveis novas alianças
- PKR rejeita acusações de ter orquestrado o cancelamento
- Principais pontos
O registo afirmou que a resposta da PN, enviada a 12 de outubro a uma notificação emitida a 22 de setembro, não refutou os motivos para o cancelamento nem apresentou justificação suficiente para manter o registo da coligação. A decisão foi tomada ao abrigo da subalínea 13(1)(c)(iv) da Lei das Associações de 1966.
O secretário-geral da PN, Takiyuddin Hassan, afirmou que a coligação contestaria a decisão e pediria a suspensão da sua execução, uma ordem judicial que interrompe temporariamente a sua aplicação. Entretanto, os seus parceiros políticos enfrentam decisões imediatas sobre candidatos, distribuição de lugares e o símbolo eleitoral que os eleitores verão nos boletins de voto.
O presidente do PAS, Abdul Hadi Awang, afirmou que o seu partido concorreria em Melaka ao lado dos partidos alinhados com a PN e prepararia um recurso judicial conjunto. O Bersatu, cuja queixa deu início ao processo regulatório, responsabilizou a liderança da coligação, sob o PAS, pelo desfecho.
A disputa vai além da burocracia. A PN proporcionava uma identidade comum a partidos com diferentes pontos fortes e bases eleitorais. A sua perda deixa-os a negociar como trabalhar em conjunto precisamente quando se aproxima uma eleição, enquanto o PAS pondera se a sua própria organização e símbolo conseguem unir uma campanha da oposição.
O que levou à decisão do registo?
O Bersatu apresentou a queixa oficial a 11 de agosto, alegando que lhe tinha sido negado o direito de participar, intervir e votar na reunião do Conselho Supremo da PN, a 16 de julho. A queixa também levantou dúvidas sobre a condição do Bersatu enquanto membro da coligação.
O secretário-geral do Bersatu, Mohamed Azmin Ali, afirmou que a exclusão violava a cláusula 7.1 da constituição da PN. Alegou ainda que o partido tinha sido alvo de ameaças e pressões para que deixasse de ser considerado um partido legítimo da coligação.
O registo emitiu posteriormente uma notificação ao abrigo do n.º 13(2) da Lei das Associações, dando à PN a oportunidade de apresentar explicações e alegações. Após analisar a resposta e os documentos que a acompanhavam, o departamento decidiu que o cancelamento se justificava.
O Registo das Associações formulou a decisão nos seguintes termos:
Neste sentido, o Registo das Associações decidiu cancelar o registo da PN ao abrigo da subalínea 13(1)(c)(iv) da Lei das Associações de 1966.
O departamento afirmou que as organizações registadas têm de cumprir tanto a lei como as suas próprias constituições. Acrescentou que prosseguiria o seu trabalho regulatório e de fiscalização com firmeza, imparcialidade e em conformidade com a lei.
Azmin afirmou que o Bersatu analisaria a decisão na íntegra e discutiria os próximos passos numa reunião do Conselho Supremo. Apresentou a queixa como uma tentativa de garantir uma gestão responsável da PN. Abdul Hadi fez uma avaliação oposta, afirmando que a administração da PN tinha respeitado a sua constituição e que as relações entre os partidos membros continuavam fortes, à excepção de um partido que se tinha afastado.
Como se chegou a este ponto
O processo administrativo decorreu em paralelo com um processo judicial relativo à suspensão anterior das actividades da PN. A sequência é importante porque a PN defende que o registo deveria ter aguardado pela audiência judicial marcada antes de cancelar a sua inscrição.
- 16 de julho: A PN realizou a reunião do Conselho Supremo da qual o Bersatu alega ter sido excluído.
- 11 de agosto: O Bersatu apresentou a queixa oficial ao registo.
- 22 de setembro: O registo emitiu uma notificação pedindo explicações à PN. Takiyuddin afirmou que as actividades da PN foram suspensas no dia seguinte.
- 12 de outubro: A PN apresentou a sua resposta.
- 13 de outubro: O Tribunal Superior de Kuala Lumpur autorizou a revisão judicial da suspensão, recusou uma suspensão provisória e marcou uma audiência com a participação de ambas as partes.
- 20 de outubro: O registo cancelou o registo da PN.
- 22 de outubro: O Tribunal Superior tinha marcada a audiência do pedido de suspensão, na qual a PN planeava contestar o cancelamento.
- 31 de outubro: Está marcada a apresentação de candidaturas às eleições de Melaka, seguida da votação antecipada a 10 de novembro e da votação a 14 de novembro.
O juiz Azizan Md Arshad autorizou a revisão judicial. Este processo permite ao tribunal analisar se uma autoridade pública agiu legalmente. A suspensão tem outra finalidade: interromper a aplicação de uma decisão enquanto o tribunal aprecia a disputa.
Porque contesta a PN o momento da decisão
Takiyuddin afirmou que recebeu por correio electrónico, na manhã de 20 de outubro, a ordem de cancelamento. Questionou por que motivo o registo actuou antes da audiência de 22 de outubro e acusou o Governo de abuso de poder e de agir de má-fé.
O secretário-geral da PN expôs a resposta jurídica que a coligação pretende apresentar:
Vamos contestar a validade da ordem de revogação e pedir a suspensão da sua execução e de todos os seus efeitos até que o tribunal se pronuncie.
Takiyuddin afirmou que um pedido escrito, apresentado a 14 de outubro, para que o registo não tomasse mais medidas até à audiência não tinha recebido resposta. Disse também que, numa exposição apresentada a 19 de outubro, a Procuradoria-Geral descreveu a retirada do registo como um processo em curso, sem indicar que a decisão seria tomada no dia seguinte.
Abdul Hadi também criticou o cancelamento por antecipar uma decisão judicial e restringir os direitos democráticos. A posição declarada pelo registo foi a de que as explicações da PN não tinham respondido aos motivos para o cancelamento.
Takiyuddin descreveu ainda uma via de recurso administrativo prevista na Lei das Associações. Invocando os artigos 18.º e 8.º, afirmou que o recurso deve ser apresentado no prazo de 30 dias e que o ministro do Interior pode confirmar, rejeitar ou alterar a decisão do registo, sendo a decisão do ministro final ao abrigo desse processo.
Nas declarações que acompanharam o cancelamento, não foi anunciado qualquer resultado da audiência de 22 de outubro nem a escolha definitiva do logótipo eleitoral. Essas decisões moldariam os preparativos dos partidos antes da apresentação das candidaturas.
O que muda para os candidatos e os representantes eleitos?
O cancelamento do registo da PN elimina a plataforma formal de coligação através da qual os seus partidos coordenavam a estratégia eleitoral, os recursos e a negociação dos lugares. A tarefa imediata é substituir essa estrutura comum por acordos que os candidatos e as equipas de campanha possam seguir.
Os deputados eleitos sob a bandeira da PN não perdem automaticamente os seus lugares por a coligação ter perdido o registo. A filiação partidária mantém-se em partidos como o PAS ou o Bersatu. A situação parlamentar desses representantes e o registo da coligação que os reúne são questões distintas.
O analista político G. Manimaran afirmou que os partidos poderiam continuar a cooperar informalmente, em vez de criarem de imediato outra coligação registada. Ainda assim, teriam de decidir que lugares cada partido disputaria e que símbolos os candidatos usariam.
Takiyuddin mencionou o PAS, o Wawasan, o Gerakan, o Partido do Povo Indiano da Malásia e o Pejuang como partidos que poderiam discutir os acordos para Melaka. A lista não incluiu o Bersatu, reflectindo a profundidade da divisão sobre a liderança e a composição da coligação.
Takiyuddin apontou as eleições gerais de 2018, nas quais os partidos do Pakatan Harapan usaram o símbolo do PKR, como exemplo de partidos que fizeram campanha sob o logótipo de um parceiro. Um acordo semelhante exigiria a concordância dos partidos que agora se preparam para Melaka.
Porque se tornou o PAS o protagonista central
O PAS dispõe da estrutura mais facilmente mobilizável para apoiar um novo acordo eleitoral. Lau Zhe Wei, professor auxiliar na Universidade Islâmica Internacional da Malásia, descreveu o partido como a principal fonte de apoio eleitoral e mobilização de base da PN.
Lau explicou por que motivo o símbolo do partido poderia servir como alternativa prática:
O PAS continua a ser a principal fonte de apoio eleitoral e mobilização de base da coligação, o que torna o seu símbolo uma alternativa prática para os outros partidos que a compõem.
Lau afirmou que o símbolo do Wawasan poderia ser uma alternativa nas zonas onde o símbolo do PAS fosse menos apelativo, embora os eleitores tivessem de se familiarizar com ele. Isso cria uma escolha prática para a campanha entre um símbolo reconhecível e outro que talvez se adeque melhor a determinado círculo eleitoral.
Mazlan Ali, analista político da Universidade de Tecnologia da Malásia, afirmou que a forte rede de base do PAS e o apoio leal nos estados do norte e da costa leste lhe davam maior capacidade para concorrer sozinho. Defendeu que o Bersatu dependia mais de uma frente unida da oposição e da identidade consolidada da PN.
Azmi Hassan, analista da Akademi Nusantara, identificou um risco diferente: a marca PN era mais apelativa para alguns eleitores não malaios do que o símbolo do próprio PAS. Usar o logótipo do PAS poderia simplificar a organização, mas dificultar a conquista de eleitores fora da base tradicional do partido.
Mohammad Tawfik Yaakub, analista da Universidade da Malásia, afirmou que o cancelamento do registo criava incerteza quanto à estrutura da campanha, à identidade comum e à capacidade de funcionar como coligação. Disse que os partidos poderiam coordenar-se mesmo usando símbolos separados, desde que chegassem rapidamente a um acordo.
Uma disputa por influência, dinheiro e autoridade
As críticas do Bersatu ao PAS também dizem respeito à forma como o poder deve ser partilhado entre os parceiros da coligação. O vice-presidente do partido, R. Sri Sanjeevan, contestou as alegações de que a alegada contribuição mensal de 43 000 RM do PAS lhe dava o direito de diminuir o papel dos outros partidos.
Sanjeevan citou os ganhos parlamentares do PAS como prova de que a cooperação tinha beneficiado o partido. O PAS conquistou 18 lugares parlamentares nas 14.as eleições gerais e 43 nas 15.as, quando concorreu integrado na PN, sob a liderança do antigo primeiro-ministro Muhyiddin Yassin.
Estes números representam um aumento de 25 lugares, elevando o total do PAS para mais do dobro. Sanjeevan usou a comparação para defender que os outros parceiros da coligação mereciam reconhecimento por terem ajudado o PAS a alcançar esse resultado.
Afirmou que o registo da PN foi cancelado menos de oito meses depois de Ahmad Samsuri Mokhtar ter assumido a liderança. Também apontou a exclusão do Bersatu dos trabalhos do Conselho Supremo como uma queixa central.
Azmin atribuiu ao PAS a responsabilidade por não ter demonstrado o cumprimento da lei nas explicações e provas apresentadas ao registo. Abdul Hadi sustentou que a PN tinha sido administrada correctamente. As posições opostas mostram por que motivo a simples escolha de um novo símbolo eleitoral não resolverá a disputa mais ampla sobre autoridade.
Os partidos mais pequenos enfrentam o teste do seu próprio apoio
O Gerakan e o MIPP enfrentam um teste mais exigente à sua capacidade de atrair votos sem a identidade comum da PN. O analista político Anbumani Balan afirmou que se esperava que os dois partidos alargassem o apelo da coligação junto dos eleitores não malaios, mas nenhum conquistou lugares nas recentes eleições de Johor e Negeri Sembilan.
O Gerakan tem um representante eleito, Wong Chia Zhen, deputado da assembleia estadual por Kulim, em Kedah. O MIPP disputou cinco lugares na sua estreia eleitoral em Johor, perdeu-os todos e todos os seus candidatos perderam a caução. A caução de um candidato é uma quantia depositada para concorrer a eleições, que pode ser perdida quando o candidato obtém uma percentagem demasiado baixa dos votos.
Anbumani afirmou que os resultados eleitorais devem orientar a avaliação da força dos partidos:
É altura de avaliar a realidade política com base nos votos, e não em percepções, retórica ou cargos numa coligação.
A experiência do Pejuang aponta para uma dependência semelhante da cooperação. O presidente do partido, Mukhriz Mahathir, afirmou que o Pejuang se candidatou duas vezes antes de a PN aceitar a sua adesão. Disse que o Pejuang não podia avançar sozinho e precisava de uma coligação.
O Pejuang apresentou um candidato em cooperação com a PN em Johor e trabalhou ao lado dos seus parceiros em Negeri Sembilan sem concorrer. Mukhriz afirmou que o partido tencionava disputar as eleições de Melaka, que não pretendia uma grande distribuição de lugares e que estava preparado para aceitar a decisão da liderança da coligação quanto à sua atribuição.
Melaka vai pôr à prova possíveis novas alianças
As eleições de 14 de novembro em Melaka deixam pouco tempo aos partidos para resolverem as divergências. A apresentação de candidaturas, a 31 de outubro, transformará as negociações sobre símbolos e círculos eleitorais em compromissos concretos.
Liew Wui Chern, analista da Universidade Tunku Abdul Rahman, afirmou que o PAS poderia tentar preservar a PN, reunir mais estreitamente em torno de si os partidos que restam ou aproximar-se do Umno e da Barisan Nasional. Também apontou a possibilidade de um pacto eleitoral mais limitado entre o PAS e o Umno, caso uma cooperação mais ampla se revelasse difícil.
A Barisan Nasional e o PAS afirmaram que estão a discutir uma cooperação em Melaka. Um acordo desse tipo atravessaria os actuais alinhamentos políticos federais: a Barisan integra o Governo do primeiro-ministro Anwar Ibrahim, juntamente com o Pakatan Harapan, enquanto o PAS está na oposição.
Liew afirmou que a falta de clareza na distribuição dos lugares e os símbolos concorrentes poderiam dar origem a candidaturas sobrepostas. O PAS e o Bersatu também disputam eleitores semelhantes em alguns círculos eleitorais, o que poderia tornar campanhas separadas dispendiosas, numa altura em que também concorrem candidatos da Barisan e do Pakatan Harapan.
Ao explicar o perigo prático para a campanha, Liew afirmou:
O maior risco não é simplesmente a dispersão dos votos, mas a confusão dos eleitores.
Uma lista definitiva de candidatos permitiria às equipas de campanha saber quem apoiar e daria aos eleitores um sinal coerente sobre os partidos que cooperam. Sem essa lista, as negociações internas da oposição poderiam reflectir-se directamente no boletim de voto.
PKR rejeita acusações de ter orquestrado o cancelamento
A secretária-geral do PKR, Fuziah Salleh, negou que o partido tivesse tido qualquer papel na decisão do registo, depois de Mukhriz ter alegado que o PKR recomendara o cancelamento. Mukhriz partilhou diapositivos que, segundo afirmou, tinham sido apresentados no Congresso Nacional do PKR de 2026, realizado em Melaka em agosto.
Fuziah afirmou que os diapositivos nunca tinham sido apresentados e classificou a acusação como difamatória. Exigiu uma retratação e um pedido de desculpas, afirmando que a queixa que levou à intervenção do registo dizia respeito aos próprios partidos que compõem a PN.
Fuziah expôs a sua posição numa publicação no Facebook:
Exijo, por isso, que Mukhriz retire a acusação e peça desculpa ao PKR. As divergências políticas não são licença para divulgar acusações difamatórias.
As acusações políticas decorrem agora em paralelo com duas tarefas imediatas: o recurso judicial da PN contra a decisão do registo e o esforço dos partidos para organizar uma campanha viável em Melaka. A audiência judicial de 22 de outubro e o prazo de apresentação de candidaturas, a 31 de outubro, são as próximas datas marcadas em que esses esforços serão postos à prova.
Principais pontos
- O Registo das Associações cancelou o registo da PN a 20 de outubro de 2026, depois de rejeitar as suas explicações.
- O processo teve origem na queixa do Bersatu sobre a sua exclusão de uma reunião da liderança, a 16 de julho, e sobre a sua condição de membro da coligação.
- A PN tenciona contestar o cancelamento e pedir a suspensão da sua execução; está marcada uma audiência no Tribunal Superior para 22 de outubro.
- O símbolo do PAS é uma possível alternativa eleitoral, enquanto os partidos negoceiam os candidatos e a distribuição dos lugares.
- O cancelamento do registo não retira automaticamente do Parlamento os deputados eleitos sob a bandeira da PN.
- A apresentação de candidaturas em Melaka está marcada para 31 de outubro, a votação antecipada para 10 de novembro e a votação para 14 de novembro.
- O PKR nega qualquer envolvimento na decisão e exigiu que Mukhriz retire a acusação.






