Prazo eleitoral coincide com disputa real por resolver
Johari Abdul Ghani, vice-presidente da Umno, instou a Barisan Nasional (BN) a explicar a tentativa de destituição do governante de Negeri Sembilan, Tuanku Muhriz Tuanku Munawir, antes da apresentação das candidaturas às eleições de Melaka, numa altura em que a coligação está sob escrutínio pelo papel dos seus próprios responsáveis na disputa constitucional.
Índice
- Prazo eleitoral coincide com disputa real por resolver
- Porque uma proclamação não é uma destituição consumada
- O estatuto contestado dos chefes territoriais
- O que os chefes alegam contra Tuanku Muhriz
- Como a crise passou do palácio ao governo
- A posição variável de Ismail e o conselho destituído
- O que a desistência judicial de outubro resolve e o que deixa em aberto
- Maioria eleitoral sem conselho executivo em funções
- O que a BN tem de explicar antes da votação em Melaka
- Pontos principais
O prazo político imediato é o processo eleitoral de Melaka, com início previsto para 31 de outubro e votação a 14 de novembro. As implicações jurídicas e administrativas vão mais longe: 10 membros do conselho executivo de Negeri Sembilan perderam os seus cargos, uma revisão judicial que pretendia obter o reconhecimento da proclamação de destituição foi retirada a 7 de outubro, e a Umno estará a ponderar uma moção contra o Menteri Besar Ismail Lasim.
Johari, que é também presidente da BN nos Territórios Federais e deputado por Titiwangsa, afirmou que a coligação tem de distinguir entre quem iniciou a proclamação e o partido político que está agora a ser associado a ela. Numa conferência de imprensa em Kuala Lumpur, pediu explicações tanto sobre a proclamação como sobre os procedimentos necessários para destituir um governante.
O público tem de saber que quem procura destituir Tuanku Muhriz não é a Umno. Isto tem de ser devidamente explicado.
Essa distinção esclarece quem iniciou a tentativa. Não resolve, porém, por que razão um Menteri Besar da Umno e um conselho executivo que inclui sete membros da Umno a apoiaram posteriormente. A Procuradoria-Geral (AGC) afirmou que a proclamação de 19 de abril de 2026 era inválida e que o aval do governo estadual não tinha qualquer efeito jurídico.
A BN enfrenta, por isso, duas tarefas distintas antes da campanha em Melaka: explicar o processo constitucional e prestar contas pelos atos dos seus representantes eleitos. Nenhum resultado eleitoral pode, por si só, decidir quem ocupa legalmente o trono de Negeri Sembilan.
Porque uma proclamação não é uma destituição consumada
A disputa centra-se na Constituição de Negeri Sembilan de 1959, em particular no artigo 10, que estabelece os fundamentos e procedimentos para destituir o Yang di-Pertuan Besar. Os quatro chefes territoriais, conhecidos coletivamente como Undang Yang Empat, têm um papel reconhecido na escolha do governante e, em determinadas condições constitucionais, na tomada de medidas contra ele.
Na declaração de 17 de setembro, a AGC não negou essa autoridade. Afirmou que tinha de ser exercida em conformidade com a Constituição e que não havia provas de que os procedimentos prescritos tivessem sido seguidos ou de que se aplicasse a Tuanku Muhriz algum dos fatores de desqualificação previstos no artigo 10(1).
Ao introduzir a sua avaliação do cumprimento das regras, a AGC declarou:
Até à data, não existem factos que indiquem que os procedimentos prescritos tenham sido cumpridos.
A AGC afirmou também que o Menteri Besar e o conselho executivo estadual não tinham poderes unilaterais para pôr termo ao mandato do governante ou declarar o cargo vago. O anúncio não podia conferir força jurídica a uma proclamação que, de outro modo, seria inválida, e qualquer tentativa de a publicar no diário oficial ou de a executar seria inconstitucional.
Esta é a distinção processual subjacente ao apelo de Johari. Emitir uma declaração, dar-lhe apoio político e publicá-la num diário oficial do governo são atos distintos. Segundo a AGC, nenhum deles pode substituir o cumprimento dos requisitos constitucionais que regem a destituição.
O estatuto contestado dos chefes territoriais
Uma segunda questão é saber se todos os signatários da proclamação tinham legitimidade para exercer funções de undang na altura. O Dewan Keadilan dan Undang (DKU), o mais alto conselho consuetudinário do estado, afirmou a 1 de agosto que três dos quatro não ocupavam legalmente os cargos que reivindicavam quando foi feita a declaração de abril.
O DKU afirmou que Mubarak Dohak, Abdul Rahim Yasin e Maarof Mat Rashad tinham deixado de exercer funções ou nunca tinham ocupado legalmente os respetivos cargos em Sungai Ujong, Rembau e Jelebu. O quarto signatário, Muhammed Abdullah, foi identificado como undang de Johol.
A AGC afirmou igualmente que a composição dos Undang Yang Empat estava incompleta na altura em causa, uma vez que os cargos de alguns signatários eram contestados. Na sua declaração, invocou o artigo 16, que atribui à autoridade consuetudinária do estado, incluindo a nomeação e destituição de undangs, competência sobre estas matérias. Nos termos do artigo 16(3), afirmou a AGC, o conselho tem a palavra final nestas questões e as suas decisões não podem ser contestadas em tribunal.
Os chefes contestam as decisões que afetam os seus cargos. A sua legitimidade é, por isso, parte do conflito constitucional, e não uma mera divergência sobre títulos. A autoridade que reivindicam depende de terem ocupado legalmente os cargos.
O que os chefes alegam contra Tuanku Muhriz
Quatro chefes territoriais cuja legitimidade é contestada e Tunku Besar Tampin Tunku Syed Razman Syed Idrus Al-Qadri divulgaram uma declaração de 12 páginas com os fundamentos que alegam terem motivado a destituição de 19 de abril. Trata-se de alegações e argumentos jurídicos contestados, não de conclusões estabelecidas contra Tuanku Muhriz.
Acusaram o governante de interferir nos assuntos de Rembau após a nomeação de Abdul Rahim Yasin como chefe, a 4 de julho de 2025. Alegaram que permitir a análise de queixas apresentadas por uma fação rival violava os artigos 3 e 4 de um acordo de 1898, que, segundo afirmaram, continuava a ser reconhecido pela Constituição estadual.
Na declaração, alegaram também que Tuanku Muhriz não os consultou antes de participar numa reunião da Conferência dos Governantes e atrasou a nomeação de um mufti estadual. Defenderam que uma sessão à porta fechada, a 5 de março de 2026, satisfez o requisito de inquérito previsto no artigo 10, uma vez que o governante foi interrogado diretamente e teve oportunidade de responder.
Os chefes argumentaram que a Constituição não exigia um tribunal externo nem uma audiência pública. Contestaram também o relato da reunião do DKU de 17 de abril, que antecedeu a destituição de Mubarak, alegando que não fora tomada qualquer decisão a favor do seu afastamento.
A 25 de setembro, o grupo instou o primeiro-ministro Anwar Ibrahim e a AGC a não intervirem na disputa. Invocando os artigos 7, 10 e 11, descreveram a sua autoridade como uma prerrogativa consuetudinária praticada há mais de 500 anos. Defenderam que Ismail e o conselho executivo se limitaram a dar execução à sua decisão, não tendo sido eles próprios a destituir o governante. A posição da AGC continua a ser a de que a autoridade consuetudinária tem de respeitar os procedimentos constitucionais.
Como a crise passou do palácio ao governo
A disputa desenrolou-se entre processos consuetudinários, retiradas de apoio político, eleições e várias ações judiciais. A sequência dos principais acontecimentos mostra por que motivo a votação de agosto não lhe pôs fim:
- 17 de abril: Numa reunião, o DKU confirmou a destituição de Mubarak do cargo de undang de Sungai Ujong.
- 19 de abril: Quatro pessoas que se apresentaram como undangs declararam Tuanku Muhriz destituído e nomearam Tunku Nadzaruddin Tuanku Ja'afar como seu sucessor.
- 27 de abril: A Umno retirou o apoio ao então Menteri Besar Aminuddin Harun. A tentativa de mudança de governo não garantiu de imediato uma maioria, e a cooperação foi posteriormente restabelecida.
- 5 de junho: A assembleia estadual foi dissolvida. Em Melaka teve lugar uma proclamação concorrente de um governante, enquanto o Tribunal Superior de Seremban decretou uma providência cautelar temporária para preservar o statu quo.
- 1 e 2 de agosto: A BN e os seus aliados do PN venceram as eleições estaduais, e Ismail tomou posse como Menteri Besar perante Tuanku Muhriz.
- 17 de setembro: Ismail deu aval à posição do conselho executivo e determinou que se avançasse com a publicação no diário oficial. A AGC rejeitou a validade jurídica da proclamação.
- 20 e 24 de setembro: Tuanku Muhriz revogou as nomeações dos 10 membros do conselho executivo, e as revogações foram posteriormente publicadas no diário oficial.
- 7 de outubro: Os chefes retiraram a revisão judicial que tinham apresentado em Kuala Lumpur e ficaram impedidos de voltar a apresentar a mesma ação.
Os relatos divergem quanto a várias datas intermédias. A recusa inicial de Aminuddin é datada de 20 ou 21 de abril; o restabelecimento da cooperação entre a BN e o Pakatan Harapan, de 5 ou 7 de maio; e a autorização para iniciar processos por desobediência ao tribunal, de 8 ou 9 de julho. A reunião do conselho executivo é datada de 15 de setembro, enquanto as notícias situam a sua declaração pública a 15 ou 16 de setembro. O aval de Ismail e a resposta da AGC são consistentemente datados de 17 de setembro.
A posição variável de Ismail e o conselho destituído
A atuação de Ismail está no centro da disputa política. Segundo relatos, assinou a proclamação a 3 de agosto, no dia seguinte à tomada de posse. Quando o documento assinado se tornou público em setembro, disse que agira contra a sua vontade e sob coação, sustentou que a proclamação era inválida e apresentou queixa à polícia.
Mais tarde, deu aval à posição do conselho executivo de que a destituição de Tuanku Muhriz em abril era válida e de que Tunku Nadzaruddin era o novo governante. A 18 de setembro, o secretário estadual recusou-se a publicar a proclamação no diário oficial, invocando a posição da AGC.
Tuanku Muhriz revogou as nomeações dos 10 membros do conselho executivo a 20 de setembro, mantendo Ismail no cargo. O palácio afirmou que os conselheiros tinham violado os juramentos de funções e de lealdade, prestados perante o governante a 7 de agosto. Sete dos conselheiros destituídos eram da Umno; os restantes pertenciam, um cada, ao MCA, ao PAS e ao Wawasan.
Ismail contestou as destituições, argumentando que o governante não podia pôr termo às nomeações sem o seu conselho ou pedido. A 26 de setembro, o procurador-geral Dusuki Mokhtar respondeu que a Constituição prevê que os membros do conselho executivo, com exceção do Menteri Besar, exerçam funções enquanto o governante assim o entender.
O conflito chegou também à função pública. Ismail anunciou que o conselho executivo tinha decidido suspender o secretário estadual e o consultor jurídico estadual, mas a AGC afirmou que o conselho não tinha autoridade para o fazer. Os 10 antigos conselheiros apresentaram uma ação judicial para obter uma declaração de que a revogação das suas nomeações era inválida.
O que a desistência judicial de outubro resolve e o que deixa em aberto
A 7 de outubro, os quatro chefes retiraram uma revisão judicial apresentada em Kuala Lumpur a 17 de julho. Tinham pedido uma ordem que obrigasse o Menteri Besar a assinar a declaração de 19 de abril no prazo de sete dias, bem como uma declaração de que o documento era válido ao abrigo da Constituição estadual.
A juíza do Tribunal Superior Norliza Othman autorizou a desistência sem permitir que a mesma ação fosse novamente apresentada e fixou custas de RM40.000, repartidas em RM10.000 para cada um de quatro intervenientes propostos. Entre essas partes estavam o DKU, o seu secretário e os undangs reconhecidos de Sungai Ujong e Rembau.
Steven Thiru, advogado do DKU e do seu secretário, afirmou que os requerentes não tinham revelado a existência do processo em Seremban, da providência cautelar de 5 de junho nem da decisão de julho que autorizava o início de processos por desobediência ao tribunal. Descreveu a apresentação de uma ação num segundo tribunal como «escolha estratégica do foro», ou seja, uma tentativa de obter um resultado mais favorável noutro tribunal. Essa foi a sua avaliação, não uma decisão final conhecida sobre toda a disputa real.
A desistência encerra essa via específica para obter a assinatura do Menteri Besar e o reconhecimento judicial da declaração. Não demonstra que todas as ações judiciais relacionadas tenham terminado nem que todas as questões constitucionais contestadas tenham sido decididas.
Em separado, a polícia abriu uma investigação sobre a atuação dos antigos conselheiros. O DKU acusou também Tunku Nadzaruddin e os chefes cuja legitimidade é contestada de traição e pediu que fossem investigados e acusados. São acusações, não condenações nem confirmação de que tenham sido deduzidas acusações formais.
Maioria eleitoral sem conselho executivo em funções
Nas eleições de agosto, a BN obteve 18 lugares, o Pakatan Harapan 11 e o Perikatan Nasional sete, numa assembleia com 36 lugares. Em conjunto, a BN e o PN ficaram com 25 lugares, mais um do que os 24 necessários para uma maioria de dois terços. A BN, por si só, obteve exatamente metade dos lugares da assembleia, abaixo dos 19 necessários para uma maioria simples.
Antes da dissolução, o Pakatan Harapan tinha 17 lugares, a BN 14 e o PN cinco. A BN ganhou, assim, quatro lugares, enquanto a aliança com o PN alterou o equilíbrio governativo. Esta posição eleitoral mais forte não conferiu autoridade para decidir o estatuto do governante.
O advogado GK Ganesan defendeu que uma eleição não podia decidir quem tem direito ao trono. O especialista em direito constitucional Ikmal Hisham Md Tah levantou a questão associada de saber qual dos pretendentes nomearia o próximo chefe de governo. Na prática, Ismail prestou juramento perante Tuanku Muhriz, que o governo federal continuou a reconhecer.
A ausência de um conselho executivo tornou-se entretanto uma preocupação administrativa. A 11 de outubro, o secretário-geral do DAP, Anthony Loke, pediu a nomeação de substitutos sem demora, afirmando que as principais decisões e questões administrativas precisam da aprovação das reuniões do conselho executivo.
Segundo relatos, a Umno de Negeri Sembilan está a ponderar uma moção de censura contra Ismail, que poderá ser apresentada pelo dirigente estadual do partido e deputado da assembleia por Pertang, Jalaluddin Alias, sujeita à aprovação da direção central. O presidente da assembleia, Awaludin Said, afirmou não ter recebido qualquer aviso formal e que não permitiria uma moção de emergência para destituir o Menteri Besar.
A assembleia tem reunião marcada para 26 de novembro, adiada de 16 de outubro para coincidir com a apresentação do orçamento estadual de 2027 no dia seguinte. Nos desenvolvimentos noticiados, não foi confirmada qualquer mudança de liderança nem a nomeação de um conselho substituto.
O que a BN tem de explicar antes da votação em Melaka
O pedido de Johari surge após meses de mensagens políticas contraditórias. Antes das eleições de Negeri Sembilan, Loke defendeu que a disputa real fosse resolvida dentro da instituição, de acordo com os seus costumes e leis. O diretor eleitoral do Pakatan Harapan, Amirudin Shari, apelou igualmente a que o processo eleitoral se mantivesse separado da disputa sobre a monarquia.
Awang Azman Awang Pawi, analista da Universiti Malaya, alertou para o risco de os partidos usarem o conflito real para consolidar apoio ou conquistar lugares. As destituições posteriores e as mudanças de posição deram a esse conflito uma dimensão política que continua para lá de Negeri Sembilan.
A 27 de setembro, o presidente da BN, Ahmad Zahid Hamidi, instruiu Ismail a pedir uma audiência com Tuanku Muhriz e os quatro undangs para resolver a crise de forma amigável. Essa instrução mostra que a liderança da coligação procura uma solução negociada, mas não foi noticiado qualquer acordo definitivo.
Em Melaka, Johari afirmou que Zahid finalizaria os candidatos da BN com o apoio do chefe do governo, Ab Rauf Yusoh. A escolha dos candidatos e a explicação constitucional decorrerão, assim, sob a mesma liderança da coligação.
As questões por resolver são concretas: o desfecho da ação dos antigos conselheiros, o estado dos restantes processos em Seremban, a investigação policial, a nomeação de um novo conselho executivo e a eventual apresentação formal de uma moção contra Ismail. A distinção feita por Johari entre os chefes e a Umno é parte dessa explicação, mas os eleitores também precisam de saber por que razão os responsáveis da BN deram aval a uma proclamação rejeitada pela AGC.
Pontos principais
- Johari quer que a BN explique a disputa de Negeri Sembilan antes da apresentação das candidaturas em Melaka. O processo eleitoral começa a 31 de outubro e a votação realiza-se a 14 de novembro.
- A AGC afirma que a proclamação de 19 de abril não cumpriu os requisitos do artigo 10 e que o Menteri Besar e o conselho executivo não tinham autoridade para lhe conferir efeitos jurídicos.
- Os chefes contestam essa avaliação e afirmam ter exercido corretamente os seus poderes consuetudinários e constitucionais.
- Tuanku Muhriz revogou as nomeações de 10 membros do conselho executivo. Ismail continua a ser o Menteri Besar, e os antigos conselheiros contestam judicialmente a sua destituição.
- Os chefes retiraram a revisão judicial em Kuala Lumpur a 7 de outubro, ficando sujeitos ao pagamento de RM40.000 em custas e sem autorização para voltar a apresentar a mesma ação.
- Não foi confirmada qualquer eventual moção contra Ismail. A assembleia tem reunião marcada para 26 de novembro, antes da apresentação do orçamento de 2027.






