Uma promessa de regresso sob a sombra da pena de morte
A antiga primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, apelou aos Estados Unidos para que apoiem eleições inclusivas e tribunais independentes, ao renovar a promessa de regressar da Índia, onde vive desde que o seu governo caiu em agosto de 2024. O regresso que propõe tem consequências jurídicas imediatas: foi condenada à morte à revelia em 2025 por crimes contra a humanidade relacionados com a repressão da revolta de 2024.
Índice
- Uma promessa de regresso sob a sombra da pena de morte
- O que pede a Washington que apoie
- A exclusão eleitoral por detrás do seu apelo
- Uma condenação ligada à revolta de 2024
- Como os regressos anteriores moldam a sua mensagem
- Reconciliação a par de críticas contundentes
- Índia, BRICS e relações com as grandes potências
- A vertente económica do apelo aos EUA
- Pontos principais
O governo do Bangladesh, liderado pelo primeiro-ministro Tarique Rahman, está a pedir a sua extradição à Índia. Hasina contesta a condenação e acusa a atual liderança de recorrer a processos-crime para a silenciar, a ela e a membros da sua Liga Awami.
Num evento realizado por videoconferência e organizado pelo Center for US-Bangladesh Relations, em Washington, Hasina afirmou que o dever para com os seus apoiantes e os cidadãos comuns se sobrepunha aos receios pela sua segurança. A antiga primeira-ministra disse estar determinada a regressar, apesar da possibilidade de ser presa ou sofrer violência.
Não me importa o risco que isso implica. Tenho de regressar.
Hasina indicou dezembro como o mês em que pretende regressar, depois de ter anunciado anteriormente em Nova Deli que apontava para dezembro de 2026. O filho, Sajeeb Wazed Joy, afirmou posteriormente que ainda não tinha sido definida uma data e que o anúncio seria feito mais perto da altura. Dezembro continua, assim, a ser a intenção declarada, embora a data exata permaneça por definir.
O que pede a Washington que apoie
O principal apelo de Hasina foi para que Washington apoie as instituições democráticas, em vez de escolher entre os líderes políticos rivais. Disse que os cidadãos do Bangladesh devem determinar quem os governa através de um processo político livre e inclusivo.
Dirigindo-se diretamente aos Estados Unidos, a antiga primeira-ministra formulou o seu pedido em termos de direitos políticos.
Peço aos EUA que escolham a democracia.
As suas reivindicações incluem tribunais independentes, liberdade de expressão, liberdade de associação política, proteção das minorias e respeito pelo devido processo legal. A liberdade de associação política significa poder organizar-se e participar em grupos políticos. O devido processo legal significa que as autoridades devem seguir procedimentos jurídicos justos ao investigar, acusar ou punir alguém.
Para os cidadãos do Bangladesh, estas reivindicações dizem respeito a liberdades concretas: poder aderir a um partido, criticar um governo, pedir proteção a um tribunal e votar entre candidatos rivais. Hasina afirmou também que as pessoas que se opuseram à sua administração têm direito a ver os seus direitos respeitados.
A exclusão eleitoral por detrás do seu apelo
A Liga Awami foi impedida de participar nas eleições parlamentares de fevereiro de 2026, que levaram ao poder o Partido Nacionalista do Bangladesh, ou BNP, sob a liderança de Tarique Rahman. As restrições às atividades políticas da Liga Awami continuam em vigor.
O apelo de Hasina a um processo político inclusivo tem, por isso, implicações diretas para o seu próprio partido. A exclusão impediu-o de apresentar candidatos nessas eleições e privou os seus apoiantes da possibilidade de votar num candidato da Liga Awami.
Hasina argumentou que excluir partidos políticos agravaria as divisões e dificultaria a reconciliação nacional. A sua posição liga uma reivindicação pessoal — a oportunidade de regressar e contestar as acusações — a um apelo mais amplo para que o seu partido recupere espaço na vida pública.
O governo de Rahman enfrenta duas disputas interligadas com a antiga primeira-ministra: os processos-crime contra ela e a questão da participação política do partido que lidera. Hasina abordou ambas em Washington, pedindo processos justos e direitos políticos, ao mesmo tempo que contesta a legitimidade dos casos contra si.
Uma condenação ligada à revolta de 2024
A pena de morte faz com que a promessa de regresso de Hasina tenha consequências que vão além dos riscos habituais da oposição política. Foi condenada à revelia, ou seja, o processo decorreu sem a sua presença física, por crimes contra a humanidade relacionados com a repressão da revolta que antecedeu a sua queda.
Os crimes contra a humanidade dizem respeito a abusos graves cometidos no âmbito de um ataque generalizado ou sistemático contra civis. Hasina contesta a condenação e defende que as acusações contra líderes políticos devem ser examinadas em processos transparentes e imparciais.
A extradição é o processo pelo qual um país transfere formalmente uma pessoa para outro país, para ser julgada ou cumprir uma pena. O pedido do Bangladesh à Índia coloca a situação jurídica de Hasina no contexto das relações entre os dois países vizinhos, enquanto ela continua refugiada na Índia.
Hasina reconheceu também que existem questões sobre o seu próprio período no poder. Ao falar da sua administração e da convulsão que lhe pôs fim, afirmou:
Reconheço as questões difíceis que envolvem o meu governo, os acontecimentos de 2024 e as suas consequências.
Defendeu que as acusações contra qualquer pessoa, incluindo contra si, devem ser resolvidas através de processos judiciais justos. O reconhecimento dessas questões e a contestação da condenação constituem os dois elementos centrais do seu argumento jurídico: o escrutínio do seu governo, acompanhado da exigência de um processo imparcial.
Como os regressos anteriores moldam a sua mensagem
A Índia acolhe Hasina desde agosto de 2024. Nas suas declarações em Washington, agradeceu ao governo e ao povo indianos, recordando o refúgio que recebeu após o assassinato do pai, Sheikh Mujibur Rahman, líder fundador do Bangladesh, e de vários outros familiares, em 1975.
Hasina evocou o seu regresso ao Bangladesh em 1981, após vários anos no estrangeiro, bem como a decisão de regressar durante o estado de emergência política de 2007, apesar de enfrentar acusações criminais. Apresentou esses episódios como prova da sua disponibilidade para enfrentar o perigo.
As referências que fez reúnem várias décadas de história familiar, exílio político e conflito jurídico em torno da promessa atual. Os acontecimentos principais vão dos assassinatos de 1975 às eleições de 2026, realizadas sem o seu partido.
- 1975: Sheikh Mujibur Rahman e vários familiares de Hasina foram assassinados. Hasina passou posteriormente vários anos no estrangeiro.
- 1981: Hasina regressou ao Bangladesh após esse período no estrangeiro.
- 2007: Regressou durante um estado de emergência política, enquanto enfrentava acusações criminais.
- Agosto de 2024: O seu governo caiu na sequência da revolta e Hasina partiu para a Índia.
- 2025: Foi condenada à morte à revelia por crimes contra a humanidade relacionados com a repressão de 2024.
- Fevereiro de 2026: A Liga Awami foi impedida de participar nas eleições parlamentares que levaram o BNP ao poder.
- Dezembro de 2026: O mês que Hasina indicou anteriormente para o regresso, embora o filho afirme que ainda não há uma data definida.
Reconciliação a par de críticas contundentes
Hasina descreveu o seu regresso como parte de um esforço para restabelecer a democracia, o Estado de direito e o direito de voto. Numa entrevista separada, acusou o governo de Rahman de limitar o espaço democrático e afirmou que as forças extremistas voltaram a ter margem de atuação. Estas foram as suas avaliações do atual governo.
Disse também que queria estar ao lado dos cidadãos do Bangladesh e ajudar a restabelecer a segurança e o desenvolvimento. A justificação que apresenta para o regresso centra-se na responsabilidade que afirma ter para com as pessoas que, segundo diz, estão a sofrer enquanto permanece no estrangeiro.
No evento em Washington, Hasina combinou essas críticas com um apelo à reconciliação. A antiga primeira-ministra incluiu explicitamente os opositores da sua administração na declaração sobre os direitos dos cidadãos.
Do mesmo modo, aqueles que se opõem ao meu governo são cidadãos cujos direitos têm de ser respeitados. O futuro do Bangladesh deve assentar na reconciliação, não na vingança.
As suas declarações colocam a participação política e a responsabilização lado a lado. Pede espaço para o seu partido e proteção para os seus apoiantes, reconhecendo ao mesmo tempo que a sua própria administração enfrenta questões sérias sobre os acontecimentos de 2024.
Índia, BRICS e relações com as grandes potências
Hasina apelou a relações construtivas com a Índia, os Estados Unidos, a China e o Japão. Defendeu que o Bangladesh deve evitar tornar-se um campo de batalha da rivalidade entre as grandes potências.
As suas declarações colocam as relações com a Índia no centro tanto da sua situação pessoal como do seu argumento de política externa. A Índia acolhe-a enquanto o Bangladesh pede a sua extradição, e Hasina insta Daca a manter um relacionamento construtivo com o país vizinho.
Na entrevista separada, Hasina criticou a decisão de Rahman de faltar a uma cimeira dos BRICS na Índia, classificando-a como imatura e prejudicial ao interesse nacional do Bangladesh. Os BRICS são um agrupamento das principais economias emergentes que constitui um fórum de debate sobre questões económicas e internacionais.
Hasina afirmou que a participação poderia ter criado oportunidades para o desenvolvimento económico e social do Bangladesh. Defendeu que a política externa deve servir os interesses nacionais, em vez de reações pessoais ou cálculos políticos de curto prazo, e apelou a uma abordagem madura e equilibrada.
A vertente económica do apelo aos EUA
Washington foi também o cenário das propostas económicas de Hasina. Defendeu um maior investimento norte-americano e uma cooperação mais estreita na educação, tecnologia e segurança, a par do pedido de apoio dos EUA às instituições democráticas.
Estas áreas dizem respeito a diferentes dimensões da relação entre o Bangladesh e os Estados Unidos: investimento nas empresas, oportunidades educativas, acesso à tecnologia e cooperação entre instituições públicas. As suas declarações apontaram prioridades, mas não projetos específicos, compromissos de financiamento ou acordos.
A mensagem de Hasina combina um pedido de envolvimento internacional com a afirmação de que cabe aos próprios cidadãos do Bangladesh escolher o seu governo. Quer que Washington se envolva em apoio dos direitos políticos e da cooperação económica, ao mesmo tempo que insta o Bangladesh a manter relações de trabalho com vários parceiros importantes.
O regresso que propõe faz com que esses objetivos diplomáticos voltem a desembocar num confronto jurídico e político concreto. O Bangladesh pede a sua transferência da Índia, a pena de morte continua no centro dos riscos que descreve e a Liga Awami continua excluída da atividade política. A sua promessa vincula-a publicamente ao regresso, mas deixa por resolver os preparativos concretos.
Pontos principais
- Sheikh Hasina instou os Estados Unidos a apoiarem eleições inclusivas, tribunais independentes, a proteção das minorias e a liberdade de expressão no Bangladesh.
- Prometeu regressar da Índia apesar da pena de morte que lhe foi imposta à revelia em 2025, e que contesta.
- Hasina indicou dezembro como o mês em que pretende regressar, tendo apontado anteriormente para dezembro de 2026. O filho afirma que ainda não há uma data definida.
- O governo do primeiro-ministro Tarique Rahman está a pedir a extradição de Hasina à Índia.
- A Liga Awami foi impedida de participar nas eleições de fevereiro de 2026, que levaram o BNP ao poder, e as suas atividades políticas continuam proibidas.
- Hasina reconheceu as questões difíceis sobre o historial do seu governo e os protestos de 2024, ao mesmo tempo que apelou a processos judiciais imparciais.
- Defendeu a reconciliação, relações construtivas com os principais parceiros e um maior investimento e cooperação dos EUA.






