Uma quota recorde esconde uma forte quebra nas vendas de automóveis
Os veículos de novas energias representaram 67% das vendas a retalho de automóveis de passageiros na China em setembro de 2026, fazendo com que os veículos convencionais a combustíveis fósseis ficassem abaixo de um terço pela primeira vez. No entanto, o recorde surgiu num contexto de forte contracção: as vendas totais a retalho de automóveis de passageiros caíram 28% face ao ano anterior, para 1,618 milhões, enquanto as vendas de veículos de novas energias recuaram 16,7%, para 1,084 milhões.
Índice
- Uma quota recorde esconde uma forte quebra nas vendas de automóveis
- Como um mercado em queda bateu um novo recorde
- Porque está o motor de combustão a perder terreno de forma desigual
- Os preços da gasolina pesam mais na decisão das famílias
- Porque surgem três quotas de vendas diferentes
- As exportações sustentam o crescimento enquanto a procura interna cai
- Os veículos elétricos estão a alterar o balanço petrolífero da China
- O consumo de combustíveis e a procura total de petróleo seguem trajectórias diferentes
- O próximo teste passa pelas vendas, pelo carregamento e pelo investimento
- Principais conclusões
A Associação Chinesa de Automóveis de Passageiros divulgou os dados de setembro a 12 de outubro. Os números mostram um mercado que está a mudar de fonte de energia muito mais depressa do que a conquistar novos compradores. As vendas a retalho de veículos convencionais a combustíveis fósseis caíram 43%, incluindo uma quebra de 49% nos veículos movidos exclusivamente por motores de combustão. Os híbridos convencionais, que combinam um motor de combustão com um motor elétrico sem necessidade de ligação à corrente, cresceram 25%.
A subida dos preços da gasolina está a acelerar essa mudança. Até 24 de setembro, os aumentos acumulados do preço da gasolina na China ao longo do ano atingiram 2 375 yuans por tonelada, o equivalente a cerca de 1,90 a 2,03 yuans por litro. As famílias que comparam veículos enfrentam agora uma diferença maior entre o custo de atestar o depósito e o de carregar uma bateria.
As consequências vão além dos concessionários. A Agência Internacional de Energia estima que os veículos elétricos tenham reduzido a procura de petróleo na China em 1,5 milhões de barris por dia durante o segundo trimestre de 2026. Esta mudança coincide com uma menor procura de combustíveis para transportes, um rápido crescimento das exportações e uma pressão crescente sobre os fabricantes para redireccionarem o investimento para modelos elétricos.
Como um mercado em queda bateu um novo recorde
A quota de 67% registada em setembro foi 9,1 pontos percentuais superior à de um ano antes, quando a quota comparável era de 57,9%. Os veículos de novas energias ganharam terreno porque as suas vendas caíram menos do que o mercado no seu conjunto.
A quota de mercado é uma fracção: as vendas de uma categoria divididas pelo total das vendas no mesmo mercado. Em setembro, 1,084 milhões de automóveis de passageiros de novas energias divididos por 1,618 milhões de automóveis de passageiros correspondem a cerca de 67%. Subtraindo estes valores, restam cerca de 534 000 veículos fora da categoria de novas energias.
Setembro registou a maior quebra mensal nas vendas a retalho de automóveis de passageiros até agora em 2026. A tradicional época de compras do outono começou, assim, com menos aquisições, apesar de os modelos elétricos ocuparem uma fatia maior do mercado restante.
Oito dos 10 modelos mais vendidos a retalho em setembro pertenciam à categoria de novas energias. Os dois modelos convencionais, o Corolla Cross e o RAV4, da Toyota, estavam ambos disponíveis em versões híbridas. A sua presença é coerente com o crescimento mais amplo dos híbridos convencionais, embora as classificações dos modelos não discriminem as vendas por tipo de motorização.
Porque está o motor de combustão a perder terreno de forma desigual
A categoria de veículos de novas energias da China inclui automóveis totalmente elétricos a bateria e híbridos plug-in, que podem ser carregados a partir de uma fonte externa de electricidade, mas também têm um motor de combustão. Os híbridos convencionais ficam fora dessa categoria e continuam a depender de combustível, recorrendo a um motor elétrico para melhorar a eficiência.
A queda de 49% nas vendas de veículos movidos exclusivamente por motores de combustão, em contraste com o crescimento de 25% dos híbridos convencionais, mostra que os compradores estão a optar por várias vias. Alguns estão a abandonar por completo a gasolina. Outros escolhem veículos que consomem menos.
Os condutores de híbridos plug-in também podem reduzir o consumo de gasolina carregando-os com maior frequência. A análise da AIE relativa ao segundo trimestre descreve tanto uma maior adopção de veículos elétricos como uma redução do consumo de gasolina nos híbridos plug-in. Assim, a procura de petróleo pode mudar não só através da compra de veículos novos, mas também da forma como as pessoas conduzem os automóveis que já possuem.
Os condutores continuam a enfrentar diferenças práticas entre as opções. O acesso a pontos de carregamento, as viagens longas, o tempo frio e as utilizações especializadas influenciam a escolha do veículo mais adequado a cada agregado familiar. Os fabricantes têm de responder a essas necessidades enquanto transferem o desenvolvimento de produtos, os recursos dos concessionários e as encomendas a fornecedores para as categorias que atraem mais compradores.
Os preços da gasolina pesam mais na decisão das famílias
A subida da gasolina em cerca de dois yuans por litro torna o consumo de combustível um factor mais visível na decisão de compra. A título de exemplo simples, comprar 100 litros custa agora mais cerca de 190 a 203 yuans do que antes dos aumentos acumulados deste ano. O aumento anual para uma família depende dos quilómetros percorridos e da eficiência do veículo.
O Global EV Outlook 2026 da AIE afirma que os automóveis elétricos têm, em geral, custos de utilização mais baixos, por serem mais eficientes no consumo de energia. A subida dos preços do petróleo associada ao conflito no Médio Oriente aumentou essa poupança.
O preço de compra também conta. A agência concluiu que 70% dos automóveis elétricos a bateria vendidos na China em 2025 custavam menos do que o preço médio de um automóvel convencional. No segmento dos pequenos automóveis na China, os modelos elétricos já tinham praticamente substituído os convencionais nas vendas.
As políticas públicas e a concorrência contribuíram para esta situação. A China começou a apoiar a compra de veículos de novas energias com subsídios em 2009 e lançou, em abril de 2024, um programa de retoma de veículos, alargado em 2025. Segundo a AIE, uma suspensão temporária do programa contribuiu para um crescimento mais lento dos automóveis elétricos em 2025. Os preços, a variedade de modelos, o acesso ao carregamento e os apoios à compra conjugam-se com o elevado custo da gasolina.
Porque surgem três quotas de vendas diferentes
O valor de 67% mede as vendas a retalho de automóveis de passageiros na China em setembro. Um conjunto de dados separado da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis aponta para vendas de 1,823 milhões de veículos de novas energias em setembro, uma subida de 13,6%, o que representa 61,6% das vendas de veículos novos.
A associação de fabricantes usa uma medida mais abrangente, que inclui veículos comerciais e exportações. Os dados de vendas a retalho de automóveis de passageiros acompanham um mercado mais restrito, mais próximo das compras dos consumidores finais no mercado interno. Já os dados grossistas de automóveis de passageiros apontam para uma quota de 65,4% dos veículos de novas energias em setembro.
A associação de fabricantes registou ainda 12,472 milhões de veículos de novas energias vendidos entre janeiro e setembro, mais 11,1%, correspondentes a uma quota de 53,6%. Esta percentagem abrange nove meses, não apenas setembro.
- 67%: quota de novas energias nas vendas a retalho de automóveis de passageiros na China em setembro.
- 65,4%: quota de novas energias nas vendas grossistas de automóveis de passageiros em setembro.
- 61,6%: quota de novas energias em setembro, segundo a medida mais abrangente da associação de fabricantes.
- 53,6%: quota de novas energias segundo essa medida mais abrangente, entre janeiro e setembro.
Cada valor responde a uma pergunta diferente. Em conjunto, mostram que a quota elétrica está a crescer segundo várias medidas, enquanto os dados de vendas a retalho no mercado interno revelam a fragilidade da procura das famílias.
As exportações sustentam o crescimento enquanto a procura interna cai
A China exportou 571 000 veículos de novas energias em setembro, mais 160% do que um ano antes. Em contrapartida, as vendas internas de veículos de novas energias, segundo a medida da associação de fabricantes, caíram 10,6% nos primeiros nove meses de 2026, para 8,466 milhões.
Esta diferença explica como os fabricantes podem anunciar um aumento das vendas segundo uma medida abrangente, enquanto os retalhistas no mercado interno vendem menos veículos. Os compradores estrangeiros estão a absorver uma parcela crescente da produção, tornando a procura externa cada vez mais importante para as receitas das empresas e a actividade das fábricas.
A expansão assenta numa base de produção já de grande dimensão. A AIE afirma que a China produziu quase 75% dos automóveis elétricos do mundo em 2025, enquanto os fabricantes chineses forneceram 60% dos automóveis elétricos vendidos a nível mundial. Nesse ano, as exportações chinesas de automóveis elétricos duplicaram, ultrapassando 2,5 milhões.
A expansão internacional também acarreta riscos financeiros. A AIE estima que, em 2025, as exportações chinesas de automóveis elétricos tenham excedido em mais de 25% as vendas no estrangeiro, deixando veículos em inventário para venda posterior. A partir de 1 de abril de 2027, a taxa de reembolso do IVA à exportação de veículos de novas energias deverá baixar de 13% para 9%, segundo a alteração de política anunciada juntamente com os dados de setembro. Os fabricantes terão de ter em conta essa redução ao definir os preços de exportação e planear as margens.
Os veículos elétricos estão a alterar o balanço petrolífero da China
A AIE estima que a frota chinesa de veículos elétricos tenha reduzido a procura de petróleo em cerca de 1 milhão de barris por dia em 2025. A estimativa de 1,5 milhões de barris por dia para o segundo trimestre de 2026 é substancialmente superior, embora os valores abranjam períodos diferentes. A redução da procura de petróleo corresponde ao combustível que teria sido consumido se as mesmas deslocações tivessem sido feitas em veículos convencionais.
A agência prevê que essa redução média anual na China chegue a 2,7 milhões de barris por dia em 2030. Face a uma previsão mundial de cerca de 5 milhões de barris por dia, a China representaria aproximadamente 54% do total.
A guerra envolvendo o Irão e o encerramento quase total do estreito de Ormuz aumentaram a pressão para poupar petróleo e recorrer a alternativas. A AIE prevê que uma parte substancial da consequente redução da procura se mantenha. No seu relatório sobre o mercado petrolífero, a agência descreveu os efeitos duradouros de grandes perturbações:
Como mostrou a experiência da pandemia de Covid-19, as grandes mudanças impulsionadas por crises podem demorar a desaparecer, deixando efeitos persistentes na procura de petróleo, e esperamos que grande parte do terreno perdido não seja recuperado.
A mudança nas compras de veículos na China é uma parte desse ajustamento. Carregar híbridos plug-in com maior frequência pode reduzir rapidamente o consumo de combustível, enquanto a substituição gradual dos veículos mais antigos altera as necessidades energéticas da frota no seu conjunto.
O consumo de combustíveis e a procura total de petróleo seguem trajectórias diferentes
A China já se aproximava de um ponto de viragem antes do recorde de vendas de setembro. Num comentário de março de 2025, o analista do mercado petrolífero da AIE Ciarán Healy, a responsável pelo Programa China Rebecca McKimm e o responsável pelo Programa China Ivo Walinga afirmaram que o consumo de gasolina, combustível para aviação e gasóleo totalizou quase 8,1 milhões de barris por dia em 2024, menos 2,5% do que em 2021.
O petróleo também abastece fábricas petroquímicas que produzem plásticos e fibras. A procura de petróleo da indústria petroquímica chinesa aumentou quase 5% em 2024, pelo que a quebra no consumo de combustíveis para transportes pode coexistir com o crescimento de outras utilizações. O momento em que a procura total de petróleo atingirá o pico depende, em parte, do equilíbrio entre esses sectores.
As previsões têm variado. A avaliação da AIE de março de 2025 previa que a procura total de petróleo da China estabilizasse mais perto do final da década, enquanto o Instituto de Investigação Económica e Tecnológica da China National Petroleum Corporation esperava um ponto de viragem em 2025. As análises divulgadas juntamente com os dados de vendas de setembro apontam para um pico em 2027, cerca de dois anos antes de uma previsão anterior, enquanto a avaliação mais recente da AIE sobre o mercado petrolífero descreve uma queda da procura entre 2025 e 2027. O ano exacto do pico continua por determinar.
As mudanças nos transportes vão além dos automóveis de passageiros. O comentário da AIE de março de 2025 estimou que os veículos elétricos, o transporte de mercadorias a gás natural, o caminho-de-ferro e outras alternativas tinham evitado um aumento da procura de petróleo de cerca de 1,2 milhões de barris por dia desde 2019. Em 2025, um quarto dos camiões novos vendidos na China era elétrico, acrescentando outra alternativa ao gasóleo.
O próximo teste passa pelas vendas, pelo carregamento e pelo investimento
Outubro começou com a manutenção da fraqueza: as vendas a retalho de automóveis de passageiros atingiram 459 000 entre 1 e 11 de outubro, menos 24% do que um ano antes. Fabricantes e concessionários precisam de uma recuperação das compras, além de uma quota elétrica maior.
A experiência da China insere-se numa mudança mais ampla. Segundo a AIE, os automóveis elétricos representaram quase 55% das vendas de automóveis na China em 2025, contra 28% na Europa e pouco menos de 10% nos Estados Unidos. A agência previa que a quota chinesa se aproximasse dos 60% ao longo de 2026. O valor de 67% registado em setembro nas vendas a retalho de automóveis de passageiros no mercado interno abrange um período e uma medida de mercado diferentes.
As redes elétricas vão precisar de investimento à medida que mais deslocações deixarem de depender do petróleo. A AIE prevê que a electrificação do transporte rodoviário acrescente menos de 6% à procura de electricidade na China em 2035, segundo as políticas actuais. Ainda assim, a procura local de carregamento pode sobrecarregar ligações específicas, sobretudo quando muitos veículos são carregados ao mesmo tempo. O carregamento inteligente distribui essa procura ao transferir o carregamento para horas de menor utilização.
As principais datas traçam uma mudança que já está em curso:
- 2025: Os automóveis elétricos chegaram a quase 55% das vendas de automóveis na China e reduziram a procura de petróleo em cerca de 1 milhão de barris por dia.
- Abril a junho de 2026: A AIE estima que os veículos elétricos tenham reduzido a procura em 1,5 milhões de barris por dia.
- Setembro de 2026: Os veículos de novas energias chegaram a 67% das vendas a retalho de automóveis de passageiros.
- 12 de outubro de 2026: A associação de automóveis de passageiros divulgou os dados de setembro.
- 1 de abril de 2027: Entra em vigor a redução prevista do reembolso do IVA à exportação de veículos de novas energias.
Para as famílias, a mudança imediata é um incentivo financeiro mais forte para comparar o custo do carregamento com os gastos em gasolina. Para os fabricantes, é um mercado em que os produtos elétricos ocupam mais espaço nos concessionários e recebem mais investimento, mesmo quando a procura interna total se contrai. Para os responsáveis pelo planeamento energético, significa preparar-se para um menor consumo de petróleo nos transportes e um maior consumo de electricidade.
Principais conclusões
- Os veículos de novas energias representaram 67% do mercado chinês de vendas a retalho de automóveis de passageiros em setembro de 2026.
- As vendas totais a retalho de automóveis de passageiros caíram 28%; as vendas de veículos de novas energias recuaram 16,7% e as de veículos convencionais a combustíveis fósseis caíram 43%.
- As vendas de híbridos convencionais cresceram 25%, enquanto as vendas de veículos movidos exclusivamente por motores de combustão caíram 49%.
- Até 24 de setembro, os preços da gasolina tinham subido cerca de 1,90 a 2,03 yuans por litro.
- A AIE estima que os veículos elétricos tenham reduzido a procura de petróleo na China em 1,5 milhões de barris por dia durante o segundo trimestre.
- As exportações sustentaram o crescimento do sector, enquanto a procura interna permaneceu fraca e o reembolso à exportação deverá diminuir em abril de 2027.






